Noel Nascimento
Esta é uma contribuição para a interpretação
de nossa história, encarada como realidade social em movimento. Consideramos
que até agora a nossa história tem os fatos fichados ou catalogados, sem
conexões, carecendo de interpretação e, por isso, não compreendidos, algumas
vezes esquecidos ou simplesmente ignorados ou omitidos.
Para nós, existe uma
Revolução Brasileira, com contra-revolução e guerra civil. Consideramos um dos
grandes objetivos nacionais a extinção do latifúndio e destacamos como Grande
Guerra Camponesa a que teve lugar de 1912 a 1916 no território do Contestado.
Focalizamos as lutas sociais
que se travaram também no Paraná, ou só no Paraná, mas apenas as mais
importantes. Não enfocamos, por exemplo, a escravidão, porque não houve no
Estado um regime de produção escravista. Os movimentos de 1922 e 1924, que
precederam o de 1930, e estes, foram situados no Paraná e examinados com seus
elos. Tratando do povoamento, fato de ocupação cruenta das terras paranaenses,
caracterizamos como agitações camponesas a “Guerra de Porecatu” e a “Revolução
do Sudoeste”.
Contamos de novo a história,
objetivando preservar a memória nacional, fazendo avaliação de fatos que, por
falta de interpretação, acabaram menoscabados e esquecidos. Nossa pretensão
foi, igualmente, mostrar como aconteceram os fatos históricos mais importantes
aqui no Estado do Paraná.
Talvez permanecesse por muito tempo
ignorada a realidade social brasileira, não fora o surgimento, em fins do
século XIX, de uma obra literária: “Os Sertões”, de Euclides da Cunha.
A história não pára, é um expresso
correndo em direção ao futuro. Mas historiadores pátrios têm-na visto estática,
conquanto os mais avançados refiram-se à carga e à luta dos passageiros. É
quando a história parece fotografia colorida, tirada de ângulos especiais,
encobrindo sob o jogo de luzes e sombras
uma realidade muito maior.
A história há de ser vista dinâmica,
coincidente com a realidade em movimento. É nesta história que se desenrolam a
revolução brasileira, a contra-revolução e as lutas sociais. Nela o Paraná se
revela com todas as suas forças, sua glória, seu sangue.
Os países da
América são tidos como frutos da expansão econômica da Europa, ao iniciar-se o
processo colonialista. A partir do século XVI, a América entrou na história,
mas Ortega Y. Gasset afirmou que “A América ainda não havia começado a sua
história universal”. A liquidação colonial iniciou-se com a revolução industrial.
Porém, muitos autores acham que a autonomia dos países, alcançada no passado,
teve apenas um conteúdo político, permanecendo a submissão, a dependência
econômica.
As lutas
pela independência tinham conteúdo político quanto econômico. Isto não
significa que não hajam surgido novas formas de domínio econômico estrangeiro
e, numa segunda etapa, provocando eclosões de cunho nacionalista.
Ao atracarem
as velas lusitanas, tribos vivendo na Idade da Pedra vagavam em nossas
florestas. A divisão do território em capitanias estabelecia um semi-feudalismo
no país. Um milhão de indígenas conviveram e se misturaram com os brancos. O
mameluco conservou no interior hábitos indígenas, vivendo de caça, pesca,
extração de alguns produtos das selvas, e de um ou de outro cultivo, ora
agregando-se às fazendas, originando uma massa camponesa semi-plebéia.
Tornou-se básica a cultura de subsistência. De cinco a dez milhões de negros
vieram da África, em regime de escravidão. Misturados a brancos, índios e
mamelucos, a miscigenação atingiu índices extraordinários. Os mestiços, pouco a
pouco, vão se constituindo em maioria. Esse povo é descoberto nas sesmarias, em
regime de servidão, e aí reside a importância de “Os Sertões”, de Euclides da
Cunha.
A coroa
proibiu o progresso no Brasil. Não podiam ser construídas estradas para o
escoamento dos produtos da terra, do ouro e de manufaturas. Não era permitida a
existência de engenhos, fábricas, confecção de jóias, tipografias, escolas,
livros, etc. Tais proibições, entravando o desenvolvimento econômico,
dificultando a formação de classes com todas as suas categorias, provocavam a
eclosão separatista.
No primeiro século e meio de
colonização, quando predominava a economia do Nordeste, com base na produção de
açúcar, embora disseminada a cultura de subsistência, os centros urbanos eram
poucos e pequenos, com população dedicada à administração e ao comércio. A
semeadura de novos povoados aumentou no período de mineração, no qual se
processou também uma lenta infiltração na rede hidrográfica do Amazonas que,
vale acima, iniciou-se na segunda metade do século XVIII. Com a pecuária houve
ocupação de novos territórios, porém muito rala e cheia de vácuos. Nos
primeiros anos do século XIX, pequena população se distribuía ao longo do
litoral em que predominava a agricultura; no Extremo-Norte onde se fazia
colheita de produtos naturais; no Centro-Sul que dependia da mineração; e no
Nordeste e Extremo-Sul, em que a atividade econômica era a pecuária.
No século
XVIII ocorreu uma mudança substancial, criando condições para uma
“aurora-burguesa”, quando aumentou consideravelmente a população européia e
houve o incremento das atividades econômicas e comerciais em todo o mundo, ao
chegar a era da revolução industrial. Começaram a surgir novos e grandes mercados
para o Brasil, principalmente o dos Estados Unidos, valorizando-se os produtos.
O Algodão possibilita-lhe a expansão comercial. Entre outros produtos,
despontará como novo fator de transformação social, o café. O país se
desenvolverá, ampliar-se-á o sistema de transportes e comunicações e, com a
predominância econômica do Centro-Sul, já na segunda metade do século XIX,
crescerão os centros urbanos e a burguesia estará preparada para desencadear e
dirigir a revolução. Em 1889, o Rio de Janeiro já tem uma população de 450.000
habitantes.
No ano de
1720, Felipe dos Santos, encarnando os ideais nacionalistas, era arrastado por
cavalos bravios nas ruas de Vila Rica. Mas é em 1789 que, com aspirações
republicanas, a Inconfidência Mineira torna-se a cédula-mãe da Pátria,
consubstanciando as idéias emancipadoras. Significativo é o fato – e não
constitui simples coincidência, o fato de que esse ano é o ano da queda da
Bastilha. E quando Tiradentes é enforcado e esquartejado no Rio de Janeiro, em
1793, cai definitivamente a realeza na França.
Definem-se
as classes no mundo: a nobreza, apeada do poder, a grande e a pequena
burguesia, o campesinato, um operariado crescente.
A abertura dos portos a todas as
nações, em 1808; a transferência da corte para o Brasil; a equiparação a
Portugal, em 1815, pela elevação à categoria
de reino unido; foram conquistas democráticas ou, pelo menos,
nacionalistas, as quais determinaram o crescimento das massas urbanas.
A identificação da idéia de
independência com a de república é presente na revolução pernambucana, de 1817.
Remonta a 1789, nos movimentos de Minas, Pernambuco e Rio Grande do Sul. Com o
Império tínhamos um regime escravocrata semi-feudal primitivo. Embora
indefinidas (fenômeno típico brasileiro), várias classes formavam a sociedade
brasileira. Uma minoria de nobres da Corte, senhores e escravos, um campesinato
em sua maioria miserável, e uma burguesia também numerosa e amorfa, ávida de
liberdade e poder. Neste quadro desempenhavam papel importante o clero e os
militares. Para entender o que significava o Exército, é preciso saber que não
contava com a confiança da monarquia, que era influenciado pelo positivismo,
com suas teses nacionalistas e científicas, sua explicação do homem e da
história. Filosofia que refletia o crescimento em número e cultura das classes
médias urbanas. Nos fins do Império, o ideal republicano convém também aos
cafeicultores e aos oligarcas, cujos filhos vão às cidades reforçar ainda mais
a burguesia.
Existe uma Revolução Brasileira, mas
são conhecidas apenas as estrangeiras, a exemplo da francesa, da americana, da
russa ou da mexicana.
A brasileira desenvolve-se num
processo de marchas e contra-marchas, de difícil análise, porque é extremamente
complexo, com período de duração que é quase impossível precisar.
De fato, remonta à Inconfidência
Mineira a luta democrática e nacionalista pela República, e tiveram igual
conteúdo as lutas contra os absolutistas e a recolonização do país, os levantes
populares como os dos cabanos, dos balaios, a agitação praieira e as
farroupilhas. Mas o marco definitivo da revolução brasileira é o de 15 de
novembro de 1889. Até então as suas principais conquistas foram a Independência
e a Abolição dos Escravos, esta ligada à Proclamação. Convém assinalar, no
entanto, que a presença de um imperador no trono constitui o fator mais
positivo para manter e consolidar a unidade nacional.
Para os economistas, decerto a
revolução teve início com a transferência da Corte para o Brasil, em 1808,
lançando as bases da autonomia brasileira.
Benjamim Constant, líder
revolucionário, condenava o trono escravista, enquanto a oficialidade se
rebelava contra ordem de caça aos escravos fugidos. Para conservar o poder,
obstar ou retardar o desfecho da revolução, o trono e a aristocracia cediam
gradativamente à pressão popular e à luta abolicionista.
A República não resultou de um golpe
de Estado e não se consolidou com passeatas, salvas, palmas e flores, sem
derramamento de sangue. O novo regime veio representar uma transformação
social, com extinção de privilégios e monopólios, e para firmar-se teria de
vencer obstinada resistência das velhas estruturas.
A revolução brasileira nasceu de
novas condições econômicas, com início, no mundo, da revolução industrial. Já
nos referimos ao crescimento do mercado internacional.
A partir de 1850, chegaram os
imigrantes europeus e, com o contínuo aumento de trabalhadores assalariados, em
fins do século XIX estruturou-se o mercado interno e desenvolveu-se o comércio.
Nas zonas mais adiantadas, multiplicaram-se estradas de ferro, pontes e linhas
telegráficas. Após a proibição do tráfico de escravos, o governo imperial
promovera uma inflação de crédito e emissões de papel moeda, política que
constituía empecilho ao desenvolvimento, pois estimulava a importação de
manufaturas estrangeiras, favorecendo o investimento inglês, que concorriam com
os produtos das empresas nacionais.
Entre 1850 a 1860, fundaram-se 62
empresas industriais, 14 bancos, 3 caixas econômicas, 20 companhias de
navegação, 23 de seguros, 4 de colonização, 8 de mineração, 3 de transporte
urbano, 2 de gás e 8 estradas de ferro. De 62 indústrias em 1860, passou-se
para 600, em 1888, nos fins do Império. Próximo à região algodoeira de alguns
estados, nascia uma indústria têxtil.
A par da formação de uma população
urbana, de uma classe média e de um contingente de trabalhadores assalariados,
a miscigenação das raças com o predomínio de mestiços mulatos e mamelucos,
resultava num espírito democrático e
profundamente humanista.
Entre 1890 e 1895, quando ocorreu a
guerra civil, foram fundadas 452 fábricas, antes da crise em que o surto
industrial cessou. Na região do Rio de Janeiro localizava-se 40% da indústria,
15% em São Paulo, e 5% no Rio Grande do Sul. Neste há o apego à pecuária e ao
tradicionalismo. No Paraná e em Santa Catarina, uma só região, as principais
atividades, além da pastoril, estão ligadas à erva-mate e à madeira, à
industria extrativa rudimentar.
Apesar do desenvolvimento industrial
e, principalmente, do comércio, o Brasil tem dependido do setor primário e da
monocultura do produto básico de exportação. Com a Abolição, o Império perdeu
seu sustentáculo: os grandes proprietários do Nordeste e de zonas velhas de
café, os quais debandaram para o lado dos republicanos, por se sentirem
traídos. Por outro lado, os cafeicultores paulistas, mais avançados (1),
capitalistas de campo, davam força à revolução.
Vitoriosa, a revolução brasileira
foi impotente, em longo período, para resolver o problema da terra, como
preconizavam Joaquim Nabuco, André Rebouças e Sílvio Romero. (2)
Afinal, havia no interior o
predomínio das oligarquias rurais.
___________________________
(1)
Ver pág. 14
(2)
Respectivamente: O
Abolicionismo, São Paulo, 1938, págs. 182/183; Diário e Notas Autobiográficas,
Rio, pág. 330; História da Literatura Brasileira, Rio, 1888, págs. 115/116.
Talvez
os historiadores da literatura brasileira constituam a corrente mais
esclarecida acerca de nossa realidade social. Sílvio Romero nos dá uma
impressão sobre o clima das idéias no período de desfecho da revolução
brasileira: “Um bando de idéias novas esvoaçava sobre nós de todos os pontos do
horizonte”. Referia-se ao positivismo, evolucionismo, darwinismo, crítica
religiosa, cientificismo na poesia e no romance, folclore, novos processos de
crítica e história literária, transformação do direito e da política. (3)
Mas a maioria dos escritores
continua negando as lutas de nosso povo. Independência, para eles, fez-se graças a intervenção das elites
brasileiras. É a mesma tese de que a Abolição ou a República foram apenas
concessões generosas e não o resultado das lutas populares e das aspirações
nacionais. Muitos desses autores são incongruentes, na Abolição reconhecem as
lutas, enquanto as negam na conquista da Independência ou da República.
Alfredo Bosi afirma:
“A divisão de
águas entre liberais e conservadores, que marcou o homem europeu na primeira
metade do século, esbateu-se entre nós pelo fato de ter vindo de cima a
consecução da Independência
De Cairu,
valido de João VI, a José Bonifácio, conselheiro de D. Pedro I, temos uma
inteligência que repete, em um vasto país recém-egresso do sistema colonial, a
experiência dos intelectuais europeus junto aos déspotas mais ou menos
esclarecidos.”
Não
são poucos os que consideram os homens da elite, simples “aristocratas servis”.
Vários historiadores tem acentuado o que chamam de caráter de compromisso de
que se revestiu a Independência. Caio Prado Júnior diz textualmente:
“Até às
vésperas..., entre aqueles mesmos que seriam seus principais fautores, nada
havia que indicasse um pensamento separatista claro e definido.
O
próprio José Bonifácio, que seria o Patriarca da Independência, o foi apesar
dele mesmo, pois sua idéia fora unicamente a de uma monarquia dual, uma espécie
de federação luso-brasileira.” (4)
____________________________
(3)
Explicações
Indispensáveis, prefácio aos Vários Escritos, de Tobias Barreto.
(4)
Formação do Brasil
Contemporâneo, pág. 364
Ora, a luta pela Independência não era propriedade de José
Bonifácio, pertencia ao povo brasileiro, e já vinha de longe. Em dado momento,
os indivíduos, as personalidades, agem de acordo com as circunstâncias,
representam e lideram o movimento, fazendo o que a revolução determina.
Existe também uma posição negativista, que é a dos
intelectuais que consideram o Brasil na rota da monarquia conservadora porque
mantém as colunas do poder agrário: o latifúndio, o escravismo, e a economia de
exportação. (5)
Não é de admirar, pois, que a revolução
brasileira, desfechada pela burguesia nacional, tenha sido ignorada e não
conste na história oficial do Brasil.
Até mesmo aqueles que procuravam rever o processo histórico
à luz de novas concepções, também se equivocaram.
Para Caio Prado Júnior “o Império é uma transição entre o passado colonial e o presente moderno”, o
qual vê no período uma evolução num processo “difícil e moroso”. (6)
Nelson Werneck Sodré, talvez o mais importante de todos,
referindo-se à atualidade, chama de
revolução brasileira “o processo de transformação que o país atravessa, no
sentido de superar as deficiências originadas de seu passado colonial e da
ausência da revolução burguesa no seu desenvolvimento histórico”. (7)
À frente de marxistas equivocados, nem ao menos percebe que
o nacionalismo brasileiro nasceu já no início do processo colonialista, numa
primeira etapa, culminando na Independência.
A cegueira é total e geral. Para a maioria dos
historiadores, o processo de transformação social tem seu marco na revolução
político-militar de 1930, supervalorizada, na qual terminou a primeira fase do
regime republicano no Brasil. Para eles, a data é a mais importante da história
pátria.
A intelectualidade é convicta de que o nacionalismo surgiu
após 1922, embora reconheça fundamental a obra de Euclides da Cunha. Mas, de
1922 para cá, existe um nacionalismo, em sua nova etapa. Já frisamos que em
movimentos anteriores preponderaram os sentimentos e interesses pelos problemas
nacionais.
A luta
nacionalista reflete-se na literatura e na imprensa. A literatura dos primeiros
tempos, de caráter puramente informativo e referencial, valia pela revelação de uma nova realidade, desenvolvendo-se
_________________________
(5)
V.
José Ribeiro Jr. “O Brasil Monárquico em face das Repúblicas Americanas”, em
“Brasil Perspectiva”, págs. 167-221.
(6)
Evolução
política do Brasil e Outros Estudo, págs. 199 a 200.
(7)
Introdução
à Revolução Brasileira, pág.1
em
contradição com o processo colonial.
O nativismo ou o indianismo, com todos os seus matizes que se afiguram
frívolos, sem maior significado, constituíam bandeiras. Para compreendê-los,
basta dizer que o Padre Aires de Casal, desde 1796, coloca nos parágrafos
referentes a zoologia, os indígenas entre os animais. No jornalismo, tem
destaque especial Cipriano Barata, revolucionário que, desde a conspiração dos
alfaiates, visando a abolição dos escravos e supressão dos privilégios sociais
existentes, envolveu-se em todos os movimentos libertários, pelo que pagou nos
cárceres das fortalezas. Vieram secundá-lo publicistas como Hipólito da Costa
Pereira e Evaristo da Veiga. O jornal “A Opinião Liberal” trouxe a público um
programa reivindicando abolição da guarda nacional, organização armada em que
pretendia apoiar-se a monarquia contra o Exército. O “Tamoio”, na primeira
metade do século XVIII também desempenhou papel importante na luta democrática
do povo brasileiro. E era de ver a agitação provocada pela imprensa quando
publicou, às vésperas da Proclamação, a ordem de punição a todos que ousassem
repetir o grito proibido, com a manchete: “É proibido gritar: viva a
República!”.
De 1870 a
1890 as idéias liberais e abolicionistas foram esposadas pela inteligência
nacional, mais permeável ao pensamento europeu que se constelava em torno da
filosofia positiva e do evolucionismo. Definia-se o novo ideário e a alma
nacional, quando já diziam muito a poesia social de Castro Alves e de
Souzandrade, o romance nordestino de Franklin Távora, e chega a vez do realismo
democrático com Tobias Barreto, Sílvio Romero e, ainda, Euclides da Cunha,
Clóvis Beviláqua, Graça Aranha e Medeiros de Albuquerque, lutando contra as
tradições do espírito da monarquia.
Era já
protesto a poesia retórica, persuadindo, moralizando, encontro de complexo de
idéias e sentimentos, quando o patriótico e moralizante aparecem copiosos nas
“Poesias Avulsas”, de Américo Elísio (1825), pseudônimo de José Bonifácio de
Andrade e Silva.
É do
conhecimento universal que o Romantismo surgiu em conseqüência da revolução
burguesa no mundo. É incrível não o tenham visto, no Brasil, como fruto de
nossa própria revolução burguesa. Em seus “Ensaios”, Karl Manhelm chega a
interpretá-lo como expressando os sentimentos dos descontentes com as novas
estruturas: a nobreza, que já caiu, e a burguesia que ainda não subiu; de onde
as atitudes saudosistas ou reivindicatórias que pontuam todo o movimento.
Paradoxalmente,
os próprios marxistas vão ao absurdo de afirmar que a burguesia brasileira
jamais teve a direção do país, porque consideram títeres os seus governos, e a
situação ainda de dependência colonial ou semi-colonial, como se a roda da
história houvesse parado em obediência às ordens alienígenas. É interessante
assinalar que, negando a revolução burguesa – uma revolução nacional –, negam a
própria teoria que vê o mundo cada vez mais dividido entre as classes
antagônicas. Diga-se, ainda que os estados nacionais formaram-se ao surgir a
burguesia. Estaria o Brasil à margem da era industrial? Afinal, que caráter têm
a constituições, que códigos de leis possuímos, que não os da revolução que
aboliu a escravidão, institui o regime republicano, conquistando liberdades
democráticas e direitos humanos?
As classes
sociais, no Brasil, uniram-se pelo interesse nacional contra o colonialismo, a
exemplo do que possa ocorrer em relação ao capital monopolista alienígena, mas
é a burguesia nacional que se encontra no poder. Se frações de grandes
proprietários rurais compartilham do poder, e antes mais ativamente, isto não
invalida o fato.
Limitado ao norte pelo Estado de São
Paulo: ao sul, por Santa Catarina, a leste, pelo oceano Atlântico; a noroeste,
pelo Mato Grosso; a oeste, pelo Paraguai e a sudoeste, pela Argentina; o Paraná
fica na palma da região centro-sul brasileira, com grande importância
geográfica e estratégica. Um conjunto de planaltos se sucedem no sentido
leste-oeste, da Serra do Mar, junto ao Atlântico, até o rio Paraná, passando
pela serra Geral. Entre as duas serras, encontra-se o planalto de Curitiba e, em
seguida, o de Ponta Grossa – os Campos Gerais. Após a serra da Esperança, o
planalto de Guarapuava. Finalmente, no limite oeste o curso do rio Paraná. A
sua região é florestal, onde predominaram o pinheiro, a imbuia, cedro,
erva-mate; e de campos. Na faixa litorânea, é tropical, quente e baixa. Mais de
dois terços de território eram tomados por inóspita e indevassável selva que,
de norte a oeste, fechava a zona salpicada de povoados pouco distantes do
litoral, em semi-círculo.
Na fase da
mineração, paulistas e lagunenses tropeavam o gado dos pampas, cargueiros de
carne seca e courama, através de Santa Catarina rumo a Sorocaba. Ao passarem
pelos Campos Gerais, estes ficaram conhecidos como “o corredor do gado”. Neste
corredor surgiram os pousos, as invernadas e o primeiros povoados: Castro,
Ponta Grossa, Lapa e Palmeira.
Na caça ao
índio, os bandeirantes haviam descido à região de Guaíra, destruindo as
reduções jesuíticas, no início do século XVII. Nessas expedições contra os
guaranis, centenas de paulistas eram acompanhados por milhares de índios
aliados, de outras tribos.
Depois
disso, houve busca de ouro no interior, e o afluxo de aventureiros fez nascerem
três vilas: a primeira, na entrada do porto, Paranaguá; outra, no fundo da
baía, Antonina e, bem pouco distante da orla marítima, Morretes. Ao
ultrapassarem a serra do Mar, fundaram mais outra, Curitiba. Nesse período,
nasceram Sorocaba, em São Paulo, Nossa Senhora do Desterro (Florianópolis) e
Laguna.
O
Conselheiro Mafra (Exposição histórico-jurídica, pág.44), revela que:
“O Governador de São Paulo, D. Antonio Luiz de Souza, Morgado de Mateus,
pretendendo ocupar e povoar as fronteiras de sua capitania com o sobre-excesso
da população mestiça que andava vagabunda, depois de vencer a inicial
relutância de Correia Pinto, dando-lhe uma patente de Capitão-Mór Regente e
prometendo-lhe uma comenda da Ordem de Cristo, encarregou-o de povoar os campo
de Curitiba (...)”
Existe uma acentuada diferença, que
ainda não foi objeto de observação, entre nossos fazendeiros típicos e os
fazendeiros paulistas e, mesmo nordestinos. É que os fazendeiros mais ao norte,
por se dedicarem mais à agricultura e, às vezes, à transformação e à
comercialização dos produtos, ou pelo contato com centros maiores, fogem à
categoria simples de camponeses e podem ser considerados capitalistas. É o que
também, entre nós, acontecia com os que se dedicavam à extração de erva-mate e
à indústria de madeira, alguns até diretores de firmas de exportação. Estes
capitalistas de campo, no campo não se
fixam. Quando se esgotam as terras e há ocorrência de pragas, flagelos, geadas,
etc., eles são os retirantes ricos a iniciarem o êxodo rural, se já não residem
nas cidades grandes. A sua terra é apenas um negócio, investem seus capitais
como o fariam em qualquer outra atividade econômica. Desfaz-se dela quando a
julgam imprestável, não rendosa. O grande fazendeiro de café é um exemplo.
Raramente não mudou de propriedades ou não mudou de ramos de negócio. Já com o
sitiante, pequeno proprietário, isto não é comum. Tais capitalistas de campo,
capitalistas caipiras, mais avançados em suas reivindicações, tiveram posição
saliente no processo revolucionário brasileiro. Formaram a corrente mais forte
dentro do Partido Republicano. O fazendeiro paranaense e seus vizinhos do Sul
têm outro espírito. Sua vida, seu mundo, são os campos. São camponeses
ecológicos, ligados à terra que amam, formando clãs com os seus camaradas.
Ainda que houvesse também, entre nós, senhores de engenhos de erva-mate, meio
nobres e meio escravocratas. O fato é que predominavam os fazendeiros
camponeses, acompanhados à fixação e ao amor pela terra pelos imigrantes
estrangeiros.
Tudo isto explica porque a
organização social aqui no Sul era mais conservadora, servindo de base à luta
armada contra-revolucionária. Os nossos fazendeiros, menos progressistas,
dominavam os estados e os municípios, dando lugar a uma oligarquia rural
provinciana muito mais rebelde que a das outras regiões brasileiras.
No Paraná, palma da mão centro-sul
brasileira, teriam de ser vividos os grandes momentos do processo
revolucionário, que haveriam de decidir os destinos políticos do Brasil.
CONTRA-REVOLUÇÃO
Proclamada a República, formou-se um
governo provisório, ainda vacilante, chefiado pelo marechal Deodoro da Fonseca,
cuja política financeira levada a cabo por Rui Barbosa, conhecida como
Encilhamento, provocou grande inflação e desvalorização da moeda, que serviu de
pretexto a uma maior aproximação do marechal aos monarquistas. Nos círculos
comerciais e financeiros levantou-se verdadeiro clamor contra as medidas. Tal
decreto de emissões, previu Campos Sales, “traria dentro de dez anos a ruína
financeira do país”. Apesar da boa fé de Rui Barbosa, em todo o período da
expansão do papel bancário, o Governo foi apoiado e festejado pelas classes
conservadoras, e principalmente pelos monarquistas. A medida fez alastrar-se o
delírio na bolsa.
Floriano Peixoto, ao assumir a
Presidência, viria opor-se àquela política financeira.
Durante o Império, Rui Barbosa
recusara ministério, por ser federalista. Os cafeicultores paulistas, mais
progressistas, que davam condições de vitória aos republicanos, constituíam
maioria no lançamento do Partido, e seus interesses não condiziam com a
centralização do sistema monárquico. Reivindicavam independência recíproca das
províncias, elevados à categoria de Estados (8). E muito mais que
aos cafeicultores paulistas, a autonomia das províncias convinha às oligarquias
rurais, principalmente nos Estados sulinos. Federalismo seria a conservação do
coronelismo, do poder dos latifundiários interessados em novas áreas de terras,
como ficou patenteado na disputa do Contestado.
A revolução, culminando com a Abolição e com a
Proclamação, não reuniu forças para resolver o problema da terra, como
preconizavam Joaquim Nabuco, André Rebouças e Sílvio Romero. E nos Estados
sulinos, os fazendeiros arrastavam à rebelião toda a massa camponesa semi-plebéia.
Rui Barbosa foi líder máximo do
federalismo. Uma vez decretada a Abolição, atirou-se à campanha. Antes da
Proclamação, ao dirigir o Diário de Notícias, visava a eleição dos presidentes
das Províncias, a secularização do ensino, e a eleição dos senadores sem a
escolha imperial. Era sua a tese: “A Monarquia e a República são meios: a
liberdade é o fim”. É seu o lema: “Reforma ou revolução”.
É curioso que Tavares Bastos considerasse inadiável para o
país, o federalismo. “Aí encontraria a monarquia e sua própria
salvação”. O fato é que o federalismo deu conteúdo à contra-revolução, a qual contava com bases poderosas, operando no próprio seio dos
governos republicanos e nas forças armadas.
__________________________
(8)
No
Manifesto de Fundação do Partido Republicano.
Aprovada a Constituição, o marechal
Deodoro da Fonseca, sustentado por militares, foi eleito Presidente da
República, enquanto na chapa de oposição, encabeçada por Prudente de Morais,
foi eleito à Vice-Presidência o marechal Floriano Peixoto.
Vitoriara-se a revolução, antes do
dia da passeata e da Proclamação, mas o primeiro governo realmente
revolucionário do Brasil, assumiu a 23 de novembro de 1891, com o marechal
Floriano Peixoto na Presidência da República.
Eram muitas as formas de
dissimulação que assumia, no plano ideológico, a contra-revolução.
Servir-se-ia, ainda, de uma campanha civilista, com caráter demagógico e
reacionário, apoiada pelos que sabiam ter sido o Exército o responsável direto
pela República. Criada no período da Regência, para fortalecer a posição dos
grandes senhores, a Guarda Nacional era o contrapeso às tropas regulares e,
após 1870, o futuro príncipe consorte projetara o desarmamento progressivo
destas, em favor da Guarda Nacional, prevendo ação do Exército contra o
Império. Enquanto o Exército
representava povo, burguesia, a Guarda Nacional era a milícia particular a
serviço dos donos da terra.
O parlamentarismo seria a bandeira
desfraldada por Gaspar Silveira Martins. Mas Quintino Bocaiúva desmascarou a
contra-revolução em “O País”, de 20 de
agosto de 1892: “O parlamentarismo é a antítese da República: não podem
coexistir. No Brasil ele prepararia primeiro a República unitária, e depois,
por complemento, a Monarquia. O parlamentarismo: eis o inimigo!”.
O general Arthur Oscar, comandante
desde os primeiros momentos da guerra civil, jamais se enganara: “Para mim,
nunca tive dúvida sobre os intuitos da revolução (contra-revolução) do Rio
Grande e da revolta da Armada: eram monarquistas”. Para Floriano Peixoto “todos
esses elementos de natureza heterogênea fundiram-se na mesma ação e pensamento
dos chamados federalistas do Rio Grande do Sul, mensageiros da depredação e do
morticínio, ao mando de um antigo ambicioso político que, com o advento da República,
ficou privado dos privilégios de que astutamente gozava no regime decaído.
Nesse amálgama de ódios, de despeito e de egoísmo, o que sobreleva em ignomínia
a tudo, era o pensamento perverso de fazer a Pátria voltar ao jugo monárquico
de que se havia libertado a 15 de
novembro de 1889”.
Culpava-se a República pelas
conseqüências de quatrocentos anos de escravidão e colonialismo, ou pelos fatos
novos decorrentes da revolução industrial no mundo e, ainda, pela crise
econômica e financeira. Todos os males eram atribuídos àquele que representava
a defesa das conquistas sociais do povo: o marechal Floriano Peixoto.
Parlamentarismo, federalismo, civilismo, regionalismo, eram apenas armas
ideológicas contra-revolucionárias. Ocultavam o objetivo reacionário, o sonho
impossível, a restauração monárquica ou a conservação dos antigos privilégios.
Os fatos confundiam os espíritos, refletindo-se no terreno das idéias as
contradições da realidade brasileira, as quais originavam posições políticas
várias de personalidades e grupos influentes. Vigorava um clima de ódios,
intrigas, difamações, propício a conspirações que precedem golpes de força e
lutas fratricidas. Ressentimentos acumulados durante séculos explodiam nas
vinditas pessoais e coletivas. Um país que sangrara acorrentado nos pelourinhos
e que só agora despontava para a liberdade, e ainda tinha a cumprir em seu
próprio solo uma desumana lei de guerra, teria de chorar sangue para rasgá-la e
bani-la da consciência.
A Nação encontrava-se em crise,
quando o marechal Deodoro da Fonseca, no dia 3 de novembro de 1891, dissolveu o
Congresso Nacional, em sua maioria composta por oposicionistas que tirara da
obscuridade e que formavam a chamada “legião rebelde”. O quartel da resistência
ao ato, mais esclarecida, instalou-se em São Paulo, onde Campos Sales redigiu o
manifesto dos congressistas. O Estado do Pará declarou separar-se da União até
que o governo entrasse na órbita da legalidade, enquanto no Rio Grande do Sul,
as facções apelavam às armas. Em Santos, os trabalhadores do porto entraram em
greve, e a Estrada de Ferro paralisou o tráfego na madrugada do dia 22.
Ao perder ao popularidade, o
marechal Deodoro da Fonseca procurou apoiar-se em monarquistas e contou com
Saldanha da Gama, Eduardo Wandenkolk e alguns oficiais do Exército. A política
dominante de vários Estados, entre as quais a do Paraná, apoiou o atentado à
Constituição. No Rio de Janeiro, o 2º Regimento de Artilharia e o 1º Batalhão
de Infantaria guardavam as portas fechadas do Congresso Nacional. No Rio Grande
do Sul, Júlio de Castilhos, intelectual positivista, líder republicano, que
viria a ser apoiado pelo marechal Floriano Peixoto, foi obrigado a abandonar o
poder. Rebelaram-se as guarnições de Rio Grande, Bagé, Sant’ana e Pelotas. O
golpe repercutiu em todo o país e provocou forte reação popular não só no Rio
Grande do Sul, como também no Paraná e em Santa Catarina.
A contra-revolução procurou lançar
dúvidas sobre o comportamento exemplar do grande republicano sulino, e alguns
historiógrafos teimam em afirmar que Júlio de Castilhos solidarizou-se ao
Marechal Deodoro, pelo golpe, o que não tem fundamento.
Apoiado pelo Congresso, Floriano
Peixoto assumiu a Presidência porque, no dia 23 de novembro, o almirante
Custódio de Melo e seus camaradas, a bordo do couraçado Riachuelo, obrigaram Deodoro da Fonseca
a renunciar ao governo. Reabrindo o Congresso, Floriano Peixoto passou a reprimir a jogatina desenfreada e a
impor o tabelamento dos gêneros alimentícios, esbarrando imediatamente na
oposição dos especuladores da Capital, que se aliaram às correntes reacionárias
do Brasil. Mal assumiu a Presidência, Floriano enfrentou dia 13 de dezembro, a
sublevação dos marinheiros do cruzador “1º de Março”, sob o pretexto de maus
tratos infringidos pela oficialidade, tendo sido os sessenta marujos recolhidos
à fortaleza de Santa Cruz. No dia 19 de Janeiro de 1892, o 2º sargento Silvino
Honório de
Macedo, apoderou-se da fortaleza de Santa Cruz, à frente dos presos que
libertou dos calabouços e aprisionou a oficialidade. Com as fortalezas do Pico
e de Laje, sob suas ordens, Silvino intimou Floriano a resignar no prazo de
duas horas, sob pena de bombardear a cidade. A esquadra, então, atacou a
fortaleza de Santa Cruz (9). Em diversos pontos da Capital,
militares de alta patente e membros do Congresso Nacional faziam sucessivas
reuniões secretas visando
a deposição de Floriano e volta à ditadura.
A campanha contra o marechal
Floriano Peixoto ganhava proporções com a infundada invocação de
inconstitucionalidade do mandato, com base no artigo 42 da Constituição que, na
verdade, não se aplicava ao caso, uma vez que ele fora eleito através do
Congresso, o qual referendara a sua posse. Governadores impopulares, que haviam
sido eleitos por fraudes no processo eleitoral, considerado remanescentes da
ditadura, uma vez que tinham apoiado o ato de dissolução de Congresso, não se
portaram condignamente e não renunciaram aos cargos. Tal fato provocou a
exaltação dos ânimos e movimentou a oposição que lhes movia o Partido
Republicano, verdadeiro partido da revolução brasileira, motivando deposições
nos Estados, com a participação ou o envolvimento dos militares. Em Alagoas, a
queda do Presidente do Estado foi imediata. No Paraná, Vicente Machado foi
eleito após a deposição de Generoso Marques e seus correligionários,
sustentados pelo general Aguiar Lima. Estes pediram auxílio aos rebeldes do Rio
Grande do Sul, os quais responderam que não auxiliavam os “sustentáculos da
ditadura”. As guarnições militares apoiaram Júlio de Castilhos, no Rio Grande
do Sul, e Vicente Machado no Paraná.
Em 13 de março de 1892, visando a
defesa da legalidade, com Júlio de Castilhos, nasceu na cidade argentina de
Cacero, o Movimento Reivindicador. Eram os pica-paus sulinos concertando seu
plano de ação.
O estado de anarquia agravou-se, ao
voltar do exílio Gaspar Silveira Martins, pregador do parlamentarismo. E a
situação era igualmente caótica nos municípios, pois com a dissolução dos
Congressos, eram depostos também os intendentes.
Anárquica, sem definir seu verdadeiro objetivo, com
pretextos ilegítimos, a contra-revolução já nascia dividida e com poucas
possibilidades de vitória. É fácil compreender porque o federalismo tornou-se a
principal bandeira da contra-revolução, ocultando, em primeiro plano, os interesses
das oligarquias rurais. Em razão disso, o movimento armado reacionário passou à
história oficial com a designação imprópria de Revolução Federalista.
_________________________
(9) Sílvio
Honório de Macedo foi aprisionado em Recife, Pernambuco, no dia 13 de janeiro
de 1894, e fuzilado por ordem de Floriano.
Por representar as forças mais progressistas é que o
marechal Floriano Peixoto
tornou-se alvo da campanha infamante, da fúria reacionária. Sucedia a Benjamim Constant
na chefia de um Exército há pouco provado na guerra do Paraguai, vanguarda do
povo nas lutas de libertação nacional. Era composta dos guardiões das
conquistas sociais do povo brasileiro, os pica-paus.
Marechal do povo, Floriano procurou
obter a pacificação e não intervir, sem necessidade, nas disputas políticas nos
Estados. Ainda assim, via-se acusado de violar a Constituição e de causar a
queda de governos estaduais e municipais. A 31 de março de 1892, renovaram-se
as esperanças reacionárias, com o “Manifesto dos Treze Generais”, encabeçado
por Eduardo Wandenkolk, firmado também pelo general Aguiar de Lima, o qual
interferia nas disputas políticas paranaenses. Esse manifesto provocou uma
sedição popular no Rio de Janeiro, no dia 10 de abril, quando o próprio
Floriano enfrentou e dissolveu a manifestação, com ajuda de populares.
As reuniões conspiratórias faziam
parte do clima contra-revolucionário. As notícias, no país, eram as de que a
Capital encontrava-se em plena rebelião e que uma esquadrilha seguira para a
Europa, a fim de trazer de volta a família imperial. Diante da gravidade da
situação, o marechal Floriano Peixoto decretou o desterro dos signatários do
“Manifesto dos Treze”, e de inúmeros outros oposicionistas exaltados, entre os
quais alguns que desempenhariam papel saliente na guerra civil.
No Rio Grande do Sul, no dia 17 de
junho de 1892, Júlio de Castilhos à frente do povo em armas foi reconduzido ao
governo. No mesmo dia transferiu-o a Vitorino Monteiro, este ao 2º
Vice-Presidente que, por sua vez, nomeou o general Joca Tavares, o qual
instalou o governo em Bagé, armando suas tropas para enfrentar as do Movimento
Reivindicador, de Castilhos e Floriano. Nos dias 21 e 24, Porto Alegre sofreu
ataque da canhoneira Marajó, quando foi preso o comandante Cândido Lara.
Demostrando intenções pacifistas, o
marechal Floriano Peixoto, a 5 de agosto, decretou anistia. Mas de volta do
desterro os seus opositores intensificaram a campanha contra-revolucionária, e
ele sofria ataques dos jornais “A Cidade do Rio” e “O Combate”. A conspiração
reacionária contava com elementos no seu próprio governo.
O almirante Custódio de Melo, que
havia encomendado armas para a Marinha, tentou mudar as guarnições legalistas
das fortalezas. Ao demitir-se, lançou um manifesto com ataque “à má direção
dada a operações de guerra”, a seu ver, causa do morticínio de Alegrete.
Animava os governos que apoiaram o ato de dissolução do Congresso e não admitia
o apoio emprestado a Júlio de Castilhos. Era Custódio de Melo quem desejava
intervenção nos Estados e não o Marechal Floriano Peixoto, o qual só a
determinava após judicioso exame da situação, conforme os interesses da
República e os preceitos constitucionais. Houve necessidade de intervenção
quando Gaspar Silveira Martins voltou do exílio, instalando-se no Sul. Então
Floriano nomeou comandante do 6º Distrito Militar um general republicano
histórico, com instruções de apoiar o Partido Republicano de Júlio de
Castilhos.
Em carta a Custódio de Melo, a
insistência de Gaspar Silveira Martins, discordando do governo instalado no
Desterro (Florianópolis), por ser de comtistas e demetristas, em dar a chefia
do movimento rebelde ao almirante Saldanha que, ao aderir à revolta, fez uma
proclamação monarquista, patenteia a justeza das decisões do marechal Floriano Peixoto.
Talvez no desespero da causa perdida
e sob o impacto das batalhas fratricidas, levado ao desvario político, tal como
a vários chefes rebeldes, Gaspar Silveira Martins tornou-se separatista. É
significativa, nesse sentido, a carta, inserta no jornal “Amigo del Pueblo”, da
cidade de Concórdia.
Angelo Dourado, cronista da coluna
Gumercindo Saraiva, diz textualmente: “Eu preferia que se levantasse a bandeira
da restauração da Monarquia”. E sobre o coronel Julião, comandante maragato,
anotou: “Para principiar o fogo, ele tem uma prática imprescindível: – Viva
S.M. o Imperador! Viva a antiguidade do Império!” Quando Gumercindo Saraiva
instalou o Quartel General na cidade de Ponta Grossa, correu a notícia, pelo
Brasil, de que proclamara uma Monarquia Sul-Brasileira, constituída pelos três
estados sulinos e Uruguai. Na verdade, constava numa ordem do dia: “(...) A
consciência me diz que eu devo proclamar a independência do Estado do Paraná e
dos seus dois irmãos do Sul”.
Ainda assim, há opiniões equivocadas sobre a
contra-revolução, impropriamente designada como Revolução Federalista. O
comportamento do almirante Custódio de Melo, que em má hora ambicionou a
Presidência da República, muito concorreu para a confusão dos historiadores que
lhe atribuem toda a culpa pelos acontecimentos. Outros, ao inverso, vêem o
marechal Floriano como tirano e ditador.
Os historiadores não perceberam a existência da revolução
burguesa em nosso país e, portanto, não poderiam perceber a existência da
contra-revolução. Assim, tratam os fatos como “fruto de banditismo partidário”,
“má política do início do regime republicano”, “incompetência e ambição”,
“rivalidade entre as forças armadas”, “protecionismo no Exército e na Marinha”,
“ação de maus patriotas”, “intervenção indébita nos Estados”.
A GUERRA CIVIL
Em conseqüência da contra-revolução, o Brasil conheceu a
guerra civil.
Alexandre Alvares (10) opina que as guerras
civis exprimem o fruto da falta de preparação dos Estados latinos para a vida
pública, e as ambições pessoais alastraram a história de muita delas. Não é o
caso da secessão nos Estados Unidos e nem da guerra civil desencadeada pela
contra-revolução no Brasil.
As condições para o reconhecimento da guerra civil, da
sua caracterização, são evidentes: os insurretos mantiveram em seu poder
determinada área do território nacional, organizaram governo, embora
prevalecessem autoridades de vários chefes rebeldes, combateram com forças
organizadas. Poderiam até mesmo ter vencido. O que faltou nessa guerra civil,
de lado a lado, foi o tratamento humano devido aos prisioneiros e aos vencidos.
Teve características próprias, com instabilidade de governos nos Estados,
sublevações anárquicas em diversos pontos do país, início de levantes
camponeses típicos, o caos na administração e nas relações civis, o guante de
ferro do chefe militar mais forte ou do político mais atrevido, a onda de
crimes – banditismo, saques, assaltos, incêndios –, atos de sabotagem e
terrorismo, indisciplina e sedição nas guarnições militares, estado de sítio, a
Marinha em guerra contra o Exército, batalhões de voluntários, participação
caudilhesca e participação popular. Camaradas de armas encontraram-se nas
batalhas, uns batendo-se contra os outros.
Angelo Dourado, o intérprete da coluna Gumercindo Saraiva,
entendia o movimento como “a história do esforço popular riograndense contra o
poder esmagador que tentou asfixiá-lo”.
Nas regiões do País, onde não chegava a guerra civil, o
êxodo ou marchas para o trabalho dos nordestinos eram semelhantes a de lutas fratricidas,
nas batalhas do cacau e da borracha. E, em toda parte, os miseráveis do campo,
sem terra, sem haveres, sem direitos e garantias, buscavam saída nos grupos do
cangaço ou de fanáticos.
A agitação política era maior nos Estados sulinos. Do
advento da República a novembro de 1981, houve 18 presidentes em Porto Alegre.
O sentimento de indignação política foi o conteúdo das
guerrilhas que nasceram nos pampas.
No Paraná e em Santa Catarina as guerrilhas assumiriam
forma diferente. No meio das florestas ou nos cerrados dos capoeirões, o matuto
fez guerra de emboscada e de tocaia, fragmentando as massas de combate.
__________________________
(10) Le Droit International American, 71.
Onde o mundo é a estância, em torno da qual giram os
povoados, as vilas, as pequenas municipalidades, é inconteste a união dos
camponeses riograndenses. Agachados, o facão pendendo do cinto, todos se
igualam na roda do chimarrão. O dono da terra é chefe, compadre, presta
favores, reina e dá a própria vida pela peonada numa causa justa. Quando as
disputas locais começaram a degenerar em perseguições, conflagrou-se o Rio
Grande do Sul, grupo unido a grupo, clã à clã, querência à querência.
A anarquia no levante tornou-se evidente no momento da
aliança entre gasparistas e federalistas, quando Gumercindo Saraiva dizia: “El
gobierno és mi espada”. Noutra ocasião, declarou: “Pouco me importa que o
governo seja aqui uma coisa ou outra. Que nos dê meios para lutarmos e depois
que se arranjem os políticos”. No latifúndio, a única forma de governo que
parece lógica e natural, de acordo com a lei divina, é a monarquia. O coronel,
dono da terra, é rei em seus domínios. E, naquele tempo, o homem do campo ainda
professava a ”Religião do Império”, expressão da Constituição de 1824. Não lhe
era fácil conceber o que fosse república, e muito menos federalismo,
presidencialismo, parlamentarismo, etc.
Em Santa Vitória do Palmar, quando soprava o Minuano,
nasceu Gumercindo Saraiva. Seus irmãos igualavam-se em valentia. À frente de
setenta cavaleiros irmanados pelo sentimento de indignação, armados com facões
e lanças com pontas de tesouras, tornavam as cidades da Fronteira. Um rio de
sangue inundou a campanha, atingiu as araucárias, a costa e o mar.
O espírito maragato dominava o Paraná, Rio Grande do Sul e
Santa Catarina, exceção de algumas cidades mais progressistas menos dependentes
das fazendas. A população rural apoiava os rebeldes. Camponeses pobres, matutos
ou gaúchos, e até mesmo índios, procuravam Gumercindo Saraiva, incorporando-se
às fileiras de Aparício, Torquato Severo ou Juca Tigre. Por outro lado,
aumentava a adesão de militares às forças de Joca Tavares e do general Salgado.
Gumercindo Saraiva foi o precursor da guerra de
movimento, precedendo a revolução na arte militar. Com a vanguarda cavalariana,
dava combate de surpresa às forças legalistas que o perseguiam, combinando com
o general Salgado a tática que consistia em “marchar desunidos para atacar
unidos”. As guerrilhas começaram com os gaúchos, cuja cavalaria obtinha
vitórias rápidas. Equipamentos, roupas, armamento e munições, eram arrebatados
ao inimigo. Piquetes arrebanhando gado bovino ou cavalhada, entreveros,
escaramuças, emboscadas, motins, lutas entre guardas postadas nos passos dos
rios e escoltas avançadas, registraram-se às centenas no Paraná, Santa Catarina
e Rio Grande do Sul.
Antes das batalhas travadas no Paraná e em Santa Catarina,
dos ataques às fortalezas, muitas tiveram lugar no Rio Grande do Sul e, somente
na de Inhandui, empenharam-se mais de 10.000 combatentes.
Em carta ao marechal Floriano Peixoto, o general Joca
Tavares e o coronel Salgado anunciaram que trocavam a farda pela blusa de
gaúcho.
Após o bombardeamento de Porto Alegre, e com os
assassinatos no interior, era grande o movimento de famílias retirantes que se
refugiavam no Paraná e no Uruguai, gerando núcleos de maragatos prontos a
incursionar ao território riograndense. Era elevado o número de mortos e
feridos, milhares de pessoas abarrotavam as prisões. Havia ainda o saldo
sangrento das vinganças. Em Cruz Alta, enchiam a cadeia à noite e, pela
madrugada, os prisioneiros eram conduzidos ao matadouro para a degola. Numa
localidade próxima, quando houve tentativa de revolta, no governo do general
Barreto Leite, sobreviveram apenas as mulheres. Um rapaz de dezoito anos,
sozinho, matara mais de duzentas pessoas. No Rincão do Cadeado havia cento e
oitenta viúvas de degolados, no Rincão da Cruz – oitenta e seis. No lugar
denominado Boi Preto, foram sacrificadas setecentas pessoas. E também no Paraná
foram encontradas às dezenas os cadáveres dos que haviam sido mortos pelas
costas, uns atados aos outros. Algumas vilas ficaram desertas, viraram vilas
fantasmas, abandonadas pela população em pânico.
Na sua maioria camponeses pobres, foram os maragatos que
mais suportaram os horrores da guerra civil. Mas também eles se deixaram
dominar por sentimentos de vingança. Revela-o Angelo Dourado:
“Qual a idéia que obrigou Júlio de Castilhos a vender o Rio Grande do Sul
a Floriano? Seria o amigo que te
comprou?
– Então não é pela reabilitação do
nosso Rio Grande, do Brasil, que lutam?
– A princípio
foi, hoje porém, meu fim é outro, é a vingança.”
O
extenso município de Palmas foi, no Paraná, desde o início da guerra civil, o
que mais sofreu com excursões predatórias, invasão de casas, motins,
banditismo, degolamentos. A vila foi transformada em praça de guerra. Na
colônia militar improvisou-se laboratório pirotécnico, fábrica de pólvora e
cartuchos. No lugar chamado Boa Vista, Dwit e sua mulher, uma professora, deram
um baile em regozijo à capitulação da Lapa, num salão bem decorado, onde
dançaram a “Carmanhola”. Dwit foi degolado como o foram os irmãos Ribas,
Capoieira, Calçado, Tico, Maneco Pedreiro e Coca Mico.
Quando
os pica-paus dominaram Porto União da Vitória, Canoinhas e outras cidades
maragatas, recrutaram gente à força. Em Palmas, o coronel Caminha convidou os
cidadãos para formarem uma banda de música e, ao vê-la formada, obrigou-a a
marchar à frente de uma brigada para o Rio Grande do Sul.
Ainda na Capital Federal, os boletins da
tabuleta da Associação Comercial, anunciavam a invasão de Niterói, a tomada de
Magé e grandes feitos dos sublevados no Sul.
Cada
marinheiro era um gaúcho em sua embarcação, cada navio uma querência no
Atlântico a unir os maragatos do mar.
Antes, o
Riachuelo não pudera atracar na cidade de Rio Grande, e Eduardo Wandelkolk fora
levado preso para Santa Catarina. Agora, com a adesão de toda a Marinha, o
governo tratou de adquirir navios em vários países estrangeiros, que seriam
agrupados em Pernambuco, sob o comando de um general reformado. – “Armada de
Papelão”– diziam os maragatos.
Comandado
pelo bravo capitão de mar-e-guerra Frederico Lorena, na manhã de 17 de
setembro, o cruzador República forçou a barra, aproveitando a cerração, e
passou ileso entre as baterias das fortalezas. Da missão participaram célebres
oficiais: os primeiros tenentes Felinto Perry, Manoel Pacheco de Carvalho,
Aloísio Ribeiro Graça, Arnaldo Sampaio, Arlindo do Vale, Teotônio Pereira, e
segundos tenentes Honório de Barros e Eduardo Piragibe. Faziam parte da
tripulação o capitão Aníbal Elói Cardoso, Dr. João Pedroso Albuquerque
Sobrinho, Dr. Manoel Lavrador, capitão Miranda de Carvalho e o repórter João
José César.
Enquanto o
Aquidabã bombardeava as fortalezas, cegando-as com a luz dos holofotes, o Palas
– comandado pelo tenente Pio Torely, e o Marcílio Dias – comandado pelo tenente
Francisco de Matos, deixaram a barra pintados de negro e blindados com fardos
de algodão, rumo ao Sul. Outros barcos seguiram-nos. O República foi atacado em
Santos, respondendo ao fogo, abasteceu-se de carvão em São Francisco e,
vencendo a fraca resistência da fortaleza da Santana, aportou no Desterro,
capitaneando a divisão naval maragata.
Desterro –
seu povo de marinheiros – era um paquete rebelde, uma ilha de maragatos. A
esquadra foi recebida em festa. E ali terminava a epopéia do Uranus. Ao tentar
furar o bloqueio das baterias costeiras do Rio de Janeiro, o barco foi
seriamente avariado. Parando entre o Pão de Açúcar e a Ilha de Catanduva, com
as máquinas desarranjadas, a popa derreada, era peneirado pelas balas. Um
oficial içara a bandeira pedindo socorro e mais de cinqüenta homens lançaram-se
ao mar. Uma lancha que fora arriada cheia de gente, retornou quase toda
dizimada. Finalmente o Uranus derivou vagarosamente, refugiou-se atrás da ilha
e zarpou para Santa Catarina. Muitos civis e marinheiros morreram e, agora, os
feridos eram levados para o hospital, os tripulantes aclamados como heróis.
Desterro
tornou-se a capital rebelde, no dia 14 de outubro de 1893. O povo delirava em
meio a salva de tiros, música de bandas militares, o Palácio engalanado. Foi
proclamado e instalado o Governo Provisório, com a chefia do capitão de
mar-e-guerra Frederico Guilherme de Lorena, o qual nomeou ministros Aníbal Elói
Cardoso e João Carlos Moura dos Santos.
Visando a imediata conquista do Paraná,
o Governo Provisório decretou a mobilização da Guarda Nacional, procedeu ao
recrutamento geral, organizou forças, destacando algumas para Tubarão, Lages,
Joinville, Blumenau, etc. Em Itajaí, o Palas bateu numa rocha e naufragou. Em
conseqüência da instalação do novo governo, foram efetuadas muitas prisões e
mudanças no quadro do funcionalismo estadual.
Embora Porto Alegre, Rio Grande e outras
cidades continuassem nas mãos dos pica-paus, a bandeira vermelha tremulava nos
pampas, e agora a hasteava Santa Catarina. Ia começar a marcha sobre o Paraná.
A Marinha insurreta, a instalação de um
governo, a ocupação e arregimentação de Santa Catarina, davam condições para o
reconhecimento do estado de beligerância, pelo qual lutavam no exterior Rui
Barbosa e Gaspar Silveira Martins. Pareciam vitoriosas as razias, as sedições,
as guerrilhas maragatas.
A situação militar
Piragibe, sobrevivente do Uranus, organizou um Exército Libertador, com a
Polícia, o 25º Batalhão de Infantaria, o Btl. Fernando Machado, o Btl. Anita
Garibaldi, o Esquadrão da Cavalaria São José e uma bateria de artilharia. O
coronel Paulino chegara a Passos e Lages, enquanto o tenente Perry, do
República, expulsara inimigos pela fronteira do Araranguá.
Joca Tavares comandava 2.500 homens, a
ponto de sitiarem Bagé, depois que parte deles, com Cabeda, tomaram de assalto
Quaraim. As colunas de Salgado e de Gumercindo, com cerca de 5.000 combatentes,
penetravam em Santa Catarina. Mas estes maragatos já estavam exaustos,
esgotados, pobres e sem recursos, cansados de batalhas sem tréguas, marchando
por desfiladeiros e atoleiros, penando nas travessias dos rios, vencendo
escaramuças. Os lanceiros já se sentiam sufocados pela falta de ar da campanha.
Em Santa Catarina e no Paraná, o terreno apresentava-se próprio para as
guerrilhas dos matutos e não dos gaúchos.
Três colunas de pica-paus perseguiam os
rebeldes e pretendiam avançar sobre a retaguarda das forças de Gumercindo
Saraiva, de seu irmão Aparício e de Piragibe, para colocá-los entre dois fogos,
uma vez que, de São Paulo, marchariam tropas sob o comando do general Pires
Ferreira. A primeira coluna, no município de São Joaquim, comandada por
Pinheiro Machado e Rodrigues Lima, compunha-se de 4.000 homens; e a de Thomaz
Flores, no município de Vacaria, de 1.300 homens. Nas proximidades de Torres,
estava o general Artur Oscar, também à frente de 1.300 homens.
Perseguido pela coluna de Arthur Oscar,
o general Salgado lançou-se em direção à Laguna, atingindo-a com graves perdas.
Lá, embarcou suas forças no vapor Íris, chegando ao Desterro com mil
combatentes. Então as três colunas de pica-paus, de Artur Oscar, Pinheiro
Machado e Rodrigues Lima, atiraram-se ao encalço de Gumercindo Saraiva, o qual
percorreu os municípios de Lages e Canoas, sustentando neste os combates dos
dias 19 e 20 de novembro, embrenhando-se nos sertões, passando por Blumenau,
Joinville e Itajaí, descendo a São Francisco.
No combate do Serro de Ouro, em 10 de
agosto de 1893, as forças de Salgado e Gumercindo haviam feito junção,
obrigando as que estavam sob o comando
do coronel Portugal a se retirarem para São Paulo. No dia 25 de setembro,
a coluna Salgado teve a retaguarda cortada pela Divisão Norte, ao passar o
Ibicuí, no Passo de Mariano Preto.
O nome de Gumercindo Saraiva corria de
boca em boca, assombrando os sertões, adquirindo força de legenda, e em torno
dele já se originava um “fanatismo” que unificava em luta os camponeses
sulinos. Mas esse fanatismo para o qual concorria o apoio e a participação de
João Maria, o monge paranaense, unia os
sertanejos, enquanto já graçava desentendimento entre os chefes maragatos. No
campo militar, a tática consistia em “marchar desunidos e atacar unidos”, porém
no campo político ideológico definia-se como marchar desunidos e atacar mais
desunidos ainda.
Gaspar Silveira e Rui Barbosa procuravam
obter empréstimo para compra de armas e, ao mesmo tempo, queriam o
reconhecimento ao Governo Provisório e do estado de beligerância. Acreditando
que havia seiscentos contos de réis na alfândega de Desterro, insistiam que
lhes enviassem o dinheiro. De Montevidéu, Salto ou Buenos Aires, Gaspar
Silveira Martins ditava ordens de chefia. Todavia, convidados a comparecerem à
reunião, realizada no Desterro, para decidir os planos da revolta, não
compareceram.
Bravos patriotas, mas não monarquistas,
parlamentaristas ou separatistas, o almirante Frederico Guilherme de Lorena e
seus colaboradores não contavam com a aprovação de Gaspar Silveira Martins.
Este não aceitava a idéia de um Governo Provisório sem ele próprio e sem o
general Salgado. Não admitia que assumissem posições de relevo os ex-alunos da
Escola Superior de Guerra, positivistas, fautores da República, exprobando a
participação do major Aníbal Cardoso, que alegava ser um “comtista fanático”.
Opunha-se, igualmente, ao capitão João Carlos Mourão dos Santos, dizendo não
admitir “nem comtismo nem militarismo”. Procurando impor a nomeação do
Conselheiro Maciel para o Governo Provisório, por motivos que logo viriam à tona, ordenou a Custódio de Melo a
convocação do almirante Saldanha da Gama. Então a suprema chefia do movimento
passaria a Gaspar Silveira Martins e Saldanha da Gama, esclarecendo-se os
objetivos contra-revolucionários. O heróico almirante, ao rebelar a Ilha das
Cobras, levando a Escola Naval, seus comandados e os presos sentenciados que
mandou soltar, à luta contra a legalidade republicana, lançou um manifesto à
Nação, nos quais os tópicos abaixo dizem tudo:
“A lógica
assim como a justiça dos fatos autorizaria a que se procurasse a força das
armas repor o Governo do Brasil onde estava a 15 de novembro de 1889, quando
num momento de surpresa e estupefação nacional ele foi conquistado por uma
sedição militar de que o atual governo não é senão uma continuação.”
“É urgente que sua vontade impere e é pois imprescindível
que a sua vontade se manifeste clara a positivamente sobre sua resolução de
lançar fora esse jogo abominável de escravidão em que o militarismo de 1889 nos
quer reter.”
Os intuitos
restauradores foram, então confirmados pelas ordens-do-dia e cartas circulares
dirigidas a oficiais e comandantes de unidades. A acusação de jacobinismo
lançada contra o governo de marechal Floriano Peixoto, bem revela o seu caráter
nacionalista e democrático.
Diante da evidência das verdadeiras
causas do maior conflito social do Brasil muitos patriotas ainda puderam
verificar o erro em que incidiam e abandonar o movimento reacionário que
haveria de ser perdido não pelos bravos combatentes maragatos, mas em virtude
de seus motivos e de seus objetivos políticos irrealizáveis.
A GUERRA CIVIL NO PARANÁ
A Situação no Estado
Notáveis
homens públicos militavam na política paranaense, destacando-se Vicente
Machado, Generoso Marques, Barão do Serro Azul, Menezes Dória, e toda uma
inteligência aguerrida como o provam Sebastião Paraná, Domingos Nascimento,
Leôncio Correia, Rocha Pombo, Teófilo Soares Gomes e outros.
Menezes Dória merece referência
especial. Exercia a medicina na cidade de Ponta Grossa, envolvendo-se com a
esposa de um dentista que, enciumado, matou-a a facadas. A casa da tragédia, ao
lado da catedral, permaneceu longo tempo desabitada porque, segundo a lenda, as
manchas de sangue surgiam subitamente no assoalho. Foi um escândalo naquela
cidade, quando Menezes Dória no cemitério obrigou o coveiro a desenterrar a
pobre mulher para despedir-se sobre o caixão aberto. Dias após, num casamento
ao qual assistira, a banda musical tocou uma marcha, o povo cantando a letra
sobre o crime. Por fim, a população revoltada fez-Ihe o enterro simbólico,
carregando o caixão em passeata pelas ruas, expulsando-o de Ponta Grossa. Um
dia ele voltaria, recebido com bailes, banquetes e discursos, ao inaugurar a
Estação da Estrada de Ferro, exercendo o Governo do Estado, apoiado pelo
Quartel General de Gumercindo Saraiva. Era o mais exaltado de todos os
federalistas, como eram chamados os contra-revolucionários, sempre ao lado de
Generoso Marques, redigindo violentos editoriais no jornal partidário.
O Barão do Serro Azul, “Mauá
paranaense”, proprietário de engenhos de erva-mate e de serrarias, um dos mais
influentes homens das araucárias, tinha temperamento que o predispunha à
concórdia e à prudência. Ildefonso Pereira Correia, como se chamava, não seria
o homem digno de que seus contemporâneos dão testemunho, fiel e leal, se não
fosse ou se não se conservasse um monarquista.
A agitação política, no Paraná, vinha
de longe. Nos anos que precederam a Proclamação, o Teatro São Teodoro com seus
camarotes de arcadas mouriscas, platéia e galerias iluminadas a bico de gás, já
era palco de desentendimentos e tumultos nas sessões cívicas. Numa delas, a
festa acabou quando Menezes Dória atacou o governo “e a camarilha que o
cercava”. Pouco tempo depois, por ordem do ministro do Interior, foi conduzido preso a Paranaguá e,
de lá, a bordo de vapor para o Rio de Janeiro. A 22 de setembro de 1890, voltando
a Curitiba, teve apoteótica recepção.
Epaminondas Vilalba revela que, de outra feita, Menezes Dória empreendeu fuga
de uma prisão do Rio de Janeiro: “Este novo chefe político de tempestuosos
antecedentes, em companhia do dr. Hilário de Gouveia, conseguira evadir-se,
disfarçado, de uma prisão no Rio de Janeiro e embarcando-se para essa cidade
passou a fazer parte das forças de Gumercindo Saraiva, servindo no corpo de
saúde”.
Quando Floriano Peixoto reabriu o
Congresso Nacional, Generoso Marques foi deposto no Paraná, e seus principais
correligionários eram precisamente Menezes Dória e o general Aguiar de Lima.
Este militar exercia pressão, perseguindo os adversários políticos, intervindo
no processo eleitoral. Vicente Machado, eleito após a deposição de Generoso
Marques, viria a ser o principal alvo das investidas de Menezes Dória, do
general Aguiar de Lima, de Cordeiro Júnior e outros federalistas exaltados Em
julho de 1892, Menezes Dória, Emydio Westfalen e Cunha Brito, tentaram tomar o
governo. Ante as notícias de aproximação dos rebeldes, o golpe quase se
consumou através do coronel Barbosa, simpático à causa.
Numa brigada maragata, Menezes Dória
não ficava apenas no corpo de saúde, atirava-se a cavalo sobre as linhas
inimigas.
O Paraná já estava com o pescoço à
faca quando, no dia 16 de outubro de 1893, veio a público uma proclamação de
Vicente Machado, anunciando o estado de sítio.
O plano concertado pelos chefes
maragatos previa o domínio do Paraná, com um ataque conjugado por forças de
terra e mar, e uma revolta em São Paulo se,
nesse Estado, apontassem as tropas rebeldes. A situação foi compreendida
pelo alto comando pica-pau, e para o Paraná partiram batalhões formados por
estudantes e populares do Rio e de São Paulo. Os franco-atiradores cariocas
eram os mais detestados pelos “bombachudos” que a eles se referiam como
“molecada desclassificada”. No Paraná seria travada a batalha decisiva e selada
a sorte de pica-paus e maragatos. O projeto rebelde seria prejudicado pela
ausência do general Salgado, o qual permaneceria com suas tropas em Laguna, sem
ser solicitado pelo governo do Desterro. Face aos desentendimentos, quanto mais
vitórias obtinham as hostes rebeldes, mais perdidas ficavam. Uma
contra-revolução não poderia realmente conservar o poder, ainda que apenas num
ou noutro Estado.
Os matutos que engrossavam as fileiras
revoltosas eram chamados de periquitos, mas em sua maioria só davam combate nas
matas, emboscando os pica-paus.
Palmas foi território maragato, desde
a chagada de Prestes Guimarães, o qual tinha em ação mais de uma centena de
homens. Os grandes fazendeiros apoiavam os rebeldes, os agregados
acompanhavam-nos e, naquela região, era muito valiosa a colaboração do coronel
Vivida. Outro donatário, Amazonas Marcondes, colocara Porto União da Vitória em
mãos federalistas, franqueando-Ihes o rio Iguaçu e os vapores de sua
propriedade para o transporte de tropas, munições e mantimentos. Lá estava o
tenente Pio Torely, o comandante do Palas, a executar pica-paus. Antes de ser
fuzilado a bordo do Potinga, depois metido a pique, o capitão Anacleto degolou
mais de quarenta pica-paus.
Em Paranaguá, no dia 11 de janeiro de
1894, elementos da Guarda Nacional, chefiados por Teófilo Soares Gomes e
Narciso França, num levante fracassado, tentaram apoderar-se do porto. Nessa
ocasião, foram presos 42 políticos e 68 guardas nacionais. Se prevalecessem as
ordens do general Pego e de Vicente Machado, teriam sido passados pelas armas.
A guarnição da cidade, com 4 canhões, debelou a sedição. Mas esta contava com o
apoio até mesmo do prefeito Prisciliano Correia, comendador e primo do Barão do
Serro Azul, e de José Guimarães, comissário de polícia, os quais lançariam um
manifesto com vivas à Armada e ao Exército Libertador (rebelde).
Em Ponta Grossa havia manifestações
barulhentas em que federalistas, com espadas embainhadas provocavam o prefeito
Manoel Vicente Bitencourt. Em Morretes os grupos eram liderados por
tefegrafistas da Estrada de Ferro, nas arruaças. Na cidade de Antonina
prevalecia o maragato Teófilo Soares Gomes. No Tamandaré, próximo a Curitiba,
houve tumulto e um pelotão policial foi recebido a bala, um soldado retalhado a
facão. O major Vicente de Castro e Bodjack comandavam tropelias no município de
Palmeira. Bandos de colonos polacos assaltavam e saqueavam casas de comércio em
São Mateus e São João do Triunfo. Em Castro, Tibagi e Guarapuava, o Barão de
Monte Carmelo, Telêmaco Borba e Lacerda Werneck preparavam sua gente.
O marechal Floriano, a fim de barrar a
evolução das tropas rebeldes e acabar com a grande guerra intestina do Brasil,
nomeou para comandar o 5° Distrito Militar, o general Francisco de Paula
Argolo. Uma expedição com inúmeros oficiais leais ao governo, partiu para o
Paraná. Em Paranaguá juntaram-se à ela os oficiais paranaenses José Cândido
Muricy, Mário Alves Monteiro Tourinho e Cândido José Pamplona. Os comandantes
contavam com o 3° Regimento de artilharia, o 8° Regimento de cavalaria e o 17°
Batalhão de Infantaria. Na capital paranaense foi formado um batalhão de
voluntários, o “23 de Novembro”, com muita dificuldade, e foi convocada a
Guarda Nacional. Quando começou a luta, as deserções no batalhão de voluntários
levaram um general e exclamar: “Deus me livre dos patriotas!”
O general Argolo fez da Lapa o quartel
da força legal. De lá, foi acantonar em São Bento, onde fundou mais um governo
em Santa Catarina. Com reforço de mais de 700 combatentes, avançou de São Bento
para a serra, na qual poderia ter impedido a marcha do inimigo já esgotado, mas
ao pressenti-lo, ordenou retirada. Após algumas escaramuças, abandonou no Rio
Negro 130 armas, munições, fardamento e parte do arquivo do 17° Batalhão de
linha. Retornou a Lapa, de onde partiam pequenas patrulhas contra os invasores.
A verdade é que o general Argolo
deixara a força em estado de desânimo e derrota.
A estratégia rebelde consistiu na
invasão do território paranaense por forças conjugadas de terra e mar. A data
do ataque geral deve ter sido a de 11 de janeiro de 1894, dia em que fracassou
a sedição de Paranaguá. A situação dos pica-paus tornou-se difícil quando o
Exército Nacional Provisório, constituído por dois corpos, o primeiro comandado
pelo general Piragibe, o segundo pelo general Laurentino Pinto Filho, e mais o
Exército Revolucionário do Rio Grande do Sul, de Gumercindo Saraiva, todas as
forças chefiadas por este, ingressaram nas araucárias.
Em Tijucas havia uma pequena vanguarda
com menos de quinhentos pica-paus. As turmas destacadas abriam fossos à margem
do caminho, roçada na mata, e para impedir o avanço inimigo entulhavam os
fossos com obstáculos a possíveis investidas de cavalaria. Um pracinha carioca
que foi beber água numa fonte próxima, primeira vítima dos “bombachudos”, foi
degolado, enquanto seu companheiro salvou-se com a mão decepada.
No dia 11 de janeiro, Tijucas foi
atacada. A guarda, com 70 soldados do 5° Batalhão veio recuando até a vila,
onde tomou posição no flanco direito dos franco-atiradores, ante à carga da
cavalaria inimiga. Gumercindo Saraiva tinha certeza de vitória e declarara
levar a força “por delante, de tala erguida, a pelegro e a grito. . . no más”.
Mas os atacantes foram rechaçados pelos canhões dos tenentes Muricy e Maza, e
da fuzilaria dos soldados entrincheirados O primeiro relata que: “ora era um
cavaleiro cujo cavalo, ofuscado ou ferido, se arrojava violentamente ao solo;
ora era um animal que, depois de dura boleada, atirava seu cavaleiro naquele
torvelinho de homens e cavalos espantados, feridos, refugando cheios de pânico
ao espoucar da metralha que, a granel, inclementemente, caía sobre eles”.
A infantaria dos maragatos secundou a
ação de sua cavalaria, a qual foi destroçada. Das trincheiras e detrás das
carroças polacas em linha, os pica-paus infligiam graves perdas também aos
fuzileiros navais, aos marinheiros e ao 25° Batalhão de Infantaria, ainda que
comandados por valentes como Isidoro Dias Lopes, Jacques Ouriques, tenentes
Perry, Pio Torely e Gumercindo Saraiva. Com forças três ou quatro vezes
superiores em número, Gumercindo Saraiva beijava pela primeira vez o chão da
derrota, justamente no solo paranaense.
Então começou a fustigação de Tijucas
pela artilharia e fuzilaria inimiga. Gomes Carneiro, ao enviar reforços à
guarnição, cometeu talvez o seu único erro: substituiu o comando do coronel
Ismael Lago pelo do coronel Adriano Pimentel, veterano da guerra do Paraguai,
da qual saíra mutilado, agora em avançada idade. Gumercindo Saraiva deixou os
reforços passarem, para que rareassem ainda mais as provisões uma vez que
empreendia o cerco da praça. Na noite de 15 de janeiro, manobrou e cortou a
retaguarda, sitiando a posição. Das copas de pinheiros, de trás de árvores e
casinholas, os marinheiros começaram a caçar os pica-paus, que já nem podiam
sair das trincheiras. Mas de novo a artilharia e a fuzilaria do reduto
desbarataram os grupos de atacantes. Um violento assalto à retaguarda dos
defensores foi vencido por um ato de bravura de uma companhia do 17° Batalhão
de Infantaria, sob o comando do capitão Teodorico Gonçalves Guimarães. Os
soldados saíram das trincheiras a peito descoberto, avançaram por um terreno em
declive e desalojaram da mata os marinheiros. Na operação muitos foram mortos e
feridos.
Os pica-paus resistiam heroicamente,
mas no dia 18 o negociante Roberto Hauer chegou com uma proposta de capitulação
num telegrama do Barão do Serro Azul, a qual foi aceita pelo coronel Adriano
Pimentel, contra a vontade de seus comandados.
Tibúrcio, um bandoleiro, acompanhado
de mais alguns homens com fita branca no chapéu, saqueou o hospital e
assassinou friamente o capitão Leprevost. Depois refugiou-se em Canoinhas,
entre os fanáticos de João Maria.
A vitória que os pica-paus tiveram no
dia 11 levou o general Laurentino Pinto a dizer na ordem do dia: “(...) o revés
sofrido pelos bravos companheiros do 1° Corpo do Exército Libertador, no dia
11, quando tentaram assaltar as trincheiras inimigas, fez aventar a idéia de
uma retirada, desastrosa em todos os sentidos e das mais funestas para a
revolução”. (federalista, contra-revolução).
No Rio das Pedras, arredores de São
Mateus, uma emboscada dos maragatos colheu de surpresa um destacamento
legalista, do qual morreram 11 soldados, tendo sido ferido o comandante
Fredolin.
No litoral os federalistas brancos,
Teófilo Soares Gomes à frente, não ficariam decepcionados. No dia 13 de janeiro
o vapor Esperança foi repelido em Paranaguá, para onde haviam seguido 180
praças do 3° Regimento e 108 da Guarda Nacional de São Paulo. Mas no dia
seguinte desembarcou uma força que pôs em fuga a guarnição que se refugiou na
Ilha do Mel, onde foi aprisionada. No dia 15 a esquadra entrou na barra e ali
estava o legendário Uranus, sob o comando do paranaense tenente Costa Mendes.
Ao lado do Uranus, República e o Iris, vigiados ao longo pelo Aquidabã. Era o
desembarque das forças maragatas organizadas no Desterro e em São Francisco.
À machadinha, os marinheiros
liquidaram a guarnição de uma bateria na Rua 15 de Novembro, enquanto o povo da
cidade fugia. “– Mata pica-pau! mata!” gritavam os marinheiros ao tomarem
Paranaguá.
Depurada de desertores e de
federalistas brancos, a defesa concentrou-se no edifício da cadeia pública,
onde 76 pica-paus resistiram heroicamente.
A 16 de janeiro, Antonina recebia em
festa o vapor Iris, onde um piquete de 16 marujos, com um carrasco degolador,
foi para a terra e executou várias pessoas.
Em Paranaguá, o general instalou-se no
Rocio, mas retirou-se para Morretes e daí para Curitiba. No seu relatório, o
almirante Custódio de Melo diria:
“A luta
tornou-se renhida então de parte a parte e assim se manteve enquanto durou a
nossa passagem, lenta e propositalmente demorada, diante das seis bocas de fogo
que defendiam o litoral. Em meio do combate, o general de Divisão Antonio Maria
Pego Júnior, que se achava ocasional ou propositadamente em Paranaguá,
esquecido dos deveres inerentes ao alto cargo de Comandante em Chefe do
Distrito Militar, desapareceu inesperadamente, seguindo para Curitiba com todo
o seu Estado Maior e a quase totalidade de oficiais daquela cidade.”
Em Curitiba, o Comando do Distrito
Militar decidiria evacuar a cidade e partir para São Paulo, deixando aos
rebeldes uma composição férrea carregada de armas e munições.
“O ínclito general
Gomes Carneiro, escreveu, talvez, a mais admirável página da história militar
de um povo”. Floriano Peixoto.
As forças legalistas achavam-se
acantonadas nas cercanias da vila, passagem para os planaltos araucarianos.
Fechavam as portas da Pátria e do Paraná à contra-revolução, e patrulhas
fustigavam os rebeldes que já vinham pela estrada do Rio Negro.
A vila não era uma vila de pica-paus,
tinha muitos simpatizantes da causa contra-revolucionária, mas o prestígio de
Joaquim Lacerda, compadre, padrinho, bom patrão, era tão grande que os caboclos
da Guarda Nacional davam a vida pelo coronel, resistindo à fascinação exercida
por Gumercindo Saraiva, cujos cavaleiros traziam no chapéu vassourinhas do
monge João Maria. Os meninos da vila, quando se referiam à luta que se
avizinhava, não escondiam as suas preferências e diziam: “os nossos já vem
vindo”.
A missão de barrar a avançada
federalista na palma paranaense foi confiada a Gomes Carneiro, mineiro do qual
ninguém cobra derrama, primeiro voluntário da Guerra do Paraguai, provado na
defesa do Rio de Janeiro. Chegara a Lapa para hastear a bandeira de um sonho
secular e defendê-la. Contaria com uma plêiade de heróis. Mas os regimentos e
batalhões estavam desfalcados, fracionados, e seus efetivos – cerca de 700
homens – mal atingiam o de uma só unidade. Havia muitos voluntários,
principalmente paranaenses, porém sem treinamento militar, sem experiência de
fogo.
Em guerra de movimento, aproximava-se
o mais formidável exército de que se tem conhecimento na História, de valentia
e fúria inigualáveis. Dando combates sucessivos, avançava por campos e matas,
serras e desfiladeiros, empolgando a população sertaneja. Agora vinha com bom
armamento tomado ao inimigo, carroças e muares carregados. Na vanguarda,
gaúchos brandindo facões tarjados de sangue fresco, seguidos de ferozes
marinheiros com suas machadinhas. Não havia uma retaguarda propriamente dita,
pois era um exército com garras em todas as frentes, que se atirava inteiro
sobre o inimigo. A artilharia movia-se ao lado da infantaria e, às vezes,
antecedia a cavalaria. Formado de contingentes móveis, as regras de sua guerra
variavam de acordo com as circunstâncias. Compunha-se de soldados de linha,
fuzileiros navais, marinheiros, guardas nacionais catarinenses, estrangeiros de
Corrientes e Entrerios, nômades e servos do campo – caboclos e bugres – gente de briga recrutada na massa
semi-plebéia. Um gênio guerreador o comandava: Gumercindo Saraiva.
Afinal, aquele exército era movido por
um sentimento de revolta e de indignação, isto constituindo uma vantagem como
se estivesse conscientizados de uma causa justa. As ilusões pelas quais se
batia tinham a mesma força que o sonho secular defendido pelos pica-paus.
O general Argolo,
com a retirada injustificável, e depois o general Pego, abandonando o Distrito
Militar, deixaram o contingente legalista desacorçoado. Após a capitulação de
Tijucas, engrossadas ainda mais as forças que pretendiam envolver a Lapa, não
era de esperar-se uma batalha, porém um massacre. Carneiro, para não perder a
brigada cabocla de Joaquim Lacerda, manteve-se na vila, em posição
desfavorável. Tinha de transformá-la numa fortaleza, embora sem muralhas ou
paliçadas. Se eletrizasse a tropa com medidas severas de disciplina e civismo,
contaria com o peito aberto dos bravos. Urgia o tempo, e Carneiro mandou por a
pique os vapores do Iguaçu, fuzilar o quanto antes o tenente Torely e anunciar
o rigor das leis de guerra aos derrotistas, desertores e federalistas brancos.
Um trem foi preparado para a retirada de velhos, mulheres e crianças, mas as
mulheres exigiam que as acompanhassem os maridos, irmãos, noivos e filhos,
então Carneiro deixou que permanecessem na vila. Numa escaramuça, ele e dois
cavaleiros correram um magote de vinte maragatos. A sua tática consistiria em,
aproveitando a topografia do terreno, os acidentes, as casas públicas, impedir
assalto de cavalaria quanto o de marinheiros em luta corpo a corpo. Dispôs a
artilharia em pontos estratégicos, mandou cavar trincheiras e, no fim das ruas,
foram erguidas barricadas com pedras, madeira e sacos de terra, além de
caldeirões e alambiques de ferro de uma inacabada fábrica de conservas. Carros
de munição e provisões foram colocados próximos às sapas. Cercas de arame
farpado evitariam o bote dos lanceiros, o assalto de infantes e marinheiros,
fuga e traição dos federalistas brancos. (11) Carneiro acabou
impondo as condições da batalha decisiva, a mais importante da guerra civil
brasileira. Enfrentava um exército quatro ou cinco vezes superior em número e
não podia afastar-se da vila para não ver dissolvida a força e porque tinha
ordem de aguardar reforços que jamais chegariam.
Mas a guarnição florianista, agora com
moral, sabia que Gumercindo Saraiva dissera:
“Me tenia volvido a los pampas si no fuera El tirano que és preciso
tocar el poder...”
Equivocavam-se os que faziam blague
com o nome de Carneiro. Rugia ordens um leão indomável na pele do Carneiro. Obedeciam-no
os relutantes e, se era ríspido, visava disciplina, socorro aos feridos,
tratamento aos prisioneiros, assistência aos comandados. Tinha de lutar contra
intrigas, boatos e trama dos que procuravam minar-lhe a autoridade. Lá fora
estava o maragato paranaense Davi de Araújo e, cá dentro da vila, muitos
partidários de Menezes Dória.
Desde os
primeiros dias de janeiro, os feridos vinham sendo tratados no hospital
improvisado pelos médicos João Cândido, Felipe Wolf, Paula Xavier e alguns
enfermeiros, enquanto o doutor Albernás permanecia em casa “tocando flauta” e o
dr. Manoel Pedro foi para a cadeia.
Os acampamentos
dos arredores foram levantados e, na manhã do dia 14, o tenente Mario Tourinho
levou um trem de prisioneiros para Curitiba. No dia 15, as forças do coronel
Piragibe vieram bombardear as posições, encontrando cerrada resistência de
pica-paus emboscados na mata próxima. No terceiro dia, as guardas postadas em
locais altos e estratégicos tiveram de recuar para dentro da vila, submetida ao
canhoneio, à esta altura dentro de uma semi-elípse de fogos. Na madrugada de 17
de janeiro, um trem saiu com destino a Curitiba e, perto da mata do Capivari,
foi alvo das balas da brigada de Menezes Dória. Tomando a estação de Serrinha,
este respondeu aos chamados telegráficos para a Lapa, com a cumplicidade dos
funcionários. Telegrafou como se fosse o próprio coronel Carneiro,
declarando-se perdido e anunciando que milhares de rebeldes estavam marchando
sobre a Capital.
Houve pânico em
Curitiba e o general Pego fugiu, abandonando trens carregados de material
bélico.
Nesse mesmo dia, uma poderosa
cavalaria contornou a Lapa, estabelecendo um cerco, numa manobra de ataque em
todas as frentes. Na retaguarda ao norte, dava-se a principal arremetida, mas
de dentro do cemitério, com dois
canhões, a guarda de Joaquim
Lacerda fez recuar o
_______________________
(11) Simpatizantes
contra-revolucionários
inimigo. Na frente sul, um esquadrão de 150 cavalarianos
foi repelido e, no flanco esquerdo
leste, praças do Regimento de Segurança mantiveram aposição.
Aproveitando-se do avanço dos maragatos, Carneiro mandou Aristides Vilas Boas,
com guardas nacionais, cortar-Ihes a retirada, para envolvê-los entre dois
fogos. E os assaltantes acabaram batidos, desalojados das matas, sofrendo uma
centena de baixas, enquanto os sitiados tiveram 19 feridos e 5 mortos. Curitiba
fora tomada por telegrama de Menezes Dória, já estava ocupada, mas os rebeldes
estavam perdendo a guerra na Lapa.
Nos quatro dias seguintes diminuiu o
ímpeto do exército invasor. A luta prosseguiu com escaramuças, impedindo o
arrebanhamento de gado, enquanto de longe a artilharia espedaçava algumas
casas. O exército invasor já não prosseguia sua marcha vitoriosa. Os ponteiros
começaram a girar para trás no relógio maragato. Parara e recuara o tempo da
contra-revolução. Inexoravelmente, regredira no solo paranaense a campanha
rebelde.
Sabedor de que era espionado e que
moradores federalistas encontravam-se às escondidas com os sitiantes, Carneiro
viu-se obrigado a mandar atirar sobre desertores e fugitivos, incluindo as
mulheres. Os chefes maragatos sabiam que ele aguardava a chegada de reforços,
estavam bem informados sobre as posições e corrigiam com segurança a mira dos
tiros. Pagaram mais caro a sua traição João Prestes e seu compadre João
Lourenço, que punham David de Araújo a par dos planos da defesa. Ao serem
apanhados, saindo da vila por uma patrulha das fileiras de Juca Tigre, foram
degolados junto a um riacho.
Na madrugada de 22 de janeiro, Gumercindo
Saraiva aproximava-se perigosamente do povoado. Preparava o ataque e seus
comandados ocuparam sorrateiramente as matas e as casas do morro do Monge,
postando-se no vale e nas capoeiras que ladeiam o engenho de erva-mate e o
cemitério.
De manhã, três cavaleiros desceram a
encosta do morro, portando uma bandeirola branca. Mas Carneiro não admitia que
comerciantes pactuassem com os rebeldes, suprindo-os de dinheiro, armas e
munições, e viessem pedir rendição, procurando minar o moral da tropa.
Obrigou-os a galoparem de retorno, sob fuzilaria. E dos bosques e das casas
cedidas aos invasores, canhões, fuzis e metralhadoras despejaram fogo sobre a
vila...
Após expulsar mais um emissário, o
tenente Chiquet, e indignar-se com um ultimato que Ihes mandaram os comerciantes,
Carneiro viu os atacantes se atirarem às linhas e tomarem a estação da Estrada
de Ferro, o cemitério e o engenho. Os pica-paus ficaram fechados num círculo
incandescente de ferro e chumbo. Sua resistência era cada vez mais difícil,
enquanto em Curitiba já se fazia festa com proclamações e discurseiras
palacianas.
Carneiro era um
leão e rugia ordens para a retomada de posições. Numa investida fulminante,
apoiada de artilharia e fuzilaria, caladas as baionetas, os pica-paus,
desalojaram os assaltantes das matas e das casas ocupadas. No cemitério o
canhoneio rebentava e abria sepulturas para os maragatos que ali abandonavam
seus mortos. E o capitão Clementino Paraná, com apenas 22 homens, retomava a
estação, a golpes de coronha, só escapando ileso o seu corneteiro, pois ele
próprio caiu ferido.
Abrira-se um claro nas fileiras dos
pica-paus mas em meio aos cavalos mortos jaziam mais de cem maragatos, que
ainda deixaram uma dezena de prisioneiros.
À luz de velas ou lamparinas, nas
enfermarias os feridos eram tratados com iodofórmio ou sangria de sanguessugas
e, às vezes, submetidos a amputações de membros. Na igreja e em casas mais
seguras refugiavam-se as mulheres e as crianças. Muita gente na cadeia, mas
ainda havia quem espalhasse boatos e fizesse intrigas, conluiado com os
sitiantes. Lá fora, à espreita, Juca Tigre, a fera sobre o nome, e Cesário, o
Degolador.
O bombardeio continuou incessante,
derruindo a cidadela. O troar da artilharia começava com o toque de alvorada,
depois a fuzilaria, e só ao entardecer cessavam os fogos.
Na manhã do dia 27, Gumercindo Saraiva
enviou um emissário e Carneiro trancou-o no xadrês. Então os canhões
federalistas começaram a atirar para outro lado, simulando uma luta com os
reforços que estavam sendo aguardados na praça. A manobra visava desprevenir e
desmoralizar os defensores. Carneiro percebeu, ordenou prontidão e fogo
cerrado.
Num ataque demolidor, os sitiantes
tomaram simultaneamente o cemitério, onde instalaram artilharia, o Alto da
Cruz, além da Rua das Tropas, comprimindo os pica-paus em suas trincheiras.
Apesar das baixas entre os sitiantes, processava-se um lento aniquilamento da
resistência. Na praça, os canhões armados com lanternetas, impediam a arma
branca dos marinheiros, gaúchos e soldados de linha. Explodiam granadas nas
ruas e dentro das casas, defensores eram carregados às pressas com o peito
rasgado pelos estilhaços.
Nos primeiros
dias de fevereiro recrudesceu a batalha. Canhões dos navios de guerra ancorados
no litoral vieram reforçar o arsenal dos sitiantes e, foram assentados entre as
tumbas do cemitério. Após a chuva de ferro e chumbo, ataques de infantaria
foram a muito custo rechaçados. A força legal, muito reduzida, batia-se num
círculo estreito de sapas. Esgotados e em permanente vigília, numa tensão
angustiante, os florianista recostavam a cabeça sobre os braços, durante a
noite. Numa delas, o astuto Aparício, irmão de Gumercindo Saraiva, teve a idéia
de atar ao rabo de um jumento e de uma égua latas vazias de gasolina,
atropelá-los nas ruas escuras. O barulho infernal, confundido com o de uma
guerrilha noturna, fez com que os defensores desperdiçassem cerca de vinte mil
cartuchos.
No dia 4, Gumercindo Saraiva repetiu a
manobra de simulação de chegada de reforços em socorro ao baluarte. Aguardou
que se erguessem das trincheiras para começar um massacre, porém o ardil
falhou. Então os assaltos tornaram-se ainda mais violentos.
Um bombardeio
intermitente em dois dias seguidos, preparou um ataque geral às trincheiras.
Conluiados com moradores, os sitiantes aproveitaram a noite, ocultando-se em
casas e quintais de onde podiam atingir de surpresa os sitiados. Os combatentes
fuzilavam-se cara a cara, quando não se matavam à arma branca. Dois batalhões
de fuzileiros navais investiram contra a posição do Regimento de Segurança, mas
foram contidos quando, de espada em punho, caiu o seu próprio comandante
Cotrin. Os atacantes sofriam revezes, principalmente ao norte, onde Carneiro
dirigia a fuzilaria. Mas, repentinamente, numa das frentes, abriram-se as janelas
da casa de Francisco de Paula, de onde dezenas de maragatos começaram a dizimar
a trincheira da rua. Carneiro, acompanhado de ajudantes de campo, correu a
socorrer seus comandantes, ordenando um recuo até o prédio da farmácia. O
tenente Henrique dos Santos tombou mortalmente ferido e Carneiro, que tentou
ampará-lo, foi também atravessado por uma bala. Caiu, ainda, com o ventre
varado, Lebon Regis. O coronel Joaquim Lacerda e o capitão Sisson dispararam o
canhão sobre a casa da emboscada, enquanto o major Menandro Barreto fez
explodir lá dentro uma carga de dinamite. Ao arrombar a porta e entrar atirando
numa outra casa, José Amintas da Costa Barros foi fuzilado. Na igreja, a vítima
foi o Coronel Dulcídio, atingido por um projétil.
À tarde, em meio a centenas de mortos
e feridos, retiraram-se os assaltantes. À porta da casa de Francisco de Paula
jaziam empilhados os corpos de vários federalistas, e lá dentro estavam os
cadáveres de toda a sua família.
Sob o assoalho da igreja eram
enterrados os mortos, mas prosseguiam os duelos de artilharia, com os maragatos
desejando vencer pela fome e pela fadiga. Embora acuado e ferido, encurralado
na cidade gruta, Carneiro tornava vitoriosa a República e a Revolução
Brasileira. Mas na manhã de dez de fevereiro, coberto com a bandeira do 17°
Regimento de Infantaria, transladado à sacristia por um grupo de oficiais, o
corpo de Carneiro foi inhumado.
Os oficiais chegaram a firmar um pacto
de morte, comprometendo-se a lutar até o último homem, porém já haviam cumprido
o seu papel glorioso. Não ganharam a guerra, mas conquistaram a paz para o
País. O sacrifício dos pica-paus conscientizou a Pátria, encheu de brio as
forças da legalidade, salvou a República.
Os federalistas alardeavam, no Brasil
e no mundo, vitórias e conquistas, feitos da Armada, domínio de Santa Catarina
e, finalmente, do Paraná. Neste Estado sucediam-se reuniões solenes, com bandas
de música, e nos teatros e salões engalanados era comemorada a vitória dos
rebeldes. Novas forças eram mobilizadas e, em toda parte, brotavam os batalhões
de voluntários. Tudo era festa e as cidades do interior competiam com Curitiba.
Mas, na Lapa, eram fuzilados, à
socapa, os pica-paus que não procuravam refúgio. Piquetes de bandoleiros em que
se transformaram alguns combatentes, saqueavam fazendas, violentavam mulheres,
decepando as cabeças dos homens amarrados. Já no trem dos capitulados, um
sargento foi arrancado do vagão e decapitado à margem da linha. Imitavam
Cesário Degolador o major Amora, Felício Rato e Vila Nova, que andavam à cata
de pica-paus para cortar-Ihes os pescoços. O cabo Fuão Pinheiro comprava
pica-paus a cinqüenta mil réis por cabeça. Em Palmeira penduraram cabeças nos
postes das ruas. Em Carambeí aplicavam o “suplício da estaca”. Em toda a parte,
bandidos sem causa aproveitavam a ocasião para praticarem toda sorte de crimes.
O major Menandro
Barreto, que na Lapa dinamitara a casa de tocaia federalista, foi cortado em
pedaços, depois de cavar a própria cova, junto ao depósito de pólvora de Curitiba.
No pátio do quartel do 8° Regimento de Infantaria foram enterrados os corpos de
degolados ou fuzilados, executados ora por vindita, ora por atos de
desobediência ou indisciplina. Ao ser descoberta uma tentativa de sedição nas
forças, várias execuções foram ordenadas. Muitos florianistas foram levados ao
paredão do cemitério.
As comemorações prosseguiam com
proclamações, discursos, missas e funerais pomposos, banquetes, bailes e
passeatas. A população curitibana colaborava com os rebeldes, damas serviam de
enfermeiras nos hospitais. O funcionalismo público passou a apoiá-los, a
exemplo do Superior Tribunal de Justiça.
Assim que o general Pego determinara o
abandono da Capital pela tropa do Distrito Militar, o Estado passou a ser
dirigido por uma Junta Governativa, presidida pelo Barão do Serro Azul, o qual
pediu a participação de Generoso Marques. Já no dia 20 de fevereiro, o delírio
tomara conta das ruas de Curitiba. Menezes Dória entrou na cidade à frente de
150 cavalarianos e, de um trem especial, desembarcaram o almirante Custódio de
Melo, Teófilo Soares Gomes – que conspirava no litoral, oficiais da Marinha e
do Exército. Então Menezes Dória foi aclamado governador.
O Teatro São
Teodoro era pequeno para as reuniões. Então a Junta Governativa transformou-se
em Comissão para Lançamento do Empréstimo de Guerra, tratando de arrecadar
fundos para os rebeldes. Além do Barão do Cerro Azul, compunham-na vários
comerciantes com acesso ao cadastro da Associação Comercial. Outras comissões
foram organizadas no interior do Estado, subordinadas àquela, presididas por
barões, comendadores e coronéis políticos. O Barão do Serro Azul emitia ordens
de pagamento pelo telégrafo. Em Palmas quem as recebia era o comerciante
Antonio Joaquim da Cruz. Em Castro, o Barão de Monte Carmelo angariou trinta
contos de réis e enviou tropa de mil rezes. No norte, Telêmaco Borba invadiu a
Fazenda Curralinho e arrebanhou 600 mulas.
Ainda que o Barão do Serro Azul e
outros comerciantes procurassem evitar saques e desordens, comprometiam-se
irremediavelmente com o movimento rebelde.
As redações dos jornais recebiam
centenas de cartas de cidadãos que aderiam a Menezes Dória, declarando terem
sido iludidos pelo governo dc Vicente Machado. Dezessete oficiais, antes
pica-paus, diziam num documento:
“(...) a
marcha do batalhão para o sul da República tinha por fim o impedimento da
invasão de um exército anarquisador que queria a restauração da Monarquia” e
“(...) considerando que ao enfrentar-se com o inimigo foi surpreendido ao ver
distintos e reconhecidos correligionários à frente de suas forças militarmente
constituídas a se baterem pela República civil, pondo de margem a intervenção
de militarismo nos negócios do País.”
Até mesmo um militar como Vilas Boas,
que se portara heroicamente na defesa da Lapa, deixar-se-ia enganar pelos
acontecimentos, julgando justo e vitorioso o movimento rebelde.
Menezes Dória
dispunha dos fundos da comissão, de acordo com as diretrizes do Governo
Provisório, instalado no Desterro, favorecia o Exército Nacional Provisório,
aproximando-se do general Laurentino Pinto Filho, com preterição às forças de
Gumercindo Saraiva. O primeiro comandava tropas bem armadas e uniformizadas,
enquanto as de Gumercindo estavam em precárias condições.
O Rio Grande do
Sul, verdadeira paixão dos maragatos, não fora dominado. Lá permaneceram Joca
Tavares com suas forças e para lá retornara também o general Salgado, agastado
com os chefes do Desterro. Já grassava o desentendimento entre os insurretos,
envolvendo Gaspar Silveira Martins, Custódio de Melo, Frederico Lorena, Luiz
Salgado, Gumercindo Saraiva, Saldanha da Gama e Anibal Eloy Cardoso. E os
últimos acontecimentos políticos no país, com a eleição de Prudente de Morais,
que não era o candidato de preferência de Floriano, desmentiam os argumentos
contra-revolucionários (rebeldes). Para a dissolução latente, observada por
Angelo Dourado, contribuíam o manifesto monarquista do almirante Saldanha da
Gama, a sua capitulação, e a ocorrência de saques e execuções sanguinárias.
Fato novo na história da pátria, o feito dos pica-paus na Lapa exaltava o ânimo
legalista, conscientizava o povo, unificava os patriotas, esvaziando a reação
maragata.
Sem o apoio aguardado, na Guanabara, o
almirante Saldanha da Gama refugiou-se em navios portugueses, com 493 rebeldes,
no dia 13 de março daquele ano de 1894. E Piragibe recuou de Castro, pois a
resistência da Lapa acabou com os planos de invasão do Estado de São Paulo. O
retorno dos rebeldes ao Rio Grande do Sul seria a grande contramarcha, até a
total dissolução do movimento. Gumercindo Saraiva, em telegrama a Custódio de
Melo, pedia que atacassem o porto do Rio Grande, dizendo: “(...) Salvemos, pois
o resto da valente esquadra, engrandecendo a revolução, e alcançaremos pelo
menos a independência do nosso caro Rio Grande”.
O Exército Nacional Provisório, sob o
comando do general Laurentino Pinto Filho, embarcou em Paranaguá. Menezes
Dória, com o produto do empréstimo de guerra, a pretexto de comprar armas no
estrangeiro, abandonou o Estado. Ao empreender a contramarcha dividindo suas
forças que caminharam milhares de quilômetros sacudindo os sertões, despertando
e levantando camponeses, esgueirando-se em fuga e repontando para atacar,
Gumercindo Saraiva deu as costas para Curitiba.
A norma da luta
entre pica-paus e maragatos era o saque, o incêndio, a violação, a degola, o
massacre e o carcheio dos cadáveres. A vingança campeava onde cessaram os
combates.
No Desterro, o
general Moreira César comandava bárbaras execuções, fazendo uma centena de
vítimas, a começar com as do almirante Lorena, do Barão de Batovi e seu filho
Gama d'Eça. Em Curitiba, o general Everton de Quadros arvorara-se em “O
Vingador”. Considerava missão de seus comandados a de se tornarem “vingadores
da lei e da moral ultrajadas”.(12) Contando com os oficiais Joaquim
Augusto Freire e Ataliba Lepage, imbuídos do mesmo propósito, deu início às
perseguições, às demissões de funcionários, às buscas e capturas, abarrotando
as prisões e transformando em presídio o Teatro São Teodoro. Os fuzilamentos começaram com os
do major Amora, Manoel Neto da Costa Magalhães,
Cândido Lopes Ribeiro, Vila Nova e
Felício Rato, este não antes de ter os braços quebrados. No Rio Negro foi
executado Matias Becker, enquanto Francisco Buch e Artur Vicente tiveram morte
nas barrancas do Rio Negrinho. Em Paranaguá foram executados junto ao muro do
cemitério os majores Colônia e Pedro Nolasco, o primeiro porque traíra os
florianistas, e este porque comandara, no governo de Menezes Dória, o Regimento
de Segurança. Também foi executado Francisco Bragal, o qual dirigia a ação dos
lapeanos que apoiavam os maragatos.
_______________________________
(12) Na
ordem do Dia nº 19.
O massacre do Pico do Diabo, ocorreu
na noite de 20 de maio de 1894. Uma escolta fez embarcar no trem o Barão do
Serro Azul, Preciliano Correa, José Lourenço Schleder, José Joaquim Ferreira de
Moura, Rodrigo de Matos Guedes e Balbino de Mendonça. Quando o comboio parou à beira do despenhadeiro, do vagão mal
iluminado à lamparina os presos foram arrastados à força pelo pelotão. Matos
Guedes atirou-se pela janela do trem, mas recebendo a descarga da fuzilaria,
rolou pelo precipício. Balbino de Mendonça, agarrando-se ao vagão, teve os
braços quebrados a coronhadas, e foi abatido
a tiros de
revólver. O Barão do
Serro Azul ajoelhou-se, mas em meio a rogos, gritos,
gemidos e choros, os prisioneiros foram trucidados.
Os atos de banditismo, que mereceram a
condenação pública, foram também reprovados por comandantes maragatos e
combatentes pica-paus. Clementino Paraná,
herói ferido na resistência da Lapa, ao saber do
massacre do Pico do
Diabo, dirigiu-se ao edifício da Câmara de Paranaguá e pôs em liberdade todos
os presos que lá se encontravam.
Entretempo, Gumercindo Saraiva
dividira suas forças em três colunas. Ele, pelo centro, transpôs o Iguaçu, em
Porto União da Vitória; Juca Tigre tomou a direção de Guarapuava; Aparício
Saraiva e Torquato Severo, com toda a artilharia, foram pela Lapa rumo ao Rio
Negro. O plano consistia numa junção de tropas em Palmas.
Mas a expedição ao Rio Grande do Sul
fracassou. A perseguição movida pelas forças de Pinheiro Machado e Arthur Oscar
aos destroços maragatos transformou-se numa caçada impiedosa. Combatendo em
diversos lugares, Gumercindo Saraiva parecia comandar uma legião fantasma. Aqui
e acolá, grupos de matutos davam-lhe cobertura, para depois se dispersarem nas
matas. Mas ao alcançar a região riograndense, o grande chefe foi mortalmente
ferido no Carovi, no dia 10 de agosto de 1894. Assim, a guerra foi perdida na
Lapa, mas acabou no Carovi. As guerrilhas continuaram, mas perderam a força de
um movimento nacional, ou mesmo regional, embora estivesse ativa a “velha
guarda” com Joca Tavares, Saldanha da Gama, Rafael Cabeda, Guerreiro, Juca
Tigre, David Araújo, Vasco Martins, e tantos outros. Em fevereiro do ano
seguinte, Piragibe ainda mostrava sua bravura, transpondo o Quaraim. E, nas
cercanias de Bagé, galopava intrépido o esquadrão de Aparício Saraiva.
Vigiando as fronteiras, o temível
coronel João Francisco, à frente de uma força de 600 homens, era o carrasco a
degolar os grupos de remanescentes rebeldes em fuga para o Prata. Chegara a
telegrafar ao governo, vangloriando-se de que na região só restavam vivos, e em
pé, ele e seus contingentes. Venceu a última batalha, na qual Saldanha da Gama
tentou invadir o Rio Grande do Sul, em 24 de junho de 1895, à frente de
marinheiros. Mortos ou feridos, os vencidos foram todos degolados, e o heróico
almirante, estocado depois de cair, ainda teve o corpo mutilado, arrastado no
acampamento.
O “Protocolo da Pacificação”, de 10 de
julho de 1895, assinado pelos generais Galvão Queiroz e Joca Tavares, selou o
fim da contra-revolução, já derrotada, numa das mais terríveis guerras-civis
da História. Nascera uma nova Nação, fundidos os sentimentos de brasilidade de
pica-paus e maragatos, mas ainda dominaria o interior a oligarquia rural.
O Paraná e Santa Catarina constituem
uma só região geográfica, e a divisão política atendeu a interesses de partilha
de seus bens entre as oligarquias.
A demarcação de limites com o
Paraguai, normalizou-se após a guerra com esse país, e com a Argentina foi
assinado um tratado em 1894. O território paranaense situado entre os rios
Iguaçu e Uruguai teve uma metade cedida à Santa Catarina em 1916. Mas foi
disputado palmo a palmo por companhias estrangeiras e coronéis políticos, em
prejuízo dos camponeses. Bem ao centro, erguiam-se ranchos de tropeiros e o
lugar tinha o nome de seus povoadores: Curitibanos. Por lá transitavam, há
pouco tempo, milhares de mulas, cavalos e vacas, na Estrada de Tropas. De
Curitibanos a Rio Negro existia uma extensa faixa de floresta.
Nos municípios de Canoinhas e de
Palmas ficou a maior parte dos perseguidos políticos, dos maragatos paranaenses
dispersados durante a retirada de Gumercindo Saraiva. As vilas, misto de aldeia e cidade, tais como Porto União da
Vitória, onde o donatário Amazonas Marcondes dividira parte de sua enorme fazenda
“Passo do Iguaçu” para vender lotes a colonos, exportavam erva-mate, gado, lã,
crinas, queijos e carnes. Em contrapartida, importavam sal, arroz, café,
farinha, tecidos, ferragens, louças, além de pólvora e chumbo.
O Paraná dominado pelos pica-paus
provocava ressentimentos e desejos de desforra naquela zona infestada de
fugitivos e desertores, ocupada por fazendeiros e posseiros agastados com a
política de terras do governo paranaense.
As feridas da guerra civil não
cicatrizavam. Demétrio Ramos e Aleixo Gonçalves de Lima, velhos chefes maragatos,
agora servindo a interesses de coronéis catarinenses, chegaram a organizar
movimento armado de oposição ao Estado do Paraná, o qual procurava
jurisdicionar o território.
Assinalando a fase crítica de nossa
história, Euclides da Cunha sente as conseqüências da guerra civil em “Os
Sertões”:
“A pique ainda das lamentáveis conseqüências da sanguinolenta guerra
civil que rematara ininterrupta série de sedições e revoltas, emergentes desde
os primeiros dias do novo regime, a sociedade brasileira, em 1897, tinha alto
grau de receptividade para intrusão de todos os movimentos revolucionários e
dispersivos.
(...) O governo civil, iniciado
em 1894, não tinha a base essencial de uma opinião pública organizada.
Encontrara o país dividido em vitoriosos e vencidos.”
O coronel Moreira César, o algoz de
Santa Catarina, foi vencido e morto na Campanha de Canudos, em 3 de março de
1897, e no Rio de Janeiro todo o povo acreditava na reorganização das forças
reacionárias, restauradoras ou monárquicas.
Diz Euclides da Cunha:
“Já era tarde
e a excitação do povo aumentava na proporção de uma massa sempre crescente;
assim nesta indignarão lembram-se dos jornais monarquistas, e todos por um, em
um ímpeto de desabafo, foram às redações e tipografias dos jornais “Gazeta da
Tarde”, “Liberdade” e “Apóstolo”, e
apesar de ter a polícia corrido para evitar qualquer assalto a esses jornais,
não chegou a tempo de evitá-lo, pois a multidão aos gritos de viva a República
e à memória de Floriano Peixoto invadiu aqueles estabelecimentos e destruiu-os
por completo, queimando tudo.”
No início do século XX, o Paraná
colhia frutos da expansão cafeeira, surgindo no norte as vilas de cafeicultores
paulistas – Jacarezinho (1900), Cambará (1904). Bandeirantes e Cornélio
Procópio viriam em 1921 e 1924. Antes havia a Colônia Mineira (Siqueira
Campos), Venceslau Brás e São José da Boa Vista. Só no ano de 1930, após a
venda de área ao Príncipe de Gales, realizar-se-ia o grande surto com a
Companhia Paraná Plantations.
Mas as negociatas de terras começaram
logo que terminou a luta entre pica-paus e maragatos.
Com
a descentralização política instituída pelo regime federativo, os Estados mais
ricos e populosos foram os mais beneficiados. Podiam contrair empréstimos no
exterior, decretar impostos sobre exportação, possuir corporações militares,
constituição e código eleitoral próprio. Com a forma federativa, o foco do
Poder estava nos Estados e a organização deles era o problema fundamental do
regime. Através da “política dos governadores”, Campos Sales apoiou-se nos
presidentes dos Estados, e as representações estaduais no Congresso ficavam a
cargo dos grupos que dominavam os governos estaduais, e a União não intervia
nas políticas regionais. Livres de interferência do poder federal, os grupos
dominantes tinham assegurada a sua perpetuação no poder, anulando as pretensões
eleitorais das oposições. Em troca, apoiavam incondicionalmente o Governo
Federal. Assim, a “política dos governadores” consolidava o coronelismo,
organização social e política da Primeira República. Os proprietários rurais
dominavam o processo político, elegendo vereadores, prefeitos, deputados,
senadores, presidentes de Estados. O próprio Campos Sales representou no país o
domínio político da oligarquia rural cafeeira, estabelecendo a aliança São
Paulo-Minas, conhecida como a política do “Café com leite”, que caracterizou o
que os historiadores designaram “República do Café”. Nesse período, os
interesses urbanos ficaram submetidos aos rurais e predominaram os interesses
dos cafeicultores, a ponto do Estado comprar o produto para manter o preço no
mercado. Sob o governo de Campos Sales houve o surto de aplicação de capitais
estrangeiros, tornando-se deles dependentes a nossa economia. A pretexto de
reerguimento financeiro nacional, operou-se a transferência de várias estradas
de ferro para empresas particulares e favorecimento às manufaturas do exterior,
o que provocou a ruína de empresas nacionais. A questão de pagamento da dívida
externa veio, então, agravar-se no governo de Hermes da Fonseca.
Em 1908, fim do período presidencial
de Campos Sales, a Brasil Railway, empresa norte-americana, apoderou-se de
enorme área do Brasil, equivalente a de vários países euroupeus, após
conquistar extensas redes de estrada de ferro, portos, monopólios de força
elétrica, iluminação e viação urbana. Controlava, aqui no Sul, a Estrada de
Ferro São Paulo–Rio Grande que, em 1912, cortava o território do Contestado, de
norte a sul, de Porto União da Vitória a Marcelino Ramos, do rio Iguaçu ao rio
Uruguai. Com polícia particular de duas centenas de homens, expulsava posseiros
das terras que Ihe foram concedidas e dominava levantes de trabalhadores, os
quais foram abandonados após a conclusão das obras. No Paraná, com a
aquiescência dos governantes, a Railway tomaria posse de seis bilhões de metros
quadrados. Era seu advogado o próprio Vice-Presidente do Estado, o dr. Afonso
Camargo, no governo de Carlos Cavalcanti. O dr. José Niepce da Silva, então
Secretário de Obras Públicas denunciando o surto de uma formidável advocacia
administrativa, contra a qual insurgiu-se, demitia-se do cargo.
A Brasil Railway, para explorar terras
laterais à Estrada (a concessão era de 15 quilômetros de cada lado da linha), e
outras que adquiriu, como os 180 mil hectares ao sul dos rios Negro e Iguaçu,
próximos de Canoinhas, a 15 mil-réis o hectare, criou uma subsidiária: a Lumber
Colonization. Aproveitando os préstimos do dr. Afonso Camargo, seu
intermediário, ainda contratou com fazendeiros da região o corte de madeiras,
montando serrarias em Três Barras, a duas léguas de Canoinhas e em Calmon. Com
o monopólio do transporte, liquidando pequenos e médios engenhos nacionais,
tornou-se a Lumber a maior companhia madeireira da América do Sul e das maiores
do mundo.
Além da Lumber, outras companhias
estrangeiras penetraram na região, especulando com terras: a Hansa, a Piccoli e
a Hacker. Uma vez burlada a legislação sobre terras devolutas, os coronéis
políticos procuravam legalizá-las para si, para os protegidos e apadrinhados.
A
massa componesa semi-plebéia aumentava consideravelmente no território. O
regime de servidão nas fazendas gerava contingente de agregados, de intrusos,
de gente desocupada ou à cata de serviços. A Lumber podia lamber a floresta com
um número muito reduzido de empregados. Com a ruína das serrarias nacionais,
agravou-se o problema do desemprego. Além disso, o trabalhador da indústria
extrativa de madeira é pouco menos que um escravo, não vê dinheiro, é obrigado
a trabalhar longas jornadas, sem descanso, sem domingos e feriados, trocando
vales nos armazéns das próprias empresas. Com a conclusão das obras da Estrada
de Ferro, milhares de trabalhadores com suas famílias permaneceram ora nos
cochicholos dos acampamentos, ora nos ranchinhos marcando posses. Uma numerosa
massa semi-plebéia sofria a exploração semi-feudal, a opressão das companhias e
dos coronéis, e aguardava a salvação.
A IDADE MÉDIA
NA EUROPA E NO BRASIL REPÚBLICA
A
História mostra que as insurreições camponesas, nas condições medievais e de
transição para os tempos modernos são lideradas por rebeldes de Bíblia nas
mãos. Talvez o motivo fosse o de que na Bíblia revelava-se o cristianismo
primitivo e simples em oposição ao cristianismo feudal da época.
Pior
que a “morte negra”, peste vinda da Ásia, já era o jugo servil nos anos de 1348
e 1349, na Europa. Na década seguinte, a Jacqueria abalaria a França, e
Guilherme Caillet seria torturado com uma coroa de ferro candente – o “rei
camponês” – antes de ser decapitado, com os outros enforcados e queimados nas
árvores. Os “Jacques” sucumbiram aos milhares durante as cinco semanas do
levante.
No
século XIV apareceram as primeiras traduções da Bíblia e, na Inglaterra,
repetia-se com insistência o refrão popular de uma poesia:
“Enquanto Adão
arava e Eva tecia,
quem era então o nobre? “
John Bahl achava que a vida social pode ser comparada a um
campo. “O agricultor inteligente arranca as ervas daninhas para que as boas
sementes possam germinar. Ora, os senhores, os advogados, os juizes são
precisamente as ervas daninhas que sugam a seiva de todas as forças sociais.”
Em
1381, Wat Tyler, Jack Straw, John Ball, John Litlwood e Richard Welingford, à
frente dos camponeses sublevados, marcharam sobre Londres, e muitos foram
queimados vivos, uma vez sufocada a revolta. Na Catalunha, teve lugar em 1484,
a liderada por Pedro Juan Sala, também executado.
Ao
traduzir os livros religiosos do latim, João Huss reclamava a revogação da
servidão, dos tributos feudais, confisco de terras e a livre eleição do clero.
A 6 de julho de 1415, foi queimado o herói tcheco. E durante o movimento dos
taboristas, a atmosfera já estava impregnada de idéias redentoras e visões
apocalípticas.
Teólogos,
oficialmente considerados hereges, influenciavam as massas camponesas,
conduzindo-as à luta armada. Era pregada, com insistência, a volta à pureza de
Adão e Eva, antes do pecado original. Em fins de 1419 irrompeu um movimento
quiliástico que conquistou o povo, estabelecendo a crença na ressurreição de
Cristo, instauração do reino milenar de felicidades, e da ressussitação dos
mártires. Difundia essas idéias o padre Martinek Huska, o “Eloquente”.
Nos levantes dos plebeus do campo,
eram pregadores os elementos mais pobres do clero.
Em 1476, fez-se profeta no vale do Tauber um jovem
pastor e músico, Hans Bohein de Niklashausen, o “Timboleiro”. Exortava o povo à
penitência e à renúncia, preparando-o para a revolta. E os anabatistas,
liderados por Nicolau Storch, também anunciavam o juízo final, o novo milênio,
tinham visões, êxtases e o dom da profecia.
Enfim,
em todas as insurreições camponesas nas condições feudais, prevalecem o
misticismo, o ascetismo e a pregação de volta ao cristianismo puro.
Em 1524 começou, na Alemanha, a Grande
Guerra Camponesa, e seu inspirador, Tomas Munzer, sacerdote, unira-se aos
anabatistas. As exigências camponesas estavam nos “Doze Capítulos”. Essa grande
guerra terminou com o massacre de cem mil camponeses, as aldeias arrasadas, e
nem as mulheres e crianças foram poupadas. Tomas Munzer foi decapitado, depois
de torturado. Nela, Lutero incitava a “golpear, estrangular e apunhalar os
camponeses como a cães danados”.
A luta camponesa é gerada pelo regime
servil, mas é, em primeiro lugar, uma luta pela terra. Essa reivindicação
material é a principal de todas, embora algumas vezes não seja tão clara. Elas
ainda se caracterizam por outras exigências como as de direito à caça, à pesca,
a pasto e pomares, a plantio para sustento próprio, por remuneração ao
trabalho, supressão de pagamento por meio de vales, extinção do sistema de
parceria, além da reivindicação de preços e transporte para os produtos. Nas
condições medievais da Europa e das ocorridas no Brasil, elas não contam com um
plano prévio, desenvolvem-se espontaneamente, sem apoio urbano, sem objetivos
políticos definidos, contando apenas com a simpatia de pobres e vagabundos.
Fracassam por carecerem de organização, apoio e consciência de objetivos.
A Grande Guerra Camponesa do Brasil,
travada no território que ficou conhecido como Contestado, teve, ainda, como
uma de suas principais características materiais a reivindicação nacionalista,
aqui inseparável da luta pela terra e da libertação do jugo servil.
Para
o conhecimento de nossa própria realidade nacional, é preciso esclarecer que,
no fim de uma Idade Média, a época é de crise, guerras e rebeliões, prenúncios
de uma nova era. A transição para os tempos modernos se faz por uma longa série
de lutas sociais, nacionais, em que têm lugar as camponesas.
Ao florescer na Inglaterra, fábrica do
mundo, a indústria manufatureira, houve como aqui no Brasil a usurpação de
direitos sobre as terras com expulsão de camponeses. Lá era a política dos “cercados”. Pelos caminhos da
Inglaterra vagavam, então, multidões de mendigos e desocupados. Daí resultou a
insurreição geral, quando três mil rebeldes foram degolados, e um número maior
preso e executado, enquanto Robert Kate era enforcado na praça de Narwick.
No Brasil da Primeira República, não
eram teólogos os que reuniam e conduziam os camponeses para a revolta. Onde
fermentava a indignação contra a miséria e as injustiças, destacava-se da
multidão de vagabundos um tipo de profeta caboclo, conselheiro, curandeiro e
andarilho. No princípio, o cajado era mais poderoso que o canhão, e a fantasia
armava o espírito do povo, enchendo-o de esperanças. Estavam presentes ao longo
das sesmarias, o misticismo, o ascetismo e a pregação quiliástica
Eram
três os principais caminheiros sublimes nos sertões do Brasil: Antonio
Conselheiro, João Maria e José Maria. Com eles ou apenas com a sua pregação
afinavam-se elementos que compunham a fração plebéia do clero.
Antonio Conselheiro era o monge do
Nordeste, que vagava pelos sertões, assistindo às ruínas das fazendas e às
tropelias de cangaceiros, fanatizando jagunços que, em Canudos, seriam os
insurretos da guerra camponesa descrita em “Os Sertões”.
Ao mesmo tempo em que ocorria a guerra
civil, gerada pela contra-revolução, tinham início no Brasil as guerras
camponesas.
Em 1893, o Conselheiro estava em Bom
Conselho quando mandou queimar as tábuas de editais para cobrança de impostos.
Uma tropa policial, com trinta praças bem armadas, alcançou-o em Massete, onde
foi desbaratada pelos jagunços. Logo, em torno de Canudos, “talavam-se
fazendas, saqueavam-se lugarejos, conquistavam-se cidades”.
Mal terminou a guerra civil, já eram
batidas expedições de tropas governistas
a Canudos.
Os
monges paranaenses, João Maria e José Maria, participaram ativamente na guerra
civil. A presença de João Maria é assinalada à frente de combatentes maragatos,
e José Maria, ainda soldado, foi também um maragato.
Monge é o asceta plebeu e rebelde,
visto no campo como um salvador, um enviado do céu. Não é padre nem frade,
porém um líder místico que se destaca da massa de vagabundos e desocupados dos
latifúndios.
Os monges paranaenses transpuseram
para os sertões a antiga evocação da liturgia católica: “Fame, bello e peste,
libera nos Domine”.
João Maria, que não era pastor nem
músico, mas um simples plebeu a errar pelos caminhos, invocando a Bíblia,
traduzia sem ter tido conhecimento dela, a pregação do Timboleiro, no linguajar
caboclo. Exortava à renúncia e à resignação e, ainda, difundia as mesmas idéias
quiliásticas e anabatistas, preparando a grande guerra do Contestado.
Era ele o monge do Sul.
Face a existência da massa amorfa dos
trabalhadores do campo, semi-plebéia, espoliada pelas companhias, oligarquias
rurais e coronéis locais, e da devoção a João Maria, o ambiente no Paraná e,
principalmente no território do Contestado, era o de misticismo, indignação e
revolta.
Então entrou em cena José Maria, o
novo monge paranaense. O seu nome verdadeiro não importa. Desertara de força
legalista durante a guerra civil para combater na coluna de Juca Tigre,
dispersada na retirada para o Rio Grande. Há quem afirme que se internara no
sertão, por ser leprosa a família. Era, agora, o novo monge capaz de conduzir
os camponeses à luta armada. Pregava preceitos de moral cristã, anunciava
flagelos e fim do mundo, mas não tinha a Bíblia nas mãos, porém um outro livro
muito lido no campo: “A História de Carlos Magno e os Doze Pares de França”.
Curandeiro, além de andarilho, dava conselhos, narrava as aventuras de livro
mal compreendido, as quais provocavam o entusiasmo dos matutos.
José
Maria sagrara fontes e nelas banhara donzelas nuas. Acusado de crime, o general
comandante da Colônia Militar de Chapecó mandou-o escoltado à cadeia de Palmas.
Miguel Fragoso, antigo coronel da Guarda Nacional, ex-combatente maragato,
reuniu gente para soltá-lo à força, o que não foi necessário graças a
intervenção do prefeito.
Recebido como salvador, José Maria
instalou-se numa cabana no município de Campos Novos, para depois fixar-se em
Curitibanos, em cujo município fundou Taquaruçu, o arraial santo e rebelde para
onde afluíam os camponeses. A exemplo de Carlos Magno, organizou uma guarda com
os caboclos mais valentes: “Os Doze Pares de França”. Porque entendia par como
dupla, os doze eram vinte e quatro.
Ao prometer derrubar a República e
instaurar a Monarquia, atraía ao movimento fanático antigos maragatos, menos
esclarescidos. Mas entre estes, já se
agitavam em Canoinhas os chefes Aleixo Gonçalves de Lima, Juca Tavares e
Bonifácio Papudo, interessados na questão de limites, defendendo jurisdição de
Santa Catarina. E o mais influente fazendeiro da região do Contestado,
conhecido por Rocha Alves, ali mesmo em Taquaruçu, um dia foi proclamado
Imperador.
De Florianópolis partiu um contingente
policial para dispersar o ajuntamento de Taquaruçu. Mas José Maria, evitando o
confronto, partiu com parte de seus vinte e quatro cavaleiros para os campos do
Irani, no município de Palmas. Nos faxinais habitavam posseiros e caboclos
miseráveis que acorreram ao acampamento.
Em Curitiba, o movimento foi
interpretado como invasão catarinense na zona em litígio, e o governo enviou
para combatê-lo o Regimento de Segurança do Paraná, sob o comando do coronel
João Gualberto. A tropa policial desfilou festivamente em Porto União da
Vitória, exibindo a metralhadora de carreta e as cordas em que seria amarrado o
monge.
A confiança na superioridade das
armas, no aparato e no treinamento militar, levou João Gualberto a dirigir-se,
com um destacamento de 64 homens, ao arraial do Irani. Enquanto o grosso
regimento prosseguiu na marcha para Palmas, ele planejou um ataque de surpresa.
O
bravo comandante não sabia que a mata tinha olhos e ouvidos. E a
mulinha, fiel amiga de arrieiros, vinha arrastando a viatura da metralha,
pronta para trair a força. Virou a metralhadora no banhado, quando o soldado
acendeu uma vela para alumiar o caminho.
A
força policial caiu numa emboscada. João Gualberto assentou a metralhadora numa
elevação e mandou estender uma linha de atiradores, encurralado entre um brejo,
a mata e um despenhadeiro. Após alguns tiros que deram o sinal para os
piquetes, a guarda dos “Doze Pares de França” atirou-se sobre a força, seguida
por José Maria à frente de sua “forma de quadrado”, dezenas de homens a pé,
armados de facão de aço e de madeira, lanças de taquara e algumas espingardas.
A cavalaria policial fugiu, enquanto os milicianos eram batidos pelos
assaltantes. A metralhadora engasgara, e o coronel João Gualberto recorreu ao
revólver e ao fuzil, tombando morto juntamente com José Maria, cujas orelhas um
sargento quis decepar, impedido porque foi retalhado a facão.
O Regimento de Segurança teve 13
soldados mortos e 16 feridos, mas apenas 11 fanáticos foram enterrados no solo
considerado sagrado.
Na cova do Irani, na terra ou no céu,
ressuscitado nos pousos, nas visões, lembrado ou sonhado, José Maria
conflagrara o Contestado.
“A hecatombe do Taquaraçu será um canto lúgubre, uma nota dissonante, um
sudário, uma mortalha estendida em farrapos sobre as páginas da história
brasileira.” (Diário da Tarde, 1 de fevereiro de 1914)
“O ataque a Taquaruçu foi positivamente o facho que ateou a guerra do
Contestado.”
O combate de 22 de outubro de 1912, em
que um grupo de fanáticos, liderado por um monge, derrotou o Regimento de
Segurança do Paraná, repercutiu no Brasil e no estrangeiro como “Catástrofe do
Irani”.
A comoção tomou conta do Paraná e, em
Curitiba, gente de farda jurava vingança nas cerimônias fúnebres e na partida
das expedições punitivas. Uma delas tinha o efetivo de 1.000 homens, contando
com artilharia de montanha.
As cidades paranaenses e de todo o
Contestado estavam alarmadas. Em Palmas havia pânico e a população
aquartelou-se nas casas particulares, armada e municiada pelas autoridades.
Porto União da Vitória vibrava com a passagem das tropas. No campo, um tempo de crime e sangue.
Recrudescia a violência. Posseiros ou adeptos do monge eram queimados, depois
de amarrados e pendurados às árvores.
Mas as virgens, meninas assim chamadas
por serem videntes e enxergarem José Maria ora numa nuvem, ora na copa de uma
árvore, transmitiam as ordens de José Maria a seus povos. Outros viam-no em
sonhos.
A virgem Dorinha, neta do camponês
Zebinho, transmitiu ordens de concentração em Taquaruçu, e em Taquaruçu,
Capital do Império Sul-Brasileiro,
nasceu o regime caboclo. Em Caraguatá, um novo arraial, gêmeo de
Taquaruçu, a outra virgem – Maria Rosa, filha do camponês Eliasinho dos Santos,
transmitiu as ordens de Proclamação da Monarquia e de coroação de Rocha Alves
como Imperador.
O principal documento camponês é
compreensivelmente desprezado pelos autores, mas há quem o leve em conta quando
afirma que os fanáticos chegaram a pensar num governo monárquico, que
abrangesse Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Uruguai. É uma “Carta Aberta
à Nação”, de D. Manoel Alves de Assunção Rocha, o Rocha Alves, na qual se diz
aclamado “Imperador Constitucional da Monarquia Sul-Brasileira, com sede no
reduto de Taquaruçu do Bom Sucesso”, manifestando o desejo de anexar ao
Império, constituído pelas três províncias do Sul do Brasil, o Estado Oriental
do Uruguai, e finalmente doar áreas de terras aos camponeses. O documento não é
bem redigido, e é considerado ingênuo. Mas a sua real importância foi atestada
pelo grande número de vítimas nos hospitais e de mortos juncando o solo do
Contestado. A reivindicação material – terra, consolidava a união em torno dos
chefes fanáticos.
Rocha Alves, proclamado Imperador,
constituiu um ministério caboclo, dividindo atribuições de mando entre
camponeses de prestígio, seguindo exemplo do próprio monge José Maria. O
movimento ganhou força e moral, a ponto de Juca Tavares, Aleixo Gonçalves de
Lima e Bonifácio Papudo, que chefiavam caboclos em Canoinhas, os dois primeiros
interessados na questão de limites, e este a mando do Juiz de Direito, aderirem
à causa do Império Sul-Brasileiro.
A região foi ocupada militarmente e,
em Curitibanos, atenderam-se às solicitações de Francisco Albuquerque, também
Presidente do Congresso Estadual, com um regimento policial e uma tropa de
vaqueanos, capangas civis. Em Porto União da Vitória acantonou uma companhia do
6.° Regimento. No dia 29 de dezembro, essas forças empreenderam um ataque
conjugado a Taquaruçu. Emboscados pelas guardas camponesas, os vaqueanos foram
batidos e postos em fuga, enquanto o 6° Regimento foi desbaratado.
Em Curitibanos, o negociante Praxedes
que acompanhara o monge José Maria, foi assassinado com mais quatro
companheiros, ao procurar receber uma encomenda de tecidos e armarinhos.
Indignados com a traição do coronel Francisco Albuquerque, o qual dera
garantias de vida a Praxedes, alguns sertanejos tentaram assaltar a cidade.
Esta regurgitou de soldados que ocuparam edifícios públicos e casas
particulares.
Taquaruçu
foi novamente atacada em 8 de fevereiro de 1914. Desta vez, canhões e
metralhadoras assentadas numa colina, dizimaram as mulheres e crianças do
arraial em chamas. O comandante Alonso, que era no reduto chamado de “Menino
Deus” ou “Menino Virgem”, mandara apenas cavar trincheiras dentro de Taquaruçu
e não destacara piquetes nas matas, contando com auxílio divino. Esperando nas
trincheiras para lutar à arma branca, e com meia dúzia de velhas espingardas,
os pelados – como se tornaram conhecidos – tiveram de retirar-se, aproveitando
a escuridão da noite tempestuosa.
Nessa ação participaram cerca de 700
homens do Exército e da Polícia, e o massacre chegou a provocar reação
desfavorável nas cidades, quando alguns militares mais esclarecidos
demonstraram simpatia pelos camponeses, denunciando a espoliação a que viviam
sujeitos. Um capitão e um tenente foram recolhidos à Curitiba, enquanto Matos
Costa, comandante do 6° Regimento, dava entrevistas afirmando que os sublevados
eram “espoliados nas suas terras, nos seus direitos e na sua segurança”.
Os
retirantes deixaram Taquaruçu coberta de cadáveres dos familiares e carregando
os feridos, dirigiram-se a Caraguatá. Daqui partiam as razias, prendendo e
matando peludos, arrebanhando gado.
O deputado paranaense Correia de
Freitas esteve em Caraguatá e, com propostas do governo, ofereceu cem mil
contos para que os pelados se dispersassem. Mas estes responderam que suas
condições eram as de que fossem presos e enforcados diversos coronéis
fazendeiros, entre os quais Francisco Albuquerque, De Paula, Fabrício Vieira
(comandante de vaqueanos), Amazonas Marcondes e, inclusive, Afonso Camargo,
Vice-Presidente do Estado do Paraná e advogado da Lumber. Além disso, pediram
de volta a vida das mulheres e crianças mortas em Taquaruçu. Exigiram, ainda,
um milhão de contos de réis e a restauração da Monarquia.
Diante do impasse com o regime
caboclo, as tropas federais receberam ordens do governo para destruírem
Caraguatá. Três colunas fortemente armadas, portanto fuzis, metralhadoras e
canhões, deslocaram-se em direção ao reduto.
Desta vez, Alonso não descuidou da
defesa, comandou a guerra de tocaias. Na estrada geral, onde havia um lodaçal,
truncou a saída com troncos de árvores, e à frente de algumas dezenas de
atiradores destroçou um batalhão que caiu na armadilha. O grosso da tropa,
cerca de seiscentos homens, cavalaria à frente, foi colhida de surpresa pelos
“Pares de França” que, agigantados na luta, pareciam centenas aos olhos dos
soldados, obrigando-os à retirada. Outra coluna foi emboscada pela guarda
comandada por Venuto Baiano, que a atraiu para dentro da mata para destroçá-la
a facão. Entretempo, uma centena de pelados atacava Perdizes, a base de
operações do inimigo, assaltando o hospital de emergência, levando o pânico à
retaguarda.
Depois de Taquaruçu e Caraguatá,
dezenas de redutos do Império Sul-Brasileiro brotaram no território em
pé-de-guerra. Uma igrejinha, o “quadro santo” para procissões e rezas, além de
uma centena de palhoças. Dos redutos partiam piquetes taladores, enquanto as
guardas postavam-se em lugares estratégicos.
Mas
a peste vaticinada pelos monges chegou, o tifo fazia mais vítimas do que a
guerra em Caraguatá, obrigando um dramático deslocamento para Pedras Brancas,
novo reduto, a sete léguas distante. De lá vinham ordens para que se
obstruíssem os caminhos e para que os combatentes se ocultassem nos bosques,
pois se previa novo ataque.
O general Mesquita, veterano de
Canudos, chefiava nova expedição, com reforços do 7° Regimento de Infantaria e
de uma centena de vaqueanos. Taquaruçu e Caraguatá foram encontradas desertas,
as tropas atraídas a picadas entulhadas de arbustos. Eram entrave o armamento,
a farda, a mochila, a viatura e o equipamento. Os vaqueanos conduziram os
soldados ao reduto de Santo Antonio onde, trepados nos pinheiros ou de dentro
de troncos de árvores, os defensores atiravam sobre a soldadesca, enquanto o
canhoneio destroçava as palhoças desocupadas. Por fim, os “peludos” bivacaram
dentro do reduto, regozijando-se com a vitória, não alcançada. Decorridos dois
dias formaram para regressar e começaram a ser caçados de todos os lados,
tomando consciência de que estavam encurralados no arraial destruído. Uma
tempestade – que os “pelados” acreditavam ser a “cavalaria do céu”, dificultava-lhes
a retirada, expondo-os às balas que vinham dos bosques.
Para proteger os serviços da Estrada
de Ferro, permaneceu na região o capitão Matos Costa, comandando 200 homens do
6º Regimento de Infantaria, sediado em Porto União da Vitória.
Os fanáticos passaram a uma ofensiva
geral, promovendo razias em toda parte. Em julho de 1914 atacaram Canoinhas e
ocuparam as vilas de Papanduva e Itaiópolis. Numa sortida a Calmon, onde estava
instalada uma das serrarias da Lumber, atearam fogo a tudo e fuzilaram os que
consideravam inimigos. Várias estações
da Estrada de Ferro foram atacadas e incendiadas. Visavam justamente a companhia que lhes tomava as terras.
Excediam-se na vingança, matando e degolando funcionários ou simples
comerciantes
No dia 6 de setembro, sob o comando de
Matos Costa, 60 soldados e 2 sargentos embarcaram em trem especial para São
João, onde houvera um ataque. Há alguns quilômetros da Estação, o trem parou, e
Matos Costa desembarcou com 40 praças e os dois sargentos, continuando a marcha
a pé, enquanto a máquina deu marcha-ré assim que os sertanejos começaram a
atirar de dentro de um vassoural. Esgotada a munição, Matos Costa mandou calar
baionetas, tombando no entrevero. Dois dias depois, os corpos dos militares
foram levados a Porto União da Vitória, a Nação estarrecida com a tragédia.
O fuzilamento do coronel Artur de
Paula numa sortida à fazenda Santa Leocádia, veio aumentar o pânico dos
proprietários.
A 26 de setembro, os pelados entraram
a galope em Curitibanos e queimaram a casa do coronel Francisco Albuquerque, o
edifício da Câmara e mais vinte outras, saqueando armazéns, destruindo os
cartórios e as coletorias.
Castelhano, remanescente das colunas
de Gumercindo Saraiva, chefiando razias, ameaçava a cidade de Lages, cuja
população vivia sobressaltada. Mas acabou morrendo em Campo Belo, numa escaramuça,
e suas orelhas foram levadas como troféus.
Queixando-se de que os governos davam
terras aos estrangeiros, os pelados tomaram por inimigos os imigrantes europeus
e atacaram várias de suas colônias.
Mas os flagelos profetizados pelos
monges chegaram. Primeiro fora a guerra, depois a peste, agora a fome.
Uma enorme expedição militar, com
novos regimentos embarcados em trens e vapores, apertou um gigantesco cerco na
zona conflagrada. Havia forças
guarnecendo fazendas, cidades e fronteiras, e o general Setembrino de Carvalho,
com quartel general em Curitiba, comandava cerca de 7.000 homens em formação de
ataque. Consequentemente, com o controle do comércio e das vias de comunicação,
chegara a fome aos redutos.
A ser cumprida a promessa do general
Setembrino de Carvalho, constante de apelo que mandou publicar e distribuir por
toda a região a Grande Guerra Camponesa era, afinal, vitoriosa. Dizia o
documento:
“Fazendo um apelo aos habitantes da zona conflagrada, que se acham em
companhia dos fanáticos, eu os convido a que se retirem mesmo armados, para os
pontos onde houver forças, a cujos comandantes devem apresentar-se”.
“Aí lhes serão garantidos meios de subsistência, até que
o governo lhes dê terras, das quais passarão títulos de propriedade.”
Faziam falta à guerra do Império
Sul-Brasileiro os seus principais líderes. Rocha Alves, o Imperador, sucumbira
ao tifo, e a coroa – de lata e papelão – achava-se vaga, guardada numa capela.
É verdade que Zebinho e Elias de Morais ainda se encontravam nos redutos. Mas,
à medida em que se prolongava a luta, a fração mais plebéia do campo comandava
as ações, assumindo as posições de mando. Era uma prova disso a ascensão de
semi-bandoleiros, como Castelhano, que atemorizava Lages. Adeodato, que
assassinava os rivais nos redutos, acabou assumindo a chefia suprema. Assim, o
movimento foi perdendo o apoio popular no campo e das camadas pobres das
cidades. Os insurretos, cada vez mais, passavam por simples fanáticos,
ignorantes e supersticiosos. Os próprios militares chocavam-se com o abandono
em que viviam as populações sertanejas, atribuindo a guerra ao atraso, à falta
de educação e de escolas, sem atinar com o latifúndio improdutivo.
Ainda assim, era formidável a
resistência cabocla.
Após inúmeros combates, a ameaça a
Canoinhas pelos piquetes de Aleixo, Bonifácio Papudo e Juca Tavares, foi
debelada. Os redutos das proximidades, cheios de mortos, foram abandonados.
Adeodato mudou de Pedras Brancas para
Santa Maria a “Sede do Governo”, um novo reduto protegido por serras, floresta,
atoleiros, abismos e saltos. Segundo o general Setembrino de Carvalho, não passava
“de um amontoado de povoações que se estendem por longa curva de três léguas,
cobrindo um claro nos vales das Serras de Santa Maria e Caçador”.
Três colunas do Exército, da Polícia e
de vaqueanos, avançavam bombardeando e arrasando os arraiais, enfrentando as
emboscadas. A tropa do capitão Potiguara bivacara outra vez no reduto de Santo
Antônio. Por pouco não caíra numa cilada preparada por uma vintena de pelados
que se ofereceram de vaqueanos. Descobertos há tempo, foram uns fuzilados pelas
costas, outros imediatamente degolados.
Nos passos dos rios, nas gargantas das
serras, nas quebradas dos caminhos, as guardas atocaiavam as colunas O carreiro
principal, por onde ziguezagueava a coluna Sul, comandada pelo general Estilac,
morria num desfiladeiro à boca do vale. Ali postaram-se os pelados, comandados
por Adeodato, aproveitando as rochas do
terreno. A coluna, que já vinha sendo fustigada pelas patrulhas quando caía nos
atoleiros, acabou encurralada no desfiladeiro. A metralhadora atirava
inutilmente para todos os lados, a carga de baionetas não encontrava ninguém
pela frente. No dia 8 de fevereiro de 1915, essas forças foram derrotadas, com
vinte e oito mortos, mais de trinta feridos e dezenas de prisioneiros.
Era flagrante o despreparo das forças
que combatiam os matutos em seu meio natural. Se estes conhecessem a arte
militar, tivessem uma chefia capaz que empreendesse ataque às retaguardas,
aumentariam ainda mais as dificuldades do Exército. Além disso, descuidavam-se
da guerra para rezar.
Na madrugada de 2 de março de 1915, a
poderosa coluna Sul, com dois mil homens, canhões, obuses e metralhadoras,
começou a bombardear o reduto de Santa Maria. Repetia-se o massacre de
Taquaruçu. Em procissão no “quadro santo”, o povo foi atingido em cheio. Em
meio a corpos despedaçados, mulheres e crianças correram para dentro da
igrejinha, e os combatentes para a mata. Cheia de gente, a igrejinha ardeu em
chamas. Então os piquetes caboclos acossaram com fúria os inimigos,
obrigando-os à nova retirada.
Mas a resistência foi restringindo-se
a grupos de matutos nas tocas e nas árvores. Esvaziava-se o movimento devido a
promessa de doação de lotes, à epidemia e a ascensão de Adeodato e outros
homens de briga à chefia.
Sob constante fustigação dos matutos,
soldados e trabalhadores fizeram uma derrubada, abrindo uma clareira até o
vale. E com o canhoneio intenso sobre as guardas, seguido pela marcha
arrasadora da coluna Norte, comandada pelo capitão Potiguara, esta bivacou no
reduto de Santa Maria. Mas, após trombetear vitória, a tropa viu-se cercada
pelos fanáticos que caçavam soldados e vaqueanos para depois desaparecerem como
fantasmas.
Adeodato ordenara um recuo para novo
arraial, no Cerrinho, em zona praticamente inacessível ao Exército.
Enquanto aguardavam a hora da partida
em trens especiais, as tropas federais ainda sofreram ataques. Mas regressaram
aos quartéis de origem, pois a missão foi considerada cumprida. Com o
predomínio plebeu e bandoleiro, porém, os camponeses perdiam a coesão e a sua
força. As ações dos pelados foram se transformando em atos de puro banditismo.
Já não estavam entre eles um Rocha Alves, Elias de Morais, ou a “virgem” Maria
Rosa. Por qualquer desavença, Adeodato liquidava a sangue frio os próprios
camaradas. Degolou Olegário, sob cujo comando estivera num piquete. Fez o mesmo
ao negro Joaquim Germano, a Antoninho e a outros que Ihe recusavam obediência.
Fuzilou Aleixo Gonçalves de Lima, que iniciara a luta em Canoinhas, sob o
pretexto de que causava azar. E o que é pior: mandou fuzilar Zebinho, o
fundador de Taquaruçu.
A grande resistência acabou
degenerando em simples ações de bandoleiros e a constituir um caso de polícia.
As famílias camponesas fugiam para as cidades, aos milhares, abandonando os
arraiais. Então as forças policiais dos Estados do Paraná e de Santa Catarina,
com auxílio de vaqueanos, terminaram a chacina, triste fim do Império
Sul-Brasileiro.
Apesar da Grande Guerra Camponesa, foi
conservado o monopólio da terra, principal causa dos males sociais no Brasil.
Assim, a passagem para os tempos modernos processou-se lentamente.
Enquanto se agravava a situação
financeira governamental, registrou-se no país um acentuado progresso
econômico. Em vastas áreas desenvolveu-se a agricultura, surgiram novas
cidades, fábricas, serviços públicos, estradas de ferro, bancos e empresas
comerciais de toda ordem. Se várias regiões permaneceram estagnadas, a
prosperidade teve a liderança do Estado de São Paulo.
A primeira guerra mundial abrira
perspectivas novas com a procura de matérias primas pelas nações envolvidas no
conflito. A indústria nacional cresceu porque os países industrializados
deixaram, temporariamente, de exportar produtos manufaturados. Os interesses
urbanos sobrepujaram-se aos rurais. Surgiam a burguesia industrial e novas
camadas urbanas, inclusive o operariado, desligados da produção agrícola, com
reivindicações próprias.
Os governos, representando os
interesses da monocultura cafeeira, tornaram-se autoritários. Com o cerceamento
das liberdades, as oligarquias rurais procuraram perpetuar-se no poder. Mas a
chamada “questão social” impunha-se à consciência nacional, para regulamentar
as leis sobre o trabalho na cidade e no campo, com a melhoria de vida do povo.
Rui Barbosa iniciara, como candidato oposicionista, a luta pela democracia e
pela resolução da “questão social”.
Depois de esmagado o movimento
operário pela “lei infame” de 1921, tornou a recrudescer a luta pelas
liberdades democráticas. Militares, com o movimento conhecido por “tenentismo”,
denunciaram os viciados mecanismos eleitorais que excluíam as mulheres e o voto
secreto, opondo-se principalmente à oligarquia cafeeira.
É o idealismo liberal que faz eclodir,
em 2 de julho de 1922, a revolta do Forte de Copacabana. A 15 de julho de 1924,
tem sentido idêntico a sublevação de
São Paulo, à frente o
general Isidoro Dias Lopes.
A coluna
Prestes, em marcha de 25.000 quilômetros, pregava nova
Constituinte e a deposição de Artur Bernardes.
A intelectualidade brasileira, numa
retomada de consciência da realidade social, nacional e mundial, inicia uma
verdadeira revolução cultural, cujo marco foi a Semana de Arte Moderna,
realizada em São Paulo, no ano de 1922. Era o "tenentismo" na área cultural,
um levante liberal nas artes e na literatura. Daí em diante todas as correntes
de idéias teriam curso no Brasil, predominando as nacionalistas.
As portas da História estavam
praticamente abertas à marcha de outubro de 1930. Em 1929, durante o governo
Washington Luís, houve uma crise econômica em todo o mundo. Os Estados Unidos
suspenderam as compras de café, nosso principal produto de exportação.
Agravaram-se ainda mais as dificuldades com o fechamento das fábricas. Ao
chegar a época das eleições, o governo apresentou como candidato Júlio Prestes,
enquanto a oposição fixou-se em Getútio Vargas, aliado a João Pessoa, da
Paraíba. Julio Prestes foi vitorioso, mas a oposição não aceitava os
resultados, acusando fraude. O objetivo era o voto secreto, das mulheres, e a
abertura democrática para o atendimento às reivindicações sociais. Para piorar
a situação, João Pessoa foi assassinado.
Em outubro de 1930, os revoltosos do
Sul, empreenderam a marcha, trazendo ao pescoço o lenço vermelho dos maragatos.
Planejavam invadir São Paulo e alcançar o Rio de Janeiro, mas antes disso,
Washington Luís foi deposto em 24 de outubro de 1930.
Desde o Contestado, crescera no Paraná
a oposição ao autoritarismo e à política de terras. Em 1922, o capitão Plínio
Tourinho, comandando uma companhia, chefiou na área militar o movimento
democrático contrário à investidura de Artur Bernardes. Com o apoio de trinta e
oito oficiais da guarnição, marcou para 22 de abril de 1922 o dia para o
levante. A sublevação seria dois meses antes da Revolta do Forte de Copacabana,
mas ante à vacilação de um dos comandantes do batalhão, fracassou. Em março de
1924, entrou em entendimento com o general Isidoro Dias Lopes que veio em busca
de apoio e, este sem esperar que este se concretizasse através de consulta à
oficialidade, cometeu o grave erro de deflagrar a ação sem a participação do
Paraná, essencial para o êxito da sublevação. Em 1930 o povo paranaense saiu às
ruas em apoio à revolução e é, Plínio Tourinho o comandante das tropas
contrárias ao governo das oligarquias. A vitória do movimento rebelde foi
assegurada pelos paranaenses, ao dominarem as forças legalistas em Santa
Catarina, dando passagem aos gaúchos, e sendo vitoriosos em Sengés e em
Itararé.
Essa marcha no processo histórico,
além de representar a ascensão de forças mais progressistas do país e a
conscientização da “questão social”, tirou da cena política a oligarquia rural
do Paraná, objetivo da guerra do Contestado.
Abandonava o governo do Estado Afonso
Camargo, mas não antes de negociar a área de 12.643 Km2, no norte do Paraná,
com a Companhia Paraná Plantations, de capital inglês.
Conquanto se tornassem efetivas as
conquistas sociais do povo brasileiro, voto secreto, das mulheres, leis
trabalhistas e medidas de caráter nacionalista, entre as quais se destaca a
encampação da estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande, e até mesmo a criação do
Território do Iguaçu, o Brasil acabou voltando ao autoritarismo e à ditadura.
O Estado de São Paulo ficou sozinho na
Revolução Constitucionalista de 1932 porque, apesar do golpe sofrido, o regime
das oligarquias, com base no latifúndio, ainda era forte no país.
O povoamento do Paraná só veio a
intensificar-se na década de quarenta, ao sobrevir a Segunda Guerra Mundial.
Iniciou-se a grande ocupação do território, com muito trabalho, sacrifício e
sangue, devastando-se a sua imensa riqueza florestal. No sul começaram os
claros nos pinheirais, até à extinção. Quando as terras não eram tomadas a
caboclos e aos últimos índios, as
empresas abocanhavam-lhes os pinheiros. De positivo, havia a colonização de
gaúchos, italianos, alemães e poloneses, no centro-sul.
Entre 1940 e 1960 a população do
Estado passou de 250.000 habitantes para 4.200.000. Um extraordinário progresso
econômico, todavia, teve lugar com a mais violenta e brutal exploração da
cidade sobre o campo.
Para a área situada entre o
Paranapanema e Ivaí, de terras roxas, deslocaram-se lavradores de São Paulo e
levas de todo o Brasil. Fugindo à servidão no Norte e Nordeste, emigrantes
abarrotavam as estradas abancados nos caminhões, os pátios das estações ou as
igrejinhas dos povoados. A linha férrea alcançara Apucarana em 1937, e Maringá
em 1946. Na vasta e rica zona da Paraná Plantations, depois Companhia
Melhoramentos do Norte do Paraná, predominou a pequena propriedade e, entre os
cafezais, outras culturas foram plantadas. A alta dos preços do café e,
eventualmente, de outros produtos, provocou um enorme progresso. Cidades,
vilas, patrimônios, brotavam de légua em légua, do dia para a noite. Londrina
tornou-se metrópole e capital econômica da região. A presença de mata original
boa para café marcou a região e, até
onde vai a embaúba ou o jaracatiá, aí está a fronteira do norte, para
distinguí-lo do sul onde predominam o pinheiro, o campo e os ervais.
A valorização das terras adjacentes
deu lugar a uma corrida sem precedentes para o novo Eldorado. O governo
estadual, com arrecadações extraordinárias, titulava terras devolutas a
aproveitadores de toda espécie. Uma verdadeira máquina de corrupção, com
oficinas em órgãos governamentais, fora montada no Estado.
De todo o Brasil e de todo o mundo
chegavam imigrantes, em busca de novas oportunidades.
Entre 1945 e 1950, a Paraná
Plantations vendeu 1.038.180 acres de terras agrícolas e 6.122 lotes urbanos. A
sua sucessora, Companhia Melhoramentos Norte do Paraná, alienou mais 1.166.440
acres e 12.071 lotes urbanos.
Nas zonas frias, adjacentes, foram
plantadas pastagens, além de algodão, hortelã, rami, milho, mamona e outros
produtos.
A marcha da colonização para o oeste
do rio Pirapó e para o sul, partindo do rio Ivaí, ocorreu na década de 40. Mas
os grandes núcleos urbanos de Maringá, Paranavaí, Cruzeiro do Oeste e Campo
Mourão formaram-se na década seguinte. De Maringá, a expansão partiu em direção
ao noroeste, sobre a área arenosa entre os rios Paraná, Paranapanema e Ivaí. E,
ainda, rumo ao sudoeste, para Cianorte, ao longo da ferrovia, até Cruzeiro do
Oeste e Guaíra.
Em 1950 a área total das propriedades
rurais no Estado era de 8.032.743 hectares. Constituíam 89.461 propriedades
rurais, 76.467 pequenas, 7.441 médias e 5.553 grandes. As pequenas perfaziam
85% do número total, com apenas 29% de toda a área, enquanto as médias e grandes,
que não representavam mais de 15%, detinham 71% da área total. Havia 822
grandes propriedades, com 2.835.783 hectares, e 76.467 pequenos agricultores
com 2.320.725 hectares.
A
expansão cafeeira refletiu sobre o sul e, já em 1951 o governador Bento Munhós
da Rocha Neto, com os recursos adicionais daquela lavoura, pôde transformar
Curitiba em metrópole com obras monumentais, entre as quais o Centro Cívico e o
Teatro Guaíra.
A renda interna cresceu a 10,4%,
passando de 16,5 milhões de cruzeiros em 1950 para 54,5 em 1962.
Com a chegada ao poder dos novos
capitalistas do campo, após a queda de Getúlio Vargas e Manoel Ribas, o governo
estadual passou a titular terras devolutas a toda espécie de aproveitadores. À
sombra do governo, os grupos modificavam leis, mapas e documentos. O
policiamento foi usado para aterrorizar famílias, queimar ranchos, plantações,
e escorraçar posseiros. Para a concessão de terras devolutas, a legislação
previa como condições a profissão de lavrador, moradia habitual, posse efetiva
e quantidade limitada de hectares. Mas políticos e pessoas influentes davam
entrada a milhares de requerimentos com falsidade ideológica, informações
fraudulentas dos órgãos competentes e, mediante procurações, forjavam as
escrituras. Assim usurpavam os direitos dos ocupantes e lesavam o patrimônio
público. Formavam-se também as companhias de grileiros e jagunços que, além de
chacinar colonos e posseiros, vendiam várias vezes o mesmo lote aos lavradores.
Entre as maiores dessas companhias
estavam a Clevelândia Industrial Ltda., a CITLA, da qual era sócio Moisés
Lupion, e a Sociedade Imobiliária Noroeste do Paraná, a SINOP, de Adhemar de
Barros.
As terras da CITLA constituíam parte
do Contestado. O presidente Carlos Cavalcanti titulara para a companhia estrangeira
a gleba Chopin, e Caetano Munhós da Rocha a gleba Missões. Após a marcha de
1930, essas terras foram incorporadas ao Patrimônio Nacional. No entanto, o
cidadão José Rup, que no início do século obtivera do governo de Santa Catarina
uma concessão para explorar erva-mate na região de Canoinhas, ganhou uma ação
judicial no Supremo Tribunal contra a Brasil Railway. Então ajuizou um pedido
de indenização e a companhia foi condenada a pagar-lhe a importância de quatro
milhões, setecentos e vinte mil cruzeiros, o que deu origem à penhora ilegal
das glebas Missões e Chopin. O cidadão José Rup cedeu seus direitos à CITLA, e
o governador Moisés Lupion celebrou acordo com s Superintendência das Empresas
Incorporadas ao Patrimônio Nacional. Assim, recebeu a titulação, em 17 de
novembro de 1950, das glebas Missões e Chopin, num total de 484.680 hectares de
terras.
A SINOP, Sociedade Imobiliária
Noroeste do Paraná Ltda., recebeu do governo do Paraná, uma área de 80.000
alqueires, a 9 de janeiro de 1951, já ocupada por lavradores. Eram 30.000
alqueires no município de Cruzeiro do Oeste, na faixa de fronteira, domínio da
União, e parte em Paranavaí, e outros milhares de alqueires no município de
Campo Mourão.
Uma centena de empresas menores já
derramava o sangue camponês. E com a execução de obras públicas, cobradas aos
moradores das cidades a preço escorchante – ruas ou estradas asfaltadas,
prédios, escolas, postos, saneamento e urbanização, locupletavam-se as
companhias contempladas pelo governo e pelas prefeituras
O
desmatamento já constituía crime ecológico.
A floresta, riquíssima em madeiras,
foi destruída a fogo. Depois a descoivarada, a abertura das covas em linha reta
e, a seguir, o plantio do café, entremeado de lavoura branca. Sem os cuidados
necessários para evitar a erosão, não se reservavam áreas para pasto, pomar,
bosque e terras solteiras.
Empreiteiros agrícolas recebiam “a
mata em pé e água no córrego”. Se faziam a derrubada e demais serviços por sua
conta e risco, tinham direito à produção dos seis anos, tempo que levava o
cafeeiro para desenvolver-se. Nos ranchos de palmito, acabavam na miséria, com
mudanças atiradas à estradas, pois ao sobrevirem as geadas perdiam-se as
colheitas e não se lhes prorrogavam os contratos. E aqueles que se comprometiam
a prestar serviços por quatro anos, recebendo fornecimentos, não tinham melhor
sorte. Os parceiros agrícolas, geralmente em pequenas propriedades, com direito
à “terça” ou à “meia”, às vezes economizavam o suficiente para a compra de um
pequeno lote, aumentando a camada média dos chamados sitiantes. Nas fazendas,
confinados em ranchinhos sem soalho ou teto, obedecendo a gerentes,
administradores e capatazes, lavradores eram submetidos a cruel espoliação.
Formavam com tarefeiros, jornaleiros, volantes, peões, o grande contingente dos
assalariados agrícolas, mais tarde bóias-frias. Eram chamados “colonos” e
recebiam “mesadas”. Descarregados dos caminhões diretamente nas fazendas,
deviam a mudança e firmavam com o polegar os contratos que os obrigavam, e à
família, a prestar serviços além da capacidade física, proibidos de saírem do
local.
As cidades e
povoados multiplicavam-se, aquelas crescendo vertiginosamente. O comércio
prosperava, e tudo era comércio: política, cartórios, escrivanias, coletorias,
escritórios, agências bancárias, delegacias, consultórios e tudo mais. De pés
no chão, mãos calosas, arrastando a prole semi-nua, o lavrador pagava o preço
do progresso da burguesia rural. Enquanto não se estabilizava uma população
laboriosa e honesta, predominava um certo aventurismo e uma busca fácil de
riqueza. Novos ricos, fazendeiros, funcionários, corretores, médicos,
advogados, especuladores de café e cereais, comerciantes, davam origem a grupos
econômicos que iniciavam a indústria de transformação dos produtos primários.
Os lavradores vendiam sua safra no
período de baixa dos preços, e ainda perdiam na pesagem e na qualificação de
tipos de café. Favoreciam-se os bancos que financiavam os intermediários, as
firmas compradoras e exportadoras, principalmente as grandes empresas
norte-americanas como a American Cofee e a Anderson Clayton e Cia. que
manipulavam os preços, inclusive de revenda no exterior. Apesar desta situação
e dos pesados encargos fiscais, o governo federal instituiu o confisco cambial
sobre o café.
Todos esses fatos caracterizavam a
mais violenta e desumana exploração sobre o campo.
A
oposição a todo esse estado de coisas, tomou forma política, e Bento
Munhós da Rocha Neto, candidato de uma coligação de partidos, foi eleito
governador em 1950. Em sua campanha, declarara num comício na cidade de
Porecatu:
“Vós que ocupais as glebas e que as desbravastes, sois os que tendes
direito a ficar nas terras”.
As grandes agitações camponesas
tiveram lugar na década de cinqüenta. Mas já em 1948, enganados pelos
inspetores de terras, muitos posseiros reclamaram seus direitos e uma caravana
policial incendiou ranchos, destruiu roças, violentou mulheres e matou muita
gente.(13)
Pouco antes das eleições, uma força
policial efetuou diligência de despejo em Porecatu, matando quatro lavradores
que estavam roçando.
Eram eles João Japão, Francisco
Barbudo e outros dois ocupantes de uma fazenda titulada a terceiros. Outro fato
que muito repercutiu foi o assassinato do camponês Sebastião Bernardes,
amarrado a uma árvore em Jaguapitã.
Quatro caboclos decidiram voltar à
fazenda de que haviam sido expulsos, ao saberem da vitória de Bento Munhós da
Rocha Neto. Eram eles José Bilar, João Pernambuco, Inocêncio Pereira e Isidro
Garcia – o “Chimarrão”. Começou o que se chamou “A guerra de Porecatu”. Os quatro ocuparam a propriedade, puzeram em fuga os empregados, e
atiraram sobre um “teco-teco” de reconhecimento. A
agitação tomou conta da região, do Estado, do País, e repercutiu no mundo. Os
jornais e revistas falavam em guerra, em Coréia paranaense, em levante,
em nova Coluna
_________________
(13) Depoimento
de “Chimarrão”, “Folha da Tarde”, 2/7/51.
Prestes. Mas as características do movimento não ultrapassavam
as de uma grande
agitação camponesa. Principalmente porque, se a terra empapava-se de sangue e
se cadáveres boiavam de mãos amarradas nos rios, não havia combates, porém só o
despejo e massacre de posseiros. Não se tratava de luta armada, embora em
ocasiões isoladas tivesse havido tocaia a jagunços ou a algum pelotão policial.
Nas fazendas “Quem Sabe”, “Flama”, “Ouro Preto”, “Guanabara” e “Lote Quatro”
entraram em greve os colonos (assalariados) e os parceiros agrícolas.(14)
A origem da grande agitação camponesa
de Porecatu estava no fato de que o governo “distribuiu terras tituladas ou já
cedidas a antigos lavradores da região, a uma verdadeira legião de
aventureiros”.(15)
Afinal, pelo
decreto de 14 de março de 1951, o Governo do Estado desapropriou as terras
situadas no município de Porecatu, Jaguapitã e Arapongas, constantes de títulos
expedidos pela administração anterior, com violação do artigo 85 da
Constituição Estadual, do decreto 800 de 30 de abril de 1931, e da legislação
vigente na data de sua expedição. As terras destinar-se-iam aos lavradores que
embora sem título hábil, nelas estivessem estabelecidos com cultura efetiva e
morada habitual, há mais de ano e dia.
A grande agitação
camponesa de Porecatu teve como causa a oposição ao estado de coisas, a
simpatia das populações para com os trabalhadores agrícolas e a formação de uma
consciência política para a qual contribuiu a nova intelectualidade do norte do
Paraná.
Nesta já se
destacavam José Hosken de Novais, Newton Câmara, Amauri de Oliveira e Silva,
Flavio Ribeiro, Sebastião Martins Vieira Lins, Rui Cunha, Almo Saturnino,
Milton Menezes, Edgar Távora, Aristeu Santos Ribas e tantos outros. Para o
delegado paulista, que dirigia as atividades policiais, “elementos do extinto
partido comunista, arregimentados e equipados para uma resistência armada ao
governo, se encontravam concentrados em Porecatu”. Tentando justificar a “passeata e o aparato militar”,
acrescentava: “Convenceram posseiros à resistência, armando-os em bandos e
distribuindo-os estrategicamente pela região que fica entre os ribeirões
“Centenário” e “Tenente”, afluentes do Paranapanema”.(16)
Os
jornais “O Globo” (Rio, 28/6/51) e “Folha da Tarde” (S. Paulo, 25/6/51) citavam
como cabeças dos bandos José Bilar, Hilário Gonçalves Padilha – o “Espanhol”,
Lázaro Bueno de Carvalho – o “Lazão”, Inocêncio Pereira e Francisco Lourenço
Figueiredo, todos posseiros.
Enquanto efetuavam-se prisões de
posseiros e simpatizantes trabalhistas, entre os quais vendeiros de estrada,
os jornais do país anunciavam a intervenção militar e da FAB.
________________________________
(14) Jornal “Hoje”, São Paulo, maio de
1951.
(15)
Segundo o Chefe de Polícia, Coronel Albino Silva (“Folha
da Tarde”, São Paulo, 2/7/51).
(16)
Jornal
“O Dia”, Curitiba, 20/8/51.
Em Londrina as
residências foram invadidas de madrugada e presos Newton Câmara, Flavio
Ribeiro, Milcíades S. C. Pereira da Silva e esposa, Almo Saturnino, Bento Paiva
e esposa, além de Gerson Monteiro de Lima e Manoel Jacinto Correia. O médico
Newton Câmara presidira a comissão de solidariedade aos posseantes de Porecatu,
o advogado Flávio Ribeiro formou o primeiro sindicato de trabalhadores rurais
do norte do Paraná, e Manoel Jacinto tornou-se ativista organizando lavradores
nas cidades, vilas e fazendas.
Milhares de boletins e listas de ajuda
corriam nos municípios norte-paranaenses.
Apesar da
repressão, o movimento obteve vitória. O Governo do Estado nomeou uma comissão
para atender aos posseiros da região, doando-lhes lotes. Mas a ação saneadora e
regularizadora do governador Bento Munhós da Rocha encontrava obstáculos (17)
e não podia ultrapassar os limites de uma política estadual, quando o problema
exigia, de fato, uma solução nacional.
Outras agitações camponesas tiveram
lugar quando foram denunciados os despejos e massacres de posseiros no
Sapecado (Ivaiporã), Pato Branco, e no vale
do Piquiri. Entre estas deve ser citada a provocada pela ação da SINOP, Sociedade Imobiliária Noroeste do Paraná. Mas
esta companhia sofreu oposição do próprio governo. O dr. José Hensken de Novais
esclarecia:
“O que acontecia é que esses departamentos da Administração
foram obrigados a empregar a força policial para proteger requerentes,
posseiros e ocupantes de terras públicas contra atos de arbítrio e brutalidade
dos agentes e paus-mandados da SINOP, que ameaçava despejá-los em massa.”
A agitação
camponesa que assumiu maiores proporções depois de Porecatu, foi a revolta no
Sudoeste do Paraná. O Sudoeste crescera com a vinda de colonos de Santa
Catarina e do Rio Grande do Sul, que recebiam gratuitamente, cada um, lote de
terras de 50 hectares. Com esse objetivo, Getúlio Vargas havia criado a Colônia
Agrícola Nacional General Osório. Com a reeleição do Sr. Moisés Lupion, em
1954, a CITLA voltou à região, implantando o terror através de uma subsidiária,
a Companhia Comercial Agrícola do Paraná. Os colonos eram visitados por agentes
e jagunços, obrigados a comprar de novo o seu próprio lote, ou abandonar as
terras. Tinham de ceder a madeira do imóvel à Companhia, cujas serrarias
operavam noite e dia. Os que não concordavam eram despejados ou chacinados
pelos jagunços.
No início de 1957, grupos de colonos
começaram a oferecer alguma resistência e, aos poucos, foram ganhando força e
apoio da opinião pública. No dia 10
de outubro do mesmo ano, quatro
mil colonos
_______________________
(17) Ainda
em 31 de 8 de 55, o jornal “O Dia” anunciava que requerimentos caducos eram
despachados em favor de parentes do Sr. Martins Camargo.
marcharam sobre a cidade de Francisco Beltrão. Foram
ocupadas Pato Branco, Barracão e Capanema. Portanto faixas, pedaços de pau e
algumas armas, reuniram-se na praça, tomaram a prefeitura e demais edifícios
públicos, prenderam o juiz e o promotor, e puzeram em fuga o prefeito e o
delegado. Ao entrarem nas sedes das companhias colonizadoras, destruíram os
documentos, contratos, notas promissórias, etc. Por aclamação, elegeram como
novo prefeito, o dr. Walter Pecoits,
líder trabalhista.
Enfim, as lutas dos lavradores
paranaenses foram sempre vitoriosas e, desde a década de 60, a questão de
posseiros e colonos começou a ser regularizada pelo governo, com a entrega de
milhares de títulos de terras.
Na história social do Paraná, o herói
é o camponês ocupando e lutando pela terra e, neste Estado, síntese do Brasil,
o País tradicional dilui-se em meio a alemães, poloneses, italianos, japoneses,
árabes, russos e outros imigrantes que, ao contato desta terra, tornam-se
brasileiros.
A bibliografia sobre a Revolução
Brasileira e a Guerra Civil é ainda pobre,
justamente devido a má interpretação histórica. Deve-se recorrer às
obras de história oficial e a outras aqui relacionadas. As principais sobre a
movimentação de pica-paus e maragatos são “Dias Fratricidas”, do general J. B.
Borman; “Voluntários do Martírio”, de Ângelo Dourado; “A Revolta da
Armada”, “A Revolução Federalista no
Rio Grande do Sul” de Epaminondas Vilalba; e “A Revolução de 93 nos Estados de
Santa Catarina e Paraná”, de José Cândido da Silva Muricy; as quais serviram de base a estudos posteriores de
outros autores.
Já a coleção básica sobre a Grande
Guerra Camponesa do Contestado em que também se apoiaram autores
posteriores, foi constituída por três
obras: “Relatório apresentado ao General da divisão José Caetano de Faria,
ministro da Guerra”, de Fernando Setembrino de CarvaIho, “A Campanha do
Contestado”, de Herculano Teixeira
d'Assumpção; e “Campanha do Contestado, Episódios e Impressões”; de Demerval
Peixoto. Essa coleção foi enriquecida pelo livro de “Maurício Vinhas de
Queirós”, nela baseado, com ampliação de informações e reunião de novos
documentos. A interpretação como oposição a ordem estabelecida no campo e
conflito social é de vários autores como Rui Facó, Dorian Jorge Freire, e “Casa
Verde”, de Noel Nascimento, um romance de
realismo histórico, retrata o fato com fidelidade.
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