Noel Nascimento
O século do terror, fim dos tempos, século de duas grandes guerras
mundiais devastadoras e outras igualmente cruentas, de disputas
sangrentas de poder entre nações, raças, grupos e até religiões, século de
genocídios e massacres, de ditaduras e impérios opressores, é o último
que antecede o ingresso do homem, ao tornar-se erecto também
espiritualmente e novamente perder o rabo - más-paixões - na
Universidade do Terceiro Milênio.
A visão do paraíso, da terra prometida, da Canaã, de reino ou de
uma república de felicidades, é universal e não só bíblica. Previram-nos
também Morus, Bacon ou Campanela, e socialistas desprezados como
idealistas e sonhadores em nome do materialismo histórico. Crença na
Utopia, no País do Sol, Eldorado, Paiqueré ou Abaretama de nossos
índios, não são meras ilusões, mas refletem as aspirações mais profundas
do espírito humano, representam o sonho da humanidade, um pré-
conhecimento de todos que constróem no dia-a-dia dos tempos o mundo
de paz e justiça.
Há pouco, Bertrand Russel vaticinava: "O mundo que eu gostaria
de ver seria um mundo livre de violência, das hostilidades de grupo,
capaz de compreender que a felicidade de todos deve antes derivar da
cooperação do que da luta."
Para evitar a demolição do mundo novo em construção, contendo
as violências, os povos clamam pela paz, pela democracia, pela
valorização da pessoa e do trabalho. Denunciam-se às violações aos
direitos humanos e líderes pacifistas indicam novos rumos com encíclicas
como a "Rerum Novarum" e a "Dignitatis Humanae", ações de boa
vontade e de não-violência como de Mahatma Ghandi e Martin Luther
King, destacando-se as luzes de um novo humanismo que vêm
iluminando e superando todas as correntes de pensamento.
Acima de tudo, - cimento e ferro dos alicerces desse mundo em
construção -, são as palavras do Sermão da Montanha que o anunciam e
inauguram, unindo os obreiros da humildade, do perdão e da justiça.
Palavras que permaneceram, enquanto escoaram-se os séculos. Palavras
que tornaram eterno o sonho.
A verdade duramente aprendida no último século é a de que tudo
vem mesmo a seu tempo.
Se há racionalidade na natureza, - constatação de Einstein, há
igualmente racionalidade na história. O sonho concretiza-se por etapas,
pois há uma combinação com exatidão cronométrica dos acontecimentos,
quando se trata de cumprir a lei suprema que dirige cada fenômeno, em
todos os níveis de evolução e planos de existência, lei à qual se refere
Pietro Ubaldi, o Eistein da filosofia. Nessa lei o homem se move, não
exatamente como um peixe no mar, porque dotado de atributos físicos e
razão, linguagem, inteligência, tem livre-arbítrio para criar, construir e
autodirigir-se. Ao recorrer à força, à violência, pode distorcer, entortar a
linha do destino, mas ela se distorce e volta ao estado natural. Mas aqui
reside a importância fundamental do indivíduo, do homem humilde e
generoso que corrige e dirige o curso da história em direção a evolução
de todos. Ressalte-se que a cada avanço correspondem acontecimentos
na realidade física, progresso material, científico e tecnológico.
Marx e Engels, erigindo o materialismo como verdade e tomando
como causa da história os fatores econômicos, acreditaram na
possibilidade de antecipar um paraíso, destruindo para construir,
fundamentando-se nas "más-paixões das massas", no ódio classista,
arrastando povos e até idealistas equivocados ou, de boa-fé, enredados
numa filosofia hermética, às ditaduras fratricidas que desmoronam. Uma
reação à cruel exploração capitalista e imperialista, na qual se destaca o
movimento operário e principalmente a luta por justiça social, culminou
com tal fatalidade.
A geração deste século viu aflorar a escumalha com as lutas e
destruições, e os destruidores inexoravelmente destruídos para darem
lugar aos construtores. Quero dizer que assistiu às reações em cadeia
desencadeadas pela violência, que se gradua um homem de personalidade
democrática, almejando agora a justiça.
Regimes baseados na espada ou no ouro, ou em ambos, na
dominação de grupos, de seitas, de nação, raça ou classe, procuraram
contrapor e criar um outro homem, não-indivíduo, não-pessoa, falso herói
ou super-herói, essência do sistema, a serviço da causa falida. Nas artes e
na literatura já bestializada pela imoralidade, exaltou-se o modelo em
extinção.
A finalidade da história é a realização do sonho, o homem
evoluído, capaz não só de aproveitar os inesgotáveis recursos da natureza
e alçar-se às estrelas, mas de perdoar e dar a mão, apenas humilde.