Noel Nascimento
"Brasil! Terra da promissão, da nova revelação,
terra escolhida para a primeira compreensão,
terra bendita por Deus para a primeira explosão
de luz no mundo"
(Pietro Ubaldi)
O mundo antigo e renascentista navegou mares tenebrosos,
descobriu e fecundou a América.
Brasil e América Latina têm história recente.
O pai Portugal já era fruto das mais variadas nacionalidades,
universalista, com uma Escola de Sagres, condição primordial para atirar-
se às aventuras marítimas. Na terra em que erigiu a cruz veio anunciar
uma nova era a tribos indígenas pacíficas, boas e hospitaleiras, ainda a
vagarem numa idade de pedra, ou de selva. Já os marinheiros queriam o
congraçamento e se apiedaram delas, e Pero Vaz de Caminha, escrivão
da esquadra de Cabral, revelava o espírito dos descobridores:
"- Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á
tudo nela, por causa das águas que tem. Contudo, o melhor fruto que dela
se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a
principal semente de Vossa Alteza em ela deve lançar."
Aquela cruz é hoje o Cristo de braços estendidos no alto do
Corcovado, recebendo os povos de todas as partes do mundo.
Já no início do desbravamento das terras, da mistura das raças
surgia um camponês típico - maioria rural - muito fraterno e solidário,
apegado à natureza, sem preconceitos e só comparável a ele mesmo: o
caboclo. Os habitantes da Colônia, impelidos à aventura e à conquista,
viviam uma nova vida, abandonando velhos hábitos, adaptando-se a
condições inteiramente novas de relações humanas e relações homem-
natureza, livrando-se de preconceitos das sociedades estruturadas. O
caboclo não era um resignado, mas simplesmente um elemento fixo à
terra, à Mãe-Terra, opondo-se à ambição e à cobiça. Nas matas - o
matuto; nas catingas - o sertanejo; nas campanhas, nos pampas - os
gaúchos; no litoral - o caiçara. Quando lavrara a terra alheia ou na
qualidade de posseiro, visava com pouco o sustento próprio.
A mãe negra e a mãe índia, que antes desconheciam divisão de
classes, raças ou nações, não aceitavam essa divisão e não sentiam o ódio
civilizado, e não possuíam bens. Criavam os filhos avessos à violência.
Apesar da escravidão, a mistura racial forjou, já nos tempos da
colonização, a democratização social. Apesar dos regimes, dos governos,
a mentalidade do povo brasileiro tornou-se uma mentalidade democrática
por excelência.
Com a proclamação do Império, em 1882, todas as correntes de
idéias penetraram e tiveram seu curso no Brasil.
Já no século XIX, com o romantismo, destaca-se o interesse pelo
homem da terra, pelos problemas sociais, o apego às raízes, surgindo o
indianismo. A preocupação em ressaltar a dignidade dos negros, dos
índios dos mestiços; do camponês caboclo - ora matuto ou sertanejo,
vaqueiro ou gaúcho; do curiboca dos engenhos, do jagunço das caatingas;
dos mulatos das cidades; a par da revelação de uma paisagem geográfica
majestosa riquíssima de conteúdos novos e infinitamente variáveis;
revela-se pelo que de mais autêntico existe na literatura nacional. Nasce
no Brasil um nacionalismo de características próprias, humanista nas suas
origens e nos seus fins, um nacionalismo não agressivo contra o homem
que chega de outras terras.
Há um traço comum, de união, entre a antiga catequese religiosa
de jesuítas e franciscanos e o positivismo que vem dominar a segunda
metade do século XIX. Consiste numa pregação de amor, com
reconhecimento da dignidade de todas as pessoas, tendo o positivismo se
tornado na prática o instrumento de ideais de liberdade e igualdade,
procurando unir homens de boa vontade e levando a Nação a lutar pelo
abolicionismo e pela república.
De todos os continentes chegaram os imigrantes, fugindo às
sociedades fortemente estratificadas, às guerras de todos os tipos, em
busca de paz e de novas oportunidades, encontrando-se e convivendo
homens de todas as crenças, de todas as raças. A miscigenação deu lugar
à consciência democrática do País. Aproximaram-se aqueles que, noutras
plagas, viviam afastados uns dos outros. Na imensidão do território
formaram-se grupamentos de características únicas, fundindo culturas
diversas. Em cidades de catedrais católicas, igrejas protestantes, centros
espíritas, terreiros de umbanda ou candomblé, lojas maçônicas, - judeus e
muçulmanos, mórmons ou testemunhas de Jeová vêem passa passar pela
rua a procissão budista.
Uma natureza pródiga e inexplorada, ao mesmo tempo
deslumbrante, dá ares de independência ao homem, dá asas ao espírito,
fá-lo alegre, otimista, e acreditar no País como o melhor do mundo.
Mesmo o sábio, que num momento desacreditou na humanidade, deixou
uma mensagem: "Brasil, País do futuro". Um sertão "de natureza em
festa" e de "luar sem igual", fascina o homem, torna-o terno, humilde,
mas forte na luta pela sobrexistência. Não aceita a servidão nas
sesmarias.
A falta de uma direção fiel às particularidades materiais e
espirituais de sua própria realidade, mal compreendida, para um
desenvolvimento original de sua economia e sua sociedade, porque
prevaleceram sempre as fórmulas e os interesses da economia de países
estrangeiros industrializados, empobrece-o em benefício das oligarquias.
O homem brasileiro, na cidade e até mesmo no campo, muda de
profissão, de classe e de modo de viver. É comum numa mesma família
existir um operário, um pequeno comerciante e até mesmo um advogado
ou engenheiro. A mudança de condição social ocorre com muita
freqüência. Em certas regiões do campo, a comunidade é solidária, todos
se conhecem e o mais pobre dos camponeses é tratado com importância.
Isto ocorre onde predomina o caboclo e habitava o índio. O caboclo é o
índio civilizado e o branco humanizado.
Noutras regiões também o mestiço foi um agente democratizador
do País. De condições pobres, mas variáveis numa sociedade que pouco
a pouco vai tomando consciência de si própria, das riquezas de seu solo,
das imensas possibilidades de progresso e felicidade para todos, o
homem brasileiro é um homem novo no mundo, menos caracterizado pelo
sangue, lugar de nascimento ou modo pelo qual trabalha.
No Brasil, é evidente que a igualdade consiste no reconhecimento
da dignidade de todas as pessoas. Esta é uma causa pela qual as
filosofias, no País, têm inevitavelmente de se tornar instrumentos de ação,
para que a riqueza da terra e o trabalho do povo beneficie a todos.