Reconstrução é o período de renovação cultural e artístico do
terceiro milênio. Desbravando os mares espaciais, assinalam-no as
astronaves.
Em maiores proporções, repete-se o ocorrido quando as caravelas
do século XV, desbravando os mares terrestres, anunciaram a
Renascença.
O mundo adquire as dimensões do Universo, em ascensão o
espírito humano. Vislumbra-se a mudança já no crepúsculo do século
XX, o evolver do homem, das idéias e instituições políticas, jurídicas,
religiosas, artísticas e filosóficas. As máquinas, ciência e tecnologia, por
elas mesmas, não pioram nem melhoram as pessoas. A única via para a
elevação do nível cultural, moral e intelectual da sociedade para o
progresso das idéias e instituições é a formação do novo homem numa
verdadeira revolução pela Fraternidade.
As resistências a regime com princípio na dignidade humana e fins
de construir uma sociedade justa e solidária[1] hão de ser vencidas pela
força das idéias e ações de boa vontade.
A palavra Reconstrução surge naturalmente para designar o novo
período. Ao encontrá-la em autores inspirados, falamos do caos nas artes
e na literatura como conseqüência da crise em todos os aspectos da
realidade. Verberamos o formalismo, o afastamento do real e do humano,
proclamamos "a arte pelo bem", contrapondo-a à "arte pela arte",
desfraldando a bandeira de um realismo humanista, sugerindo como
conteúdo essencial o amor nas obras artísticas.
Uma revolução cultural humanista[2] constitui o facho de idéias
libertadoras da atualidade, incubadoras de Reconstrução.
Revela-se, cada vez mais, motor da história o coração do homem,
tal como é do progresso material o trabalho. Impõe-se no pensamento um
humanismo histórico que supere as contradições entre o velho idealismo
(que nega a realidade objetiva) e o materialismo histórico.
O século XX é o Armagedon dos tempos. Atingem nele os limites
do desequilíbrio entre o progresso material e o espiritual. Refletindo-o, o
poder político e econômico promove por todos os meios a inversão de
valores, submetendo e poluindo até mesmo a arte e a literatura. Esta é a
causa mais profunda da crise quanto do caos estético. Afiguram-se
fechadas, sem amanhã, as sendas da arte, da literatura, da ciência, da vida
social.
Aproveitando o lançamento das naves espaciais, pioneira e à frente
pela intuição, a poesia reabre o caminho para o infinito que a razão e a
ciência nos ocultaram.
Do choque de dor experimentado no Armagedon é que evolui o
homem para uma consciência cósmica.
Iniciaram-se no século anterior os preparativos do apocalipse. Ao
colapso do colonialismo sucederam-se alianças, blocos de nações em
corrida armamentista disputando mercados e hegemonia. Tangeram-se,
num logro diabólico, as massa à morte nas guerras. Entre estas, ou após
elas, continuaram as tragédias, massacres, genocídios, crueldades
inauditas dissimuladas por falsas doutrinas. E tudo se agrava com um mal
maior, a corrupção social, causa da escalada da violência e degradação
do meio ambiente com agressões à própria natureza, já em vias de
defender-se por cataclismo.
Mas o século XX é a transição para a civilização do terceiro
milênio. Em seu transcurso possuem tal caráter de transitoriedade os
movimentos de idéias no campo estético. O Modernismo, de maior
alcance e inúmeras variantes; e a corrente marxista. Esta igualmente
avassaladora. Tanto que Jean Paul Sartre chegou a considerar o
marxismo "a filosofia insuperável de nosso tempo". Tornara-se a ditadura
de pensamento na Idade Contemporânea.
O Romantismo surgira com a ascensão da burguesia. E o
Modernismo ainda tem a ver com ela e a sua evolução na sociedade
industrial. À estética marxista deve-se a ascensão do proletariado e a
doutrina desenvolvida pelos ideólogos. Os outros movimentos do século
XX favoreceram a pulverização das artes, com as últimas conseqüências
na sociedade de consumo.
Fundamentando-se no formalismo, a arte nega ou empobrece o
conteúdo, afasta o real, o humano e, principalmente, a intuição e o
sentimento, justamente a substância, o essencial.
Por fim, serve ao capitalismo monopolista e financeiro na
sociedade de consumo, fabricado pela mídia, produto descartável e de
má qualidade. A maioria dos autores representa a falta de ideais e aqueles
interesses. Se pretendem imitar artistas fiéis ao próprio meio, capazes de
uma linguagem própria sem ferir a língua, enriquecendo-a, em vez disso,
empobrecem-na, poluem-na.
O formalismo, que deu lugar ao cubismo, abstracionismo,
surrealismo, concretismo, acabou por gerar obras obscuras, desconexas,
ininteligíveis, sem sentido, estultícias como a supressão de idéias, frases,
metáforas, dos versos e, agora, até mesmo de palavras.
Enquanto a psicanálise levou à arte o alto teor libidinoso, um sem
número de teorias burguesas proporcionou à mediocridade a zombaria,
comicidade e excentricidade da classe, o conteúdo paupérrimo ou apenas
torpe.
À falta de clareza, simplicidade e transparência nas obras, a crítica
se torna pedante e pretensiosa, para a decifração de enigmas e intenções
ocultas, também ela divorciada do público.
Já na outra linha de pensamento, ocorre a distorção do real e do
humano para servir à política de governos, partidos e facções marxistas.
No entanto, constituem a exceção os autores que revelam a vida, a
luta e o sofrimento do homem, do povo, não omitindo o real e o humano,
por isso mesmo obtendo uma unidade entre a forma e o conteúdo.
De comum nos dois movimentos é a batalha perdida que travam
contra os valores imperecíveis da humanidade.
Não há conceituação mais perfeita de que a arte "é a expressão de
uma intuição lírica" (B. Croce); a mesma coisa que "a natureza vista
através de um temperamento amoroso"- afirmamos.
Suscetíveis ao clamor do século XX pela paz, pelos direitos
humanos, pela justiça social e a própria defesa da vida e do planeta, os
gênios superam os limites de seu tempo, e as suas obras contrariam a
afirmativa de decadência das artes contemporâneas. São manifestações
de amor rebelado, contêm críticas, denúncias, mensagens; apontam para
o bem e a liberdade. Isto explica o apogeu com Elouard, Picasso, Joyce,
Proust, Kafka, Garcia Lorca, Bertold Brecht, Pablo Neruda e outros da
plêiade.
As diversas escolas não inibem os artistas talentosos e há deles
noutra áreas, como Charlie Chaplin no celulóide. Engajados na luta
contra a opressão e pela dignidade humana, são precursores da
Reconstrução. Tal ocorre com brasileiros do nível de Portinari, Villa-
Lobos, Camargo Guarnieri, Guerra Peixe, Guimarães Rosa, Ignácio de
Loyola Brandão, Graciliano Ramos, João Cabral de Mello Neto, Dalton
Trevisan, Deonísio da Silva e tantos outros.
Conquistou-se, afinal, no século XX, e definitivamente, a liberdade
de criação artística. Aspectos positivos tiveram experimentações formais
como, por exemplo, a de linguagens estereotipadas, falares populares; e,
assim, a contribuição para uma visão mais aprofundada da natureza.
Tudo isto quando o realismo esteve presente, não o de cópia servil ou
verossimilhanças, mas sobretudo humanista, não importa que fantástico,
divinatório ou o surrealismo. Com igual importância a ficção científica.
"A grande arte é simples, e sua grandeza proporcional à potência
do pensamento e à simplicidade da forma" - afirma o autor de "A Grande
Síntese".
Toda grande obra, neste ou naquele período, é intuitiva e, qual o
Evangelho há dois mil anos, vislumbra a Reconstrução.
A afirmativa de decadência, na atualidade, só procede quando a
arte é produzida como instrumento de negação e destruição dos valores
humanos, ainda que vazio ouropel de formas. Arte cujo valor passa da
substância à forma é decadente, degradação no fenômeno artístico. Não
há moldes, ornamentos, detalhes, que a salvem.
Reconstrução se inicia com uma arte de forma transparente e
simples, a esta impondo-se a idéia substancial, poderosa e perene. Será
instrumento de ascenção do ser humano, correspondendo à maturação,
talvez até mesmo biológica.
À vanguarda, a poesia abrirá os caminhos através da dimensão
própria de seus versos, conduzindo-o à consciência cósmica. Poesia é
força ativa, atuando na história.
Então será alcançada a concepção mais elevada da vida. Síntese de
aspirações e ideais humanos, a nova arte conduzirá a uma espiritualidade
nova.
As grandes obras são perenes porque encerram tal conteúdo. Veja-
se a "Nona Sinfonia", a sua música orquestral, o canto coral e a sua
poesia.
Ressoa nos ares a advertência: Evolução ou Morte!
Urge o surgimento do novo homem, generoso, de consciência mais
ampla numa unidade espiritual maior: a humanidade. Sem a ferocidade e
a hipocrisia do involuído, minimizando o egoísmo, poderão ser
eliminados a fome, a miséria, as injustiças e as guerras.
Reconstrução significa restauração de valores que compõem a
dignidade humana, a arte pelo bem, amor como força motriz da história.
Mudança para um mundo solidário. Neste se impõe como princípio de
relações humanas, das leis, das instituições, o solidarismo, uma
verdadeira revolução pela Fraternidade.
Então os estados terão conteúdo ético, representando os ideais de
cidadãos irmanados; e a política será a de cooperação entre as nações
para que todos usufruam dos frutos do trabalho e benefícios da
civilização.
O homem supera as dificuldades nos momentos cruciais da
história. Vence as crises. Em episódios recentes, transformou a produção
dos tempos de paz e adaptou a sociedade numa economia de guerra.
Pode fazer o inverso e, por todas as razões, no seu evolver, modificá-la e
organizá-la como base de uma sociedade justa e solidária.
Para que haja superestrutura correspondente, e não descompasso
ou antagonismo entre as relações de produção e o caráter das forças
produtivas (aquelas não mais entrave ao progresso como afirmam os
marxistas)[3], basta que as relações entre os homens, mormente as
econômicas, tenham como base o solidarismo. A conseqüência será a
harmonia social.
Reconstrução significa a restauração de valores que compõe a
dignidade humana, a arte pelo bem, amor como força motriz da história e
sua correspondência nas idéias políticas, jurídicas, religiosas, artísticas e
filosóficas. Tendo como princípio solidarismo e revolução pela
Fraternidade, é seu mais urgente e imperioso objetivo: -a humanização da
economia.
[1] Como prevê a Constituição brasileira.
[2] A palavra humanista não exclui as forças imponderáveis da natureza,
da economia, ou da espiritualidade.
[3] Marx dá uma definição completa das proposições fundamentais da
aplicação do materialismo ao estudo da sociedade humana e da história,
no prefácio de seu livro "Contribuição à Crítica da Economia Política".
Para ele, quando as relações de produção, de formas necessárias ao
desenvolvimento das forças produtivas, transformam-se em obstáculos a
estas forças, inicia-se então um período de Revolução Social.