A Estética Brasileira
Noel Nascimento
Existe a Estética Brasileira. Após os fortes indícios na fase indianista,tornou--se clara no movimento modernista e revelada em A NOVA ESTÉTICA.(1)
Esclareço que para mim a Estética é a ciência da arte e do belo. Como disciplina autônoma e distinta da Filosofia de Arte, continua nova.
Através dos tempos dividiu-se a Filosofia em duas grandes correntes. A idealista, que considera a consciência anterior à matéria, dando-lhe causa; a materialista que, ao inverso, considera a consciência posterior e produto da matéria. Na idealista houve quem chegasse a negar a própria existência da realidade objetiva.
Igualmente dividiram-se as idéias estéticas entre essas duas concepções filosóficas. Na primeira alinharam-se os teístas, que crêem no transcendente, no divino, ou no sobrenatural e em supra-realidades. E na atualidade continua de maior importância nessa área a liderança absoluta do filósofo Benedetto Croce, o qual conceitua a arte como“ a expressão de uma intuição lírica”. E’, no entanto, muito estranho que tantos autores não se refiram ao termo lírica, como se este não existisse no seu Breviário de Estética.
Na antítese da primeira grande corrente encontra-se o conceito de arte gerado no de imitação, no naturalismo, no positivismo, consolidando-se no realismo. É básica a definição de Zola e Flaubert :“arte é a natureza vista através de um temperamento”. A esta os marxistas, ao defenderem um realismo socialista, acrescentaram o termo rebelde. Criaram arte e literatura no interesse da divulgação ideológica e do estado soviético. Assinale-se que de meados do século XIX a fins do século XX ( quando da perestroika ), o marxismo era “a filosofia insuperável de seu tempo”.
Observando contradições em ambas correntes, e principalmente entre elas, após análise e crítica dos fundamentos das idéias estéticas, propus a síntese na Estética Brasileira. Atento aos clamores por uma Reconstrução, logo após o término da segunda guerra mundial, acreditei num novo humanismo, o brasileiro que unifica num só ideal, o do bem, o que há de positivo, de verdade, de bom e de belo nas mais diversas idéias. O País é privilegiado pela natureza, sem ambições territoriais ou hegemônicas, pacífico e fraterno, de maioria cristã , mas de um sincretismo cultural e religioso. A brasilidade de seu povo é seu próprio humanismo, fruto da bondade natural das raças que se caldearam, principalmente indígena, negra e branca. Nesse pensar e sentir coletivo pude conceber a Estética Brasileira. Em conclusão, substitui o termo rebelde da filosofia marxista pelo do humanismo brasileiro: amoroso. Também afirmei o conhecimento transcendente na arte, através da intuição. Creio que o artista possui um maior poder intuitivo, tem-no privilegiado. E’a realidade que dá o conteúdo da obra. O artista dela recolhe pela intuição a matéria para sua obra. Por isso os modernos estetas e críticos dizem que a obra de arte é uma supra-realidade. Mas há de se convir que há dois mundos, o físico das coisas materiais, e o psicológico, imaterial,espiritual, de nossas emoções e sentimentos. Percebi que se completavam as definições de Croce , Zola e Flaubert, ao se esclarecer o predomínio das emoções do amor, do dever, sobre as do medo e da cólera (o ódio): os“gigantes da alma”. Tal ocorre na intuição lírica ou na visão da natureza por um temperamento amoroso.
No Brasil tem havido variadas cores de Filosofia de Arte. A primeira chegou na carga das caravelas portuguesas, distribuída com exclusividade nos primeiros séculos. Mas só no início do século XX, entendida a mimese como criação de uma supra-realidade (e não cópia) o conceito aristotélico que não se fundava em qualidades de linguagem, mas na natureza do conteúdo da obra, voltaram a estas idéias para completá-las e defendê-las. Permaneceu predominante , antipositivista e antimaterialista, com o surgimento da néo-escolástica e a obra de Raimundo de Farias Brito que tanto influenciou Jackson de Figueiredo e Alceu Amoroso Lima. Espalhou-se Brasil afora pelos seminários, mosteiros e universidades.
Para José Antônio Tobias seriam brasileiras as estéticas eclética, positivista, sociológica, e a evolucionista, além da aristotélica e a marxista.(2)
É interessante notar a aceitação por autores e público o conceito hedonístico em que se considera apenas a emoção que a obra desperta no espírito do autor ou auditor. Sendo este um elemento estranho à obra, a teoria foi posta de lado. No País é notório o divórcio entre estetas e literatos. Críticos literários précederam o estudo sobre arte e literatura, a exemplo de Sud Mennuci. Nossos filósofos difundiram teorias importadas, a começar por Vicente Licínio Cardoso, Benedito Nunes e Luis Washington Vita. A falta de conhecimento sobre as obras, não apenas da minha, é calamidade nacional. Ao lançá-la ,em l.977, no salão nobre da Universidade Federal do Paraná, com recital de piano do meu filho, o Reitor obrigou-se a submetê-la a censura de uma junta. (Por duas vezes, em 64 e 75 fora eu seqüestrado, preso e processado).
Cumpre destacar que entre aquelas duas grandes correntes filosóficas há teorias supostamente neutras. A partir de “arte pela arte”,“arte da palavra”, “autonomia das palavras”, “abstracionismo”, “concretismo”, “experimentalismo”, quanto da análise filológica da obra, persiste-se em isolá-la da realidade, da sociedade, da cultura e até da alma e da pessoa do autor. Ora, por mais absurda ou fantasiosa que se nos afigure,não existe obra de arte sem vínculo com o real. Suprimindo frases conotativas, metáforas e demais figuras de estilo, impedem a expressão das idéias poéticas. E causam manifestações atávicas, fósseis artístico-literários, modelos ósseos das cavernas, curiosos pelo menos.
Ainda vigoram e se confundem as idéias filosóficas, quanto as de Freud, Darwin e Marx. Em conseqüência, constata-se a relatividade das verdades pré-estabelecidas.
Artistas, escritores e poetas da geração de l.920 firmaram a identidade do País e do homem brasileiro. Exprimiram-lhe o espírito de brasilidade, amálgama de um extraordinário humanismo que constitui o pensamento brasileiro, na eclosão do movimento modernista. Um tempo áureo de tomada de consciência que se tem do Brasil e do homem brasileiro. Plasmada fora a Pátria na Independência, na Abolição, na República Federativa. Desde o nascimento o humanismo se torna presente em sua produção literária, pois o amor predomina na alma brasileira. Distingo como foi inspirado o maior autor, crítico e mentor da geração de l.920, Mario de Andrade. Diz ele: “A minha Estética é fundada no amor e na relatividade da verdade humana”. (3) Para ele a poesia é o lirismo jorrando dentro da alma do artista que o expressa. Então repito que o amor predomina na alma brasileira, acrescentando que no artista, cuja intuição é privilegiada, atinge a plenitude. Mario de Andrade intui no tempo a síntese que efetuei na Estética ao unificar os fatores positivos das correntes de idéias. A relatividade a que se refere é, em suma, a dos valores mutáveis e perecíveis. Ao conceber a literatura como expressão natural da mente do povo, diz que a inspiração brota no inconsciente, ou que é subconsciente, não propriamente a criação.(4) Mas para mim, a inspiração pode brotar nos recônditos da consciência, porém é intuída da realidade que nos cerca e envolve com sua psicosfera, e em que participam a inteligência emocional e a espiritual do artista.
A Estética Brasileira é a da “arte pelo bem”, com intuição e visão amorosas a desvendarem o universo, o belo, exaltando e sublimando a vida e a natureza. Encerra os valores humanos imperecíveis, as virtudes, irmana as pessoas, os povos, as nações. Em seu humanismo afirma o conhecimento e o realismo. Conceituei-a já no período em que se inicia a Reconstrução conclamada após a segunda guerra mundial, propondo o realismo humanista como síntese das contradições entre as idéias estéticas. Ao expô-la divisava-se a transformação social pelas novas forças produtivas criadas pelas conquistas científicas e tecnológicas, com a substituição gradativa do trabalho braçal pelo da capacitação intelectual para operar novos instrumentos. E’premissa no humanismo da Estética Brasileira a igualdade humana, e a justiça no usufruir dos bens produzidos e devidos à massa escrava, serva e proletária de todos os tempos. Que na paz da Terra não haja excluídos e se reparta a herança com eqüidade como exemplifica Cristo na simbólica multiplicação dos pães, na doação da túnica, ou de Si derramando o sangue por todos.
l) A Nova Estética,Sucesso Editorial,Curitiba,l.977
2)História das Idéias Estéticas no Brasil,São Paulo,Editorial Grijalbo,l.967,pág.37.
3)Cartas a Manuel Bandeira,Simões Editora,l.958,pág.l08.
4)A Escrava que não é Isaura,S.Paulo,l.925,pág.70.
