CASA VERDE

Noel Nascimento

 

Ele subiu a serra com uma velha bíblia na mão.

A muque prendia ao peito uma trouxa de trapos.

Ferira os pés nas pedras em riste das escarpas. Consta que um velho cão vadio lhe lambera as chagas.

Ele vivia numa gruta, isolado do mundo dos homens. Segregara-se antepondo a este a muralha das montanhas. Lá no cume, no claustro do mosteiro lapeano, mosteiro da natureza, na socava, fizera morada. Uma fenda talhada na rocha, onde à tardezinha, ao decair o sol, se projeta nitidamente a sombra de santo Antônio. Tanto isto é verdade que, certo dia, um retratista protestante bateu uma chapa da gruta e se surpreendeu quando viu revelada a imagem do santo casamenteiro.

Para os moradores da Lapa, ainda vilarejo, era uma figura apocalíptica, mas a alguns ricos fazendeiros, acostumados à vida da capital, parecia apenas um mendigo.

— Monge!

No dia ensolarado de seu rosto, os olhos, o céu; as barbas, as nuvens.

Naquelas paragens a natureza é ascética. Se a tarde expira, o sol é chama de vela que se finda no horizonte, e a própria serra um bando de frades ajoelhados, envoltos em incenso. No chão imenso refulgem tapetes bordados de campos, e os pinheiros, vestidos de escuras batinas, semelham multidão de vultos penitentes, com os braços estirados para os céus, em atitude de súplica. Ouve-se o ruído resmunguento da bicharada como suave murmúrio de preces.

Tinha como templo o universo, como altar, a consciência.

Não se devia indagar de que vivia o monge, pergunta indiscreta, seria profanação.

— Santo não come — explicavam os campônios.

Se perdia os sentidos algumas vezes, a fome como causa, nisto ninguém creria. Mas, era um fato, resistia galhardamente. Apenas três vezes ao dia chuchurreava o chimarrão, e quase sempre na mesma posição, de cócoras.

Na hora do crepúsculo é que se punha a contemplar o cenário esplendoroso. Então preferia o pito. Pito de bambu. Em espirais, a fedorenta fumaça e os pensamentos subiam para o infinito. Quando faltava o fumo de corda, cachimbava folhas secas de ervas silvestres, apesar de os roceiros lhe trazerem a preciosidade. Arrimava-se ao bordão e perdia os olhos tristes no panorama, logo após as horas que passava de joelhos. Entoava baixinho um hino decorado como se fora acompanhado por coro de anjinhos. Nessa ocasião, nascia no horizonte uma trepadeira de estrelas que se espalhava na amplidão, iluminando-a.

Ele vivia noutro mundo, no mundo das fantasias. Buscava esquecer a si próprio. Desejava a paz, sua barba branca desfradada no rosto era uma bandeira de paz. Impossível desvendar-lhe o passado, melhor aceitar o que dele diziam:

— João Maria é um enviado do céu.

— Monge!

Embora velhinho, ainda alvorecia em seus olhos azuis, em suas barbas alvíssimas. Enclausurara-se na montanha, indignado com a maldade humana, cheio de decepções e desenganos. Lá se libertara dos sentimentos egoísticos, pensando em desligar-se das coisas materiais e perder o apego a tudo que julgava mal terreno. Nem dinheiro, nem propriedade, nem ambição, vaidade, ou orgulho. Achava necessária tal iniciação para seguir o destino. O nome do registro civil, não importa. Nacionalidade, nenhuma. Estava acima das convenções sociais, ainda que se intitulasse monarquista. Sabia-se um profeta, um missionário divino:

— Monge.

— Inhô Jesus! — exclamava o aldeão, joelhos no chão.

Se indagavam de sua vida, curiosidade pecaminosa, obtinham-lhe a resposta:

— Sou um homem como vocês, estou cumprindo uma sentença.

A atoarda corrente nas vilas florescentes dos Campos Gerais era a de que nascera em Belém, na Galiléia, que após perder a esposa, chamada Aisha, e combater, às ordens de Murad-Bey, o exército expedicionário francês, quando no Egito, voltara à Palestina, onde tivera a visão de Paulo, o Apóstolo. Os que propagavam tal versão inventaram um nome que seria verídico: Johannah Ieshona. Um certo general afirmou tratar-se de um cidadão francês chamado Anastas Marcaf, enquanto um major reformado dizia abertamente, nos cafés de Lages, que João Maria não passava de espião argentino a fazer o levantamento da região sul-brasileira.

Monge, apenas monge, fizera claustro na serra de Santa Emídia, no município da Lapa. A cidade admirava-o. Assunto predominante, conhecido dos antigos moradores e objeto de devoção dos novos, faz parte da história.

Enquanto os velhos republicanos como os Lacerdas e os Carneiros preferiam os sermões do jovem e tristonho capuchinho frei Silvério, o que celebrava a "santa missa verdadeira", a população pobre gostava de ouvir o monge a gabar D. Pedro II e prometer um exército de anjos aos revolucionários maragatos. Aliás, ninguém pôde compreender o porquê da retirada das tropas de Gumercindo Saraiva no célebre cerco, o porquê de por este não ser implantada a almejada monarquia sul-brasileira. Tudo coisas de um Brasil bem camponês, bem caboclo, bem brasileiro.

Ele sepultara a memória no fundo dos pélagos. Lá, do alto, atirara fora a bagagem das recordações.

— Ah! mas ninguém sabe com quais sacrifícios...

O crepúsculo é belo no campo. O horizonte arde em rubras e douradas, quão tênues labaredas. O céu parece o prado a queimar nas noites de agosto, dando impressão de uma Roma em chamas ao moroso viajor cavaleiro. O sol, pássaro branco do sertão, esvai-se em sangue, tombando no ocidente. O dia murcha como uma flor do ipê. A imaginação se livra do arreamento e foge, a galope, pelas coxilhas e canhadas, enquanto as aves adejam alvoroçadas, em bandos, como flores despetaladas no ar. É assim que a tarde expira e parte na carruagem das horas, é assim que a noite chega com um rosário de estrelas no pescoço e o Cruzeiro do Sul sobre o coração. Há uma sensação de ocaso na alma, de fim, de morte, de saudade. No peito falece algo que nos é caro. Emoção de abandono e tristeza. É um adeus da natureza.

Nesses instantes de angústia, começavam os seus padecimentos.

Pitando e meditando aguardava a chegada das sombras. Era como se um morcego infinito tivesse fechado as asas sinistras sobre o mundo transformado em descomunal sepulcro. Na caverna, furna escura, ele, João Maria, monge do Paraná, sofria delirando, acordado ou em sono letárgico. A cigarra silenciava cedo, com a passarada. Quando a saparada coaxava a canção de ninar, o enxame de grilos tocava flautas com pontas nos ouvidos. Mas isso era insignificante como o uivo do noitibó, o crocitar pressago da coruja, o zumbido do mosquito sequioso de sangue, o ruído de todos os insetos e aves noturnas.

As velas que via coruscantes no ar não passavam de pirilampos, olhos de duendes que o fitavam eram astros da via-láctea, do candelabro de estrelas pendentes do céu. Difícil saber se tinha as vistas fechadas ou esbugalhadas, se mergulhado num sono mórbido ou em febril vigília. Então lutava contra as tentações, insinuantes imagens de mulher, expulsando-as da mente. Na grota desolada, urros de fantasmas ecoavam ricocheteando nas pedras, de fantasmas que surgiam em vagas. Vultos hediondos explodiam em gargalhadas e faíscas, iluminados por labaredas. Um alarido de imprecações e zombaria ensurdecia-o. Entrementes, o frio lhe cortava as carnes, penetrava-lhe a alma.

Santo do povo, parecia existir por milagre. Finalmente vitoriara-se na luta contra os demônios e o seu eu pregresso. Depois de paciente escavação na consciência, soterrara os nomes e as lembranças do passado. Certa noite, após longa meditação sobre os textos do Evangelho, teve um sonho que sempre confundiu com a realidade. Disse-lhe um anjo, radiante de luz:

— Vá, João Maria. Caminhe pelo mundo e cumpra sua missão sagrada. É preciso salvar a humanidade pecadora.

Já havia decidido chamar-se João Maria de Agostinho. João em louvor a são João Batista, Maria à virgem Maria, e Agostinho a santo Agostinho. Seria três vezes santo.

Nhô Tristão, caboclo abençoado, ajudou-o com a mudança, a descer a serra. Embora a gruta se tornasse sagrada e atraísse mais gente que a igreja, frei Silvério exultou e abraçou muito pica-pau.

Foi assim, de um dia para outro, que Anastas Marcaf confundido como monge da Lapa se tornou eremita. No fim do século dezenove e no limiar do século vinte, vagava pelos caminhos agrestes dos estados sulinos, assombrando as populações, vulto bíblico, versão matuta, um profeta medieval em meio sertanejo.

Nuns e noutros lugares o identificavam:

— Monge João Maria.

— Frei João Maria de Agostinho.

— João Maria de Jesus.

— Bom Jesus.

E explicavam boquiabertos:

— Vem salvar os seus povos!

Peregrinava especado ao cajado. No bornal a tiracolo, orações, curas, promessas e esperanças. Do cinto de couro cru pendiam a marmita de folha ordinária, guampa, cuia e uma bomba de prata. Entre algumas preces que distribuía, todas miraculosas, destacavam-se a "do Santo Sepulcro", a "do Nosso Juiz Eterno", e a "do Bode Branco".

Era bom e castigava os maus.

Frei Silvério, pároco noutras plagas, não queria batizar uma criança por ser a mãe uma paupérrima viúva que não podia pagar o ofício. João Maria deu à infeliz uma nota de cinco mil réis para entregar a frei Silvério e este, após o sacramento, viu desaparecer o dinheiro da palma da mão...

Tendo passado também em São Paulo, Mato Grosso e Rio Grande do Sul, João Maria escarafunchou o Paraná e Santa Catarina, granjeando fama. Trabalhadores do campo, lavradores pobres, peões, agregados, fazendeiros arruinados, principalmente agregados, pareciam ver nele a própria imagem. Ou melhor: o reflexo do eu interior. De certa forma, cada um o possuía dentro de si. Em pouco tempo, um ídolo, canonizado em vida pelo povo. Vinculado à luta, às crenças, aos costumes, às aspirações de todos, tornava-se símbolo e lenda.

— Monge!

Ao sopé das montanhas, à beira dos arroios nos capões de mato, fazia o pouso. Para livrar o povo dos males "da peste, da fome e da guerra", erigia uma cruz no monte mais próximo. Abençoava a água, dando-lhe poderes divinos a fim de ser bebida pelos enfermos. Nesses sagrados lugares, recebia o povo, curando e rezando, profetizando, pregando a humildade e o bem. Próxima à Lapa, uma certa família comprara uma propriedade onde havia uma Fonte de São João Maria. Como não cresse no que cria o povo, o chefe desalmado ateou fogo ao cruzeiro e ao pinheiro sagrado.

Naquelas terras nunca mais houve colheita, o gado acabou sumindo, só restando miséria. E o pior é que a família se transformou numa estirpe de loucos.

Com aquele ar avoengo, sublime, os cabelos como crisanto, as barbas de algodão, leque aberto para baixo, à luz das fogueiras acesas defronte à cruz, João Maria — o Bom Jesus! — comandava longos terços e ave-marias. Ao falar, proferia as palavras com ênfase, procurando as de efeito solene, musicadas, mais apropriadas a um santo.

No pequenino oratório guardava uma bandeira do Divino Espírito Santo, outra da Santa Trindade de Deus, e o crucifixo com um Cristo de marfim.

Abrenhara-se sertão adentro como um piolho em suas fartas e respeitáveis barbas. O sertão é a casa verde, soalho de relvas, tetos no céu. Nela os homens devem abrigar-se contra a miséria e os horrores da guerra. A casa verde é a sua casa e está sob a sua proteção.

Uma aldeã que lhe negara um tiquinho de erva, viu-a transformada em cinzas na barrica.

Surgia e sumia de súbito. Uma vez fora encontrado durinho como uma pedra, mas decorridas vinte e quatro horas ressuscitara como o Lázaro.

— Santo não morre — esclareciam os crentes.

Os jornais já se ocupavam de João Maria, e um antigo morador de Guarapuava, o major Domingos Nascimento, que visitara a Água Santa, no caminho que vai do rio Jangada a Palmas, em seu livro "Pela fronteira", ressaltava num trecho:

Este cenobita, um velho rijo e seco, anda há quarenta anos perambulando por aquelas paragens: fura o sertão até a Lagoa Vermelha; de lá corta os Campos de Palmas; vai ao Tibagi; vence as florestas e as montanhas dos Agudos; interna-se no Paranapanema; faz por lá os seus milagres, as suas prédicas, as suas orações; dá seus bons conselhos, e retorna derivando para as margens do Iguaçu, Jangada e não sei por onde mais. Andarilho de primeira, erra por montes e vales, andrajoso e esquálido, com um bastão apenas por arma. Não há insetos que lhe mordam as carnes, nem feras que lhe moam os ossos.

Nunca fora picado por serpentes ou colhido pelo jaguar manhoso. Ao pressentir o perigo, punha o crucifixo entre as mãos e repetia três vezes: "são Bento, são Bento, me livre desse bicho peçonhento".

Marrecas, cruzada pelos cargueiros carregados de sal, açúcar do dia, rapadura, cana e frutas; Marrecas, onde a besta da ponta chegava batendo guizos e campainhas presos à coleira, e alteando na cangalha uma flâmula branca de paz; Marrecas era um pouso tranqüilo e certeiro dos arrieiros dos Campos Gerais. Uma vilinha de rústicos casebres cobertos de tabuinhas com quintais cercados de pau bruto.

João Maria vinha por uma vereda e descera uma serra inacessível. Pouco distante de um rancho, num local marcado por uma árvore frondosa, à sombra da qual havia um veio de água límpida e boa, armaria sua barraquinha. Fora visto com uma trouxa presa aos ombros como uma mochila, segurando uma caixinha pela alça com uma das mãos, enquanto a outra prendia o bastão peregrinante. Depois, à medida que os tropeiros e os moradores de Marrecas iam chegando, abancavam-se no chão informe, ouvindo-lhe as práticas. A conversação com os arrieiros era lida, em toda parte, na brochura intitulada Vida de João Maria de Jesus:

— Quem é vancê? E donde vem?

— Sou um filho de Deus e pecador como vós... Venho de muito longe. Tão longe é o lugar de onde venho que não podeis fazer idéia. Milhares de léguas separam minha pátria da vossa. E eu venho de lá...

— Mas como se chama essa terra de onde vancê vem?

— Já ouvistes falar na Galiléia? Terra onde nasceu Jesus Cristo, nosso Salvador; Filho de Deus? Pois eu sou dessa terra bendita. Chamo-me João Maria de Jesus, discípulo de santo Agostinho. Não sou eu só desse nome. Tenho um irmão frei Manoel Maria de Jesus e uma irmã Maria Clara. Os três somos penitentes e percorremos a terra toda, semeando a mancheias o amor ao próximo e o pão bendito do bem. Irmãos! Vêde este oratório? Relicário santo que carrego por todo o mundo?

Após uma pausa para a prece, continuou:

— Amai-vos uns aos outros. Tempos virão em que os homens procurarão se destruir uns aos outros, como feras. Nações contra nações se esfacelarão e procurarão consumir-se reciprocamente, de inveja uma das outras, e irmãos contra irmãos se procurarão matar e roubar ao mesmo tempo. Haveis de ouvir, deste bendito recanto onde morais, o troar do canhão na grande guerra universal. Temei, filhos das matas, o convívio das cidades, onde reina de permeio a muita hipocrisia, a luta pela vida material e esquecem-se todos de que só Deus e a Graça Divina dão o sossego e alimentos à alma e ao corpo... Eu vou para longe, onde continuarei a penitência que me impus e se impuseram os irmãos de meu corpo.

— Mas como pôde vancê vir por essa picada que só vem dar aqui no rancho e por lá não sai em outro caminho?...

— Não tenho caminhos.Vou à mercê de Deus e os caminhos me aparecem no decorrer da viagem. Quando canso, paro. Se tenho fome, como.

— E vancê não tem medo dos bichos brabos do mato?

— Não lhes faço mal, meu rapaz, por isso não temo e eles me respeitam. Jamais matei um ser vivente.

— Mas é pecado matar um tigre, por exemplo? Se ele nos persegue?

— O tigre só persegue os que dele têm medo. É porque no coração pecador desses, um outro tigre mora: o ódio aos seus semelhantes e a todos os viventes. Por isso o tigre feroz adivinha nele um outro tigre e busca matá-lo: — é uma fera contra outra fera. Plantai todos os vegetais que servem de alimento, assim como frutas. Os que crescerem e derem fruto, fora da terra, irão cada vez mais minguando, até não poder subsistir aos climas que se transformarão em toda parte. Procurai, então, outros que possam substituir. Destes, eu vos aconselho as batatas e os tubérculos. Haverá tempos, não muito longe, em que só estas plantas serão alimentos para o homem...

— Mas os bichos? Pelo menos haverá carne... E vancê diz que não se deve comer carne?

— Assim será, porque nesses tempos o homem deixará de ser material para se deixar guiar pela voz da alma, e espíritos lúcidos perceberão que a carne lhes faz mal e hostiliza o espírito. Então, reconhecerá os outros homens como irmãos...

Na manhã seguinte, levaram-lhe muitos presentes, mas João Maria só aceitou leite, queijo, manteiga, ovos, hortaliças, mate e fumo.

O número de fiéis aumentava a cada instante. Fazia uma infinidade de compadres, sacramentando casamentos, batizando os afilhados. Quando se dispunham a segui-lo, então João Maria desaparecia.

Amava a solidão.

Os ímpios e os escarnecedores talvez não acreditem, talvez não acreditassem, mas João Maria antevira acontecimentos importantes. Anunciara a queda do Império. Mas abominava a traição dos ministérios, dizendo que os "bons tempos do império" sempre seriam relembrados depois que os militares implantassem o "governo do diabo". E acrescentava: — Durante seis anos vão rebentar as bombas.

Nos arredores de Guarapuava, onde se encontra uma frondosa árvore, a Árvore Santa, revelara:

— A Igreja não cumpre mais a vontade e a palavra de Deus. A santa missa é rezada só por dinheiro, em língua estrangeira. Os padres cobram pelo batismo das crianças e pelos santos sacramentos. Andam de braços dados com os ricos e desprezam os pobres necessitados. O castigo vem vindo pelo fogo do inferno!

Quem conta o fato nas prosas de farmácia e barbearia, acrescenta estupefato:

— Passado um tempo, houve um grande desastre: a matriz foi destruída por um incêndio!

Dissera também:

— O rio Cavernoso vai dar sangue nas canelas.

E noutra ocasião:

— No fundo do lago surgirá um monstro que devorará a cidade.

Na serra do Marumbi, entre Castro e Tibagi, advertira:

— Vocês plantem tatu pra terem o que comer no ano.

Velhos lavradores rememoram e comentam:

— A safra de arroz e feijão se perdeu por causa das chuvas, salvou-se apenas a das batatas...

Em Ventania, muito antes da construção daquela capelinha pitoresca, tivera uma visão do futuro:

— A comida será mel para todas as abelhas, os tatus terão uma grande toca, os passarinhos voarão das gaiolas e os homens viverão como as formigas. Deixai cantar as cigarras.

A Ponta Grossa, Princesa dos Campos, a orgulhosa cidade encastelada nas colinas do Pitangui, chegou acompanhado de um bode preto com uma fita vermelha amarrada ao pescoço. Na vila Ana Rita, sagrou as águas da fonte, tornando-as miraculosas. Subindo e descendo ladeiras, provocara pasmo. Mais comentado que o Homem do Bodinho ou o Homem do Banquinho, ambos paralíticos, vendedores de loteria, que recebiam alcunha do meio de transporte de que se serviam. Bandos de meninos travessos e vadios apuparam-no, apedrejaram-no sob as vistas complacentes dos adultos. Com ressentimentos no coração e lágrimas nos olhos, ouvia as imprecações:

— Monge!

— Coruja!

Não bastassem essas demonstrações de desrespeito e crueldade, consideraram-no as autoridades um elemento perigoso, nocivo à sociedade, pregador da anarquia entre o operariado. A polícia foi-lhe ao encalço, mas João Maria sumiu no ar como um mago, só reaparecendo em sua tenda momentos após, para alegria e espanto dos romeiros. Já dissera que Ponta Grossa haveria de se transformar numa pedreira, mas é sempre lembrado o sermão que se tornou célebre:

— Me atiraram pedras como Jesus Cristo, Nosso Senhor, salvou delas santa Maria Madalena. Os ricos de Ponta Grossa vivem no materialismo e são usurários. Se eu quisesse me defendia, mas quis ficar manso como o sublime Cordeiro manso ficou na Santa Cruz, pois os inocentes são perdoados porque não sabem o que fazem. Deus, Sublime Pai, disse: quem com ferro fere, com ferro será ferido. Vai chover uma chuva de pedras em Ponta Grossa!

Ninguém mais se esqueceu do dia em que, escurecendo abruptamente, o céu arqueou-se carregado de vinganças. Era o abaeté, era o profeta, era o "Bom Jesus" bradando pelo trovão, disparando flechas elétricas. As orações, as simpatias, as velas acesas não surtiam efeitos. E uma formidável saraivada de bátegas e gelo, como jamais houve, desabou sobre a cidade. Cumpriu-se o vaticínio. É da história da Princesa dos Campos. Os avós contam o episódio para os netos, arrematando:

— A casa do Homem do Banquinho desapareceu do mapa!

Quando algum crente fervoroso tinha fé e queria vê-lo, João Maria surgia à frente. Aparecia para as crianças ora como um moço, ora como um velhinho.

Aplacava a cólera dos homens.

É notório que caminhava sobre as águas dos rios. Um dia, ao aproximar-se do Pitangui, falou ao balseiro:

— Não tenho precisão de montar na tartaruga. Reme para o outro lado da barra.

Dando-lhe pouca ou nenhuma atenção, o balseiro obedeceu e, quando aportou à margem oposta, qual não foi o seu espanto ao deparar com o próprio monge!

Aprofundava-se na casa verde, como chamava o sertão, que assistia à poda da erva-mate e à passagem das juntas de bois arrastando toras. Não poucos lhe ofereciam presentes e hospedagem nas cabanas de palha.

— Do que Deus dá de graça, ninguém tem direito de pedir compensação — preceituava. Aceitava o bocado de sempre e chupava um chimarrão gostoso, quando de erva especial, preparada ao fogo de lenha da gabiroba, oferecida pelos bugres seminus.

Um curiboca, ao aproximar-se e expondo terrível úlcera no peito, suplicou:

— Siô João Maria, a ferida brava me mata de tanto que rói as carnes do peito.

A vida do tarefeiro de erva-mate é uma vida de trabalho, sofrimentos e miséria. Não conhece outro regime que não o de cativeiro. Durante o corte de caá os facões abrem picadas e podam os arbustos. Quem inventou o chimarrão foi o solitário índio Jaguaretê. Expulso da tribo por causa de um amor impossível e infeliz, viveu segregado muitos anos, com uma saúde de ferro, graças à erva maldita. Mãos calejadas e deformadas pelas murras é que a produzem. Mestiços andrajosos enfrentam a floresta traiçoeira, o bote das feras, a picada venenosa das serpentes, o ataque dos insetos, caminhando sobre feridas. Feições cozidas pelo sol causticante espelham toda sorte de privações. Fisionomias de cobre. Nos braços e nas pernas as chagas latejam ao resvalar dos trapos. Quando da sapeca das folhas no barbaquá e no carijo, queima-se a pele, em fogo o corpo inteiro. Vergando ao peso de fardos enormes que carrega nas costas, presos à cabeça por tiras de couro que rasgam e sangram a fronte, o tarefeiro vive pior que um escravo.

Era uma úlcera de Bauru. Compadecido, João Maria receitou:

— Todo dia de manhã, lave com arnica e soque erva de santa Maria, e tenha muita fé em Deus...

Um monge sofria com os sofrimentos alheios. Seguia a lei que consistia em duas palavras: caridade e fraternidade. Eis tudo que receitou nessa ocasião, como remédio: banhos de samambaia, três cipós, capim papuã, sumo de arnica e assa-peixe; vinho de braúna; sangue de bicuíba; chá de marapuama, pacová, crista de galo e cidreira.

Ele era tão humano como o mais humano de todos os jecas. Sentia na carne as dores do próximo. Santo de verdade, santo do povo, sua igreja, a casa verde.

Monge.

No fundo do sertão, após exorcizar e despachar os medicamentos, teve um aviso do Alto e preveniu:

— Vocês rezem muito e façam atos de compunção, porque vai haver um grande desastre nas maretas.

Atreladas as toras de pinho e de cedro ao cingel, os viajores se foram, murmurando preces, benzendo-se, caminhando pelo vale, ao lado das cangas. Chegando ao porto do rio Uruguai, jungiram as toras com cipó e arame, construindo com elas enormes jangadas, as quais prenderam às marombas, à espera da cheia. Não tardou muito, já se comentava na pequenina aldeia, sede de contrabando:

— O rio tá em ponto de balsa.

Na hora da partida, as mulheres choravam de susto e saudade, ensurdecidas pelo vivório e pelos estampidos das armas de fogo. Homens de pés descalços e peitos descobertos marcavam com as remadas a cadência da viagem, cuidando a carga levada pela torrente. As mulheres da aldeia pensavam no perigo das corredeiras traiçoeiras. A corrente ia aumentando pouco a pouco, até disparar a toda brida. Cada vez mais se avolumava o imponente rio, engrossando com as águas barrentas dos afluentes. Nas proximidades das ilhas, onde as lontras devoram peixes sossegadamente, era mais árdua a viagem porque as embarcações abalroavam nos escolhos.

Rumo à Argentina.

Não fora o destemor e a destreza do impávido matuto, já teria havido soçobramento. A friagem suportada à custa de trabalho e cachaça penetrava o peito. Para se orientar, o balseiro gritava e auscultava a bússola do eco. Guiava-se pelo coro da própria voz. E o zumbir da xiririca ressaltava o ronco da catarata.

Dormindo ou cochilando ao relento, os homens se revezavam nos remos e zingas. Roupas em tiras secavam estendidas nos arames, enquanto cozinhava o feijão preto na panela de folha, pendurada sobre o braseiro do improvisado fogão. Perigo que surgia de solapa era o da curva mais estreita, quando mãos criminosas fechavam o trajeto com basculhos de arbustos, armando ciladas. Da margem as espingardas abriam mortífero fogo. Era o assalto.

— Os caçadores de vigas! — exclamava o matuto que recebia a primeira chumbada.

Então se travava a batalha pela posse da madeira e não raro os piratas do mato acabavam recolhendo a carga que vendiam no porto argentino.

Fora um dos fatos pelos quais João Maria recomendara tanto, criam os humildes balseiros. Uma semana inteira de trabalho, luta e apreensões e, por fim, alguns tudo perdiam, até a própria vida.

No dorso mais largo do rio, a bulha das águas tumultuosas e o ribombar da cascata abafavam os berros:

— O salto grande!

— O salto grande!

Enormes ondas se atiravam do leito turbulento, de encontro às balsas. Como relâmpago, na memória de cada um, João Maria se fazia ouvir:

— Vocês rezem muito e façam atos de compunção porque vai haver um grande desastre nas maretas!

Calmos e destros, os camaradas contornavam-nas com auxilio dos varejões, evitando a custo a morte certa, o abalroamento, levando a embarcação para a margem alagada graças à enchente. Mas, naquela vez, uma jangada com seis homens a bordo fora arrojada pelas vagas em fúria, desfazendo-se violentamente. E a viagem que começara como uma procissão acabou como um funeral. Realizara-se a terrível profecia:

— Vai haver um grande desastre nas maretas!

João Maria acordava-se antes do dia. Acendia o fogo, enchia a cuia de mate e despejava água quente na guampa. Duma feita, teve a atenção despertada por lindo passarinho de asas azuis e crista vermelha, o qual trinava no último ramo, no cimo de uma gabiroba, como um tenor cantando num trapézio. O mestre. No palco da galharada, todo o bando ouvia atento como os musicistas de orquestra que esperam e observam a batuta do regente. Quando aquele calou o biquinho, todos romperam num terno e suave gorjeio, num coro orfeônico de passarinhos. No teatro da casa verde, no teatro do caboclo, João Maria assistia à dança dos tangarás. Cessou o chilreio, houve um rápido intervalo e as avezinhas, pedaços pequenos do céu, alçaram-se em saltinhos de duas em duas no mais gracioso balé, marcando a cadência do toque das violas sertanejas. Depois recomeçou o gorjeio e o mestre se exibiu com todo vigor de sua arte, de galho em galho, dançando os passos simples de tangará, enquanto o corpo de baile participava da festa cantando, batendo as asas, voando uns por de cima dos outros numa parada de alegria pela vida. Como se estivesse preso a um ramo do arbusto mais próximo, como uma jabuticaba, um chupim admirava o número, emudecido como quem ouve uirapuru, enquanto outro pássaro dizia:

— Bem-te-vi! Bem-te-vi!

João Maria pensou:

— Os filhos do Chico Santos!

Sim. O desventurado Chico Santos, temente a Deus, advertira os filhos:

— Não presta viver só pensando em namorar, só festando, pulando como saci-pererê, sem ter o menor respeito pela quaresma e os dias santificados.

Mas os marotos não lhe davam ouvidos, voltavam-lhe as costas, gostavam do fandango. Eram sete irmãos e o mais velho batizou o mais novo, para este não virar lobisomem. Muito honestos e trabalhadores. Porém, ficavam possuídos ao saberem de festa. Fosse o dia que fosse, não faltavam ao bailarico. Ao chegar uma quaresma, não ouviram os conselhos dos mais velhos, em cega desobediência. Foliaram até na semana santa, na própria sexta-feira da paixão.

O que aconteceu, quem é que não sabe? Caíram de cama, os sete com bexiga e, pobre do Chico Santos, um a um iam morrendo e se transformando em passarinho. Metamorfosearam-se em tangarás os meninos travessos.

A miséria humana contrastava com a magnificência da natureza e com espetáculos como aquele. Uma dessas caravanas que percorriam os sertões, penando e esmolando, desgraçados a fugirem do mundo e de si próprios, chegou ao ascetério de João Maria. Uns vinham a pé, outros a cavalo. A maioria dos homens trazia as trouxas, enquanto as mulheres arrastavam e carregavam crianças seminuas. Exaustos, desconsolados. Não entravam nas vilas e povoados, recebiam esmolas dadas com medo, de longe, tratados como uma récua de criminosos ou malta de cães raivosos. Doíam-lhes apenas o pavor e a incompreensão dos outros. Bem que preferiam a floresta bruta, o mel das colmeias, as ervas do campo, os frutos das árvores, o acampamento à beira da água límpida, corrente. Uma leva de morféticos.

Somente João Maria, um monge, para lhes compreender os dissabores, a penúria, o desespero, a moléstia. Em pé, defronte ao cruzeiro, encorajava-os, auxiliava-os a suportarem o destino.

— Que importa a ferida, a nódoa do corpo? Meus filhos, o que vale é a pureza da alma. O mundo é um vale de lágrimas onde cumprimos uma provação. É preciso ser forte e aceitar com resignação aquilo que vem do Alto. Deus nunca se esquece dos filhos amados.

Recebera-os sentado, de pernas cruzadas, convidando os mais velhos para formarem a roda do chimarrão. Fez compadres entre eles. Com paciência e bondade, sem achar resposta, tranqüilizou um jovem vacilante que lhe perguntou qual o mal que fizera ele, aquelas mães, aquelas crianças, para merecerem tal castigo, e que Deus era esse que permitia tanta desgraça na face da terra.

Após os curativos e benzeduras, João Maria mandou que rezassem em jejum e com o rosto voltado para o norte. Com auxílio de uma pedra, moeu folhas de samambaia, juntou ao pó alguma gordura e disse:

— É pomada para as feridas.

Nessa ocasião, redigiu a Oração de São Lázaro, que todos repetiram genuflexos.(1)

Daqueles que não faziam parte da caravana, somente atendera a um pecador arrependido, ao qual dissera em tom imperativo:

— Eu lhe perdôo os pecados, mas tem que rezar cinqüenta ave-marias e cinqüenta padre-nossos, sem tirar a boca do chão.

A maré de prosélitos crescia e João Maria surgia em diversos sítios, ao mesmo tempo. Estava em toda parte. A casa verde era pequena para ele. Tinha na palminha da mão as matas com seus segredos e mistérios. Dominava-as.       

As roupas puídas acabavam-se no seu corpo de vara, franzino. Trajava-se mal como palmito. Entre os olhinhos azuis, melancólicos, o nariz adunco se destacava no meio das barbas caídas sobre a carcomida manta que lhe envolvia o pescoço. Tornava-o exótico um gorrinho felpudo feito com couro de jaguatirica, com o qual cobria a cabeça encanecida. Com o paletó de brim riscado, curto sobre o colete, apertado como espartilho e a prender-lhe os movimentos, trazia um rosário, cujas contas afirmava serem "as lágrimas de Nossa Senhora". O cinto mal servia para pendurar a tarecada, pois as calças caídas, de fundilhos rotos, deixavam às escâncaras a ceroula, e o próprio sexo aparecia. Certa vez, uma velha beata exclamara estupefata:

— Nunca vi um santo com as vergonhas de fora!

Rio Negro e Mafra, cidades xipófagas, ligadas por uma ponte, aquela paranaense, esta barriga-verde, viviam às voltas com enorme cruz que se transportava a si própria, a santa cruz de Mafra. Quando não erigia uma, João Maria a desenhava, mandando reproduzi-la.(2)

Nos diversos lugares onde fazia aparição, as populações levantavam dinheiro e construíam capelas nas quais ardem velas noite e dia, pagando promessas, ao lado de pilhas de muletas. O curandeirismo tomou grande incremento. Foram difundidos seus métodos, suas práticas, suas receitas, seus remédios, suas simpatias, suas benzeduras. Pouca gente não sabia que sarro de pito é bom para bicho de pé, inflamações e mordedura de cobra. Se bem que, neste caso, ele mandava meter o pé na terra molhada e tomar seis goles de limão. Produzia tais prodígios, tão afamado, que até um perna-de-pau correra ao seu encontro na ânsia de recuperar o membro que fora decepado na guerra do Paraguai.

Só castigava os maus. Pelas bandas de Guarapuava, havia dito que "guerras viriam no mundo", "pestes desconhecidas assolariam os campos", "haveria muito pasto e pouco rasto", "estalaria uma guerra com os filhos dos castelhanos", e "Guarapuava se transformaria num porongal". No entanto, pessoas incrédulas duvidavam de seus poderes, zombavam, escarneciam-no. Nas terras das araras, se deu um caso assombroso. Chamado para assistir uma parturiente, João Maria atendeu prontamente o pedido, seguindo para o ranchinho. A parteira pinoteava como égua fogosa, coiceando com as nádegas o ventre da infeliz paciente, enquanto esta mordia o lençol, depois de assoprar uma garrafa. João Maria interrompeu a cena, apenas por um instante. Mandou a parturiente colocar na cabeça o chapéu do marido, mas não foi obedecido. Protestando sapiência, a "entendida" exibiu um documento que leu em voz alta, sob a aprovação dos presentes. Era a Carta de Habilidade passada à pretensa parteira por médico.

João Maria retirou-se acabrunhado, mas o resultado do caso é relembrado e propagado. Pobre mãe, louca mãe:

— A criança nasceu com duas guampas na testa!

Um sujeito vivia troçando das coisas sagradas. Afirmava que Deus não existia e que o monge era um doido.

— Nóis não sabe lê, nem escrevê e os ricos faiz nóis de bobo. Morreu, fedeu: isto, sim.

Um dia, quando estava partindo lenha no mato, um raio o fulminou. Castigo divino, mas a família, porque ele era bom, achava que fora chamado para o céu.

Um fotógrafo, muito ganancioso, bateu duas chapas de João Maria, sem o seu prévio consentimento, e ao revelá-las... Estavam em branco!

Quando o monge se encontrava num pouso situado nas campinas do Tibagi, uma cabocla pediu ao marido:

— Preciso pagar uma promessa que eu fiz. Me leve esse pacote de velas pro João Maria.

— Levo pro diabo que o carregue! — respondeu-lhe estupidamente o excomungado. Mas cedeu depois da descompostura passada pela esposa. Pelo caminho, ia com o embrulho na destra, sentindo-lhe o peso e o volume. Ao dar de chofre com João Maria, levou um prisco. Estendendo o braço para entregar-lhe o pacote de velas, viu que este sumira das mãos. Fitando-o, punindo-o com os olhos, explicou-lhe o monge:

— Ficou para quem você disse que ia levar...

Uma anciã paralítica, carola como só ela, não tinha fé nos milagres do profeta. O marido, que pensava diferentemente, sugeriu uma consulta a João Maria e isto a fez matraquear:

— Só diz bestages, diacho! Num sabe que só padre pode rezá missa, que tem representação de Deus na terra? Ele cura nada! Ele cura uma banana! Uma banana!

O humilde camponês foi consultá-lo sozinho, sobre a enfermidade da esposa. João Maria tirou uma banana do bolso e lhe ordenou:

— Diga a sua mulher que batina esconde rabo de macaco, que corvo voa sem ser anjo. Ela está de cama pra mor dos pecados. Diga pra comer esta banana, que ela sara.

Realmente, depois de saborear a fruta, a paralítica sentiu melhoras, levantou, andou e se tornou uma crente fervorosa.

— Vou lhe contar um causo... — Assim começavam as narrativas.

Gente que o venerava, que o idolatrava, era a do Bituruna. Lá onde as sesmarias se perdem de vista, a região contestada, em litígio entre o Paraná e Santa Catarina. Ele fizera sucessos indescritíveis em municípios como os de Curitibanos, Campos Novos, União da Vitória, Canoinhas, Caçador, entre outros. Uma grande amizade nascera entre ele e um bondoso fazendeiro chamado Manoel Alves D'Assunção Rocha, mais conhecido por Rocha Alves. Apoiara-o, aprovara os planos de fundação de uma cidade santa naquelas plagas: São Sebastião das Perdizes. Seria edificada sob suas bênçãos e ele não se opunha ao convite feito a frei Silvério para rezar a primeira missa, este agora em Campos Novos.

Fora de guerra quando apoiara as tropas do compadre Gumercindo Saraiva, com fanáticos emboscando os pica-paus. Era de paz, pois exortava à resignação, à renúncia, à penitência, apesar de indignado com as injustiças em voga e de pregar contra a república que — reproduzindo suas palavras — é o governo dos maus, invenção do demo, que deixa na miséria os brasileiros. Solenemente, ele prometera:

— Vou mandar muitos monges para salvar os meus povos e acabar com o reinado do diabo.

Mas era de paz, tinha a bandeira branca das barbas aberta no rosto.

Frei Silvério, que acudira ao apelo do papa emigrando para o Brasil — onde faltavam sacerdotes — e que sofrera terrível concorrência na Lapa, voltava a incomodar-se em Bituruna. Quando as coisas começavam a ir bem para a Igreja, surgia aquele monge e o povo virava a cabeça. A Igreja perdia o prestígio e ficava com a posição abalada. Até o bispo ficava contra ele que, justamente por sua incrível vocação sacerdotal, bondade e honestidade de propósitos, era designado para sanar a situação caótica do clero. Vivia de cidade em cidade, logo iria para União da Vitória, onde havia o morro da Cruz e as inocentes festas de Sinhana Bita. Com certeza, muito tempo não ficaria lá, teria de continuar solapando o culto do monge. Sentia-se frustrado, humilhado, diminuído, como todos os padres assim tachados de maçons e protestantes, combatidos com as próprias armas que empunhavam. Indagava de si próprio que desgraça acontecera. Ninguém mais comparecia à missa, trocando-a pelas rezas de um mulambeiro; ninguém trazia óbolos à ermida, fugindo aos verdadeiros apóstolos. Entretanto, as taperas que abrigavam João Maria transbordavam de adeptos. Sentado à moda hindu sobre um couro de boi, num tugúrio distante, já o fizera de tolo quando lhe fora ao encontro, servindo-se do burrico.

João Maria não podia ser santo, não cursara convento. Ele dissera-lhe:

— Eu nasci no mar, criei-me em Buenos Aires e faz onze anos que tive um sonho de que eu devia caminhar pelo mundo durante quatorze anos, sem comer carne nas quartas e sextas-feiras e nem pousar na casa de ninguém.

Um justo não o teria feito passar por maçom, por herege, por protestante, não o deixaria desautorizado perante tanta gente, ridicularizado, detestado, como fizera João Maria. Não se conformava o louro capuchinho.

Não havia peão ou agregado que ignorasse do sermão o trecho mais conhecido e repetido: "É crime viver juntando dinheiro a dinheiro, terras a terras, viver à custa dos que trabalham; a lei de rei foi escrita no céu e é a lei de Deus".

Ninguém sabe o que aconteceu a João Maria, porém é visão constante sempre presente na memória do povo, venerada saudade, fabulosa personagem dos sonhos dos moços e das donzelas ardorosas.

— Monge!

Coração por coração, conquistara a casa verde. Também nas bandas do oeste catarinense continuava a ditar ordens aos crentes, sempre vislumbrado pelos mais inocentes. Alguns velhos caboclos, antes agregados, tornavam-se andarilhos, dando origem aos boatos dos "falsos monges". Mas João Maria era o ar e a vida, a esperança dos oprimidos. Ninguém lhe arrebataria a coroa de cipó e urzes. Na residência do abastado ou na tosca choupana, as iniciais de seu nome, J. M. A., gravadas a fogo, encimavam nas portas o signo de Salomão. Sempre invocado com devoção, o seu retrato constituía relíquia sagrada.          

Santo do povo, transformara-se em símbolo e lenda. Nos topes dos morros, as cruzes que arvorara são os seus braços abertos para os sofredores. Nos pousos, à beira das vertentes, olhos d'água, as velas ardem indefinidamente como sóis no infinito.

Um dia vaticinara:

— Meu túmulo será cavado pelos índios, no cerro do Taió.

Disto ninguém se recorda, porque santo não morre. Talvez tivesse caído vitima de febre, talvez tivesse sido apanhado por uma fera, talvez tivesse sumido no bico dos corvos, mas estes são os pensamentos dos sacrílegos. Santo não morre.

Apesar disso, no jornal A República, órgão do Partido Republicano Paranaense, edição de 25 de setembro de 1912, na terceira página, estampada a fotografia de um esmoler, havia um artigo:

profeta que morre...

O monge João Maria passou desta para melhor.

E assim concluía-se a notícia:

Por muitos anos há de perdurar ali a tradição dessa figura venerável de apóstolo, longos cabelos e barbas prateadas a emoldurarem um rosto velho, mas de expressão ainda viva, fisionomia de faquir a surgir a todas as portas, a visitar todos os lares.

Santo não morre! João Maria continua protegendo a família da casa verde: guiado pelo bordão inseparável, ele vagueia pelas veredas da história.        

 

 

        Livro II

                       

Capítulo I

 

Bituruna é o território das célebres Missões, conquistado pelas bandeiras; é a terra que os caingangues dominaram. Bituruna era o nome de um monte, mas algum índio o estendeu à região.

Bituruna é a pátria abraçada amorosamente pelos rios Iguaçu e Uruguai. Estes rios não passavam de bandos líquidos de revoltos guerrilheiros, engrossados pelos afluentes, levando a cabo o cerco de florestas, campos, serranias, avançando de rojo sobre um formidável exército de pinheiros.

Bituruna é uma braçada do tamanho de inúmeros países da Europa, porção deste Brasil, a qual se chamou Contestado porque foi disputada pela Argentina e foi questão de fronteiras entre o Paraná e Santa Catarina.

As linhas da palma da mão do Bituruna se constituem de rasos riachos atravessados a vau e de caminhos abertos a casco de mula. Contavam-se nos dedos as estradas carroçáveis. Por muito tempo a máquina fora viva, tinha pata e não apitava. Era o cavalo. Mas a estrada de ferro acabou penetrando-o, rasgando-o, por motivos de estratégia militar. Partia da cidade de Porto União da Vitória, hoje bipartida entre os dois Estados limítrofes. Oriundos do Rio, São Paulo, Santos e Recife, milhares de operários trabalharam nas obras da Rede, atraídos com promessas de elevados salários. Moravam em tendas que comparavam aos cochicholos de cães, e onde grassavam epidemias e fome. Suas greves se transformaram em motins e houve muito sangue derramado. Cada cidade, no entanto, celebrava contente a sibilante chegada do trem, nele saudando o progresso. Marcou época, por exemplo, a festa de Porto União da Vitória, quando da inauguração da ponte sobre o Iguaçu. Naquele 26 de novembro de 1906, todo o povo celebrou o acontecimento. O hotel Matoso, enorme sobrado de madeira, regurgitava de visitantes. A famosa Banda Musical, da cidade de Ponta Grossa, sob a regência do maestro João Holzmann, executou dobrados, maxixes e valsinhas, jamais olvidados. Ainda hoje são bastante conhecidos os versos do professor Serapião, comemorando o fato marcante.(3)

Serapião fora bastante elogiado.

Quem não sabia que era ele um "grande talento", fundador da Sociedade Dramática Amadores da Arte e colaborador do semanário Rebate? Seus versos foram espalhados em boletins e recitados nas reuniões do Clube Apolo.

Progresso!

Não para os camponeses pobres. Era o truste se atirando esfaimado sobre o prato cheio do Bituruna. Um larápio, a Railway, a papar as terras marginais ao leito dos trilhos, ela própria com seus agrimensores malandros a fazer a medição da área abocanhada. Já não bastassem as concessões à Lumber Corporation, dragão com dentes de aço na serra-fita a devorar a mais rica vegetação do mundo. E enquanto os imigrantes europeus chegavam e se estabeleciam como proprietários, gozando de favores e privilégios, os caboclos pátrios viam-se preteridos, tratados com desprezo, vítimas de violências praticadas pelos latifundiários e pelas empresas estrangeiras, empregadores de jagunços.

Mas o trem é uma necessidade. Talvez apitasse incubando escolas e hospitais, talvez trouxesse a carga sobre rodas de porvir. Fada de ferro, talvez metamorfoseasse e transformasse enxada em arado, as cascatas em força hidroelétrica, miséria em fartura. Talvez chegasse com ofertas e preços para os produtos agrícolas, carregadinho de felicidades. Mas o truste procurava lucros à custa do trabalho do povo. E, apesar disso tudo, estava bom o mercado do boi.

Mas o trem é uma necessidade. O Bituruna, entrecortado de riachos e fundas picadas, algumas estradas carroçáveis, invadido por tropas de montanhas, vasta casa verde, como um monge, segregara-se do mundo. Nenhum exército o invadiria impunemente. A natureza o fortificara, minando todos os caminhos com pedras, algares, barro, sangas e lodaçais; construíra muralhas com as serras e armadilhas com itaimbés; dispusera imensas legiões de pinheiros defendendo as campinas e adestrara a mataria; munira-o de feras, serpentes e insetos.

No transporte de mercadorias como sal, pólvora, chumbo, querosene, aguardente e tantas outras, o cargueiro de mulas gastava dias e noites. A boiada que partia para as cidades litorâneas chegava estropiada, após o estouro à beira dos peraus.

Talvez o trem viesse resolver muitos problemas. Quem sabe se o lavrador encontraria para quem vender o que plantasse e não visse cereal apodrecendo ou não desse feijão aos porcos — não mais semearia para o próprio sustento.

Só não faltou dinheiro para a grande festa da inauguração de São Sebastião das Perdizes, a cidade mandada construir sob os auspícios de Rocha Alves, o mais íntimo amigo de João Maria. Não houve quem não colaborasse para o êxito da campanha.

Nunca se viu tanta boa vontade, sobraram dádivas e prendas. Monge não era, porém Rocha Alves dava bons conselhos, benzia e receitava. Fazendeiro, mas um simplório, um jeca-tatu de botas e esporas, coração de pobre. Um líder, um chefe espiritual. Apesar do ar enérgico de patrão, se confundia com a peonada. O seu mundo, como o de todos os proprietários daquelas bandas, era a sua fazenda, onde vivia como um rei. Ou príncipe sertanejo. Isso explica, em parte, porque fora sempre um ardoroso partidário da causa monarquista. Nem podia conceber outra forma de governo, que não a vigorante em seus domínios. Deus nas alturas e ele cá embaixo, cônscio da importância, mas humilde com os semelhantes. Nas redondezas, poucos não o tinham como compadre. Cordão entrançado prendendo o novo chapéu ao queixo pontiagudo, poncho-pala cor de cinza, armadura de lã, bombachas negras com bordados dourados e botõezinhos de madrepérola, mudas concertinas de couro nas pernas — com aquele ar soberbo de caudilho, parecia um príncipe rebelde, belicoso. Fora sempre um maragato e nunca tolerara pica-paus. Jactanciava-se de ser um grande amigo de Gumercindo Saraiva e apóstolo de João Maria de Jesus, seu compadre. Considerava iminente a restauração da monarquia. Seus domínios se estendiam sobre as chapadas da célebre serra de Santa Maria, já no município de Caçador. O dizer em voga lhe atribuía uma maior riqueza: "a da alma". Cofiava o bigode sob as largas narinas, quando estalou a idéia em seu crânio: fundar uma cidade santa ali em Perdizes, um centro religioso, erigindo uma igreja em homenagem ao santo cavaleiro, cavaleiro como ele, ao padroeiro do sertão. João Maria aprovara os planos e a voz corrente dizia que ele estaria presente na nova Meca. Era raro o dia em que não chegava gente à fazenda de Rocha Alves para tratar do assunto, ainda dos lugares mais distantes, tão bem acolhida. A poucos quilômetros da sede, num terreno onde havia espesso vassoural, foi levantada a ermida no centro de algumas palhoças.

A comissão de festeiros elaborou o programa e, em toda parte, a notícia formou redemoinhos de gente parladeira, principalmente defronte às vendinhas dos minúsculos povoados. Eliazinho dos Santos, o pai da menina Maria Rosa, a que tinha santos também nos sonhos, a que inspirou os mais belos amores da casa verde, foi convidar pessoalmente frei Silvério para a celebração da primeira missa. Com o desaparecimento de João Maria, frei Silvério já não se sentia humilhado como outrora. Procurava aproveitar o culto do monge em benefício próprio e da Igreja. Não acreditava no ressurgir de João Maria. Achava bom ter aumentado a religiosidade do povo. "No fim, os padres saíram ganhando", pensava com o seu rosário.

No trem de casco, no trem de orelhas, os convivas vieram de todos os recantos do Bituruna. Moradores das redondezas, poucos apontaram a pé. No dia da inauguração, São Sebastião das Perdizes parecia uma bandeira brasileira a tremular festiva. A igrejinha hasteada no tope, os ranchos fincados no chão e cobertos de palha eram as suas estrelas. O lema estava escrito no ar, no chão, no céu, nas faces dos moradores: Igualdade.

Fora abatida uma boiada para a ruidosa comemoração; com mãos estranguladoras no pescoço, algumas dezenas de frangos rodopiaram e estrebucharam; leitões e cabritos foram pelados para o forno; e ainda sobrou dinheiro que frei Silvério levou para o santo...

De madrugada, rasgando a treva, coruscavam os foguetes de vara, estourando no ar a nova alvissareira. Não tardou e, do sol, uma tribo de índios guerreou a terra, atacando-a com flechas de prata. Cheinha de coloridas bandeirolas que pareciam borboletas penduradas nos fios, São Sebastião das Perdizes nascia ostentosa em seu berço de relvas. A passarada revoava em bandos, como pétalas de malmequer, punhados de confete jogados pelas mãos de folhas dos espinilhos.

Os campos já resplandeciam sob o chuvisqueiro solar e, ainda, o chorrilho humano escorria no caminho que vinha da encruzilhada. Enfeitadas de guizos e pompons, as carroças saracoteavam de contentamento e só pararam de tremelicar quando os moços pularam para fora em algazarra.

Naquele distante 19 de janeiro, dia da magna comemoração na casa verde, era o acontecimento mais extraordinário a inauguração de São Sebastião das Perdizes.

Quando frei Silvério apeou do burrico, houve salvas de tiros e inesquecível ovação:

— Viva frei Silvério!

— Viva são João Maria, são Sebastião e frei Silvério!

— Vivôôôôôô!!!...

E o frade não perdia tempo:

— Viva a Imaculada Conceição e a santa Igreja Católica Apostólica Romana!

Depois uma procissão percorreu vagarosamente todo o vilarejo, a imagem de são Sebastião carregado num andor e, à frente, frei Silvério a cantar acompanhado pelo coro desacorde:

— Vestida de branco Ela apareceu, trazendo no cinto as cores do céu.

Ave, Ave, Ave Maria!

Ou:

— Queremos Deus

que é nosso Rei,

queremos Deus

que é o nosso Pai!

Então a multidão invadiu a ermida onde frei Silvério celebrou a primeira missa da nova cidade. Abrindo-se de contentamento, parecia um pinhão cozido: ponta para baixo, cabeça para cima. A batina puída, descorada. Alourado e esguio, com uma cara de quem é triste ou sofre de amebas, um capuchinho simpático. Naquela ocasião, fez um sermão cheio de humildade e sabedoria, pregando resignação, combatendo a usura dos ricos e interpretando passagens bíblicas. Aproveitando a ocasião, contou casos de desgraças sucedidas como castigos divinos a maçons e protestantes. Bem no fim do discurso, advertiu a assistência contra os "falsos monges". Nesse momento, o avô trinta vezes, o vovô Zebinho, do banco em que estava, levantou a voz:

— Nós aqui só adoramos são João Maria.

— Ah! Este é o verdadeiro! — explicou frei Silvério, aumentando o próprio prestígio.

Do dia para a noite, tornara-se alvo de admiração e devoção, cercado pelos grupos dispersos na praça e ora em conferência com as beatas e distribuindo santinhos às crianças.

Nesse dia de esplendores, pela vez primeira, Antoninho e Maria Rosa se encontraram, se olharam e se gostaram. Entreabriu-se uma flor da união dos dois corações: no da menina ficaram as pétalas, os espinhos no do rapaz.

Antoninho pressentira o acontecimento, já no momento em que estreava a montaria. Da peonada que labutava na fazenda do velho Elias de Morais, talvez fosse o mais pobre, além de mais jovem. Achara-se o mais rico ao ver-se nas ancas do garrano com gosto arreado, lombilho de cabeção metálico, peitoril e freio de presilhas, coxinilho e badana. Tinha, como todos, a cara resplendendo confiança e liberdade. Mas um filho de agregado não poderia esperar tão cedo tamanha felicidade. Caboclote, não era nenhum tongo: há muito sabia quando vem chuva, vento ou geada. No domingueiro, coçado terninho de brim riscado, assumia ares de importância e atrevimento, com aquele chapéu de boiadeiro, o laço rubro envolto ao pescoço, as botas de canos bordados. Com o bem arreado garrano e seu traje de garnisé se impressionara a si próprio como à singela e sonhadora Maria Rosa. Dava valor ao que possuía: seu pai tivera apenas um matungo, rabudo e peludo.

Caboclote, Antoninho se orgulhava de não ser um miserável. Tudo, menos ser miserável. No Bituruna, na casa verde, só presta quem é temido, respeitado como homem e como amigo. Há de se proteger o pobre, o fraco, o irmão de crença. Miserável é o covarde, janota da cidade, medroso, almofadinha; miserável é aquele que não carrega no cinto de cartucheira um revólver de calibre 38, ou a espingarda a tiracolo, ou o comprido facão de cotejo; miserável é o que não trabalha e acumula riquezas, amealhando terras, enquanto outros labutam e acumulam dívidas e sofrimentos. O miserável não sabe domar o burro xucro, jogar o laço e, pelos chifres, tombar o garrote no corro. O miserável não crê em são João Maria!

Deus te livre, ó Antoninho. Nasceste na casa verde, filho da selva, criado no pampa! Vieste à luz no casebre do flanco da montanha. Montanha que chora com olhos d'água o cristalino riacho. Teu berço foi a garupa do petiço. És na terra o que é são Jorge na lua: cavaleiro. A roça e a faina do campo foram a tua escola. Escreveste com a foice o teu nome no chão. É bastante ter por mestre o cavalo, o cavalo que ensina o que é o mundo, e o mundo é o Bituruna, a casa verde. Quem te ensinou a acorrilhar o gado, parar o rodeio, sofrear a manada; quem é o teu companheiro na vigília, na viagem; quem suporta o peso do arado, da carpideira, da carroça; quem te educou no trabalho e exercitou para combate? Ama, pois teu garrano, ó Antoninho. Teu pai, com parte do lar na estrada, homem sem parada, tinha o monge no corpo, não se apegava a bem terreno, errando pelos ranchinhos alheios e pelo mundo como as águas dos rios. Vivia dividindo com os poderosos os frutos do próprio trabalho e a essa exploração chamavam empreitada, parceria, arrendamento.

Na fazenda de Elias de Morais, como as outras, a labuta da peonada fora um exercício de guerra. Agora o serviço era de pouca monta. Abrira-se o mês de fevereiro e somente em meados de março começaria a marcação. A salgagem requeria pouco tempo, maiores cuidados se faziam necessários durante a vigilância exercida sobre as vacas e os terneiros. À noite, os bezerros ficavam soltos no curral. Na hora em que Antoninho estreara a nova montaria, já haviam mamado e berrado à vontade. Elias de Morais entregou-lhe a bandeirola de são João, que tremulava na fazenda, naquele momento em que Antoninho se achava à frente do grupo de cavaleiros, próximo ao casarão da sede que dominava os sítios e a paisagem monótona. Ao empunhar o mastro, enchera-se de bons augúrios. Guia, porta-estandarte, chegara a São Sebastião das Perdizes, seguido por Elias de Morais e seus camaradas. Apeando no largo da igrejinha, deu de chofre com Maria Rosa, a cujas mãos passou o estandarte sagrado. Num instante ambos estremeceram e ficaram paralisados, os olhos a versejarem poema de amor.

— Vim buscar a bandeira de são João Maria, que Rocha Alves me mandou — decidiu-se Maria Rosa.

Na voz, Antoninho ouviu o gorjeio dos pássaros da casa verde, descobriu bosques imensos e dezenas de estrelas nos olhinhos gateados, viu nascer a aurora num sorriso apenas esboçado, sentiu o frescor dos arroios e das cachoeiras no ar que a envolvia, enquanto notava a bruega da noite a escorrer em seus cabelos. O jovem, com Maria Rosa nas vistas, era uma criança enlevada com uma rosa na mão. Achando-a cheinha de mimos, num insignificante lapso de tempo, associou idéias extravagantes. Lembrou-se das florinhas das campinas e da murta carregadinha de brotos e, vendo-lhe, os lábios imaginou-se chupando amorinhas.

Maria Rosa era um bordado vivo, bonito e singelo como esses dos panos de parede, mas estampado na sala de visita da casa verde. Tinha a beleza simples do vestidinho de chita com desenhos de flores, cinturado pelo laço de fitas de três dedos de largura, borboleta de asas abertas em suas anquinhas. No peito, um recorte vermelho em forma de coração. Atraía este mais atenção do que os brincos dourados e o colar de contas coloridas.

Antoninho se expressou com emoção, despercebida por Maria Rosa, mas revelada no rosto em que a barba repontava timidamente sobre os ângulos da boca:

— Você leve porque as mãos santas foram feitas para servir a Deus.

Maria Rosa também sentira o choque. Ao afastar-se com a bandeirola, sentia dificuldade em caminhar naqueles sapatinhos escarlates, de saltinhos. Não tropeçou, não torceu o pé, mas se confessou olhando para trás.

Naquelas bandas, a mulher se casa muito cedo e a maternidade começa na infância, meninas embalam não bonecas, mas os filhinhos no colo. Maria Rosa não aprendera nem a ler e escrever, porém sabia campear o gado. E abelha, tinha ferrão para defender o mel.

Após tal encontro, nunca mais se interrompeu a corrente, de coração a coração. Antoninho, entre vários admiradores, era o felizardo e, bem por isso, odiado à primeira vista pelo caboclo Deodato.

Pitando o palheiro, recostado a um tronco retorcido, nodoso, desgalhado, Deodato espionara-os esmagado pelo ciúme. Tinha um só confidente, ao qual confiava a própria alma — um só amigo de todas as horas difíceis, um amigo fiel, mudo, frio, vingativo, feito de aço e sedento de sangue: o facão, enfiado na longa bainha de couro, pendendo do cinto. Deodato não possuía palavras para expressar tão grandes sentimentos, desencadeados dentro do peito, não os revelava, sofria calado. Sua tristeza era um pássaro engaiolado, sem linguagem para voar; seu despeito, uma fera enjaulada a sondar pelas grades dos olhos, urrando vinditas. Quando prestava serviços na propriedade do Eliazinho, pai de Maria Rosa, andava seguindo a menina como se lhe fora a sombra. Mas, para ela, não passava de um pau-de-bugre: ela tinha-lhe aversão, alergia. Duma feita, quando Maria Rosa ordenhava as vacas no estábulo, Deodato se declarou:

— Maria Rosa, vancê se casava com eu?

Ela não respondeu, virou as costas com desdém e carregou o leite para casa. Eliazinho, alertado pela esposa, acabou despedindo o camarada. Bem dissera o capataz:

— Muié tem tanta como pinga e pau de porteira. Mecê é mais teimoso que a muié do Pedro Pioio.

Conta-se que havia um casal muito briguento, cujo marido a rabugenta esposa xingava de Pedro Piolho. Um dia, este ameaçou enterrá-la viva se continuasse a escarnecê-lo. Ao cumprir o prometido, a desgraçada alçara os braços para fora da cova, esfregando as unhas dos polegares, chamando-o Pedro Piolho através do gesto. Teimosia de bugre, teimosia de Deodato.

À cata de emprego, Deodato vagara de estância em estância, sem paradeiro, como bicho carpinteiro. Algum tempo fora arrieiro. Nas longas jornadas, conduzindo os muares, sentia ânsias de atirar-se aos peraus. Mas era um homem e não um miserável, tinha ânimo dos fortes e não se deixava vencer em luta que travasse. No pouso dos caminhos, com a saudade por companheira na barraquinha, via a imagem de Maria Rosa na prata da bomba do chimarrão, no lume do facão, no fogo da binga, na fumaça do palheiro. Arranjara-se, finalmente, numa estância adjacente, alojado num galpãozinho distante da sede. Na realidade, amava a casa verde e seu teto de estrelas. Já possuía um pingo, selim e pelego. Sabedor da inauguração de São Sebastião das Perdizes, arribou ao novo povoado. Calça de brim, camisa de algodão e botinas atestavam sua pobreza. Bem trajado, porque a maioria se constituía de maltrapilhos.

Naquela hora do encontro entre Antoninho e Maria Rosa, ofegante, teve uma tempestade interior e pensou com seu fiel facão: "um para o outro, dois até ver e três é correr". Ouvira o velho Jerôme, o sábio Jerôme, dizer que "com um homem e uma moça, se faz noivado e casamento; com dois homens e uma barra de saia, se arruma amarra de cipó e se faz uma cruz". Ensimesmado, a cara ensolarada sob o chapéu gasto, velando ciúme e despeito, Deodato se atolava nas mágoas da terra por um anjo do céu. E amor é número par — ímpar é desgraça na certa.

Antoninho e Maria Rosa estiveram novamente juntos dentro da igrejinha, um com o outro encantado. Se as imagens dos quadros da paixão de Cristo, pendurados nas paredes, tivessem vida, haveriam de se mexer admiradas quando Maria Rosa o convidou:

— Vamos ver quem reza primeiro dez ave-marias e dez padre-nossos?

— Quem perde paga um beijo!

O estalo escutado pelos santos dos oleogramas foi abafado pela voz do leiloeiro:

— Quem dá mais, quem dá mais, quem dá mais?!

— Quatro mil-réis!

— Dou-lhe uma, dou-lhe duas, e dou-lhe...

— Cinco mil-réis!

— Quem dá mais, quem dá mais, quem dá mais?!

— Dou-lhe uma, dou-lhe duas... dou-lhe... três!

Quem leva o peru é o coronel.

Gauchescamente imponente, vistoso, Rocha Alves parecia um galo de raça, um galo de briga. A festa da Trindade, a festa do Divino, não se realizava no Bituruna, mas os pobres o viam como se tivesse sido nomeado imperador por são João Maria. Outros festeiros se trajavam de modo mais ou menos idêntico, a maioria sem o poncho-pala. Nuns e noutros, o belo lenço vermelho se abria sobre o peito, como dois córregos de sangue. Elias de Morais, Eliazinho dos Santos, Chico Ventura, Alonso, Zebinho, eram também figuras de destaque e respeito, frutos da árvore mais alta do Bituruna, do último galho. Mas, pelo ideal, se igualavam com os mais modestos vaqueiros, com os mais modestos camponeses.

Longas tábuas estendidas sobre cavaletes, a mesa fora disposta num caramanchão de palha de bambu. Das taquaras da coberta pendiam folhas de xaxim e flâmulas de várias cores. No candente brasido da vala, fogão do churrasco, a carne estalava suculenta, aguçando o apetite com o aroma saboroso, trespassado pelos espetos. Leitões, cabritos e frangos foram assados em separado pelas mulheres, as quais também fabricaram vinho, cerveja com mel de abelha e garapa de canela.

Quando o sol estava em pé, como um polvo de fogo — cabeça no céu, tentáculos na terra —, o caramanchão abrigou os convivas vindos de todos os recantos.

E caboclo não come churrasco na mesa, de prato e talher. A sua mesa tem toalha de campina, seu prato é a palma da mão, seu garfo é de cinco dedos. Sob frondoso arbusto, senta no catre dos calcanhares.

No ajuntamento, à hora do banquete, destacavam-se os festeiros, o juiz, o promotor, o inspetor de quarteirão, frei Silvério e o rábula Tavares. Este morava em Canoinhas, muito distante de São Sebastião das Perdizes, onde chegara um dia antes da inauguração. Tinha certos interesses, ligações com alguns coronéis catarinenses, mas comungava com a crença de todos, adepto de são João Maria. A fama de sua oratória corria mundo. De rústica elegância, um tanto forçada e pedante, era vivíssimo e muito loquaz. Casimira à moda, vestia um terno escuro, paletó compridão de bolsos largos, bem abotoado colete exibindo a corrente de prata do cebolão, fina camisa listrada e de colarinho alto. Tinha sempre o porte ereto e parecia prestes a ser estrangulado pela gravata. Os sapatos brilhando. Viajara a cavalo e trouxera o traje na bagagem. A cabeça de cabelos abundantes, negros como os bigodes, e contrastando com a cor da pele, dava impressão de ser inclinada para trás. Lembrava um alazão fogoso empinado no cume duma colina.

A avozinha Querubina, esposa de Zebinho, chamara com voz de badaladas:

— Bastiana! Fidoca! Fermina! Se apinchem pra ponhar a bóia!

Afora o churrasco, foi servido em caldeirões, caçarolas e tigelas o assado de porco, cabrito e frango. Depois da comilança, a discurseira. Tavares soergueu-se sobre a cadeira de palha e, abrindo os braços em forma de cruz, levando uma das mãos ao peito, começou a oração:

— Excelentíssimo juiz de direito, excelentíssimo promotor público, reverendíssimo virtuosíssimo padre Silvério, meus senhores, minhas senhoras. Quis o destino implacável que fosse o mais humílimo servo de Deus, criador do céu e da terra, o escolhido para dirigir-vos a palavra neste momento da mais alta significação cívico-religiosa. Com a voz embargada pela emoção, o coração a transbordar de alegrias, não sei como cumprir a sagrada missão a mim confiada com tanta honraria desmerecida, se não me socorrer a Divina Providência, se não guiar meus passos nesta caminhada sacrossanta o nosso santo padroeiro são Sebastião, se não me estender a sua mão milagrosa são João Maria de Agostinho. Faltam-me as palavras, hoje mais do que nunca, e um misto de alegria e tristeza, de dor e prazer, me invade a alma ao dirigir a este povo católico e generoso que habita o Contestado, o verdadeiro Eldorado do mundo de amanhã, fértil Canaã, orgulho de Santa Catarina e quiçá na grandeza do Brasil. Com a alma em pranto e genuflexa venho, em primeiro lugar, render a minha sincera e comovida homenagem a esse intrépido e denodado trabalhador das causas justas: D. Manoel Alves de Assunção Rocha, o nosso mui estimado Rocha Alves! Deus, que está no céu, vê e cobre de bênçãos sua obra imperecível. Que são Sebastião nos livre da fome, da peste e da guerra! Curvo-me submisso a seus pés, ante a figura impoluta, caráter sem jaça, padrão de dignidade e honestidade. Levantar uma cidade santa, edificar um templo, é trabalhar por esta pátria amada, herança de D. Pedro I e D. Pedro II, embora tenha vingado o governo republicano. É dar consolo e alívio às almas torturadas e, ipso facto, é ver a esperança, ser reanimado pela fé, fortalecido pela confiança, é ver que o céu escuta as suas preces e atenderá todas as suas súplicas. A capacidade realizadora do povo catarinense ao construir esta cidade santa, próspera e bela, é uma prova insofismável de que o Contestado deve pertencer juris et jure ao Estado de Santa Catarina. Desta solução depende a ordem e a tranqüilidade. Não quero citar os nomes dos Camargos, dos Marcondes, dos Araújos, dos Paulas, dos Gordos, mas é tempo de o governo punir aqueles que fazem correr o sangue de nossos patrícios por causa de ambição de terras e mais terras. Penso que as terras devolutas deviam ser distribuídas aos nossos compatriotas, completamente esquecidos pela república. Não é mais possível tolerar a ganância dos coronéis, a usurpação e a jurisdição deste território pelo Estado do Paraná. É tempo de elevar os nossos pensamentos ao bom Deus e ao bom Jesus, unirmos nossas vozes num brado uníssono, que há de ser: — Execução da sentença ou morte! Que Deus acompanhe Rocha Alves! Que Deus Abençoe São Sebastião das Perdizes!

Salvas de tiros para o ar anunciaram o fim do "belíssimo" discurso.

Tavares suava como dia chuvoso, passava o lenço no rosto, e era felicitado, abraçado.

— Sujeito de pergaminho! — diziam os caipiras, com admiração.

Num ambiente de incontidas satisfações, horas prazerosas, festeiros e convivas devoraram a carne, o pão, a salada, a farinha e abundante bebida. Depois o banquete se repetiu, com a vez das mulheres e das crianças.

Entretempo, lá fora, os camponeses pobres, a maior parte esfarrapados, fincavam os espetos no chão sombreado pela cabana ou pelo arvoredo, agachados, fazendo ângulos com as pernas, curvo o espinhaço, joelhos em riste. Com o facão na destra, se lambuzavam sem cerimônias. Pés-rapados, pés-no-chão, pelados, como lhes chamavam os prepotentes, porque não possuíam terra, nem haveres, nem roupas. Constituíam a maioria presente, pois assim era o povo do riquíssimo Bituruna, da majestosa casa verde.

Também lá fora a conversa rodopiava e se elevava num remoinho de sons, com o capeta a fugir apavorado com tanta religiosidade. E fora o demo que escrevera pela mão do diretor do semanário Missões, editado em União da Vitória, que "a máquina de ferro é a civilização em marcha e só vem beneficiar a humanidade".

Lá fora, o inigualável Jerôme, o Jerôme sem vintém, e que tantos amigos tem, o Jerôme que todos querem bem, o bondoso Jerôme, viva imagem dos caipiras mais sábios e experimentados, mais desconfiados, um velho camponês de pés espalmados e largos como os de pato, um chefe pelado, adivinho, curandeiro, respeitado oráculo, pregava:

_ Civilização, nada! Só desgraceia o mundo. Quando não tinha disso, tudo vivia bem e era tempo de rei. Um home era home de verdade e honrava a barba da cara. Ninguém liga pra perdição das família. Num querem que os filhos respeitem os pais e os mais véios, querem roubar as muié dos outros e ter amantes. Ninguém mais se educa na palavra de Deus e faz o sinal da cruz. Nos bãos tempos do império se respeitava a lei de Cristo e os direitos de posse. Ninguém tomava as roças dos pobre. A lei dos rico é funil: larga pra cima, fina pra baixo. O governo só dá terras pros miseráveis, pras Lamber e pras gente da Oropa. O cumpadre João Maria vai aparecer de novo, promessa de santo é contrato selado no cartório. Maria Rosa já viu ele numa encruziada. É perciso pôr um fim nesse paradeiro!

Pelado, Jerôme era como os bugres, como os desocupados, como os agregados, como os pobres. Calça de brim pelas canelas, rota, remendada, marcada pelos tempos; camisa estraçalhada; paletó imundo rasgado, com o forro dos bolsos expostos pelas aberturas; e tudo grosso de sujeira. Pés no chão.

Um dos irmãos Colete, o fanfarrão de Curitibanos, que parecia antes estar fantasiado do que vestido de cavaleiro, quis contrariar a opinião de Jerôme, falando bem do trem e mal do governo de rei. Jerôme passou-lhe uma descompostura:            

— Uai! Mecê virô maquinista? Mecê num tá na festa do cumpadre João Maria? Será que virou ateu, também?

Em seu apoio, todos faziam ponto de interrogação com os olhos, com a cabeça, com o corpo.

Quando um castelhano quis falar mal do Brasil, afirmando que o pinheiral do Bituruna ia de graça para a Argentina, Jerôme replicou calmamente:

— Num faz mal, nóis tomamo tudo isso de vancês memo.

Em cada ajuntamento sempre se destacava um tipo idêntico a Jerôme.

Certo ancião de chapéu de palha, que fora andarilho, descambava a língua nos coronéis, na polícia e nos jagunços das companhias.

— Peludos! — uns exclamavam, com raiva.

— Miseráveis! — diziam outros, com desprezo. Explicava-se que todos os coronéis não eram peludos e miseráveis. Citava-se como exemplo o nome do coronel Henriquinho que, em Curitibanos, dava abrigo aos perseguidos pelo Albuquerque. O fato é que tal designação não se reservava a fazendeiros como Rocha Alves, Eliazinho dos Santos, Elias de Morais, Alonso, Chico Ventura, ou Zebinho.

— São homens de crença, não têm riqueza por riqueza — diziam deles os camponeses, revelando nos dedinhos de prosa tudo o que pensavam e o estado de espírito reinante.

De barriga cheia, a sesta acordou com o berreiro do leiloeiro.

Para a tarde, estava programada uma corrida de cavalos. Na chapada mais ampla, fora improvisado o hipódromo. Ou melhor: a raia. Na hora da largada, Marmelada e Fumaça resfolegavam, a expectativa doía nos nervos e inflava os peitos do público. Não havia quem não houvesse apostado, ou dinheiro contra dinheiro, ou objeto contra objeto.         

Manoel, filho do Zebinho, perderia um petiço para João Vieira. Antoninho ganharia um facão. Deodato ficaria sem a binga.

Com o coração também a galope, a assistência aguardava impaciente o sinal da partida: um tiro para o ar.

Segundos antes do estampido, Chico Pitoca gritou:

— Agora é que a porca torce o rabo!

Nem frei Silvério conseguia dominar a emoção: jogara o livro de rezas contra uma promessa de Maria Rosa.

Da risca imaginária, as éguas parelheiras dispararam numa chispa sem bridas, num tropel surdo, a casco de rebanho, abafado pela bulha da platéia alvoroçada. Rápidas como raios. Grudados como carrapatos no lombo dos animais, se agachavam Gidoca e Chandoca, voavam batendo com as pernas e os braços, enquanto as rosetas das esporas trituravam as virilhas das fogosas. Montaria a meio-pêlo: apenas um coxinilho cobria o espinhaço de Marmelada e Fumaça, que esvoaçaram de par a par no prado e passaram juntas pela marca da chegada.

De pronto nasceram as discussões, as desavenças. Uns achavam que Marmelada havia ganho por uma cabeça ou pelo focinho, outros argumentavam de modo exatamente contrário. Todos se achavam com direito a receber as apostas. Chico Taquara se exaltara e isso constituía um perigo. Chico Taquara, rei do cotejo, o rei do duelo caboclo, o invencível Chico Taquara. O facão de cabo de osso chegou a relampear no ar e o frege já ia se generalizar, não fora a intervenção de Rocha Alves e Frei Silvério. Mas, se não houve morte, foi milagre, intercessão de são João Maria!

— Ninguém ganhou, nem perdeu. Houve empate — declararam os pacificadores.

— Empate! — repetiam todos, insatisfeitos.

Depois que o sol afundara no taimbé do poente, a noite parecia uma negra baiana, como é a baiana enfeitada de colares, pulseiras, brincos, balangandãs, bata de rendas, alegre e sorridente. Então São Sebastião das Perdizes era um vilarejo celeste. Com estrelinhas coruscantes, hasteada a lua como bandeira, onde está bordada a imagem de São Jorge em seu alazão. As palhoças, as palmeiras, o pinheiral, a igrejinha, tudo um quadro emoldurado pelo vassoural, são Sebastião das Perdizes parecia pincelada pelos astros. Clareavam-na os raios de luz, em floco, como se fossem as barbas de João Maria. Tinha agora o aspecto de presépio e, na realidade, era um arraial santo.

Bruxuleantes lampiões a querosene, pendurados nas estacas, douravam com fiapos de lantejoulas o salão do fandango. Os moços faziam lembrar os filhos do Chico Santos que viraram tangarás. A alegria se alastrava como o fogo no campo. Todo mundo bailava, preto com branco, bugre com mulato. Caipira que não dança, não canta ou não é violeiro, então só se for curandeiro. Chique como um carrapicho, Antoninho vivia a noite mais feliz da existência, o que também sucedia a Maria Rosa, com sua pompa de arara. O acordeonista e o rabequista tocavam sempre as mesmas notas musicais, como bonecos de corda. Entre eles surgiu Jerôme, soprando a melodia num pedaço de pente envolto numa folha de laranjeira. Antes de começar a tocata, o salão ficava tomado de avançadas masculinas e, quando o rabequista encostava o instrumento ao queixo, se dava o estouro. Cada qual procurava chegar primeiro à preferida. Antoninho estava de olho na banda e em Maria Rosa, cocando-a. Ficava de perto, sempre disparado à frente de Deodato e outros pretendentes. Como eles, não tinha na mente a idéia do pecado. Dançava por prazer. Vibrava e se concentrava nos passos, não colava o corpo ao par, não proferia uma palavra e chegava a respirar com dificuldade. Tangará. Enrijecia-se, forcejava, segurava com firmeza a mão da graciosa companheirinha, gingava o braço para cima e para baixo e, com a outra mão, puxava, repuxava e amarrotava o vestidinho de chita estampada. Ora marchando, ora dando saltinhos ligeiros, rodopiava e coiceava o chão. Quando o xote alvoroçava o salão, o bater de pés levantava poeira.

Frei Silvério não teve medo do inferno e valsou uma moda com a negra Belarmina. O juiz e o promotor se encorujaram num canto da sala, palestrando com o rábula Tavares.

Bibiano, rapazote travesso e valente, excedendo-se na pinga, ia provocando um chinfrim ao jogar um toco de cigarro à mesa onde se encontravam os irmãos Sampaio. Zebinho apartou a briga, acalmando os exaltados.

A festa foi de arromba, deixou muito atrás as de Sinhana Bita, em Porto União da Vitória: nunca houve churrascada igual, nem em tempos de eleições.

Depois São Sebastião das Perdizes ficou deserta. Somente um pelado, um asceta, o Joaquim Bertolino, permaneceu num ranchinho de palha, aguardando o Juízo Final.

Rocha Alves fora o rei, e o povo sua corte. Enquanto não ressurgia o monge, era o chefe espiritual do Contestado.   

 

                       

Capítulo II

 

Coronéis viram contrafeitos as fazendas desertas no dia da festa, permitindo a contragosto a partida da peonada, da criadagem.

Não foi exatamente o que aconteceu na fazenda Chuva de Pedra, em que, desde a véspera, o coronel Petrônio se achava voluntariamente sozinho. Não de todo, mas sem a família que, há dias, mandara passar "uns tempos" na cidade.

Sozinho é modo de dizer. Fazia-lhe companhia na sombria mansão campestre a serva Dadá. Dadá, a que parecia mãe do mundo, a mãe de todos, a dona dos campos e da mata, a dona de tudo. Empregada de estimação, dessas que os suseranos querem tanto como aos animais que adulam e chicoteiam. Que seria dos filhos pequeninos daquele patrão enérgico se lhes não valesse a negra volumosa de olhos e dentes rebrilhantes? Era o "Dadá me acuda!" e a velha retinta saía afundando o soalho ao socorro das crianças, antes que o rabo de tatu se encharcasse de sangue nas costas das pobrezinhas. Só ela enfrentava o lobo, à toa enfurecido. Aquele senhor era um demônio que dominava pela violência e pelo terror. A ira faiscava em seus olhos, escorria-lhe no suor, rugia-lhe na voz. Dadá escorava-o por ser bondosa, embora o temesse. A patroa vivia apavorada, não ousava abrir a boca para contrariar a fera, muitas vezes proibida até de chorar uma lágrima, ou de fazer um movimento. Em duas ocasiões, apenas, pudera exibir em público as sedas, uma no clube, outra no teatro, mas à volta pagara caríssimo pelo prazer: a cada palavrão, dos quais cadela era o menos injurioso, recebia um potente murro na cabeça ou no rosto. Sem motivo algum, despertava o ciúme do soberbo marido. Escrava, apanhava como escrava: escrava por ser mulher. Não tinha um esposo, mas um proprietário, um algoz.

Dadá era feliz comparada à patroa, sentia-se livre, exprimia-se à vontade, tão simples, tão espontânea, bonacheirona. Assim eram as criadas, e pobres das patroas!

Dadá ficaria cuidando do velho solar de tábuas e telhas goivas, servindo ao régulo exigente, arrumando e limpando os cômodos, cozinhando, pondo a mesa e depois iria embora para o seu ranchinho.

Conceição tivera de permanecer na fazenda, pois Dadá não podia fazer tudo sozinha e, além disso, o coronel Petrônio a incumbira de fazer compras no dia seguinte. Alguém teria de ficar atendendo o bruto. Ainda que esse alguém fosse a despercebida Conceição, botão de flor da roça, Conceição órfã de pai e destino, menina lacaia, aquela menina tímida que chegara, descalça e maltrapilha, há menos de um ano à Chuva de Pedra. A mãe, viúva que se vira obrigada, como tantas outras, a dar os filhos para os ricos criarem, não podia deixar de confiar no compadre que lhe batizara a filha na "santa Igreja". Assim o destino da filhinha passou a depender do reputado coronel Petrônio, cuja honradez, se fosse posta em dúvida por algum audacioso, significaria prisão, morte.

Conceição temia-o instintivamente. Vivia amedrontada dentro daquela habitação maldita. Sentia-se desamparada e pressentia desgraças. Vivia calada ou então respondia às perguntas somente com monossílabos. Detestava o casarão, nos cantos do qual procurava evadir-se, escondendo-se, esquivando-se às vistas maldosas do coronel Petrônio.

Desabrochava a mulher, uma menina-moça. Sempre fugidia, esgueirando-se de cabeça baixa pelas paredes mal caiadas, procurava ocultar os encantos sob grosseiros e desajustados vestidos, a face graciosa sob o véu do medo. Quem a fitasse por um segundo descobriria um rosto realmente belo, animado por olhos escuros e arregalados, emoldurado por uma cabeleira negra, desgrenhada, agreste e suavemente envolvente como a mata noturna.

Dadá aprontara a mesa, e Conceição jantara a um canto da cozinha.

Depois, já sem as botas e bombachas, o coronel Petrônio chamou de dentro do quarto:

— Conceição!

— Pronto, padrinho — respondeu a afilhada, estremecendo.

— Venha cá.

E a porta do quarto fechou-se atrás da estarrecida menina que, numa noite de terror, numa noite de violência, numa noite de asco e de ódio tornou-se mulher.

De manhã, Conceição sentia-se enojada, revoltada, enferma do corpo e do espírito, como que morta, como flor que murcha, enquanto lá fora sobre a campina o dia desabrochava com o sol despetalando-se no céu.

Passados dias, a família chegou da cidade. Conceição tornou-se mais queda, mais esquiva, sentimentos de ódio e vingança crescendo desordenadamente no coração. Era ainda uma criança para saber como desejar o mal. Nunca o aprendeu, todavia.

Dadá rebelou-se, desconfiada de tudo, que bem conhecia o íntimo comum desses suseranos. Tinha bastante experiência e conhecimento do mundo. Nem se deve falar de sua própria filha atirada aos lupanares mais sórdidos e imundos dos bairros sombrios das cidades grandes. Um dia, quando ouviu o coronel Petrônio dizer à patroa "Conceição está ficando moça, vou arranjar um marido para ela", percebeu-lhe a trama. Deodato veio à sede da Chuva de Pedra, apresentado como noivo à Conceição.

Pobre da patroa e das crianças! Nunca sofreu tanto. Dadá desapareceu da fazenda, levando Conceição. O coronel Petrônio passara o diabo para trás, de tão ruim que ficou.

Dadá foi procurar o delegado, o juiz e o promotor. Tudo em vão.

— É mentira da menina. Nunca fale para ninguém uma coisa dessas. O coronel Petrônio que não saiba, é um homem tão bom, tão honesto, devo a ele a minha autoridade...

O juiz e o promotor fingiram não acreditar na história do estupro. Ninguém tinha coragem de comentar o caso.

Por ordem do coronel Petrônio, Dadá acabou pagando os insultos na cadeia. Conceição ficou junto dela durante três dias, mas à noite pousava noutra cela em companhia do cabo. Foi solta sozinha, justamente no primeiro dia em que ganhou dinheiro para dormir com um homem. Ninguém a queria como empregada — mal falada, as senhoras olhando-a desconfiadas, com raiva e desdém, os homens com cobiça mal dissimulada. Pouco a pouco, tornara-se fútil, faceira, gostava de conquistar os machos, atraindo-os ao pecado, à traição, num desejo patente de vindita.

Quando voltou à Chuva de Pedra a mando do coronel Petrônio, estava disposta a casar-se com um noivo arranjado às pressas, livrando da prisão a vilipendiada, a mamãe Dadá, a dona dos campos e da mata, a dona de tudo, criadeira dos filhos de amos, obrigada a cozinhar para os presos e os soldados.      

                       

            Visita dos Santos Reis

1.º

São chegados os três reis

Só da parte do oriente

Visitar do Deus menino

Salve Deus onipotente

Azul e branco pertence ao céu

As cinco chagas do corpo de Cristo.

2.º

No céu Cristo no presépio

Dando ao mundo assunção

Que tudo corre dela

Rendendo-lhe adoração.

3.º

Acordai vestais dormindo

O som da madrugada

Receber os santos reis

Que do oriente são chegado.

4.º

Aí vem o Espírito Santo

Vem o doce refrigério

Que os nossos males adoce

Divino Espírito Santo

Consolai vossos devotos

Quando deste mundo flor.

5.º

Três anjos da paz

Era o sábio mediador

Eis o emblema da inocência.

Eis o fruto do amor

Azul e branco pertence ao céu

As cinco chagas do corpo de Cristo.

(Poesia encontrada no patuá de um fanático.)

 

 

Capítulo III

 

Em ondas de prosa, espumadas de boatos, as notícias inundaram o Bituruna.

Ressuscitara João Maria de Agostinho! Reaparecera o monge! Santo não morre. O monge estava no Paraná!

Não. Não se tratava de João Maria, o Bom Jesus, mas do seu irmão são José Maria, informavam os que o haviam visto.

— Falso monge! — exclamavam com indisfarçável desgosto os "miseráveis", fazendo coro com frei Silvério.

Falso ou verdadeiro?

Vivendo sua provação, estava na cadeia, preso como qualquer larápio.

— Que sacrilégio! — diziam espantadas as aldeãs.

Constava que seu nome real era Miguel Lucena de Boa Ventura e que fora indisciplinado praça do Exército, além de cabo desertor da Polícia Militar do Paraná. Alguns atribuíam o rancor à farda e à caserna como conseqüência dos maus tratos que, na época, sofriam os soldados.

Sagrara uma fonte, na qual algumas donzelas se banhavam despidas. Um antigo general, o comandante da colônia militar de Chapecó, mandou-o escoltado a Palmas, a cidade-fazenda do oeste, a cidade das palmeiras.

No estreito cubículo, o frio navalhava as carnes dos desgraçados. Um ancião amanhecera enregelado e o cadáver custara a ser removido da cela vizinha. Completamente nu, estirado no assoalho imundo, um louco silenciara após a bordoada desferida pelo cabo. A tuberculose pastava-lhe o peito.

Dentro da masmorra era sempre noite, vedada a entrada do sol, agitador da Liberdade. Apenas uma vela, ardendo sob pequenino oratório, alumiava aquelas caras farpentas, escorridas de cansaço, marcadas de fundas olheiras.

Boa Ventura, o monge, são José Maria, era anjo da guarda a velar pelos infelizes no pardieiro. Gravara indelével na memória todas as passagens da obra mais lida e admirada na casa verde: A história de Carlos Magno e dos doze pares de França. Às narrativas estapafúrdias, apócrifas, acrescentava as que imaginava, mais fantásticas ainda. Com tal fertilidade inventava façanhas para os seus heróis que faria inveja ao autor desconhecido.

Era um caboclo, um plebeu, um asceta, um eremita, um curandeiro.

— Monge!

Relera a Bíblia, catecismos e livros de rezas. Fascinado pela vida dos santos, principalmente pela do antecessor, João Maria de Agostinho, não resistiu à tentação de imitar-lhe o exemplo. Dizem que uma das causas disso era o desgosto de ser leprosa a família. Ninguém sabe. Iniciara-se como são Manoel, mas acabou homenageando e tomando o nome do pai de Jesus, seguido pelo da Imaculada.

— Monge José Maria!

De boca fechada, fungando, o beiço superior saliente como se tivesse a língua sobre os dentes, os olhos perscrutavam argutos e vigilantes. Tratara dos ferimentos de Andrade, banhando-os com urina e mentruz. Acalmou-o com uma sentença do sermão da montanha: "Bem-aventurados os que têm sede de justiça, porque serão saciados."       

Posseiro, Andrade fora escorraçado de seu lote por um bando de facínoras. Os corpos de sua mulher e sua filhinha ficaram plantados sob as cinzas da choça de palmito, fixando e contrapondo o seu direito. Escapara à degola, por milagre. Fugira matando um jagunço e fora preso pela polícia de Palmas. Não lhe deceparam as orelhas ou o sexo, apenas teve raspados os cabelos, sob o chuveiro gelado. Antes de conhecer José Maria, se mostrava pessimista e eram suas expressões como "urubu infeliz até na loja se atola; cabra manca, morro abaixo faz viagem; tudo que eu possuía, o diabo fugiu com o saco; gente ruim existe mais que pau torto e bicho-de-pé; quanto mais magro, mais carrapato nas costas; a terra é como a mãe, depois que se perde, o valor aparece". Agora já falava noutro tom: "desgraça pouca é bobagem; num macho amarrado, pau nele; quem sofre é mudo, mas tormenta sem ronco vai mais água; muitas cruzes cabem ainda nas veredas..."

Escarranchado num canto daquela câmara mortuária, no centro de uma ferradura humana, formada por homens agachados, José Maria operava maravilhas. Incutia-lhes ânimo, fortalecia-lhes o espírito. Transportava-os a um mundo de sonhos, como se fora um liame entre a realidade e a fantasia. Amenizava-lhes a vida de sofrimentos. Alma brasileira, candura e alegria se expandiam no falar de devaneio. Mas seus olhos, tintos de terra, eram profundos: duas cacimbas com minas de lágrimas no fundo. A luz transmudava-se em prata na meia-lua de cãs que lhe contornava o rosto, coroando-lhe o queixo. A fronte serena revelava claramente uma inaproveitada inteligência e muita sabedoria, fronte que se apoiava ao nodoso nariz como a um cajado reconhecedor do terreno para a errante fisionomia... Com as pernas estiradas, uma por baixo da outra, fazia uma cruz. Sob as abas do chapéu de coco alto como cúpula de igreja, tufos de cabelos agrilhoados escapuliam para as planuras do pescoço e para os morros das orelhas. Com amplas mangas a avançarem sobre as mãos benzedeiras, o camisolão de gola aberta no peito lhe envolvia o tronco abaulado, caindo sobre os joelhos. José Maria era gordo e atarracado, de tamanho médio e de membros curtos e grossos. Tinha um bando de papagaios na garganta e não parava de palrar:

— Para mim é grandeza esta penitência. Minha jornada é longa e não tem fim. Eu sou como a batatinha e o chuchu, com qualquer quantidade de sal. Comigo é no cepo! Sou homem que cuspo e não lambo. O que digo, digo; não é papo, nem bico; mostro a estampa como espelho. Não estou aqui de escoteiro. Tenho que cumprir uma missão sagrada. Eu mato a cobra e mostro o pau! Já tirei muita gente da cama da morte. A verdade é terra suja e água limpa. Não tenho medo de sentença de forca. Vou sair daqui, debaixo duma coroa, com ordem de Deus. Digam, meus filhos: querem ouvir outra história de um nobre par de França?

— Queremos sim, são José! E o moço trancafiado recentemente ajuntou:

— Quem são os doze pares de França?

Aceso nos olhos de José Maria, um fogacho de entusiasmo correu-lhe as barbas, quando explicou:

— Os doze pares de França foram vinte e quatro valorosos cavaleiros servidores de Carlos Magno, que nunca conheceram o medo. Quem do medo corre, de medo morre. Eram Roldão, conde de Cenóbia, filho de Berta, irmã de Carlos Magno e do duque de Milão; Oliveiros, filho do duque Regnier de Hens; Guarim, duque de Lorena; Gui de Borgonha; Ricarte, duque de Normandia; Tietri, duque de Dardânia; Lamberto, príncipe de Bruxelas; Urgel de Danoá, rei de Dória; Guadeboa, rei de Frísia; Hoel, conde do Nantes; Neme, duque de Baviera; Jofre, senhor de Bordéus; Bonfim de Gênova; Galalão, que no fim foi um traidor; e outros que não me lembro o nome agora.      

Como ninguém o interrompesse, prosseguiu arrebatado:

— Vou dizer como era o jeito do imperador Carlos Magno, que viveu defendendo o cristianismo, em luta contra os turcos e os infiéis.

Imaginando-se como o rei, que cultuava, arregalando os olhos, repetia o trecho que sabia de cor:

Turpim, homem santo e arcebispo de Roma, que andou muito tempo em companhia de Carlos Magno, diz que ele era homem de corpo grande, bem nutrido, forte e proporcionado de membros muito ligeiros, feroz no olhar, tinha cara larga, e trazia continuamente a barba do comprimento de um palmo; os cabelos negros, o nariz rombo e chato, a presença era muito respeitável, os olhos como de leão, e um tanto vermelhos e reluzentes, as pestanas e sobrancelhas declinantes a roxas; se estava raivoso, só com os olhos espantava; o cinto com que se cingia tinha oito palmos de comprido; era largo de costas, grosso das pernas e tinha grandes pés. O seu comer era três vezes ao dia, e pouco pão; porém, comia ao jantar um quarto de carneiro, ou duas galinhas; a ceia era caça assada; bebia três vezes ao dia, porém pouca água. Tinha grande força: muitas vezes o viram partir capacetes de ferro, até com os dentes, e isto de um só golpe, e, estando a cavalo, levantava com um só braço um homem armado até o igualar com a sua cabeça. Tinha três condições virtuosas: a primeira, premiar bem quem o merecia; a segunda era fazer a todos igual justiça, sem que alguém se queixasse; a terceira, ouvir e responder a todos com paciência, manso e pacifico no falar e repreender.

Sentia que se ajustava à descrição e que os ouvintes o confrontavam com Carlos Magno, e isto o enchia de contentamento. Pachorrento, continuava:

— Em poucas badaladas eu conto o causo. Sou eu o filho do meu pai e da minha mãe. Eu sou grande! Sou homem de fala curta e conhecimento comprido. Na praça de festas de Paris, quando toda a corte estava presente com a sua magnificência, quando todos os melhores cavaleiros e príncipes atenderam ao chamado das justas em honra a Carlos Magno, quando os pares derrotaram todos os seus adversários, causando inveja aos estrangeiros, entrou por uma porta um cavaleiro gigante, com armas pretas e tendo no escudo um cipreste com a raiz para baixo, do comprimento que a árvore tinha para cima, e uma inscrição: "Se o corpo cresce agigantado / As raízes do afeto, que se oculta, / São do mesmo tamanho da estatura." Chegou no meio da praça, no seu cavalo baio ricamente arreado, e provocou em voz alta aquele que quisesse defender a amada contra a sua formosa Galiana. "Galiana não é mais bela que a minha Angélica!", gritou um cavaleiro elegante que entrava pela outra porta, montado num cavalo cheio de ouro e pedras de brilhante, trazendo um escudo com o desenho de um girassol inclinado para uma angélica, com os dizeres: "Nem de olhar para ti / Deixo de ser girassol." O primeiro cavaleiro era um mensageiro que durante duas horas lutou com Roldão, o mais conhecido dos pares, sendo por ele batido sobre a terra.

Com pasmo, deslumbrados, os detentos ouviram a singular narrativa, admirando as "belas palavras" de José Maria. Nele, cada um via Carlos Magno e, em si próprio, um par de França.

Aberta a porta da cela, um vento fantasmal assomou, arrastando no chão a capa sinistra, apagou a vela e flagelou os presos, que rangeram os dentes. Agasalhado à repolho, um balofo sargento de cara estanhada, vindo com o dia nas costas, projetando a sombra que parecia alma do frio e, interrompendo José Maria, vociferou:

— Monge, pode dar o pira, antes que a borracha cante. E acrescentou: — É ordem do delegado.

O carcereiro, sujeito chuchado das bruxas, pescoço de varapau, se admirou de ver aqueles párias ajoelhados, chorando aos pés de quem, para ele, não passava de um esmolambado. Todos se lembravam do que há pouco dissera:           

— Vou sair daqui, debaixo duma coroa, com ordem de Deus.

Palmas se agitara desde que fora aprisionado José Maria. Era comum ouvir vozes em sua defesa, afirmando que só fazia o bem e pregava a caridade, pois se tratava de um irmão de João Maria. Corriam boatos de que Miguel Fragoso, velho maragato que se estabelecera no Irani, na fazenda do comendador Santos, capitalista no Rio de Janeiro, tratara de reunir gente para vir à cidade exigir a liberdade do monge. Dizia tratar-se de elemento perigoso, com experiências nos campos de batalha, que militara nas forças federalistas no posto de coronel. O próprio prefeito combinou com o delegado, ambos ávidos de eleitores, e temerosos, a soltura de José Maria.

Farnel de trapizongas, o sacrário, uma caixinha de madeira com a imagem de Nossa Senhora de Abadia, os olhos enuviados e marejados, depois de abençoar os companheiros, José Maria partiu de espeque a percorrer trilhas ignotas, alvoroçando, fascinando os moradores da casa verde. Também amava a casa verde, de telhado de estrelas, chão atapetado de campos e matas, rampas de colinas e montanhas, paredes no horizonte.

— João, José e Maria, são assim como o Padre, o Filho e o Espírito Santo — respondia quando lhe perguntavam se era o próprio João Maria de Agostinho, ou um seu irmão.

Naquele tempo, nos bosques araucarianos, era comum o aparecimento de andarilhos a se arvorarem em profetas. Viam neles um misto de gente e fantasma. Ter visões, lá, não constituía vesânia, mas coisa normal, corriqueira. Comentavam-se muitos casos. Uma mulher fora ao galarim da fama, cognominada Flor de Pureza. Outra, se dera a conhecer como Maria Santíssima, cujo filho, Menino Jesus, reinava no andor das procissões. Um tal de Plácides dizia que era o próprio João Maria de Agostinho, o Bom Jesus, mas acabara desacreditado e desprezado como um "falso monge". Outros ascetas também glória efêmera tiveram: são Miguel, nhô Dodô e Bandeirinha.

Mas nenhum alcançou José Maria no caminho da celebridade, sumiram em seus rastos de luz.

Feridos nas farpas das sendas inóspitas, os pés de José Maria recebiam curativos piedosos dos arroios.

Na zona da mata, o sol era um gorro de prata sobre a carapinha verde do Bituruna. José Maria palmilhara o terreno e penetrara nas grotas fundas das montanhas. As feras lhe respeitavam a divindade... Errante. Uma força indomável o impelia para a frente. Guiava-o, como a um cego, o experimentado bordão. O andar marcava compasso de marcha estremecendo o sertão.

Do alto das serranias, divisava a zona dos campos, a planície recamada de restingas e bosques de pinheiros, que se estende ondulada para o sul. Faces enrijecidas pelo cansaço e pelas privações, semelhava, lá em cima, uma alma do outro mundo, o pai, o espírito da floresta.

E seguiu com o vento...

Num dia gélido do mês de junho de 1912, José Maria se abrigou numa cabana situada nos domínios de um antigo fazendeiro. Logo se mudou para a propriedade do crente Chico de Almeida, em Campos Novos. Não tendo recursos para atender a numerosa clientela, recebeu donativos para entulhar o galpãozinho de panacéias. Elixir de Nogueira, Bristol, Capilus, xaropes, preparados homeopáticos, latinhas de pomadas, pacotinhos de ervas sobravam em sua farmácia ambulante. Como atraísse levas de prosélitos, José Maria fez nascer o despeito e a inveja dos boticários das vilas mais próximas. O de Curitibanos chamava-o de charlatão, bandido e falso monge. Mas já não havia quem não possuísse uma cópia da oração redigida por José Maria, tamanho o seu prestígio.(4)

Numa segunda-feira, dia apropriado, José Maria foi à hospitaleira residência do Chico de Almeida a fim de defumá-la:

— Deixe que eu dou uma vassourada em sua casa, em nome da Divina Providência, eu dou! É uma navalhada, corta tudo.            

Pediu uma telha e brasas, explicando que estas teriam de arder sobre aquela:

— A natureza é barro e barro nós somos, viemos da terra, com a terra vivemos, e para a terra vamos. E começaram os trabalhos.

— Fechem os olhos, bem fechados, até verem a imagem de um crucifixo brilhante — disse, a transbordar fé, acendendo uma vela e pondo incenso no braseiro, fumaçando o recinto.

Inspirava pena, a rezar fervorosamente, ciente de que fazia um grande bem ao próximo. E caiu em transe, possuído de um terremoto. Com afinco, se esforçava para se concentrar. Gemendo palavras como Sacrossantíssima Diviníssima Divindade, Sagrados Evangelhos, passou a declamar com ardor:

João Batista, Batista João,

a quem batizou Jesus

nas águas do Jordão.

João Batista, Batista João!

Que jogue os males desta casa

nas águas salgadas da Oceania,

onde o galo não canta,

onde não tem pão nem vinho.

João Batista, Batista João,

Batista, Batista, Batista,

João Batista, Batista João!

O camisolão ficou banhado de suor. Depois de assopros e assobios, já com o corpo livre do espírito, bebeu um copo d'água para acalmar-se e acabar a tremedeira. Enlevado, soltava as bridas da língua:

— Como eu sou feliz por poder contar com a Divina Providência, para fazer bem aos meus irmãos que sofrem! É uma coisa maravilhosamente sacrossanta! A inveja e os males nunca mais entrarão nesta casa. Expulsei pelas janelas. Comigo não tem subida, é tudo plano. Como eu sou reconhecido ao Criador. Para mim, tudo isso é uma grandeza muito grande.

Acrescentou, desvanecido:

— Eu sou verdadeiro como espelho. Eu sou mais caro. Fiquei satisfeito, meu peito encheu de carbono. Vote, caninana!

A família do velho Chico de Almeida ficou agradecida.

Na manhã seguinte, houve enorme afluência ao tugúrio. Basta dizer que uma ponta de gado foi varada pelos espetos, sobre o braseiro da vala estreita, aberta no chão. Ao primeiro paciente, inteirinho icterícia, cara de girassol, José Maria ensinou a infalível simpatia:

— Vista uma roupa amarela pelo avesso, deite de costas na grama e mande cortar nela a sua silhueta. O sol chupa a doença. Se não chover, sara.

Deparando um menino de braço quebrado, José Maria moeu carvão, misturou à gemada e passou cuidadosamente no membro que encanou com bambu. Pai e mãe agradeceram de joelhos a graça recebida. Tratou das varizes de uma anciã apenas com vinho e azeite. A ferida de uma rapariga, com ungüento azeite rosado, cera bela, flor e esterco de cavalo. Para torceduras, fervia água numa vasilha, virava-a de borco numa bacia e punha sobre aquela uma tesoura aberta em cruz. Munindo-se de pano, fio e agulha, "costurava" o mal, enquanto eram pronunciadas as seguinte palavras:

— O que é que você tem?

— Destroncado.

— Destroncado mesmo eu coso. Coso nervo torto, carne amaguada e osso quebrado.

O diálogo se repetia mais duas vezes, tendo José Maria de responder durante a primeira e a segunda vez, respectivamente: "coso carne amaguada, osso quebrado e nervo torto" e "coso osso quebrado, nervo torto e carne amaguada".          

De maneira idêntica, curava sapinho. Empunhava um facão, uma vara de assa-peixe e, cortando-a, dialogava:

— O que é que você tem?

— Sapinho.

— Sapinho mesmo eu corto. Corto o rabo, cabeça e meio.

Depois de dizer, na última vez, "corto o meio, o rabo e a cabeça", colocava o ramo para secar ao fumeiro do fogo.

Sentado na cepa do cômodo exíguo, pés nus na terra fria, receitou para uma criança de narinas em bica, dirigindo-se à mãe:

— A senhora dê chá de jasmim. Amarre um cachorro e não dê comida durante três dias. Colha a titica branca, coe e prepare a bebida. A tosse comprida fica curta e some.

Ao moço que tinha um pano amarrado à cabeça com o nó debaixo do queixo, recomendou:

— Esquente uma colher de pau no fogo e encoste no inchaço. Amarre com uma pele de toicinho e, depois de vinte e quatro horas, enterre a pele num formigueiro. É um tiro para cachumba.

Medicina matuta.

O camponês vive como pode, abandonado, naquele isolamento que acelera o mundo a marcha à ré. Na sua máquina de tempo, à Wells, vive no passado, na Idade Média brasileira, às voltas com barões e ascetas da miséria. Não tinha culpa daquele atraso. Se não houvesse latifúndio, sesmaria; e se tivesse o domínio da casa verde; se para habitá-la não pagasse o pesado tributo da meia, da terça, tudo seria diferente. Haveria produção e riqueza, desenvolver-se-iam a pecuária, a agricultura, o comércio, as finanças, e cidades cachimbentas fumegariam naquelas plagas, assinalando uma era de prosperidade. Ninguém mendigaria emprego, sem profissão e sem residência fixa. Não haveria um plebeu a errar pelos caminhos. Mas os governos nem sequer cogitavam de uma reforma agrária e tinham os olhos fechados para o Bituruna.            

Não ouviam os reclamos dos homens da roça. Essa a causa da estagnação da economia, daquele isolamento e alheamento à civilização. Muitas e muitas léguas de terrenos incultos, inaproveitados, a separarem, umas das outras, as pequeninas cidades de pinho, adormecidas à sombra das araucárias. Vida monótona, vegetativa, sem horizontes. Vida social primitiva. Absolutamente nada de novo. Sempre os mesmos ventos. Campos e campos a se estenderem à medida que o viajor avançava em seu cavalo. Estrada carroçável deserta, espremida por cercas de taipas, marcando as divisas das vastas estâncias. Comércio precaríssimo, com trocas à base de sal e boi gordo. Na vila paralítica, apenas alguns casebres, ferraria, boteco, balcãozinho de farmácia, porta de barbearia, a ermida no ponto mais alto, um barracão de tábuas feito Grande Hotel, e, às vezes, modesto teatrinho, de madeira, com frisas e camarotes, funcionando aos sábados e domingos. Nem padaria, açougue, nem olaria. Nunca a locomotiva fendendo as campanhas, nunca a máquina revirando a terra. Jamais o sermão profético do apito da fábrica. Raros engenhos de beneficiamento de madeira, mate e fumo — um tiquinho de progresso. O mercado único do litoral, quase inacessível. Nas pouquíssimas escolinhas, funcionando em paióis espalhados pelos extensos municípios, havia falta de mestres, de lousa, de livros, de cadernos, de lápis, e até de alunos, porque as crianças roçavam e pastoreavam. O professor tinha de pertencer à facção política dominante. Hospital não existia. As endemias se alastravam livremente, como as hordas de bandoleiros.

Na tribo, o médico é o pajé. Para o matuto, o médico e o pajé são o curandeiro. José Maria curava também bicheira, benzendo-a.(5)

Se algum enfermo expirava em suas mãos, José Maria se justificava a contento:         

— Quando Deus chama, o doente sobe da cama.

Após as consultas, José Maria passou a narrar passagens de vida de Cristo e aventuras de Carlos Magno e seus pares de França. A certa altura, a voz se tornou mais alta, mais forte, emocionada:

— Vou contar como era a carta. Prestem atenção! Pareceu-me uma noite que via diante de minha cama, uma mulher, admiravelmente formosa, a qual me dizia: "Constantino, muitas vezes tens rogado a Deus que te desse ajuda contra os turcos, que possuem a Terra Santa. Pois se tanto o desejas, faze isto que te digo: procura ter da tua parte Carlos Magno", e mostrou-me um cavaleiro armado de vistosas armas, com uma espada na cinta, e uma grossa lança na mão direita, de cujo ferro saíam muitos raios de fogo, e era o seu rosto muito belo, formoso e bem disposto de corpo, a barba crescida, os olhos reluzentes, e os seus cabelos começavam a embranquecer. Ó augusto que nunca te apartas dos Mandamentos de Deus: Alegra-te em Jesus Cristo, e lhe dá graças de todo o coração; ama a justiça, como tens sido nomeado na honra, para que Deus te dê perseverança do bem.

Enlevado, arrematou a história:

— Foi assim que Carlos Magno recebeu as chaves do Santo Sepulcro e chorou como uma criança porque o Santo Sepulcro estava nas mãos dos infiéis.

À tarde, chegou ao tugúrio uma comitiva vinda do município de Curitibanos, onde predominava a autoridade do coronel Albuquerque. Lideravam-na, além de Praxedes, proprietário de uma casa de negócios, os rancheiros Chico Ventura, Cirino do Sul e Joaquim Vidal.

A idéia surgira na venda de Praxedes. Gralha, um pelado muito falador, ao aproximar-se do balcão, pediu:               

— Mecê me dá uma garrafa de pinga, um pacote de erva, um rolo de fumo, cem réis de banha, e meio quilo de feijão.

Na mesinha do canto, Venuto Baiano, Castelhano, Coco e Gidoca disputavam uma partida de truco, enquanto lá fora outros jogavam malha, esporte no qual Taquara era certeiro.

Chico Ventura chegou e começou a fazer estardalhaço, dizendo que Rocha Alves, coadjuvado por Alonso e Elias de Morais, tratava de levar José Maria para São Sebastião das Perdizes.

— Isto não é coisa que se permita — interrompeu Zé Tigre.

— Vamos tomar a dianteira e trazer o compadre pra cá — sugeriu Praxedes, o que foi aprovado por todos.

Naquele instante, foi constituída uma comissão que deveria, no dia seguinte, levar o convite a José Maria.

— A bênção — suplicaram os cavaleiros, tilintando as esporas.

— Deus abençoe vocês, meus filhos. Eu já tinha recebido aviso do Alto, que vinham me buscar para fundar meu reinado de mil anos sobre a face da terra. Vou formar uma cruzada contra os infiéis, porque há de haver uma Guerra Santa contra os miseráveis, os exploradores dos cristãos. Vou lutar como Carlos Magno.

O monge, impressionando a todos os presentes, formulou um pedido, de modo imperativo:

— Quem me seguir vai entrar no céu, nem que tenha mil pecados. O arrependimento limpa tudo. Quem não me enxergou ainda? Quem tem olhos e não vê, não é cego, é asno. Me acompanhem quem quiser a salvação e a lei de Cristo. Aqueles que seguem a Deus, se peguem comigo.

— Eu vou, eu vou, eu vou, eu também vou — repetiam as vozes.       

Em todos céus do Bituruna, soou o apelo do messias caboclo.

No outro dia, após o chimarrão, rezas por despedida, juntara as trapizongas, a farmácia ambulante, e partira a cumprir a missão sagrada. Uma caravana passava pelos campos, orando e entoando ladainhas num coro de vozes desafinadas, lamurientas, desencontradas. Uma romaria. Engrossava à medida que se aproximava do destino. Uma procissão herética de oprimidos. À frente, o condutor e seu cajado, ladeado pelos cavaleiros e, formando a cauda, uma leva de maltrapilhos.

— Fanáticos!

— Pelados!

Amedrontados, os miseráveis espiavam de longe.

A casa verde se iluminava. Estremecia o Bituruna. Encontrara um monge verdadeiro, o libertador, o escolhido, o salvador, José Maria, o revoltoso.         

           

           

Capítulo IV

 

Taquaruçu é uma flor dourada. É o peregrino riacho feito monge de barbas de espumas, bordão de pedras. É o acampamento rebelde. É, afinal, a rancharia tosca tremulando ao vento, como pendão da terra. Arraial-bandeira. Bandeira rota, mas gloriosa, espalmada no chão ondulado.

Taquaruçu é uma aquarela camponesa, de tintas nativas, pinceladas por um sol sempre esplendoroso. Capital revolucionária dos oprimidos.

Taquaruçu é uma pinha de taperas — pau, palha, taipa. Guarida de camponeses escorraçados. Gente cansada da servidão e farta de misérias, sedenta de justiça. Gente que, na ânsia de libertação, antecipa o futuro na mente, julgando-se numa nova Idade de Ouro, num paraíso terrestre criado por um mensageiro divino. Gente que vive os desejos, confundindo a fantasia com a realidade.

Taquaruçu é um clamor, um grito de socorro, um lamento. Bisbilho do córrego. Mas é sinal de luta tocado no tamboril, soprado no chifre de boi. É o caboclo empunhando facões de guamirim e lanças de bambu, contra o latifúndio, resistindo ao coronelismo, defendendo as riquezas da pátria. Rota esperança, negro vislumbre.

Terra do monge, Taquaruçu é profecia.          

— Reduto — diziam as autoridades em Curitibanos, porém a palavra nascera espontânea na boca da caipirada.

O povoado desabotoara como um roseiral na primavera. Os adeptos de José Maria chegavam com a família e traziam o que restava dos haveres. A trouxa, cabrita, meia dúzia de aves. Algumas vezes, uma ponta de reses, uma vara de suínos. Muitos vinham em visita a Taquaruçu, entre eles Rocha Alves, Alonso, Tavares.

Taquaruçu é a Meca e a Jerusalém do sertão, capital dos pelados. José Maria — o seu Profeta, o Cristo Redivivo.

Afora Eliazinho dos Santos, Chico e Guilherme Ventura, Elias de Morais, Zebinho, Cirino do Sul, Joaquim Vidal e alguns rancheiros arruinados, o grosso da população se compunha de peões e agregados, estes e aqueles confundidos com posseiros, tropeiros, tarefeiros, plebeus, operários sem serviço — antes empregados nas companhias. Isto explica o ódio devotado às empresas estrangeiras e a coronéis como o Albuquerque, e à república por ele representada.

Camponeses que escapavam vivos às masmorras se refugiavam em Taquaruçu e traziam, de triste lembrança, cara e cabeça raspadas a navalha, justificando a pecha infamante:

— Pelados!

Questão de higiene, para evitar a proliferação de piolhos, a raspagem acabou se tornando um habito no reduto.

— Fanáticos! — diziam com assombro os janotas das cidades.

Centenas de pessoas ouviam narrativas bíblicas, histórias romanescas de Carlos Magno e seus pares, prédicas, preces.

Certa manhã, vindo a mando do coronel Albuquerque, deus-sol de Curitibanos, deputado estadual, chegou ao reduto um capanga com uma ordem para José Maria. Que fosse imediatamente a Curitibanos, à casa do prepotente chefete, a fim de atender uma enferma.  

Na roda do chimarrão, Zebinho, Rocha Alves, Alonso, Praxedes e Augusto Moreira — o que sabia l