ARCABUZES
Noel Nascimento
Dedicatória
À minha esposa Beatriz.
Aos filhos Noel e Othon Ludwig.
Aos irmãos Sebastião, Othon e Vera.
Aos heróis humildes, os Arcabuzes.
Eles fazem a história.
In memoriam
Ao meu pai
Sebastião Nascimento.
À minha mãe
Maria Claudina
PRÓLOGO
I
Havia um mendigo que por ironia chamavam de Arcabuz da Miséria. Um aristocrata, o único de uma classe alta. Sátira viva de conde fora de moda. Perdera a identidade, um não-pessoa, triste imagem de nação sem memória. Usava casaca e cartola encardidas, mas tinha as barbas bem aparadas. Parecia mais de um - porque mudava de cidade ou porque davam a outros a mesma alcunha - e muitas pessoas podiam ser ele. Vagabundo urbano, bengala na rua, e não um João-Maria de cajado pelos carreiros. Jamais fizera balsa de uma calçada, indo e vindo sem sair da quadra como o Toco de Vela. Num tempo em que não constituíam bom gosto o ordinário, o sórdido, o calão, provocava admiração com a finura no falar. Só estava louco da sociedade em que vivera. Granjeara mais fama que o Pé Espalhado no Rio de Janeiro.
Um caso muito diferente de andarilhos como o Anastás Marcaf que fanatizara a matutada, único prodigioso dos joões-maria.
Chamavam de arcabuzes os combatentes que passavam às centenas nos trens militares. Certamente os infantes com suas carabinas. Soldado desconhecido, Arcabuz é homem-arma, herói humilde, o que muda a ordem das coisas. O Arcabuz da Miséria poria fim à miséria - tudo acabou em escárnio.
Não era plebeu, e sim um nobre. Um viajante rio-grandense contou no Café Glória que o viu fardado de capitão, atirando ao rio pela janela do trem uma cabeça humana. Ninguém acreditou. O diário secreto do general Carneiro, abatido com um tiro no fígado, citou-o como herói. As suas pegadas passam pela história do povo brasileiro.
Ele era uma prova de que um mendigo pode ser qualquer coisa, nobre, padre ou militar. Para Xandô, neto de Pedro Tropeiro, não faria diferença. Aprendera que a pessoa vale por suas próprias virtudes, acima de divisões de classes ou de raças. Crescera vendo o povo plasmar-se nas cidades. Achava que povo é extensão da pessoa e, por isso, lutara também na guerra. Afinal, um mendigo pode ser até um grande homem. Tudo depende do coração, que é o motor da história. O bom coração.
Quando as sociedades secretas lutavam contra a escravidão e a monarquia, o governo mandou prender o Arcabuz, suspeito de chefiar as conspirações. Tratava-se de cognome. De quem, ninguém sabia.
Um mendigo da alta sociedade...
O carroceiro que transportou os corpos atirados na Grota do Diabo afirmou que o vira esgueirando-se entre as tumbas na ocasião da exumação secreta. Um soldado da escolta ajudou a confundir muita gente com sua versão: - Foi ele que escapou-se, atirando-se do trem.
II
A primeira aparição foi em Ponta Grossa, cidade das estrelas. Estrelas vistas do alto, de longe, apontando caminhos. Antes não era pândego, nem vestia fraque ou ficava penso, apoiado à bengala de engaste prateado. Chegara assustando o povoado, apesar da poeira, um redemoinho de pedra erguido pela ventania apelidada de Gadelhuda. Viera estropiado, metido num capote, debaixo do qual escondia um arcabuz. Espectro da guerra.
Ponta Grossa tinha muitos casarões e o comércio na colina mais elevada. Dos ranchões com quintais cultivados, as lavadeiras subiam as ladeiras com trouxas à cabeça. Caipiras dos arredores, ou negros que habitavam as barrocas com os polacos, prestavam serviços avulsos e começavam a progredir. Os imigrantes louros já tomavam conta das roças e do transporte. Fora um bairro de Castro onde numa reunião com autoridades os fazendeiros protestaram:
- Não queremos a Estrada de Ferro.
- Somos contra o ajuntamento de forasteiros e desocupados.
- Que passe por Ponta Grossa, a sete léguas e a um dia de viagem a cavalo.
O primeiro Arcabuz não apeou da montaria, não desembarcou de trem e, muito menos, de carruagem. Fugira a pé das chacinas. Os hospícios moviam-se nas estradas, o mundo convivia com seus loucos quando não os matava a pauladas. Não sabia responder qual o seu nome aos viajores, mas o seu destino:
- Eu vou para a Estrela.
Gravara no juízo que restava o que ouvira da localidade, como a sonhara antiga tribo. Abaretama, terra de paz e igualdade, sem crimes ou suicídios. Procurava-a para viver sua utopia.
Houve uma trilha. Às bandeiras sucederam as tropas de mulas. No local da cruz, o padre ergueu um pouso. O principal no ponto nevrálgico dos caminhos. Apossavam-se dos terrenos vagos. Cada caboclo com sua choupana, na sala a tosca capelinha. Por toda parte sucupira, jucá, macambira, tucum, quixaba e jandiroba. A mancheias jabuticabas, araçás, pitombos, ariticuns, guabirobas, mandubis e outros frutos. Escravos fugidos, forros ou servos dos latifúndios vinham abrigar-se. Ofereciam-se para substituir os arrieiros que desertavam e guiar as comitivas. Os negros que saíam dos esconderijos à cata de serviço e comida amedrontavam os viajantes. Aquilombados nas depressões do terreno, escondiam-se do capitão-de-mato e da companhia de ordenanças sediada em Castro.
Na mexida e remexida de raças na massa urbana, amalgamara-se o povo que, por princípio, não devia discriminar ninguém. Lugar ideal para um mendigo aristocrata.
O clima de terror não cessara. Contavam-se casos de arrepiar os cabelos. Os adultos ainda temiam perseguições, e as crianças acreditavam na fantasma Gadelhuda, a ventania. Com as unhas crescidas e a cabeleira esvoaçada surgia detrás da igreja. Ocultava-se nos sótãos e nos porões, nas barrocas e capões de mato. Galopava nos campos, moldava espectros de pedra na Vila Velha, voava e carregava crianças. Talvez tivesse algo a ver com as pedintes que, de cabelos desgrenhados, subiam as ladeiras.
De dez ou mais léguas, via-se a povoação. Ao cruzá-la no cavalo branco de arreios de prata, o sol clareava-a. À noite, ela coruscava. Elevada à Vila, recebera o nome de Estrela.
De repente, o vulto estranho causando espanto - podia ser furioso -, portando um bacamarte! Juntou gente para vê-lo. Sentenciaram:
- Enlouqueceu na guerra!
Um antigo sargento do quinto corpo de cavalaria afirmava que reconhecera o ajudante de confeiteiro, o qual desfilara nu no dia da visita de D.Pedro II. O doutor Arcanjo, que relatou toda a tragédia da retirada de Ponta Grossa, reforçou-lhe tal versão ao mencionar "um polaco sujo, cadavérico, trêmulo, de olhar sinistro, que come costelas cruas de burro, apelidado de Judeu Errante". Deram-lhe de comer e beber por caridade. Teve a sensação de que encontrou o mundo pelo qual lutara.
Esquecera o nome, o batismo, a família, o passado, o amigo que desejava reencontrar. Com vida no peito, comandava os movimentos, só não era dono da cabeça. Carruagem sem o cocheiro, desgovernada. Por causa da arma imprestável, dos andrajos e da botina rasgada, nasceu naturalmente a alcunha: - Arcabuz da Miséria. Inventavam tanta coisa a seu respeito que não se sabia na qual acreditar:
- Esteve a ferros nas fortalezas.
- Traiu o juramento que fez no convento.
- É um foragido da justiça.
- Montou a cavalo na própria mãe.
- Deu uma surra na madrinha, que lhe rogou uma praga.
- Degolou uma santa.
- Matou a mulher com trinta e duas facadas.
Não fazia mal a ninguém, mas chegavam a dizer que comia criancinhas. De uma coisa havia consenso nas rodas de prosa:
- Está pagando seus pecados.
- Só o arrependimento redime um condenado.
Após a aparição, vagou de cidade a cidade. Com o capote rustido, chegou à capital. Granjeara fama, assombrava menos. Ia começar a consagração. Passou a morar num banco do Passeio Público, mansão a céu aberto. Caluniavam-no que andava coberto de piolhos, de carrapatos, além de recender cachaça. Petas e mais petas sem fim. Só era bêbado de sonhos. Os pipeiros que ele ajudava no chafariz do Largo da Ponte, achavam-no limpo e são, um doido normal.
Um dia, surgiu à porta do solar da Baronesa, a qual ordenou aos criados:
- Deixem-no entrar. Essa fisionomia não me é estranha... Eu já vi antes esse coitado. Dêem a ele o que sobrou do finado.
A sua vida mudou dos trapos para o fato chique. Então virou o nobre que era, mas parecia a sátira. A tristeza cedeu à gaiatice, ficou diferente. Arrancou uma exclamação mais absurda nas ruas:
- O Arcabuz da Miséria está maluco!
Tinha prestígio, sua classe fora extinta, porém não perdera o respeito. Os panos - casaca, calça listrada - cartola e fina bengala confundiram uma velhinha caduca na sacada:
- Não riam do Barão!
Juntava gente para vê-lo passar na Rua Quinze de Novembro. Lembrava o palhaço de um circo antigo, um herói humilde picado à faca no Paiol de Pólvora da Água Verde.
Comparecia a reuniões e festas populares, a solenidades públicas. Não era nenhum alienado e não controlava o coração ao ouvir a banda da polícia tocar o Hino Nacional. Emocionava-se ao ver desfraldada a bandeira. Amiúde acompanhava os funerais e, à sua custa, os canastrões faziam humorismo anticlerical.
A revista "O Olho na Rua" publicara uma charge, com estampa de um sobretudo esfarrapado e versos que o comparavam ao padre Antônio Carlos:
"Enfim para o cemitério
Se dirigiu comovido
O cortejo grave e sério
Do defunto falecido,
O Antônio Carlos tristonho
Coitadinho do Arcabuz,
Num passo lento e tristonho
Fazia o Sinal da Cruz."
Pichote - pseudônimo do autor - assistira ao féretro de um figurão, o carro puxado por corcéis brancos de penachos pretos cobertos por uma manta, cocheiro de cartola e fraque, com o séquito dispersando para beber cerveja no Passeio Público. Noutro número da revista, quebrou os pés de um soneto:
"Embora fedorenta e bem rasgada
Vecchia zimarra, serves de ornamento
Ao mais papa-hóstias da manada
O padre Antônio Carlos, o portento.
Não sei se por sua cor enferrujada,
Mais parece a pele de um jumento
Ou divisa de uma ordem arruinada
Que simboliza um chiqueiral convento.
Se ele aparece gritam: Ai! Jesus!
Onde está a Sanitária trabalhando?
E é o velho sobretudo do Arcabuz!
Ele passava, e o Soegmueler vem
E por graça ou talvez se equivocando
Põem-lhe no lombo a chapa nº 100."
Sanitária seria a empresa Limpa Fossas, com placa de número cem na carreta de pipas de fezes, puxada por jumento. E Soegmueler um funcionário municipal.
Discutia-se Voltaire nas mesas de cafés e confeitarias, respirava-se o ar da revolução francesa. E nem os doutores iniciados se admiraram que um pária fosse tema de discurso numa reunião filosófico-literária do Clube Iguaçu, fundado pelo Barão do Paraná:
-...O Arcabuz da Miséria lembra um acusado da Santa Inquisição. O acusado, sem direito à defesa, que era obrigado a usar o sambenito, o saco macabro dos hereges e excomungados, o resto da vida, para esmolar e ser apedrejado pela molecada. Temos de nos unir em defesa do livre-pensamento e resistir à ação dos que pretendem vestir no homem paranaense o sambenito, a casaca do Arcabuz da Miséria.
O novo presidente só faltou reintroduzi-lo na alta sociedade. A língua de Chica Chapeleira saía às ruas e entrava nas casas:
- Arcabuz da Miséria é o padre Beto. Toca negro da igreja, bate e mata pobre na rua, não deu extrema-unção à Maria Conceição Bueno. Sabem que fim deu ao construtor da catedral?!
O nobre detestava intrigas, que o usassem. Não tolerava tanta curiosidade, recolhia-se a seu banco. Sumiu quando soldados do oitavo de cavalaria, numa casa de raparigas da Rua do Fogo, atormentaram-no com perguntas, supondo que enlouquecera por causa de maus tratos na caserna.
III
Ressurgiu em Ponta Grossa, desembarcando de vagão de segunda classe, apesar de nobre. De fraque, colarinho, plastrão, chapéu coco, causando pasmo. Com a imagem mudada, via transformar-se o mundo ao toque da bengala, condão mágico. Os cães não mais ladravam a sua passagem. Não se sentia acossado por ronda de fantasmas vingativos. As crianças seguiam-no empolgadas. O dono da casa assombrada, vazia desde o enterro de Carolina, deixou-o ocupar o galpãozinho dos fundos. O Colle, um sapateiro anarquista da Colônia Cecília, que fora obrigado a mudar-se de Palmeira por hostilizar o padre, serviu-o várias vezes em sua confeitaria, sem imaginar quem fosse. Uma vez deu causa a sério desentendimento entre um médico e um fazendeiro que o escarnecera. O médico interveio:
- Caçoar dele é o mesmo que caçoar de si próprio.
- Tá me chamando de Arcabuz da Miséria?! - o coronel tentou tirar o revólver da cinta.
Não houve derramamento de sangue porque apartaram a briga.
As mulheres e as crianças achavam-no divertido. Sentia-se feliz ao ver as pessoas igualadas nas rodas de prosa e chimarrão, nas ruas, na praça, nas quermesses e festas populares. Era quem mais se divertia com os outros. Gostava que as crianças fossem apenas crianças, pareciam-lhe solidárias, amigas umas das outras.
Muita gente ficou impressionada quando o tenente Irani, veterano da guerra civil, afirmou tê-lo visto antes, sem se lembrar onde. Pode ser um oficial da marinha - imaginavam. Alguém o viu fardado em Porto União da Vitória.
Não criam que fosse mau e escondesse o tal arcabuz de que se falava. O cognome não significava coisa, escravo ou servo da Companhia Mate Laranjeira, tratavam-no como pessoa. Com novo traje dera lugar a novas versões. Teria possuído fazenda e escravaria, saíra de um convento, escrevera um compêndio de mil páginas, enlouquecera de tanto estudar.
Opinava sobre todos os assuntos, deixando os ouvintes boquiabertos. Paravam-no nas ruas. Tinha agenda para visitas e presenteava as donas de casa com flores ou pacotinhos de ervas milagrosas. De modos gentis e ditos graciosos, o tratamento de tu não prejudicava o sotaque agradável. As moças disfarçavam a curiosidade e escondiam os risinhos atrás dos leques. Atraía-lhes a atenção com o porte altivo, os olhos azuis, a barba aparada, apesar da roupa rustida. Olhavam-no com receio, sem repudiá-lo. Uma menina impressionou a família com visões em que ele aparecia com uma bilha de água, regando jardins.
No barracão em que Curu era ferreiro e de tarde dentista, este quis engraçar-se:
- De um mucufo e um barão, qual é o mais infeliz?
A clientela gostou da resposta:
- Quero ser um tico-tico, tendo o céu para voar e árvore para pousar, e não canarinho de ouro, cheio de alpiste, trancado numa gaiola.
O meirinho definiu-o:
- O Arcabuz tem ares de fidalgo, modos de desocupado, jeito de anarquista.
O doutor Ricci, um médico que viera da Colônia Cecília arrasada pelos soldados, irritou-o na roda da farmácia:
- É verdade que o senhor é um garibaldino?
- Não sou do tempo de Anita...
- Nem desertor de um batalhão maragato?
- Nunca peguei em armas contra o Imperador, nem contra presidente - desconversou e saiu resmungando: sou quem sou, nem soldado nem desertor...
O prefeito, um fazendeiro que fora delegado na Palmeira e expusera nos postes as cabeças de suas vítimas, ferido durante a grande retirada, não teve intenção de desagradá-lo:
- Quer entrar na guarda, com patente de capitão?
- Muito donaire de tua parte. Estás refazendo o batalhão de Palmeira, senhor prefeito?
Deu a resposta com um ar de quem fica sem nexo, porém com um olhar expressivo, mas indizível. Tinha algo de maluco, que ninguém entendia. Não distinguia os tempos, misturava presente, passado e até futuro. Rodavam como papa-ventos em sua mente. Sentia-se no porvir que imaginara. Não pedia, mandava. Havia fartura de caçar codorna com a mão, veado no laço, tatu pelo rabo. Erguia a bengala e batia com a ponta na janela, avisando:
- Hoje quero chá com leite e torradas.
As crianças também lhe abriam a porta, sem o medo que tinham do homem do guarda-chuva, o qual virava lobisomem. Não abusava da hospitalidade, porém não fazia cerimônias:
- Nhá Miroca, me prepara uma xícara de café com leite. Se não tiver pão-dágua ou bolo de polvilho, não sou de luxo, serve pão-de-ló.
Ou então:
-Severiano, diz à Judite prá arrumar o quartinho dos fundos. Vou pernoitar aí.
De vez em quando, um chefe de família se irritava:
- Será o Benedito?!
Era o primeiro Arcabuz e achava natural que o servissem. Acostumara o hoteleiro:
- Palreio, mande o garção me trazer um prato de comida.
Pedia pouco nos balcões e agradecia o atendimento gratuito. No seu mundo, ninguém faria questão de dinheiro. Aguardava a vez na barbearia, participando da prosa. Ouviam-no indagar:
- Como estão todos em casa? Passa melhor dona Candinha? Consegui a erva das crianças.
Elogiava o corte, agradecia, saindo galante. Como na capital onde o barbeiro David, um italiano gorducho, de freguesia selecionada, fazia questão de cortar-lhe os cabelos e aparar-lhe a barba.
Comparecia ao bordel da Velha Bolsa, na rua da Estação, cheia de caleças. Fora ela a menina Dalila, a qual caíra na zona de Castro, na casa de Formiga, a mais freqüentada há algum tempo.
Assistia às retretas da Lira dos Campos, em pé. Apoiava-se à bengala, defronte ao coreto. Esperava a banda na praça e saía por último. Levava uma braçada de flores a todos os guardamentos, chorava e rezava. Crianças morriam até de sarampo e mulheres no parto. Acompanhava enterros de ricos ou de pobres, igualados na vida e na morte. Esquecia as ofensas. No cortejo fúnebre do coronel que mandara expulsá-lo da cidade, fora o primeiro atrás do coche, seguido pela Lira dos Campos.
De vez em quando, reaparecia na Capital, em Palmeira, Campo Largo, Irati, Piraí e outras localidades. Mas retornava com sua febre visionária.
Tempo durou em que mendigo, além de gente, podia ser um aristocrata.
Nos carreiros ainda transitavam carroças de toldo, cavaleiros, carros-de-bois, manadas, apesar da ferrovia. A cidade virou um cais de trens e carros nas bandas da Estação. Escorria graxa preta das rodas, misturando-se à sujeira dos cavalos.
Se o doutor Azevedo Macedo, médico filósofo, não o abrigasse no porão da casa onde morou longos anos, ele teria morrido muito antes numa noite de inverno. A vida que viveu no solo que pisamos não foi a mesma de outros mendigos que não são arcabuzes.
Ao deixar vago o trono das sarjetas, outros o ocuparam. O Beijo, um mulato gordo, cabelos crespos, fazia a festa, rivalizando com a bandinha do polaco sapateiro. De lata, pau e cordas de viola, modelada a faca, inventara uma harpa, ao som da qual improvisava modinhas plebéias. Chovia gente para ouvir um estribilho:
"Bravo, que linda flor,
quem não vem a Ponta Grossa,
não sabe o que é amor."
Zorico, enfiado num culote e de barriga para fora dos trapos. O dócil Matias, magricela, contando grandezas, supondo-se dono de fábrica e vagão de agulhas. E Nhô Ganso, homem pássaro. Tamanho infinito por causa do pescoço e das pernas. Sentava na calçada para não ficar cara a cara com o sol, ou com a poeira de estrelas nos olhos vermelhos de pinga. Colhia pinhão, curvando-se sobre a copa, pescoço esticado. De braços dados com a preta Maria, a qual pintava o rosto de branco com pó-de-arroz, foram rei e rainha de carnavais, coroados no corso. Benvinda e Margarida subiam as barrocas espantando as crianças, confundidas com a Gadelhuda.
A cidade esplendia de noite, e de dia só com o sol tinindo nas pedras.
IV
Desvendar o mistério do Arcabuz da Miséria é descobrir a história de uma nação. Ali me contaram um fato, lá ou cá outro mais. Vou dizê-la fingindo que a inventei, como quem sonha, sem parâmetros de tempo.
A história é só o processo de evolução do homem no planeta Terra.
Vasculhei jornais, revistas, publicações comemorativas, álbuns de família, no afã de achá-lo retratado. A história não é apenas o conhecido, senão os perversos seriam o sujeito, pois são os crimes que a marcam. Não se faz reclame de trabalhador e de gente humilde. Nada li a respeito de um escravo, forro, servo, criado, engraxate, moleiro ou limpador de chaminés. Onde se exaltam lacaios, peões, soldados rasos, viúvas pobres e mendigos?
Do Arcabuz da Miséria, nem no cemitério achei a cruz. Quando desapareceu, ninguém sabia informar se havia morrido. Faz um século que os zombadores insistem que não significava cousa alguma, um ser imprestável. Mas a pessoa só se explica pela alma.
É falsa a idéia da evolução através de catástrofes, de más-paixões das massas, de que o ódio conduz ao progresso, e a violência plasma a sociedade. O homem bom é um herói humilde, atua em toda parte, nas bases, nas ruas, nos locais de trabalho, nos lares, nas igrejas, nas escolas, no meio do povo. Faz o curso da história como as águas fazem o do rio.
Um mendigo é um aviso dos céus.
Ao envelhecer tinha o coração assombrado, mas lá estavam lacradas as palavras de seu melhor amigo:
- Os bons são eternos perdedores no presente e ganhadores no futuro.
Autores exaltam impérios, guerras, conquistadores, tiranos. A crônica enaltece figuras menores. A mulher, que civilizou o homem, permanece na obscuridade. No porvir, os maus hão de ser menoscabados, e a Terra não mais vista como palco de tragédia, opressão e morte.
A história não é só resultado de relações de produção e trabalho, das invenções, das máquinas, porém da conspiração dos sonhadores.
V
É preciso imaginar-se nos fins dos tempos do império e do século dezenove. Formava-se o povo, surgiam e cresciam as cidades. As pessoas se vestiam com excesso de pano, os homens com jaquetões e echarpes de cor, as mulheres com longos cinturados e blusas rendadas. Muitos deles, os mais velhos, usavam bengalas, e elas armavam sombrinhas de seda. Eram alegres as aldeias urbanas, células-mães da Pátria.
PEDRO TROPEIRO
I
Pedro, avô de Xandô, foi arrieiro quando tangia muladas e fazendeiro ficava com a fama. Fundou o Brasil, semeando povoados. Mas os primeiros que vasculharam o sertão foram os mineradores provindos da vilinha. Ao iniciar-se a economia do ouro, um mulato parnanguara achou pepitas negras em Minas, dando origem ao nome de Ouro Preto.
As bandeiras invadiram e tomaram posse dos campos. Caboclos, índios forros e escravos negros viajavam armados de trabucos, mosquetes e clavinotes, temendo ataques indígenas. Padres lado a lado com os chefes que financiavam a leva.
Um padre vem a ser tio-avô do doutor Vítor Machado.
O sobreexcesso da população mestiça veio para os Campos de Curitiba. Assim chamavam o Paraná onde, desde menino, Pedro vivia e viajava abrindo e firmando caminhos, principalmente de muladas. Buscavam-nas numa vila do Rio Grande do Sul para levá-las a Sorocaba. Os paranaenses já povoavam o Rio Grande do Sul ao descortinarem os campos entre os rios Iguaçu e Uruguai. Advinham daí as queixas das autoridades paulistas, reclamando da mania de mudarem para o Sul e deixarem desertos os distritos dos Campos de Curitiba. Todos os paranaenses eram conhecidos nas demais províncias como curitibanos.
Ao se armarem as barracas, ampliavam-se os pousos, surgiam povoados dos quais partiam de novo pequenas bandeiras em busca de gado e forragem. Para lá queriam mudar-se as mulheres campeiras, e a um deles até se deu o nome daqueles que as atraíam: Curitibanos. Ah, esses tropeiros... Não dá para dizer se eram nômades ou civilizados, se formavam clã, classe ou não-classe. Camponeses livres talvez, igualados nas travessias.
Pedro, de sobrenome Silva, só foi conhecido como Pedro Tropeiro. Antes de possuir casa e chácara, morava no lombo do tordilho, numa rua sem fim, a das tropas. Ainda as compraria na antiga vilinha de mineradores para a qual se mudavam muitos litorâneos, cercando-a de pequenas propriedades rurais. Ficava a meio caminho do porto, onde poderia levar suas cangas de erva e ter uma vida menos penosa. Não acabou fazendeiro, mas foi tronco de uma clã importante. Espalhava o hábito de tomar o mate em cuiada quente, gabando-se de um feito que o tornara famoso:
- Conheço o solo que piso. Fiquei a favor dos farrapos na guerra. Tropeei mais de quinhentas mulas para Bento Gonçalves e David Canabarro, que trouxe da fazenda de Dom Chico, na fronteira do Uruguai. Viajei pelos peraus, pelas picadas da mata, subindo escadas de lama formadas pela chuva, desviando dos soldados do império. Não perdi nenhuma na correnteza ou na fundura dos rios. Voltei de Sorocaba com tempo de entregar o dinheiro para a campanha.
Com desaponto, fazia uma revelação:
- Os curitibanos iam entrar na revolução que estourou em Sorocaba, para se unirem aos farrapos. Até o Dondoca e o Jesuíno se comprometeram nas reuniões. Mas os liberais traíram o movimento, se venderam ao governo central que elevou a Comarca à Província, separando-a de São Paulo.
Ao soltar a animalada, falava ao pé do fogo:
- Dizem que o império mantém o Brasil unido, guerreando o povo. Nem era para haver regência... Se não existissem os tropeiros, o país se dividia, acabava. Até as famílias se separavam, ninguém sabia dos parentes, dos amigos. O morador do Sul não entendia o do Norte nem na fala. Nem todos tinham esse nosso sentimento.
Pelo almocreve o país se identificava, informando-se de tudo. Da marcha para a Amazônia, de nordestinos buscando saída nos grupos de cangaço ou de fanáticos, da Noite das Garrafadas, das prisões de republicanos nas fortalezas. Pedro se tornara chefe nas caravanas, respeitavam-no e criam no que ele afirmava:
- Este país vai ser a Estrela das nações.
A linha de muares enfiava-se no pano verde dos campos. A égua madrinha vinha batendo cincerro em frente - agulha de patas - costurando povoados, freguesias e vilas num mesmo espírito. O peão-guia também ponteando a tropa. Furavam-se as serras, atavam-se céus, terras e gentes, o chão uma bandeira nacional. Tropeiros teciam a pátria. Manadas em demanda das feiras. O caminho fora desviado para a freguesia Santa Ana do Iapó - antigo nome - onde as mulheres faziam xergas e baixeiros para que vendessem nas feiras. Nesse pouso, o mais importante, o capão próximo ao acampamento deu lugar ao nome definitivo, porque o pinhal visto de longe projetava-se numa ponta grossa. O gentio fixava a rancharia, à espera das caravanas.
Botões de cidades desabrochavam à borda do caminho, o principal do país: a Rua das Tropas.
Ponta Grossa palpitava nos campos gerais, bem no topo, com a capela ao lado da célebre Casa de Telha. Quando Pedro entrou no tropeirismo já havia igreja e cemitério. Ao ser elevada à Vila, assistiu à festa e se expressou emocionado na hora do foguetório:
- Essa Estrela fomos nós que pregamos no céu.
Ela iluminava o vaivém das tropas.
O Velho tangeu cargueiros de poucos haveres, quase só a família de comitiva. Após anos de casado adquiriu a casa e a chácara. Tropeiros antigos, os ricos e não os arrieiros, tomaram posse dos campos, criavam o gado solto, com peões e escravos nos galpões, estes cuidando de roças abertas nas nesgas de mato. Os agregados moravam em taperas, plantavam milho e feijão, criavam porcos e aves. Dez bois não valiam duas mulas, mas davam segurança. E da família do Velho, ninguém admitia trabalho escravo.
Reconhecido, jurava amor à mulher:
- Sem você, eu não seria ninguém.
Uma castrense criada no Rio Grande.
Pedro era feliz como tropeiro de mala-nos-tentos. Não mais levava muares e cavalares às lavouras do norte, nem vendia as xergas e baixeiros que as moças faziam. Apeava com material de cozinha, mantimentos, além de barracas, redes, utensílios e ferramentas. Junto ao cabeçote do arreio achavam-se escopetas, garruchas, facões e adaga. O acampamento, um festão no povoado, lida de laços, rédeas e cabrestos, com dança e cantoria em noites de lua, pirilampos e lampiões a querosene. Chimarrão à roda, discutiam-se jogos, corridas de cavalos, negócios. Um caboclo ajeitando a viola, outro a sanfona, namorados nos cantos, gente chegando, e começa o baile. No cargueiro da despensa a mula boa, bruacas bem costuradas, toucinho, feijão, farinha, torresmo, charque e bolo de polvilho. Leitões e galinhas encestados nas cangalhas. Numa dezena de bestas, o comércio: confecções, águas de cheiro, remédios, armas, sementes, além do charque. O principal, dinheiro amoedado, na volta pesava na mala à garupa. O Velho conhecia as variantes e desviava os registros onde a Real Fazenda cobrava taxas escorchantes. Trazia amarrados no lenço os documentos e as notas de mil-réis, escondido sob a ceroula.
- Tiram dos pobres prá pagarem o luxo da corte! - cuspia de lado.
Embora lerdas, suas viagens seriam breves se comparadas às dos grandes fazendeiros, que duravam meses. Rarearam quando os filhos se tornaram independentes.
Isso tudo faz tempo, o primeiro Arcabuz nem era nascido.
II
Ponta Grossa atraíra muita gente em busca de oportunidades e nova vida. Tinha uma vintena de quarteirões em declive, quase mil fogos, mais de três mil habitantes. Contavam-se quinhentos e tantos sítios de roças, muitas chácaras e poucas fazendas de criação. Os paulistas dos tempos coloniais trouxeram gado, fundaram currais, e os rebanhos pastavam as sesmarias. Após o barracão de ferreiro e da rancharia tosca, apresentava um comércio de portas abertas - selarias, armazéns, hospedarias, cocheiras, açougues e até padarias. O tropeirismo restringira-se a duas correntes: uma que levava o gado do sul para o norte; outra, a da erva-mate, vinha do interior para a exportação no litoral. Havia carroções eslavos nos caminhos, bois-de-carga arrastando toras, varas de porcos, viajantes nos semoventes de rodas e de patas. Falava-se muito na necessidade da construção da Estrada de Ferro, da qual não queriam saber os castrenses.
Um marco de progresso foi a inauguração, com o nome de Estrela, do hotelzinho com confeitaria no largo da igreja. Seu dono, o Frederico, não se cansava de contar que conhecera Naná numa festa de Santana. Do casamento e baile lembravam-se na cidade. Depois que o padre benzeu o estabelecimento e o intendente parabenizou em nome do povo o casal, Frederico agradeceu com um "muito obrigado" e pouquíssimas palavras:
- Aqui, meu pai Pedro Tropeiro disse aos filhos que apeavam da montaria: - Essa Estrela fomos nós que pregamos no céu.
A FAZENDA
Ao crescer o arraial, a fazenda deixou de ser o centro do mundo. A vida começou a depender mais do comércio com base na erva-mate, madeiras, e menos de gado. Desagregavam-se as famílias campeiras. Houve êxodo para os pampas, não só pela qualidade dos pastos, mas também devido a proibição de criar mulas no Paraná. Apenas os grandes proprietários da região enriqueceram com as manadas que traziam de Corrientes, do Uruguai ou do Paraguai, evitando como intermediários os rio-grandenses. Apuravam mais de cinco mil-réis a besta. Até a década de sessenta, ótimo negócio. Os tropeiros de profissão continuaram nos carreiros, transportando erva, charque, mercadorias, ou conduzindo pontas de gado.
Noutra época, o movimento na fazenda era maior que na cidade onde as casas só se abriam aos domingos, dias santos e feriados.
As filhas vibraram quando ouviram Chiquito Ribas dizer ao capataz:
- Melhor é arrendar os pastos. Vou mudar para a cidade. Coronel no mato não tem mais valor.
Invernagem dava mais lucro, sem exigir trabalho. De tempos menos maus, sobrara a solidão - diriam as mulheres. O direito de mal abrir a boca, cuidar de casa e dos filhos. Antigamente valia a pena morar na fazenda. As casas, os galpões, as cercas e até a mobília tinham sido construídos com madeira dos capões. De algodão e lã, as mulheres fabricavam o pano na roda de fiar. Do couro saíam os aperos, os arreios, lombilhos, xergas, cinchas e botas. De fora só se precisava de aço, pólvora e sal. Havia negro para toda obra. Nos serões reuniam-se sinhás, mucamas, comadres, fiando e tecendo lençóis, baixeiros, coxinilhos, rendas finas. Enrolavam-se cigarros de palha. Era elegante fumar e cuspir nas escarradeiras de louça.
Os escravos enchiam o prato de feijão, arroz, milho, mandioca e carne de porco. Fartavam-se de leite, queijo e manteiga. Sempre alguém socando pilão no terreiro, um sinal de fartura. O pão-de-casa assado em fornadas. Nos fogões ferviam os tachos de doce, estocavam-se caixotes de marmelada. As correntes e algemas do galpão não eram usadas, raramente se chicoteava um negro.
Chiquito Ribas surpreendeu-se quando Melquíades pediu para vender os cestos que fabricava:
- Por que quer dinheiro se aqui não lhe falta nada?
Melquíades foi o último a comprar-lhe a alforria, nem precisou da ajuda dos brancos do povoado.
Os agregados colhiam pouco, propunham roçar às meias para ouvirem o dito:
"- As meias só para o pé, bolinho só da graxa."
Outrora, plantava-se, moía-se o trigo, porém veio a ferrugem e tornou-se mais vantajoso adquirir a barrica de trigo argentino no armazém.
Chiquito Ribas possuía renda para fazer eleitor na paróquia e decidir na escolha de deputados. Mas via a pecuária em decadência e, com ela, a sua classe. As carroças dos colonos iam tomando conta da região, construíam-se linhas de ferro no país, eram melhores as pastagens e as raças bovinas de São Paulo. Lá um boi custava o dobro. Muladas haviam sido trazidas de volta das feiras e arrematadas por preço de galinhas. Na sua fazenda de mais de quatro léguas, apenas seiscentas rezes sobreviviam com o capim nativo. Desvalorizavam-se as terras com a suposição de que samambaias e barbas-de-bode indicavam escassez para o gado. Com a invernagem de muladas, relegara ao abandono a criação. Os rebanhos foram minguando nas propriedades, a maioria menores que a sua. Estas mal cuidadas, tábuas desunidas assoalhando as salas, riscadas de esporas. Mobília de jacarandá, canapé a parede, enorme cômoda, relógio-armário, janelas para o patamar. No fim do corredor, a sala rodeada de quartos, antes da cozinha. Nos casebres de chão batido, as famílias agregadas. Andavam de mudança na cacunda para o arraial. Na área do campo - via-se pelas feições - ficavam os mestiços que puxavam mais para o bugre de que para o branco.
A erva-mate, pintando de verde o Paraná, transformou-o de vez. Era só colher as folhas, secá-las no carijo ao fogo e quebrá-las miudamente. Famílias inteiras tiravam dela o sustento. Comerciantes e carroceiros enriqueciam, Ponta Grossa tornou-se o maior empório da província. A eles vendiam suas terras os fazendeiros empobrecidos.
A Chiquito Ribas, que vendera os escravos a paulistas e queria lucrar com invernagem, restava acomodar-se na cidade com a família, sem desfazer-se das suas. A abolição podia parecer um sonho, mas na região já haviam sido rompidas as relações escravo-senhor, substituídas pelas de patrão-camaradas. E na cidade teria de habituar-se a um tipo de vida em que todos queriam ter os mesmos direitos.
O antigo arraial é que passara a ser o centro do mundo, um mundo cheio de vida e movimento a fascinar a família campeira. A fazenda tornara-se um vazio que doía na alma das moças, trancafiadas no quarto quando chegava um forasteiro. Os irmãos varões foram embora, um para São Paulo onde se estabeleceu com comércio, outro para o Rio Grande do Sul para continuar no campo. Os Ribas eram daqueles que iam para as cidades, porém com o umbigo ligado à terra.
Não resistiu à pressão das filhas que só falavam sobre o povoado, a nova casa, empolgadas com a mudança. Não mais pareceriam caipiras - pensavam. Freqüentariam aulas de mestre-escola, procedendo e falando como gente fina. Os Ribas evitaram a transferência do professor Nhonhô para os cafundós, contavam com sua atenção especial para as meninas. Freqüentando as escolas da cidade, até os pobres falavam corretamente, e os camponeses procuravam imitá-los.
- Com vestidos bonitos, vamos passear, dançar, flertar e casar.- Anita excitava as duas mais novas.
- Tem quermesse, banda, teatro, festa de igreja, baile no clube - acrescentava Dorinha, a do meio.
O gado mugindo, o galo cantando, o bode berrando, não contavam novidades, parada a vida na fazenda.
Letícia, a caçula, olhava da janelinha do sótão a cidade-estrela brilhando no alto. Sentia-se presa no quarto, isolada do mundo como as outras. Ah, se pudesse voar para lá. Mal podia acreditar no que ouvira. Fora a que mais se chocara com o suicídio de uma tia, abandonada no caminho por um tropeiro. Não compreendeu porque a mãe falou desacorçoada:
- Não faz diferença levar a mesma vida de escrava.
Dona Aparecida desgostara-se com a imagem de quem envelhecera antes do tempo, por viver socada naquele fundão. Parideira, de nove partos criara cinco filhos, enterrando quatro. Uma camponesa à força. Burguesa de capital, jamais a satisfaria o reinado numa fazenda. Chegara a sonhar com a corte, na qual tinha duas primas. Mudar-se da capital para o mato acabou sendo o inverso do sonho. Uma das primas, a invejosa, humilhou-a na viagem que fizera ao Rio de Janeiro, perguntando-lhe numa reunião social se iria trabalhar na roça. A prima fez o casal tornar-se objeto de chacotas. Um fidalgo teve o desplante de indagar ao coronel Chiquito se tropeiro no Sul era barão. O casamento fora arranjo de famílias, tinha dezesseis anos, inocente de tudo. Após curto noivado, chocou-se nas núpcias. Paria em meio à azáfama da fazenda, longe da falsa nobreza, cercada de gente rústica, escravos e agregados. Nos serões recordava o sucesso que fizera nos clubes, ganhando concursos.
- Perdi minha mocidade, passou como um relâmpago - lamentava-se. Descuidara-se da formosura.
Uma vida dura. Levantar às cinco da manhã, arrumar quarto, dar conta dos serviços domésticos, educar e instruir as crianças, costurar, fiar, tecer, defumar toucinho, fazer sabão e até partos de escravas. Lavar roupa, lidar no jardim e ainda sair a cavalo inspecionando a fazenda com o marido.
A preta que a assistira em todos os partos sabia que dona Aparecida, católica devotada, lutava para ser boa e mãe amiga. Mas se a pobre mostrava-se dócil com Anita e Dorinha, não podia conter a irritação diante de Letícia, criança mais parecida com ela. Mistérios da alma, causas pretéritas, um louco ciúme do mundo que fatalmente a menina conquistaria. Uma revolta contra si própria. Num dia em que chorava angustiada, após desentendimento com o marido, reclamava às criadas:
- Eu sou menos que uma escrava nesta casa, sou uma inútil, não sirvo para nada.
- Dona Aparecida é uma santa - interveio uma com a concordância das outras. A sua palavra, uma bênção, acabou as malvadezas na fazenda. Foi Deus que mandou a senhora proteger a gente - acrescentou.
- O que lhe parece pouco foi muito para quem recebeu da senhora.
Eram aquelas negras que mudavam as pessoas e o mundo. Através de gestos e das palavras alcançavam-lhes o coração. E se dona Aparecida negava carinhos à Letícia, não lhe faltavam os das mucamas. Ao vê-la chorar, por causa da mãe, consolavam-na:
- As lágrimas fazem bem, fia. As flores que as mães-pretas regaram de lágrimas, viraram violetas. Deus quer ver as crianças alegres, por isso fez os campos, as árvores, a criação, os passarinhos.
Letícia era feliz.
O sonho da mãe resumia-se, agora, em voltar do campo para a cidade, recuperar um tempo perdido. O marido já decidira a mudança e chegara a freqüentar às escondidas a Rua da Estação, não mais voltando à casa da Formiga, em Castro. Ainda assim, dona Aparecida induziu-o mais uma vez:
- A cidade tá assim de bom partido prás meninas. Doutor solteiro, gente educada.
Zangara-se, no princípio, alegando que a esposa não soubera dar valor à mobília de primeira, cadeiras austríacas, mesa com gavetas, espelhos grandes na sala, relógio de parede, louças de porcelana, talheres de prata, catres de couro. Mas não resistiu a seu assédio e das filhas.
A fazenda só para passear - frisavam o que queriam. Uma só coisa as preocupava, como a todos: - Será que vamos mudar antes das festas do Imperador?
Chiquito Ribas não descuidou das lides do campo. Saiu cedo com o farnel de feijão, charque e farinha, numa tropa de mula com bruacas cheias de sal. Mandou que o capataz tropeasse o gado e desocupasse o pasto que alugara para criadores vindos de Palmas e Guarapuava. Voltou à sede e fez a mudança em carroças e cargueiros que avançaram pela campina. Ao subirem as colinas do povoado, acenderam-se as lanternas no ensaio de recepção aos soberanos, o coro aprimorando-se na praça:
- Ponta Grossa aparece na altura...
Uma estrela no céu - pensaram as meninas.
RELAÇÕES PRIMORDIAIS
I
Balançava a monarquia quando Xandô veio ao mundo. Naquele ano, o tenente Pompílio de Albuquerque alistara secretamente seus camaradas, planejando capturar o Rio de Janeiro antes da partida de D.Pedro II para a Europa. A família imperial e as principais autoridades seriam detidas num dia de gala, quando se achassem reunidas, transportadas para a fortaleza de Villegaignon, enquanto dos morros as baterias levariam pânico à cidade.
Além de porem a culpa na cegonha, diziam às crianças que a parteira, Nhá Caetana, descia da caleça trazendo o nenê dentro de uma enorme bolsa. Naná deu à luz no sobrado, e as pretas celebraram o acontecimento como um prenúncio de justiça. Adaptadas às novas condições, conservando pouca coisa de suas tradições, falaram que o menino era algo de Xangô. No colo de uma delas, pronunciou tal palavra do modo que podia: Xan-dô. Assim o chamavam, apesar do assento de batismo. Eram comuns as mudanças de nomes pelos apelidos, o seu avô nascera Silva e o povo batizou-o de Tropeiro.
Mal engatinhava e já percorria a cocheira, os cômodos de carros e animais, todas as dependências, conhecendo os hóspedes, os fregueses do bilhar recém-vindo do Rio de Janeiro. Depois cantava trepado na ameixeira do quintal, antes de voar pelas adjacências. Chamavam-no com ternura:
- Vem prá dentro, passarinho.
Desde cedo, aprendeu a amar as pessoas e o mundo. Tinha um jeito meigo e arteiro. Conseguiam entretê-lo, mas não enganá-lo. Franzino, cabeça pensa, olhos escuros sob a franjinha que mais o amorenava. Aproximava-se das pessoas a sondar-lhes as intenções e até os pensamentos, fazia cara de sono ou de sonso, fingindo com qualquer caco na mão. Custaria a perder o titibate, medindo as palavras, soltando-as a intervalos. Perguntavam-lhe se gostava mais da mãe ou de Júlia.
- Mãe é uma só - não magoava ninguém e acrescentava após a pausa: a Júlia é mais de uma, é a mãe de mais de uma porção de filhos.
- O que é que você vai ser quando crescer?
- Santo - respondia impressionado com as cerimônias da primeira comunhão de sua irmã Cecília.
Depois que aprendeu a pronunciar os erres, mudou diversas vezes de opinião:
- Médico, para curar os doentes pobres.
- Advogado para defender os pobres.
- Soldado francês.
Captava as coisas no ar. Prestava atenção em tudo, nas pessoas, qual se estivesse em salas de aula. O professor Nhonhô, assíduo à confeitaria e ao jogo de carambolas, comentava:
- A fala remorada é uma herança dos tropeiros no descanso, sem pressa, proseando nos pousos.
Repetia o que ensinava na classe:
- No Paraná se fala um português mais suave, mais natural e correto. Mais ao norte, a pronúncia se torna algumas vezes pedante, outras grotesca. Os paulistas forçam os erres, mas não corrompem a língua. Os catarinenses cantam as palavras de um modo enjoativo. Os rio-grandenses tratam todos por tu, dobram vogais e eles: "sull", "baguall", "urinoll".
Concluía com uma ponta de orgulho:
- Nós pronunciamos as palavras por inteiro, as sílabas destacadas, abertas: "leite quen - te". É o modo másculo de falar, natural.
Os mestres-escolas, tal como Nhonhô Colares, talvez fossem a principal causa de, no meio citadino, as pessoas falarem razoavelmente correto. Xandô ia aprendendo e corrigindo o titibate.
O povoado desabrochara na colina dominante. No capão que engrossava numa ponta, havia abundante lenha. Os moradores que relutaram em aceitar o nome de Ponta Grossa - e isso foi no ano de um mil oitocentos e setenta e um - trocaram-no pelo de Pitangui, mas acabaram acedendo à maioria. Uma lenda segundo a qual pombinhos brancos teriam voado ao local onde foi erigida a igreja, reflete apenas o espírito pacífico dos habitantes. Não havia pombos domésticos nos campos gerais, só a juriti e a pomba preta, ambas nativas. Atraíra negociantes que abandonavam a região velha, progredindo com carroças abarrotadas às portas do comércio. Entre eles, o coronel urbano. Um mandachuva de roupagem nova, de bigodes, mas sem botas, bombachas ou chapelão, com lojas de ferragens, couros, louças, tecidos, remédios, miudezas. Dono na cidade interiorana. Até um médico trocara o bisturi pelo balcão. Os pobres encontravam serviço e algo novo acontecia: formava-se o povo.
Para deixar o marasmo da fazenda, as moças não precisavam mais fugir com tropeiro, se não casassem com os primos. E aquele era o povoado mais promissor. Antes perguntavam:
- Divertir-se onde? namorar como? noivar com quem?
Chegou a vez das adivinhações de Anita, Dorinha e Letícia. Primeiro esta, a mais nova:
- Com quem será que casarei?
Depois Dorinha, a do meio:
- Com qual será que me casarei?
Por último, Anita, a mais velha:
- Quem será que quer casar comigo?
Dava vida à cidade o movimento do comércio, das escolas, da igreja. Reunia gente no paço da Câmara, principalmente com a presença do corpo de cavalaria e da guarda municipal. Nas ruas transitavam caleças, cavaleiros e pessoas a pé. Pequenos grupos formavam-se perto de clube ou da agência de correios e telégrafo. Luzes à noite, animação na confeitaria. Nhô Quim organizara uma bandinha, enchia o Teatro Santana. Existiam, ainda, os galpões de costura, porém as mulheres se exibiam às janelas, à entrada das missas, nos salões de dança e nas dependências do teatro. As ruas, os campos e as escolas, ainda que separassem meninos de meninas, igualavam-nos como crianças. O povoado crescia sem as pessoas se tornarem desconhecidas umas das outras. Diferia de vilas paradas e mortas, meros ajuntamentos de parentes, que aumentavam para baixo, como rabo de cavalo.
Para Xandô a casa assobradada construída em estilo barroco no largo parecia de ouro. Seu pai, um rei em palácio. Mirava as sacadas suspensas por leões de pedra, as grossas colunas e sentia orgulho de morar em cima, na parte que abrigava a família. Em baixo, o maior número de salas e aposentos, cozinha com fogão e chaminé, na qual cabiam mesas, cadeiras e bancos. Repartições ainda mais ao fundo, pois o terreno tomava quase um terço do quarteirão em declive. O prédio dividia-se ao meio e, numa parte, três largas portas davam acesso ao salão com balcão ao longo da parede lateral, do qual se atendia a freguesia nas mesas de mármore. No contíguo jogavam carambolas. Ao lado havia entrada independente para a hospedaria. Além do confeiteiro e seu ajudante na oficina, três criadas e dona Naná atendiam a cozinha. Aquelas dividiam o casebre dos fundos, sua parte separada da dos homens por um corredor terminando no banheiro. Antes, fora um telheiro como os outros, em que as mulheres costuravam, bordavam, faziam massa, fofocando. A porção maior do terreno estava ocupada por cocheiras, carros, animais e algumas árvores.
Até os cachorrinhos alegres, abanando os rabos, tinham importância nas relações primordiais do menino.
A entrada de veículos, carroças de lenha, de fornecimento, ficava beirando a esquina, um portão no final do muro corrido. As chacrinhas cercavam a colina em que se situava, das quais a criançada fugia pelas sebes, derramando de dentro das camisas as frutas furtadas. Fora dali do largo, as ruas eram estreitas, as casas à beira, nunca recuadas. Sobrados e térreos de portas e janelas escancaradas para as ruas.
De água e esgoto cuidavam os escravos, provendo as bilhas e limpando as fossas.
Em Ponta Grossa via-se formar o povo.
Xandô pregou vários sustos à cidade. Antes de ganhar o tamborzinho com o qual brincava de marcha-soldado, deu-lhe o primeiro. Amuado no quintal, teve a idéia de tirar proveito do poço em desuso e tão mal coberto.
- É um perigo - pressagiavam. Um bode se esborrachara e apodrecera no fundo.
Serelepe, arrastou um saco de tralhas à borda, arredou as tábuas e deixou-o cair. O baque ressoou na cozinha, de cujas janelas se via o local.
- Minha Nossa Senhora!
- O que foi que aconteceu?!
- Acuda, acuda! O piazinho caiu no poço!
Em meio à gritaria a mãe desmaiou ao descer a escada. Um rebuliço, o povaréu invadindo a casa. Alberto ajudando a carregar a mãe para o quarto, Cecília chorando, Manoel pálido, cumprindo as ordens do pai.
- Bar-ba-ri-da-de ... - ouviam-se bem pronunciadas as sílabas.
Rodearam o buraco.
- Corda!
- Tragam uma corda!
Júlia, sua mãe da guarda, olhou para baixo e piorou a situação, choramingando:
- Xandô, passarinho 'tá boiando no fundo ...
Arrependido, sentia a dor que melhora o coração: o remorso. Escondido atrás da pilha de lenha no porão, temia a companhia da Gadelhuda no escuro, ouvindo a bulha e imaginando as cenas. A causa de tudo fora um cascudo que lhe dera Manoel. Puxa! Não devia ter fingido que se atirara ao poço. Não há sova mais doída que o remorso - aprendia. A cada minuto, um novo susto. Paulo, ajudante de confeiteiro, quase rolou poço adentro ao desmoronar-se a borda. Depois, a vez do Sobradinho arriscar a pouca vida que tinha. Doente do peito, acometido de tosse na hora do salvamento, escorregou para o fundo e ficou de ponta-cabeça, preso pelos pés.
- Só tem uma trouxa em cima da água - berrou de baixo, antes de ser recolhido pelos soldados que o socorreram e retiraram os entulhos.
- Vasculhamos tudo, não há nada, criança nenhuma.
Houve uma sensação de alívio, porém ao se sentirem logrados, poucos não recomendaram uma tunda. Os cães, assustados com o alvoroço, entravam e latiam no porão, denunciando o menino.
- Acuda, Maria Papuda! - chamou-a Júlia, impedindo a sova.
- Eu me arrependi, pai.
- Viu? - Maria Papuda acalmou Frederico, e Júlia desarmou todo mundo:
- Arrependimento é prova de bondade, só quem é mau e não gosta de ninguém, nunca se arrepende. O menino 'tá sofrendo.
O pirralho pregava peças a si próprio. Numa noite gemia e, com medo que o pai lhe arrancasse o dente, mentiu-lhe:
- É a feridinha do pé.
Ao debater-se na cama, na hora de tomar injeção contra tétano, seguro por três, protestou a verdade:
- Não é a feridinha do pé, é meu dente aqui - mostrou com o dedinho.
Recebeu o castigo. Pelo sim, pelo não, lá veio o pai de alicate em punho, e zás! extraiu-lhe o dente.
Eram apenas crianças e não pretos, brancos, ricos ou pobres, que colhiam juntos pitangas no campo, que brincavam no largo e nas ruas. Xandô só se sentia inferiorizado por causa das pernas fechadas nos joelhos, abertas em baixo - formato de tesoura - e do pouco pescoço delgado. Queixo pendendo sobre o ombro, humilhavam-no os risos de mofa. Brigou muito para evitar chacotas e impor-se até assumir liderança de setra ou trabuco na mão. Teve o apoio dos engraxates da recém-inaugurada charutaria.
- Pau-de-vinho, não! - impedia as brutalidades.
Fazia o tempo de brincar com peão, arco, papagaio, bola de búrica, malhas, de esconde-esconde, de índio ou de soldado. No Escorpião ou no Cavalinho, arroios mais próximos, nadava em dois estilos: "cachorrinho" e "arrancão". Na Prancha, o seu amigo Chico Bóia morrera afogado ao enroscar-se em galhos do fundo.
Peraltices sob nuvens de passarinhos. Comandava incursões aos quintais, às chácaras, às carrocinhas derramando frutas. Os companheiros faziam-lhe degrau com as mãos para pular as cercas e conseguir trepar nas pereiras ou jabuticabeiras. Ajudavam-no como podiam na hora da fuga. Se não corresse primeiro e não se escondesse, seria apanhado. De pernas duras, os passos não rendiam.
Não tirava vantagem em briga, menos de medo de que pelo sentimento que o inibia. Defendia-se sem desferir socos. Era fácil escarnecê-lo:
- Tem sangue de barata.
- Tá com medo, cagou no dedo - temia alguns marmanjos que maltratavam os menores.
Não cessavam as queixas a Frederico sobre as artes do bando. Xandô afrouxara o breque de uma carroça, distorcendo a manivela, os cavalos dispararam na ladeira. Montara no burrico de uma gaiota, e outro dono o ameaçava com o chicote.
- Guri duma figa.
Acudiam-no nas horas de perigo:
- Não vêem que é uma criança inocente? Ainda por cima doentinho...
Não escapava aos males infantis. Agravados com a coqueluche, faziam-no estrebuchar e parecer fracote. Chegou a acordar de velas acesas nas mãos. A recomendação médica foi deixá-lo à solta. Aí, fumou no campo o cachimbinho do saci-pererê e pintou os chifres do diabo. A mãe justificava-lhe as travessuras:
- Pobrezinho, foi desenganado.
Certa vez, não o acharam em parte alguma, pensando que tivera o mesmo fim do Chico Bóia, no fundo da Prancha. Ficara o dia inteiro proseando com a velhinha do botequim de bananas.
- Parece gente grande - tranqüilizou-os ela.
As famílias entretinham-se com as fofocas da cidade. As enredeiras comentavam nos telheiros o caso de Rosinha, loura fogosa, de faces rosadas, mulher do professor, irmão do padre, a qual com este traía o marido. Hospedado pelo casal, o padre abusara da confiança do próprio irmão, seduzido pela cunhada. A casa ficava numa ruela detrás da igreja. No dia do ensaio do coral para apresentar-se no teatro, ninguém mais duvidou do que cochichavam as pretas. Uma vira Rosinha correr para a cama do padre, assim que o marido saiu para dar aula. No ensaio tocavam piano a quatro mãos, trocando olhares apaixonados.
A ciumeira geral e o medo do exemplo de Rosinha resultaram na transferência do padre para outra paróquia.
- O professor é brocha - instruíam-no os engraxates.
Traseiro cheio, pernas grossas, Rosinha excitava a rapaziada. Que jolunda! - a exclamação numa linguagem secreta, quando passava pela charutaria.
Xandô percebia o ciúme dos homens, que a condenavam, e uma certa satisfação das mulheres, admirando-a.
Na roda de chimarrão, a bomba e o purungo corriam só para um lado, mas na prosa o tempo voltava. Girava o pensamento, a vida, o mundo. Frederico a definia:
- O chimarrão é uma corrente de tropeiros, dando volta de pouso em pouso. Sem ela não tinha amizade unindo tanta gente, não tinha Brasil. Não fossem os tropeiros abrindo os caminhos, semeando os povoados, costurando as províncias...
Os filhos prestavam muita atenção no que dizia aos companheiros:
- Por causa de meu pai, Pedro Tropeiro, por um triz não fui batizado com nome trocado, sem o Silva que assino. Corri o mundo por muito arraial de futuro: Palmas, Lages, Curitibanos. Vi muitos nascerem no Rio Grande. Ah, a última vez que passei em Porto União da Vitória! Parece que estou vendo uma vintena de casas, lanchas e canoas no rio.
A história passava em Ponta Grossa, e Xandô tinha orgulho da Rua das Tropas onde a família pusera um "secos e molhados". Sabia que os pais se conheceram numa festa de Santana, dançando no caramanchão do acampamento. Frederico desembarcou do comboio de mulas para casar e pôr comércio. Bem mais tarde, Xandô nasceu na casa assobradada do largo, depois que o casal mudou do ramo de negócio. Naná - a própria terra-mãe - terra natal, pois só conhecia o mundo de seu lar, jamais tirara os pés de Ponta Grossa.
O sobrado de hotel e confeitaria retratava a cidade, muito movimentada de caboclos urbanos e todo o tipo de amestiçados, principalmente muzambos. Bairrista igual à mãe, Alberto provocava-a cantarolando ao piano:
- Ó dona Naná,
onde fica o mundo?
- No Brasil, e o Brasil no Paraná.
- É só viajar numa carroça,
que o Paraná fica em Ponta Grossa.
As perguntas fazia Alberto com sua voz de tenor, as respostas davam-nas em coro, na sala de cima, Cecília, Manoel e Xandô. Naná levantava o queixo orgulhosa, porém se enternecia.
Antes de estabelecer-se, Frederico trabalhou em olaria, em serraria, lidou com lenha, mas se arranjou mesmo com erva-mate. Do armazém passou para o sobrado com hotel e confeitaria. Nesta, o movimento. Continuou muito dado, muito amigo, e tinha a companheira ideal. Para ele, a mulher era apenas uma mulher. Não fazia distinções pelas diferenças de sorte. Ensinava aos filhos que o homem não se explica pela posição social, pelo modo de viver, mas sim pelo modo de ser. Xandô nunca se esqueceu de uma observação de seu irmão mais velho:
- A pessoa não muda, apenas evolui.
A viúva Juanita tinha dois filhos garçãos na confeitaria, os quais a seu pedido apanhavam de cinta, se faltavam ao serviço. Por isso, comparecia ao sobrado com a filha Dalila, da idade de Xandô. Frederico concordou com que os moços dormissem no emprego para tratá-los como se fossem da família. Não havia razão para ciúme de Naná. Frederico seguia o exemplo de Pedro Tropeiro com seus camaradas. Afirmava que o mundo devia ser uma família, o chefe impondo ordem e provendo as necessidades de todos. A mesa dos serviçais tinha fartura, igual a dos patrões.
O casal só poupava Cecília, mocinha da casa, fazendo cursos, educando-se para o casamento.
Por todas as razões, Frederico desfrutava de muito prestígio. Envolvendo militares e até padres, com certidões de batismo e provas de alistamento na guerra do Paraguai, conseguira a liberdade de muitos escravos. Beneficiara-os de acordo com a lei do ventre livre ou a dos sexagenários, e a que concedia alforria aos voluntários negros. Atrás dele uma sociedade secreta. Quando tinha de ausentar-se, deixava nas mãos confiáveis de Alberto e Manoel o comércio. Dava como pretexto às viagens o tratamento do filho caçula.
II
Na gorducha valise, Naná enfiava a roupinha de Xandô, rabo do pai. Ele se lembrava das viagens, fundindo-as num único cenário mental, em acontecimentos simultâneos. Hospedavam-se no casarão de Tio Silva, construído por Pedro Tropeiro, o avô. A rua movimentada, carroças com os produtos das chácaras. Os homens pitando o palheiro na boléia, enfiados em botas, chapéus desabados. Mulheres empunhando rédeas, com espessas saias, de aventais e lenços de cor. Gente a pé, a cavalo, em carretas e troles. Nas janelas - nem todas envidraçadas - meninas louras de olhos azuis. Em dia de descanso, viam-se cavaleiros com as sacolas cheias de bicudos que caçavam nas cercanias. Ouviam-se tiros dos que se metiam nos brejos e banhados, principalmente no lago farto de narcejas, patos e marrecas, onde seria construído o Passeio Público. Curitiba era um mundo novo a sua frente. Adorava-o apesar da fria umidade, das chicotadas desferidas pelo vento chamado de Bugio. Relembrava cenas presenciadas nos chafarizes, no pelourinho, sobrepostas com as de colonos comerciando com os alemães da Rua Fechada e da Praça D.Pedro II. Não se apagavam em sua mente os carros-de-bois, muares com morrões de erva mate e carroças descendo pela Rua da Graciosa. Injeções no consultório, febre e temores noturnos não o impediam de sentir-se numa quermesse durante o dia. Presenciara a inauguração dos vinte lampiões comprados no Rio de Janeiro, quando se revezaram as bandas musicais, foguetes estourando, pares dançando defronte à Matriz. Ah! a Matriz. O povo fiel não admitia que estivesse condenada. Não ruíra quando, da janela do coro, Xandô descortinara a cidade com seu casario rasteiro. Tinha o branco da alegria, cor de festa, polvilhada de verde nas ruas.
Uma aldeia, se a comparassem a uma metrópole. Não mais a aldeia colonial dos mineradores. Duzentos anos de história estavam guardados nas urnas mortuárias encerradas nas paredes da Matriz. Espelhava o passado. Servira de escola, abrigara a câmara e as catacumbas. Como na recepção aos voluntários da guerra do Paraguai, ali defronte tudo se comemorava. Armavam-se palanques, erguiam-se andores, rezavam-se missas. As moças acenavam, agitando-se nas janelas do coro, antes das danças.
Não se esquecia das rachaduras causadas pelo peso das torres, retangulares, gradeadas, três janelões e respetivos balcões em fileira sobre o portal em arco romano. O desentendimento entre políticos, engenheiros, devotos, envolviam a população na briga pela conservação ou demolição do monumento.
Fora à missa com a tia Dulce no dia em que o teto ameaçou desabar provocando pânico e a correria da assistência. Ainda assim, contra a demolição protestavam os fiéis: - É uma profanação. Faziam coro com o pároco.
Na procissão de transferência da Matriz para a igrejinha do Rosário, oratório da irmandade dos pretos, havia choro e lamúrias. Eram xingados de hereges as autoridades, os engenheiros e os encarregados da demolição. O cortejo fúnebre trasladava os ossos da aldeia colonial. A nova catedral seria erguida por trabalhadores livres, em sua maioria imigrantes alemães, e não mais por escravos. Cresciam as classes urbanas.
Conhecera todos os becos e vielas que se irradiavam da rua principal. Em frente ao sobrado da presidência, havia retreta às quintas e aos domingos. Num outro, ficava a Casa do Sol. Aquele com a estaca, em cujo argolão prendiam-se os animais, pertencia ao Zé Nabo. O armazém vivia cheio. Após a entrega da erva-mate nos engenhos, os fregueses iam para lá de chinelos e palas. Ele vendia fiado e servia o chimarrão. Na esquina de Nhá Ziza, onde se editava uma revista, aconteciam grandes bailes.
Na mente da criança, tudo era festa em Curitiba. Os sucessos de comemorações ou de revoltas ligavam-se, sem que soubesse quais haviam ocorridos antes ou depois. Via o pai, o tio e os cavalheiros que se reuniam numa sala do casarão cumprindo algum papel importante na província. O povo se amotinara em frente ao salão Lindman, em apoio à comissão do comércio, quando se cerraram as portas das lojas e a polícia foi para as ruas. Os negociantes organizaram um protesto contra o lançamento do imposto de um e meio por cento sobre as vendas. O jornal "Dezenove de Dezembro" publicara o ato, a comissão redigira um boletim. As pessoas exclamavam indignadas:
- Acabaram-se as garantias!
Os monarquistas liberais, no governo, contra-atacavam:
- É uma revolta de estrangeiros!
Comerciantes, na maioria alemães e portugueses, constituíram uma vanguarda urbana e, aproveitando a oposição do Partido Conservador, enfrentavam o domínio oligárquico. O corpulento Treme-Treme, dirigente da facção, tentou dobrar o palácio, porém não conseguiu a suspensão da medida, cumprida apenas na Lapa e na Palmeira, redutos liberais. Um estampido de revólver provocou carga de cavalaria para os lados do bairro Pilarzinho. Linhas de soldados cercaram a área em que o povo se concentrou, para esmagá-lo no Largo da Matriz. À noite, os discursos no salão Lindman foram interrompidos a tiros, partiram-se os lampiões, a multidão promoveu um quebra-quebra, apedrejando casas de governistas. A guarda da tesouraria, atacada por um grupo, retirou-se para dentro do portão com alguns feridos. Quando a cavalaria avançou pela Rua Fechada, os praças mataram o rapaz louro que não fugira a tempo. Debaixo de golpes de espada, a tropa levou mais de uma dezena de comerciantes para a cadeia.
Durante a comoção urbana, Tio Silva escondia gente no casarão, e o governo imperial deslocou para o Paraná cerca de quinhentos soldados que desembarcaram do paquete Rio Branco, em Antonina. Em conseqüência, cindiram-