ARCABUZES

Noel Nascimento

 

 

Dedicatória

À minha esposa Beatriz.

Aos filhos Noel e Othon Ludwig.

Aos irmãos Sebastião, Othon e Vera.

 

Aos heróis humildes, os Arcabuzes.

Eles fazem a história.

 

In memoriam

Ao meu pai

Sebastião Nascimento.

À minha mãe

Maria Claudina


 

 

 

PRÓLOGO

 

 

I

 

Havia um mendigo que por ironia chamavam de Arcabuz da Miséria. Um aristocrata, o único de uma classe alta. Sátira viva de conde fora de moda. Perdera a identidade, um não-pessoa, triste imagem de nação sem memória. Usava casaca e cartola encardidas, mas tinha as barbas bem aparadas. Parecia mais de um - porque mudava de cidade ou porque davam a outros a mesma alcunha - e muitas pessoas podiam ser ele. Vagabundo urbano, bengala na rua, e não um João-Maria de cajado pelos carreiros. Jamais fizera balsa de uma calçada, indo e vindo sem sair da quadra como o Toco de Vela. Num tempo em que não constituíam bom gosto o ordinário, o sórdido, o calão, provocava admiração com a finura no falar. Só estava louco da sociedade em que vivera. Granjeara mais fama que o Pé Espalhado no Rio de Janeiro.

Um caso muito diferente de andarilhos como o Anastás Marcaf que fanatizara a matutada, único prodigioso dos joões-maria.

Chamavam de arcabuzes os combatentes que passavam às centenas nos trens militares. Certamente os infantes com suas carabinas. Soldado desconhecido, Arcabuz é homem-arma, herói humilde, o que muda a ordem das coisas. O Arcabuz da Miséria poria fim à miséria - tudo acabou em escárnio.

Não era plebeu, e sim um nobre. Um viajante rio-grandense contou no Café Glória que o viu fardado de capitão, atirando ao rio pela janela do trem uma cabeça humana. Ninguém acreditou. O diário secreto do general Carneiro, abatido com um tiro no fígado, citou-o como herói. As suas pegadas passam pela história do povo brasileiro.

Ele era uma prova de que um mendigo pode ser qualquer coisa, nobre, padre ou militar. Para Xandô, neto de Pedro Tropeiro, não faria diferença. Aprendera que a pessoa vale por suas próprias virtudes, acima de divisões de classes ou de raças. Crescera vendo o povo plasmar-se nas cidades. Achava que povo é extensão da pessoa e, por isso, lutara também na guerra. Afinal, um mendigo pode ser até um grande homem. Tudo depende do coração, que é o motor da história. O bom coração.

Quando as sociedades secretas lutavam contra a escravidão e a monarquia, o governo mandou prender o Arcabuz, suspeito de chefiar as conspirações. Tratava-se de cognome. De quem, ninguém sabia.

Um mendigo da alta sociedade...

O carroceiro que transportou os corpos atirados na Grota do Diabo afirmou que o vira esgueirando-se entre as tumbas na ocasião da exumação secreta. Um soldado da escolta ajudou a confundir muita gente com sua versão: - Foi ele que escapou-se, atirando-se do trem.

 

II

 

A primeira aparição foi em Ponta Grossa, cidade das estrelas. Estrelas vistas do alto, de longe, apontando caminhos. Antes não era pândego, nem vestia fraque ou ficava penso, apoiado à bengala de engaste prateado. Chegara assustando o povoado, apesar da poeira, um redemoinho de pedra erguido pela ventania apelidada de Gadelhuda. Viera estropiado, metido num capote, debaixo do qual escondia um arcabuz. Espectro da guerra.

Ponta Grossa tinha muitos casarões e o comércio na colina mais elevada. Dos ranchões com quintais cultivados, as lavadeiras subiam as ladeiras com trouxas à cabeça. Caipiras dos arredores, ou negros que habitavam as barrocas com os polacos, prestavam serviços avulsos e começavam a progredir. Os imigrantes louros já tomavam conta das roças e do transporte. Fora um bairro de Castro onde numa reunião com autoridades os fazendeiros protestaram:

     - Não queremos a Estrada de Ferro.

     - Somos contra o ajuntamento de forasteiros e desocupados.

     - Que passe por Ponta Grossa, a sete léguas e a um dia de viagem a cavalo.

O primeiro Arcabuz não apeou da montaria, não desembarcou de trem e, muito menos, de carruagem. Fugira a pé das chacinas. Os hospícios moviam-se nas estradas, o mundo convivia com seus loucos quando não os matava a pauladas. Não sabia responder qual o seu nome aos viajores, mas o seu destino:

     - Eu vou para a Estrela.

Gravara no juízo que restava o que ouvira da localidade, como a sonhara antiga tribo. Abaretama, terra de paz e igualdade, sem crimes ou suicídios. Procurava-a para viver sua utopia.

Houve uma trilha. Às bandeiras sucederam as tropas de mulas. No local da cruz, o padre ergueu um pouso. O principal no ponto nevrálgico dos caminhos. Apossavam-se dos terrenos vagos. Cada caboclo com sua choupana, na sala a tosca capelinha. Por toda parte sucupira, jucá, macambira, tucum, quixaba e jandiroba. A mancheias jabuticabas, araçás, pitombos, ariticuns, guabirobas, mandubis e outros frutos. Escravos fugidos, forros ou servos dos latifúndios vinham abrigar-se. Ofereciam-se para substituir os arrieiros que desertavam e guiar as comitivas. Os negros que saíam dos esconderijos à cata de serviço e comida amedrontavam os viajantes. Aquilombados nas depressões do terreno, escondiam-se do capitão-de-mato e da companhia de ordenanças sediada em Castro.

Na mexida e remexida de raças na massa urbana, amalgamara-se o povo que, por princípio, não devia discriminar ninguém. Lugar ideal para um mendigo aristocrata.

O clima de terror não cessara. Contavam-se casos de arrepiar os cabelos. Os adultos ainda temiam perseguições, e as crianças acreditavam na fantasma Gadelhuda, a ventania. Com as unhas crescidas e a cabeleira esvoaçada surgia detrás da igreja. Ocultava-se nos sótãos e nos porões, nas barrocas e capões de mato. Galopava nos campos, moldava espectros de pedra na Vila Velha, voava e carregava crianças. Talvez tivesse algo a ver com as pedintes que, de cabelos desgrenhados, subiam as ladeiras.

De dez ou mais léguas, via-se a povoação. Ao cruzá-la no cavalo branco de arreios de prata, o sol clareava-a. À noite, ela coruscava. Elevada à Vila, recebera o nome de Estrela.

De repente, o vulto estranho causando espanto - podia ser furioso -, portando um bacamarte! Juntou gente para vê-lo. Sentenciaram:

     - Enlouqueceu na guerra!

Um antigo sargento do quinto corpo de cavalaria afirmava que reconhecera o ajudante de confeiteiro, o qual desfilara nu no dia da visita de D.Pedro II. O doutor Arcanjo, que relatou toda a tragédia da retirada de Ponta Grossa, reforçou-lhe tal versão ao mencionar "um polaco sujo, cadavérico, trêmulo, de olhar sinistro, que come costelas cruas de burro, apelidado de Judeu Errante". Deram-lhe de comer e beber por caridade. Teve a sensação de que encontrou o mundo pelo qual lutara.

Esquecera o nome, o batismo, a família, o passado, o amigo que desejava reencontrar. Com vida no peito, comandava os movimentos, só não era dono da cabeça. Carruagem sem o cocheiro, desgovernada. Por causa da arma imprestável, dos andrajos e da botina rasgada, nasceu naturalmente a alcunha: - Arcabuz da Miséria. Inventavam tanta coisa a seu respeito que não se sabia na qual acreditar:

     - Esteve a ferros nas fortalezas.

     - Traiu o juramento que fez no convento.

     - É um foragido da justiça.

     - Montou a cavalo na própria mãe.

     - Deu uma surra na madrinha, que lhe rogou uma praga.

     - Degolou uma santa.

     - Matou a mulher com trinta e duas facadas.

Não fazia mal a ninguém, mas chegavam a dizer que comia criancinhas. De uma coisa havia consenso nas rodas de prosa:

     - Está pagando seus pecados.

     - Só o arrependimento redime um condenado.

Após a aparição, vagou de cidade a cidade. Com o  capote rustido, chegou à capital. Granjeara fama, assombrava menos. Ia começar a consagração. Passou a morar num banco do Passeio Público, mansão a céu aberto. Caluniavam-no que andava coberto de piolhos, de carrapatos, além de recender cachaça. Petas e mais petas sem fim. Só era bêbado de sonhos. Os pipeiros que ele ajudava no chafariz do Largo da Ponte, achavam-no limpo e são, um doido normal.

Um dia, surgiu à porta do solar da Baronesa, a qual ordenou aos criados:

     - Deixem-no entrar. Essa fisionomia não me é estranha... Eu já vi antes esse coitado. Dêem a ele o que sobrou do finado.

A sua vida mudou dos trapos para o fato chique. Então virou o nobre que era, mas parecia a sátira. A tristeza cedeu à gaiatice, ficou diferente. Arrancou uma exclamação mais absurda nas ruas:

     - O Arcabuz da Miséria está maluco!

Tinha prestígio, sua classe fora extinta, porém não perdera o respeito. Os panos - casaca, calça listrada - cartola e fina bengala confundiram uma velhinha caduca na sacada:

     - Não riam do Barão!

Juntava gente para vê-lo passar na Rua Quinze de Novembro. Lembrava o palhaço de um circo antigo, um herói humilde picado à faca no Paiol de Pólvora da Água Verde.

Comparecia a reuniões e festas populares, a solenidades públicas. Não era nenhum alienado e não controlava o coração ao ouvir a banda da polícia tocar o Hino Nacional. Emocionava-se ao ver desfraldada a bandeira. Amiúde acompanhava os funerais e, à sua custa, os canastrões faziam humorismo anticlerical.

A revista "O Olho na Rua" publicara uma charge, com estampa de um sobretudo esfarrapado e versos que o comparavam ao padre Antônio Carlos:

     "Enfim para o cemitério

     Se dirigiu comovido

     O cortejo grave e sério

     Do defunto falecido,

     O Antônio Carlos tristonho

     Coitadinho do Arcabuz,

     Num passo lento e tristonho

     Fazia o Sinal da Cruz."

Pichote - pseudônimo do autor - assistira ao féretro de um figurão, o carro puxado por corcéis brancos de penachos pretos cobertos por uma manta, cocheiro de cartola e fraque, com o séquito dispersando para beber cerveja no Passeio Público. Noutro número da revista, quebrou os pés de um soneto:

     "Embora fedorenta e bem rasgada

     Vecchia zimarra, serves de ornamento

     Ao mais papa-hóstias da manada

     O padre Antônio Carlos, o portento.

 

     Não sei se por sua cor enferrujada,

     Mais parece a pele de um jumento

     Ou divisa de uma ordem arruinada

     Que simboliza um chiqueiral convento.

 

     Se ele aparece gritam: Ai! Jesus!

     Onde está a Sanitária trabalhando?

     E é o velho sobretudo do Arcabuz!

 

     Ele passava, e o Soegmueler vem

     E por graça ou talvez se equivocando

     Põem-lhe no lombo a chapa nº 100."

 

Sanitária seria a empresa Limpa Fossas, com placa de número cem na carreta de pipas de fezes, puxada por jumento. E Soegmueler um funcionário municipal.

Discutia-se Voltaire nas mesas de cafés e confeitarias, respirava-se o ar da revolução francesa. E nem os doutores iniciados se admiraram que um pária fosse tema de discurso numa reunião filosófico-literária do Clube Iguaçu, fundado pelo Barão do Paraná:

     -...O Arcabuz da Miséria lembra um acusado da Santa Inquisição. O acusado, sem direito à defesa, que era obrigado a usar o sambenito, o saco macabro dos hereges e excomungados, o resto da vida, para esmolar e ser apedrejado pela molecada. Temos de nos unir em defesa do livre-pensamento e resistir à ação dos que pretendem vestir no homem paranaense o sambenito, a casaca do Arcabuz da Miséria.

O novo presidente só faltou reintroduzi-lo na alta sociedade. A língua de Chica Chapeleira saía às ruas e entrava nas casas:

     - Arcabuz da Miséria é o padre Beto. Toca negro da igreja, bate e mata pobre na rua, não deu extrema-unção à Maria Conceição Bueno. Sabem que fim deu ao construtor da catedral?!

O nobre detestava intrigas, que o usassem. Não tolerava tanta curiosidade, recolhia-se a seu banco. Sumiu quando soldados do oitavo de cavalaria, numa casa de raparigas da Rua do Fogo, atormentaram-no com perguntas, supondo que enlouquecera por causa de maus tratos na caserna.

 

III

 

Ressurgiu em Ponta Grossa, desembarcando de vagão de segunda classe, apesar de nobre. De fraque, colarinho, plastrão, chapéu coco, causando pasmo. Com a imagem mudada, via transformar-se o mundo ao toque da bengala, condão mágico. Os cães não mais ladravam a sua passagem. Não se sentia acossado por ronda de fantasmas vingativos. As crianças seguiam-no empolgadas. O dono da casa assombrada, vazia desde o enterro de Carolina, deixou-o ocupar o galpãozinho dos fundos. O Colle, um sapateiro anarquista da Colônia Cecília, que fora obrigado a mudar-se de Palmeira por hostilizar o padre, serviu-o várias vezes em sua confeitaria, sem imaginar quem fosse. Uma vez deu causa a sério desentendimento entre um médico e um fazendeiro que o escarnecera. O médico interveio:

     - Caçoar dele é o mesmo que caçoar de si próprio.

     - Tá me chamando de Arcabuz da Miséria?! - o coronel tentou tirar o revólver da cinta.

Não houve derramamento de sangue porque apartaram a briga.

As mulheres e as crianças achavam-no divertido. Sentia-se feliz ao ver as pessoas igualadas nas rodas de prosa e chimarrão, nas ruas, na praça, nas quermesses e festas populares. Era quem mais se divertia com os outros. Gostava que as crianças fossem apenas crianças, pareciam-lhe solidárias, amigas umas das outras.

Muita gente ficou impressionada quando o tenente Irani, veterano da guerra civil, afirmou tê-lo visto antes, sem se lembrar onde. Pode ser um oficial da marinha - imaginavam. Alguém o viu fardado em Porto União da Vitória.

Não criam que fosse mau e escondesse o tal arcabuz de que se falava. O cognome não significava coisa, escravo ou servo da Companhia Mate Laranjeira, tratavam-no como pessoa. Com novo traje dera lugar a novas versões. Teria possuído fazenda e escravaria, saíra de um convento, escrevera um compêndio de mil páginas, enlouquecera de tanto estudar.

Opinava sobre todos os assuntos, deixando os ouvintes boquiabertos. Paravam-no nas ruas. Tinha agenda para visitas e presenteava as donas de casa com flores ou pacotinhos de ervas milagrosas. De modos gentis e ditos graciosos, o tratamento de tu não prejudicava o sotaque agradável. As moças disfarçavam a curiosidade e escondiam os risinhos atrás dos leques. Atraía-lhes a atenção com o porte altivo, os olhos azuis, a barba aparada, apesar da roupa rustida. Olhavam-no com receio, sem repudiá-lo. Uma menina impressionou a família com visões em que ele aparecia com uma bilha de água, regando jardins.

No barracão em que Curu era ferreiro e de tarde dentista, este quis engraçar-se:

     - De um mucufo e um barão, qual é o mais infeliz?

A clientela gostou da resposta:

     - Quero ser um tico-tico, tendo o céu para voar e árvore para pousar, e não canarinho de ouro, cheio de alpiste, trancado numa gaiola.

O meirinho definiu-o:

     - O Arcabuz tem ares de fidalgo, modos de desocupado, jeito de anarquista.

O doutor Ricci, um médico que viera da Colônia Cecília arrasada pelos soldados, irritou-o na roda da farmácia:

     - É verdade que o senhor é um garibaldino?

     - Não sou do tempo de Anita...

     - Nem desertor de um batalhão maragato?

     - Nunca peguei em armas contra o Imperador, nem contra presidente - desconversou e saiu resmungando: sou quem sou, nem soldado nem desertor...

O prefeito, um fazendeiro que fora delegado na Palmeira e expusera nos postes as cabeças de suas vítimas, ferido durante a grande retirada, não teve intenção de desagradá-lo:

     - Quer entrar na guarda, com patente de capitão?

     - Muito donaire de tua parte. Estás refazendo o batalhão de Palmeira, senhor prefeito?

Deu a resposta com um ar de quem fica sem nexo, porém com um olhar expressivo, mas indizível. Tinha algo de maluco, que ninguém entendia. Não distinguia os tempos, misturava presente, passado e até futuro. Rodavam como papa-ventos em sua mente. Sentia-se no porvir que imaginara. Não pedia, mandava. Havia fartura de caçar codorna com a mão, veado no laço,  tatu pelo rabo. Erguia a bengala e batia com a ponta na janela, avisando:

     - Hoje quero chá com leite e torradas.

As crianças também lhe abriam a porta, sem o medo que tinham do homem do guarda-chuva, o qual virava lobisomem. Não abusava da hospitalidade, porém não fazia cerimônias:

     - Nhá Miroca, me prepara uma xícara de café com leite. Se não tiver pão-dágua ou bolo de polvilho, não sou de luxo, serve pão-de-ló.

Ou então:

     -Severiano, diz à Judite prá arrumar o quartinho dos fundos. Vou pernoitar aí.

De vez em quando, um chefe de família se irritava:

     - Será o Benedito?!

Era o primeiro Arcabuz e achava natural que o servissem. Acostumara o hoteleiro:

     - Palreio, mande o garção me trazer um prato de comida.

Pedia pouco nos balcões e agradecia o atendimento gratuito. No seu mundo, ninguém faria questão de dinheiro. Aguardava a vez na barbearia, participando da prosa. Ouviam-no indagar:

     - Como estão todos em casa? Passa melhor dona Candinha? Consegui a erva das crianças.

Elogiava o corte, agradecia, saindo galante. Como na capital onde o barbeiro David, um italiano gorducho, de freguesia selecionada, fazia questão de cortar-lhe os cabelos e aparar-lhe a barba.

Comparecia ao bordel da Velha Bolsa, na rua da Estação, cheia de caleças. Fora ela a menina Dalila,  a qual caíra na zona de Castro, na casa de Formiga, a mais freqüentada há algum tempo.

Assistia às retretas da Lira dos Campos, em pé. Apoiava-se à bengala, defronte ao coreto. Esperava a banda na praça e saía por último. Levava uma braçada de flores a todos os guardamentos, chorava e rezava. Crianças morriam até de sarampo e mulheres no parto. Acompanhava enterros de ricos ou de pobres, igualados na vida e na morte. Esquecia as ofensas. No cortejo fúnebre do coronel que mandara expulsá-lo da cidade, fora o primeiro atrás do coche, seguido pela Lira dos Campos.

De vez em quando, reaparecia na Capital, em Palmeira, Campo Largo, Irati, Piraí e outras localidades. Mas retornava com sua febre visionária.

Tempo durou em que mendigo, além de gente, podia ser um aristocrata.

Nos carreiros ainda transitavam carroças de toldo, cavaleiros, carros-de-bois, manadas, apesar da ferrovia. A cidade virou um cais de trens e carros nas bandas da Estação. Escorria graxa preta das rodas, misturando-se à sujeira dos cavalos.

Se o doutor Azevedo Macedo, médico filósofo, não o abrigasse no porão da casa onde morou longos anos, ele teria morrido muito antes numa noite de inverno. A vida que viveu no solo que pisamos não foi a mesma de outros mendigos que não são arcabuzes.

Ao deixar vago o trono das sarjetas, outros o ocuparam. O Beijo, um mulato gordo, cabelos crespos, fazia a festa, rivalizando com a bandinha do polaco sapateiro. De lata, pau e cordas de viola, modelada a faca, inventara uma harpa, ao som da qual improvisava modinhas plebéias. Chovia gente para ouvir um estribilho:

     "Bravo, que linda flor,

     quem não vem a Ponta Grossa,

     não sabe o que é amor."

Zorico, enfiado num culote e de barriga para fora dos trapos. O dócil Matias, magricela, contando grandezas, supondo-se dono de fábrica e vagão de agulhas. E Nhô Ganso, homem pássaro. Tamanho infinito por causa do pescoço e das pernas. Sentava na calçada para não ficar cara a cara com o sol, ou com a poeira de estrelas nos olhos vermelhos de pinga. Colhia pinhão, curvando-se sobre a copa, pescoço esticado. De braços dados com a preta Maria, a qual pintava o rosto de branco com pó-de-arroz, foram rei e rainha de carnavais, coroados no corso. Benvinda e Margarida subiam as barrocas espantando as crianças, confundidas com a Gadelhuda.

A cidade esplendia de noite, e de dia só com o sol tinindo nas pedras.

 

IV

 

Desvendar o mistério do Arcabuz da Miséria é descobrir a história de uma nação. Ali me contaram um fato, lá ou cá outro mais. Vou dizê-la fingindo que a inventei, como quem sonha, sem parâmetros de tempo.

A história é só o processo de evolução do homem no planeta Terra.

Vasculhei jornais, revistas, publicações comemorativas, álbuns de família, no afã de achá-lo retratado. A história não é apenas o conhecido, senão os perversos seriam o sujeito, pois são os crimes que a marcam. Não se faz reclame de trabalhador e de gente humilde. Nada li a respeito de um escravo, forro, servo, criado, engraxate, moleiro ou limpador de chaminés. Onde se exaltam lacaios, peões, soldados rasos, viúvas pobres e mendigos?

Do Arcabuz da Miséria, nem no cemitério achei a cruz. Quando desapareceu, ninguém sabia informar se havia morrido. Faz um século que os zombadores insistem que não significava cousa alguma, um ser imprestável. Mas a pessoa só se explica pela alma.

É falsa a idéia da evolução através de catástrofes, de más-paixões das massas, de que o ódio conduz ao progresso, e a violência plasma a sociedade. O homem bom é um herói humilde, atua em toda parte, nas bases, nas ruas, nos locais de trabalho, nos lares, nas igrejas, nas escolas, no meio do povo. Faz o curso da história como as águas fazem o do rio.

Um mendigo é um aviso dos céus.

Ao envelhecer tinha o coração assombrado, mas lá estavam lacradas as palavras de seu melhor amigo:

     - Os bons são eternos perdedores no presente e ganhadores no futuro.

Autores exaltam impérios, guerras, conquistadores, tiranos. A crônica enaltece figuras menores. A mulher, que civilizou o homem, permanece na obscuridade. No porvir, os maus hão de ser menoscabados, e a Terra não mais vista como palco de tragédia, opressão e morte.

A história não é só resultado de relações de produção e trabalho, das invenções, das máquinas, porém da conspiração dos sonhadores.

 

V

 

É preciso imaginar-se nos fins dos tempos do império e do século dezenove. Formava-se o povo, surgiam e cresciam as cidades. As pessoas se vestiam com excesso de pano, os homens com jaquetões e echarpes de cor, as mulheres com longos cinturados e blusas rendadas. Muitos deles, os mais velhos, usavam bengalas, e elas armavam sombrinhas de seda. Eram alegres as aldeias urbanas, células-mães da Pátria.


 

 

 

PEDRO TROPEIRO

 

 

I

 

Pedro, avô de Xandô, foi arrieiro quando tangia muladas e fazendeiro ficava com a fama. Fundou o Brasil, semeando povoados. Mas os primeiros que vasculharam o sertão foram os mineradores provindos da vilinha. Ao iniciar-se a economia do ouro, um mulato parnanguara achou pepitas negras em Minas, dando origem ao nome de Ouro Preto.

As bandeiras invadiram e tomaram posse dos campos. Caboclos, índios forros e escravos negros viajavam armados de trabucos, mosquetes e clavinotes, temendo ataques indígenas. Padres lado a lado com os chefes que financiavam a leva.

Um padre vem a ser tio-avô do doutor Vítor Machado.

O sobreexcesso da população mestiça veio para os Campos de Curitiba. Assim chamavam o Paraná onde, desde menino, Pedro vivia e viajava abrindo e firmando caminhos, principalmente de muladas. Buscavam-nas numa vila do Rio Grande do Sul para levá-las a Sorocaba. Os paranaenses já povoavam o Rio Grande do Sul ao descortinarem os campos entre os rios Iguaçu e Uruguai. Advinham daí as queixas das autoridades paulistas, reclamando da mania de mudarem para o Sul e deixarem desertos os distritos dos Campos de Curitiba. Todos os paranaenses eram conhecidos nas demais províncias como curitibanos.

Ao se armarem as barracas, ampliavam-se os pousos, surgiam povoados dos quais partiam de novo pequenas bandeiras em busca de gado e forragem. Para lá queriam mudar-se as mulheres campeiras, e a um deles até se deu o nome daqueles que as atraíam: Curitibanos. Ah, esses tropeiros... Não dá para dizer se eram nômades ou civilizados, se formavam clã, classe ou não-classe. Camponeses livres talvez, igualados nas travessias.

Pedro, de sobrenome Silva, só foi conhecido como Pedro Tropeiro. Antes de possuir casa e chácara, morava no lombo do tordilho, numa rua sem fim, a das tropas. Ainda as compraria na antiga vilinha de mineradores para a qual se mudavam muitos litorâneos, cercando-a de pequenas propriedades rurais. Ficava a meio caminho do porto, onde poderia levar suas cangas de erva e ter uma vida menos penosa. Não acabou fazendeiro, mas foi tronco de uma clã importante. Espalhava o hábito de tomar o mate em cuiada quente, gabando-se de um feito que o tornara famoso:

     - Conheço o solo que piso. Fiquei a favor dos farrapos na guerra. Tropeei mais de quinhentas mulas para Bento Gonçalves e David Canabarro, que trouxe da fazenda de Dom Chico, na fronteira do Uruguai. Viajei pelos peraus, pelas picadas da mata, subindo escadas de lama formadas pela chuva, desviando dos soldados do império. Não perdi nenhuma na correnteza ou na fundura dos rios. Voltei de Sorocaba com tempo de entregar o dinheiro para a campanha.

Com desaponto, fazia uma revelação:

     - Os curitibanos iam entrar na revolução que estourou em Sorocaba, para se unirem aos farrapos. Até o Dondoca e o Jesuíno se comprometeram nas reuniões. Mas os liberais traíram o movimento, se venderam ao governo central que elevou a Comarca à Província, separando-a de São Paulo.

Ao soltar a animalada, falava ao pé do fogo:

     - Dizem que o império mantém o Brasil unido, guerreando o povo. Nem era para haver regência... Se não existissem os tropeiros, o país se dividia, acabava. Até as famílias se separavam, ninguém sabia dos parentes, dos amigos. O morador do Sul não entendia o do Norte nem na fala. Nem todos tinham esse nosso sentimento.

Pelo almocreve o país se identificava, informando-se de tudo. Da marcha para a Amazônia, de nordestinos buscando saída nos grupos de cangaço ou de fanáticos, da Noite das Garrafadas, das prisões de republicanos nas fortalezas. Pedro se tornara chefe nas caravanas, respeitavam-no e criam no que ele afirmava:

     - Este país vai ser a Estrela das nações.

A linha de muares enfiava-se no pano verde dos campos. A égua madrinha vinha batendo cincerro em frente - agulha de patas - costurando povoados, freguesias e vilas num mesmo espírito. O peão-guia também ponteando a tropa. Furavam-se as serras, atavam-se céus, terras e gentes, o chão uma bandeira nacional. Tropeiros teciam a pátria. Manadas em demanda das feiras. O caminho fora desviado para a freguesia Santa Ana do Iapó - antigo nome -  onde as mulheres faziam xergas e baixeiros para que vendessem nas feiras. Nesse pouso, o mais importante, o capão próximo ao acampamento deu lugar ao nome definitivo, porque o pinhal visto de longe projetava-se numa ponta grossa. O gentio fixava a rancharia, à espera das caravanas.

Botões de cidades desabrochavam à borda do caminho, o principal do país: a Rua das Tropas.

Ponta Grossa palpitava nos campos gerais, bem no topo, com a capela ao lado da célebre Casa de Telha. Quando Pedro entrou no tropeirismo já havia igreja e cemitério. Ao ser elevada à Vila, assistiu à festa e se expressou emocionado na hora do foguetório:

     - Essa Estrela fomos nós que pregamos no céu.

Ela iluminava o vaivém das tropas.

O Velho tangeu cargueiros de poucos haveres, quase só a família de comitiva. Após anos de casado adquiriu a casa e a chácara. Tropeiros antigos, os ricos e não os arrieiros, tomaram posse dos campos, criavam o gado solto, com peões e escravos nos galpões, estes cuidando de roças abertas nas nesgas de mato. Os agregados moravam em taperas, plantavam milho e feijão, criavam porcos e aves. Dez bois não valiam duas mulas, mas davam segurança. E da família do Velho, ninguém admitia trabalho escravo.

Reconhecido, jurava amor à mulher:

     - Sem você, eu não seria ninguém.

Uma castrense criada no Rio Grande.

Pedro era feliz como tropeiro de mala-nos-tentos. Não mais levava muares e cavalares às lavouras do norte, nem vendia as xergas e baixeiros que as moças faziam. Apeava com material de cozinha, mantimentos, além de barracas, redes, utensílios e ferramentas. Junto ao cabeçote do arreio achavam-se escopetas, garruchas, facões e adaga. O acampamento, um festão no povoado, lida de laços, rédeas e cabrestos, com dança e cantoria em noites de lua, pirilampos e lampiões a querosene. Chimarrão à roda, discutiam-se jogos, corridas de cavalos, negócios. Um caboclo ajeitando a viola, outro a sanfona, namorados nos cantos, gente chegando, e começa o baile. No cargueiro da despensa a mula boa, bruacas bem costuradas, toucinho, feijão, farinha, torresmo, charque e bolo de polvilho. Leitões e galinhas encestados nas cangalhas. Numa dezena de bestas, o comércio: confecções, águas de cheiro, remédios, armas, sementes, além do charque. O principal, dinheiro amoedado, na volta pesava na mala à garupa. O Velho conhecia as variantes e desviava os registros onde a Real Fazenda cobrava taxas escorchantes. Trazia amarrados no lenço os documentos e as notas de mil-réis, escondido sob a ceroula.

     - Tiram dos pobres prá pagarem o luxo da corte! - cuspia de lado.

Embora lerdas, suas viagens seriam breves se comparadas às dos grandes fazendeiros, que duravam meses. Rarearam quando os filhos se tornaram independentes.

Isso tudo faz tempo, o primeiro Arcabuz nem era nascido.

 

II

 

Ponta Grossa atraíra muita gente em busca de oportunidades e nova vida. Tinha uma vintena de quarteirões em declive, quase mil fogos, mais de três mil habitantes. Contavam-se quinhentos e tantos sítios de roças, muitas chácaras e poucas fazendas de criação. Os paulistas dos tempos coloniais trouxeram gado, fundaram currais, e os rebanhos pastavam as sesmarias. Após o barracão de ferreiro e da rancharia tosca, apresentava um comércio de portas abertas - selarias, armazéns, hospedarias, cocheiras, açougues e até padarias. O tropeirismo restringira-se a duas correntes: uma que levava o gado do sul para o norte; outra, a da erva-mate, vinha do interior para a exportação no litoral. Havia carroções eslavos nos caminhos, bois-de-carga arrastando toras, varas de porcos, viajantes nos semoventes de rodas e de patas. Falava-se muito na necessidade da construção da Estrada de Ferro, da qual não queriam saber os castrenses.

Um marco de progresso foi a inauguração, com o nome de Estrela, do hotelzinho com confeitaria no largo da igreja. Seu dono, o Frederico, não se cansava de contar que conhecera Naná numa festa de Santana. Do casamento e baile lembravam-se na cidade. Depois que o padre benzeu o estabelecimento e o intendente parabenizou em nome do povo o casal, Frederico agradeceu com um "muito obrigado" e pouquíssimas palavras:

     - Aqui, meu pai Pedro Tropeiro disse aos filhos que apeavam da montaria: - Essa Estrela fomos nós que pregamos no céu.


 

 

 

A FAZENDA

 

 

Ao crescer o arraial, a fazenda deixou de ser o centro do mundo. A vida começou a depender mais do comércio com base na erva-mate, madeiras, e menos de gado. Desagregavam-se as famílias campeiras. Houve êxodo para os pampas, não só pela qualidade dos pastos, mas também devido a proibição de criar mulas no Paraná. Apenas os grandes proprietários da região enriqueceram com as manadas que traziam de Corrientes, do Uruguai ou do Paraguai, evitando como intermediários os rio-grandenses. Apuravam mais de cinco mil-réis a besta. Até a década de sessenta, ótimo negócio. Os tropeiros de profissão continuaram nos carreiros, transportando erva, charque, mercadorias, ou conduzindo pontas de gado.

Noutra época, o movimento na fazenda era maior que na cidade onde as casas só se abriam aos domingos, dias santos e feriados.

As filhas vibraram quando ouviram Chiquito Ribas dizer ao capataz:

     - Melhor é arrendar os pastos. Vou mudar para a cidade. Coronel no mato não tem mais valor.

Invernagem dava mais lucro, sem exigir trabalho. De tempos menos maus, sobrara a solidão - diriam as mulheres. O direito de mal abrir a boca, cuidar de casa e dos filhos. Antigamente valia a pena morar na fazenda. As casas, os galpões, as cercas e até a mobília tinham sido construídos com madeira dos capões. De algodão e lã, as mulheres fabricavam o pano na roda de fiar. Do couro saíam os aperos, os arreios, lombilhos, xergas, cinchas e botas. De fora só se precisava de aço, pólvora e sal. Havia negro para toda obra. Nos serões reuniam-se sinhás, mucamas, comadres, fiando e tecendo lençóis, baixeiros, coxinilhos, rendas finas. Enrolavam-se cigarros de palha. Era elegante fumar e cuspir nas escarradeiras de louça.

Os escravos enchiam o prato de feijão, arroz, milho, mandioca e carne de porco. Fartavam-se de leite, queijo e manteiga. Sempre alguém socando pilão no terreiro, um sinal de fartura. O pão-de-casa assado em fornadas. Nos fogões ferviam os tachos de doce, estocavam-se caixotes de marmelada. As correntes e algemas do galpão não eram usadas, raramente se chicoteava um negro.

Chiquito Ribas surpreendeu-se quando Melquíades pediu para vender os cestos que fabricava:

     - Por que quer dinheiro se aqui não lhe falta nada?

Melquíades foi o último a comprar-lhe a alforria, nem precisou da ajuda dos brancos do povoado.

Os agregados colhiam pouco, propunham roçar às meias para ouvirem o dito:

     "- As meias só para o pé, bolinho só da graxa."

Outrora, plantava-se, moía-se o trigo, porém veio a ferrugem e tornou-se mais vantajoso adquirir a barrica de trigo argentino no armazém.

Chiquito Ribas possuía renda para fazer eleitor na paróquia e decidir na escolha de deputados. Mas via a pecuária em decadência e, com ela, a sua classe. As carroças dos colonos iam tomando conta da região, construíam-se linhas de ferro no país, eram melhores as pastagens e as raças bovinas de São Paulo. Lá um boi custava o dobro. Muladas haviam sido trazidas de volta das feiras e arrematadas por preço de galinhas. Na sua fazenda de mais de quatro léguas, apenas seiscentas rezes sobreviviam com o capim nativo. Desvalorizavam-se as terras com a suposição de que samambaias e barbas-de-bode indicavam escassez para o gado. Com a invernagem de muladas, relegara ao abandono a criação. Os rebanhos foram minguando nas propriedades, a maioria menores que a sua. Estas mal cuidadas, tábuas desunidas assoalhando as salas, riscadas de esporas. Mobília de jacarandá, canapé a parede, enorme cômoda, relógio-armário, janelas para o patamar. No fim do corredor, a sala rodeada de quartos, antes da cozinha. Nos casebres de chão batido, as famílias agregadas. Andavam de mudança na cacunda para o arraial. Na área do campo - via-se pelas feições - ficavam os mestiços que puxavam mais para o bugre de que para o branco.

A erva-mate, pintando de verde o Paraná, transformou-o de vez. Era só colher as folhas, secá-las no carijo ao fogo e quebrá-las miudamente. Famílias inteiras tiravam dela o sustento. Comerciantes e carroceiros enriqueciam, Ponta Grossa tornou-se o maior empório da província. A eles vendiam suas terras os fazendeiros empobrecidos.

A Chiquito Ribas, que vendera os escravos a paulistas e queria lucrar com invernagem, restava acomodar-se na cidade com a família, sem desfazer-se das suas. A abolição podia parecer um sonho, mas na região já haviam sido rompidas as relações escravo-senhor, substituídas pelas de patrão-camaradas. E na cidade teria de habituar-se a um tipo de vida em que todos queriam ter os mesmos direitos.

O antigo arraial é que passara a ser o centro do mundo, um mundo cheio de vida e movimento a fascinar a família campeira. A fazenda tornara-se um vazio que doía na alma das moças, trancafiadas no quarto quando chegava um forasteiro. Os irmãos varões foram embora, um para São Paulo onde se estabeleceu com comércio, outro para o Rio Grande do Sul para continuar no campo. Os Ribas eram daqueles que iam para as cidades, porém com o umbigo ligado à terra.

Não resistiu à pressão das filhas que só falavam sobre o povoado, a nova casa, empolgadas com a mudança. Não mais pareceriam caipiras - pensavam. Freqüentariam aulas de mestre-escola, procedendo e falando como gente fina. Os Ribas evitaram a transferência do professor Nhonhô para os cafundós, contavam com sua atenção especial para as meninas. Freqüentando as escolas da cidade, até os pobres falavam corretamente, e os camponeses procuravam imitá-los.

     - Com vestidos bonitos, vamos passear, dançar, flertar e casar.-  Anita excitava as duas mais novas.

     - Tem quermesse, banda, teatro, festa de igreja, baile no clube - acrescentava Dorinha, a do meio.

O gado mugindo, o galo cantando, o bode berrando, não contavam novidades, parada a vida na fazenda.

Letícia, a caçula, olhava da janelinha do sótão a cidade-estrela brilhando no alto. Sentia-se presa no quarto, isolada do mundo como as outras. Ah, se pudesse voar para lá. Mal podia acreditar no que ouvira. Fora a que mais se chocara com o suicídio de uma tia, abandonada no caminho por um tropeiro. Não compreendeu porque a mãe falou desacorçoada:

     - Não faz diferença levar a mesma vida de escrava.

Dona Aparecida desgostara-se com a imagem de quem envelhecera antes do tempo, por viver socada naquele fundão. Parideira, de nove partos criara cinco filhos, enterrando quatro. Uma camponesa à força. Burguesa de capital, jamais a satisfaria o reinado numa fazenda. Chegara a sonhar com a corte, na qual tinha duas primas. Mudar-se da capital para o mato acabou sendo o inverso do sonho. Uma das primas, a invejosa, humilhou-a na viagem que fizera ao Rio de Janeiro, perguntando-lhe numa reunião social se iria trabalhar na roça. A prima fez o casal tornar-se objeto de chacotas. Um fidalgo teve o desplante de indagar ao coronel Chiquito se tropeiro no Sul era barão. O casamento fora arranjo de famílias, tinha dezesseis anos, inocente de tudo. Após curto noivado, chocou-se nas núpcias. Paria em meio à azáfama da fazenda, longe da falsa nobreza, cercada de gente rústica, escravos e agregados. Nos serões recordava o sucesso que fizera nos clubes, ganhando concursos.

     - Perdi minha mocidade, passou como um relâmpago - lamentava-se. Descuidara-se da formosura.

Uma vida dura. Levantar às cinco da manhã, arrumar quarto, dar conta dos serviços domésticos, educar e instruir as crianças, costurar, fiar, tecer, defumar toucinho, fazer sabão e até partos de escravas. Lavar roupa, lidar no jardim e ainda sair a cavalo inspecionando a fazenda com o marido.

A preta que a assistira em todos os partos sabia que dona Aparecida, católica devotada, lutava para ser boa e mãe amiga. Mas se a pobre mostrava-se dócil com Anita e Dorinha, não podia conter a irritação diante de Letícia, criança mais parecida com ela. Mistérios da alma, causas pretéritas, um louco ciúme do mundo que fatalmente a menina conquistaria. Uma revolta contra si própria. Num dia em que chorava angustiada, após desentendimento com o marido, reclamava às criadas:

     - Eu sou menos que uma escrava nesta casa, sou uma inútil, não sirvo para nada.

     - Dona Aparecida é uma santa - interveio uma com a concordância das outras. A sua palavra, uma bênção, acabou as malvadezas na fazenda. Foi Deus que mandou a senhora proteger a gente - acrescentou.

     - O que lhe parece pouco foi muito para quem recebeu da senhora.

Eram aquelas negras que mudavam as pessoas e o mundo. Através de gestos e das palavras alcançavam-lhes o coração. E se dona Aparecida negava carinhos à Letícia, não lhe faltavam os das mucamas. Ao vê-la chorar, por causa da mãe, consolavam-na:

     - As lágrimas fazem bem, fia. As flores que as mães-pretas regaram de lágrimas, viraram violetas. Deus quer ver as crianças alegres, por isso fez os campos, as árvores, a criação, os passarinhos.

Letícia era feliz.

O sonho da mãe resumia-se, agora, em voltar do campo para a cidade, recuperar um tempo perdido. O marido já decidira a mudança e chegara a freqüentar às escondidas a Rua da Estação, não mais voltando à casa da Formiga, em Castro. Ainda assim, dona Aparecida induziu-o mais uma vez:

     - A cidade tá assim de bom partido prás meninas. Doutor solteiro, gente educada.

Zangara-se, no princípio, alegando que a esposa não soubera dar valor à mobília de primeira, cadeiras austríacas, mesa com gavetas, espelhos grandes na sala, relógio de parede, louças de porcelana, talheres de prata, catres de couro. Mas não resistiu a seu assédio e das filhas.

A fazenda só para passear - frisavam o que queriam. Uma só coisa as preocupava, como a todos: - Será que vamos mudar antes das festas do Imperador?

Chiquito Ribas não descuidou das lides do campo. Saiu cedo com o farnel de feijão, charque e farinha, numa tropa de mula com bruacas cheias de sal. Mandou que o capataz tropeasse o gado e desocupasse o pasto que alugara para criadores vindos de Palmas e Guarapuava. Voltou à sede e fez a mudança em carroças e cargueiros que avançaram pela campina. Ao subirem as colinas do povoado, acenderam-se as lanternas no ensaio de recepção aos soberanos, o coro aprimorando-se na praça:

     - Ponta Grossa aparece na altura...

Uma estrela no céu - pensaram as meninas.


 

 

 

RELAÇÕES PRIMORDIAIS

 

 

I

 

Balançava a monarquia quando Xandô veio ao mundo. Naquele ano, o tenente Pompílio de Albuquerque alistara secretamente seus camaradas, planejando capturar o Rio de Janeiro antes da partida de D.Pedro II para a Europa. A família imperial e as principais autoridades seriam detidas num dia de gala, quando se achassem reunidas, transportadas para a fortaleza de Villegaignon, enquanto dos morros as baterias levariam pânico à cidade.

Além de porem a culpa na cegonha, diziam às crianças que a parteira, Nhá Caetana, descia da caleça trazendo o nenê dentro de uma enorme bolsa. Naná deu à luz no sobrado, e as pretas celebraram o acontecimento como um prenúncio de justiça. Adaptadas às novas condições, conservando pouca coisa de suas tradições, falaram que o menino era algo de Xangô. No colo de uma delas, pronunciou tal palavra do modo que podia: Xan-dô. Assim o chamavam, apesar do assento de batismo. Eram comuns as mudanças de nomes pelos apelidos, o seu avô nascera Silva e o povo batizou-o de Tropeiro.

Mal engatinhava e já percorria a cocheira, os cômodos de carros e animais, todas as dependências, conhecendo os hóspedes, os fregueses do bilhar recém-vindo do Rio de Janeiro. Depois cantava trepado na ameixeira do quintal, antes de voar pelas adjacências. Chamavam-no com ternura:

     - Vem prá dentro, passarinho.

Desde cedo, aprendeu a amar as pessoas e o mundo. Tinha um jeito meigo e arteiro. Conseguiam entretê-lo, mas não enganá-lo. Franzino, cabeça pensa, olhos escuros sob a franjinha que mais o amorenava. Aproximava-se das pessoas a sondar-lhes as intenções e até os pensamentos, fazia cara de sono ou de sonso, fingindo com qualquer caco na mão. Custaria a perder o titibate, medindo as palavras, soltando-as a intervalos. Perguntavam-lhe se gostava mais da mãe ou de Júlia.

     - Mãe é uma só - não magoava ninguém e acrescentava após a pausa: a Júlia é mais de uma, é a mãe de mais de uma porção de filhos.

     - O que é que você vai ser quando crescer?

     - Santo - respondia impressionado com as cerimônias da primeira comunhão de sua irmã Cecília.

Depois que aprendeu a pronunciar os erres, mudou diversas vezes de opinião:

     - Médico, para curar os doentes pobres.

     - Advogado para defender os pobres.

     - Soldado francês.

Captava as coisas no ar. Prestava atenção em tudo, nas pessoas, qual se estivesse em salas de aula. O professor Nhonhô, assíduo à confeitaria e ao jogo de carambolas, comentava:

     - A fala remorada é uma herança dos tropeiros no descanso, sem pressa, proseando nos pousos.

Repetia o que ensinava na classe:

     - No Paraná se fala um português mais suave, mais natural e correto. Mais ao norte, a pronúncia se torna algumas vezes pedante, outras grotesca. Os paulistas forçam os erres, mas não corrompem a língua. Os catarinenses cantam as palavras de um modo enjoativo. Os rio-grandenses tratam todos por tu, dobram vogais e eles: "sull", "baguall", "urinoll".

Concluía com uma ponta de orgulho:

     - Nós pronunciamos as palavras por inteiro, as sílabas destacadas, abertas: "leite quen - te". É o modo másculo de falar, natural.

Os mestres-escolas, tal como Nhonhô Colares, talvez fossem a principal causa de, no meio citadino, as pessoas falarem razoavelmente correto. Xandô ia aprendendo e corrigindo o titibate.

O povoado desabrochara na colina dominante. No capão que engrossava numa ponta, havia abundante lenha. Os moradores que relutaram em aceitar o nome de Ponta Grossa - e isso foi no ano de um mil oitocentos e setenta e um - trocaram-no pelo de Pitangui, mas acabaram acedendo à maioria. Uma lenda segundo a qual pombinhos brancos teriam voado ao local onde foi erigida a igreja, reflete apenas o espírito pacífico dos habitantes. Não havia pombos domésticos nos campos gerais, só a juriti e a pomba preta, ambas nativas. Atraíra negociantes que abandonavam a região velha, progredindo com carroças abarrotadas às portas do comércio. Entre eles, o coronel urbano. Um mandachuva de roupagem nova, de bigodes, mas sem botas, bombachas ou chapelão, com lojas de ferragens, couros, louças, tecidos, remédios, miudezas. Dono na cidade interiorana. Até um médico trocara o bisturi pelo balcão. Os pobres encontravam serviço e algo novo acontecia: formava-se o povo.

Para deixar o marasmo da fazenda, as moças não precisavam mais fugir com tropeiro, se não casassem com os primos. E aquele era o povoado mais promissor. Antes perguntavam:

     - Divertir-se onde? namorar como? noivar com quem?

Chegou a vez das adivinhações de Anita, Dorinha e Letícia. Primeiro esta, a mais nova:

     - Com quem será que casarei?

Depois Dorinha, a do meio:

     - Com qual será que me casarei?

Por último, Anita, a mais velha:

     - Quem será que quer casar comigo?

Dava vida à cidade o movimento do comércio, das escolas, da igreja. Reunia gente no paço da Câmara, principalmente com a presença do corpo de cavalaria e da guarda municipal. Nas ruas transitavam caleças, cavaleiros e pessoas a pé. Pequenos grupos formavam-se perto de clube ou da agência de correios e telégrafo. Luzes à noite, animação na confeitaria. Nhô Quim organizara uma bandinha, enchia o Teatro Santana. Existiam, ainda, os galpões de costura, porém as mulheres se exibiam às janelas, à entrada das missas, nos salões de dança e nas dependências do teatro. As ruas, os campos e as escolas, ainda que separassem meninos de meninas, igualavam-nos como crianças. O povoado crescia sem as pessoas se tornarem desconhecidas umas das outras. Diferia de vilas paradas e mortas, meros ajuntamentos de parentes, que aumentavam para baixo, como rabo de cavalo.

Para Xandô a casa assobradada construída em estilo barroco no largo parecia de ouro. Seu pai, um rei em palácio. Mirava as sacadas suspensas por leões de pedra, as grossas colunas e sentia orgulho de morar em cima, na parte que abrigava a família. Em baixo, o maior número de salas e aposentos, cozinha com fogão e chaminé, na qual cabiam mesas, cadeiras e bancos. Repartições ainda mais ao fundo, pois o terreno tomava quase um terço do quarteirão em declive. O prédio dividia-se ao meio e, numa parte, três largas portas davam acesso ao salão com balcão ao longo da parede lateral, do qual se atendia a freguesia nas mesas de mármore. No contíguo jogavam carambolas. Ao lado havia entrada independente para a hospedaria. Além do confeiteiro e seu ajudante na oficina, três criadas e dona Naná atendiam a cozinha. Aquelas dividiam o casebre dos fundos, sua parte separada da dos homens por um corredor terminando no banheiro. Antes, fora um telheiro como os outros, em que as mulheres costuravam, bordavam, faziam massa, fofocando. A porção maior do terreno estava ocupada por cocheiras, carros, animais e algumas árvores.

Até os cachorrinhos alegres, abanando os rabos, tinham importância nas relações primordiais do menino.

A entrada de veículos, carroças de lenha, de fornecimento, ficava beirando a esquina, um portão no final do muro corrido. As chacrinhas cercavam a colina em que se situava, das quais a criançada fugia pelas sebes, derramando de dentro das camisas as frutas furtadas. Fora dali do largo, as ruas eram estreitas, as casas à beira, nunca recuadas. Sobrados e térreos de portas e janelas escancaradas para as ruas.

De água e esgoto cuidavam os escravos, provendo as bilhas e limpando as fossas.

Em Ponta Grossa via-se formar o povo.

Xandô pregou vários sustos à cidade. Antes de ganhar o tamborzinho com o qual brincava de marcha-soldado, deu-lhe o primeiro. Amuado no quintal, teve a idéia de tirar  proveito do poço em desuso e tão mal coberto.

     - É um perigo - pressagiavam. Um bode se esborrachara e apodrecera no fundo.

Serelepe, arrastou um saco de tralhas à borda, arredou as tábuas e deixou-o cair. O baque ressoou na cozinha, de cujas janelas se via o local.

     - Minha Nossa Senhora!

     - O que foi que aconteceu?!

     - Acuda, acuda! O piazinho caiu no poço!

Em meio à gritaria a mãe desmaiou ao descer a escada. Um rebuliço, o povaréu invadindo a casa. Alberto ajudando a carregar a mãe para o quarto, Cecília chorando, Manoel pálido, cumprindo as ordens do pai.

     - Bar-ba-ri-da-de ... - ouviam-se bem pronunciadas as sílabas.

Rodearam o buraco.

     - Corda!

     - Tragam uma corda!

Júlia, sua mãe da guarda, olhou para baixo e piorou a situação, choramingando:

     - Xandô, passarinho 'tá boiando no fundo ...

Arrependido, sentia a dor que melhora o coração: o remorso. Escondido atrás da pilha de lenha no porão, temia a companhia da Gadelhuda no escuro, ouvindo a bulha e imaginando as cenas. A causa de tudo fora um cascudo que lhe dera Manoel. Puxa! Não devia ter fingido que se atirara ao poço. Não há sova mais doída que o remorso - aprendia. A cada minuto, um novo susto. Paulo, ajudante de confeiteiro, quase rolou poço adentro ao desmoronar-se a borda. Depois, a vez do Sobradinho arriscar a pouca vida que tinha. Doente do peito, acometido de tosse na hora do salvamento, escorregou para o fundo e ficou de ponta-cabeça, preso pelos pés.

     - Só tem uma trouxa em cima da água - berrou de baixo, antes de ser recolhido pelos soldados que o socorreram e retiraram os entulhos.

     - Vasculhamos tudo, não há nada, criança nenhuma.

Houve uma sensação de alívio, porém ao se sentirem logrados, poucos não recomendaram uma tunda. Os cães, assustados com o alvoroço, entravam e latiam no porão, denunciando o menino.

     - Acuda, Maria Papuda! - chamou-a Júlia, impedindo a sova.

     - Eu me arrependi, pai.

     - Viu? - Maria Papuda acalmou Frederico, e Júlia desarmou todo mundo:

     - Arrependimento é prova de bondade, só quem é mau e não gosta de ninguém, nunca se arrepende. O menino 'tá sofrendo.

O pirralho pregava peças a si próprio. Numa noite gemia e, com medo que o pai lhe arrancasse o dente, mentiu-lhe:

     - É a feridinha do pé.

Ao debater-se na cama, na hora de tomar injeção contra tétano, seguro por três, protestou a verdade:

     - Não é a feridinha do pé, é meu dente aqui - mostrou com o dedinho.

Recebeu o castigo. Pelo sim, pelo não, lá veio o pai de alicate em punho, e zás! extraiu-lhe o dente.

Eram apenas crianças e não pretos, brancos, ricos ou pobres, que colhiam juntos pitangas no campo, que brincavam no largo e nas ruas. Xandô só se sentia inferiorizado por causa das pernas fechadas nos joelhos, abertas em baixo - formato de tesoura - e do pouco pescoço delgado. Queixo pendendo sobre o ombro, humilhavam-no os risos de mofa. Brigou muito para evitar chacotas e impor-se até assumir liderança de setra ou trabuco na mão. Teve o apoio dos engraxates da recém-inaugurada charutaria.

     - Pau-de-vinho, não! - impedia as brutalidades.

Fazia o tempo de brincar com peão, arco, papagaio, bola de búrica, malhas, de esconde-esconde, de índio ou de soldado. No Escorpião ou no Cavalinho, arroios mais próximos, nadava em dois estilos: "cachorrinho" e "arrancão". Na Prancha, o seu amigo Chico Bóia morrera afogado ao enroscar-se em galhos do fundo.

Peraltices sob nuvens de passarinhos. Comandava incursões aos quintais, às chácaras, às carrocinhas derramando frutas. Os companheiros faziam-lhe degrau com as mãos para pular as cercas e conseguir trepar nas pereiras ou jabuticabeiras. Ajudavam-no como podiam na hora da fuga. Se não corresse primeiro e não se escondesse, seria apanhado. De pernas duras, os passos não rendiam.

Não tirava vantagem em briga, menos de medo de que pelo sentimento que o inibia. Defendia-se sem desferir socos. Era fácil escarnecê-lo:

     - Tem sangue de barata.

     - Tá com medo, cagou no dedo - temia alguns marmanjos que maltratavam os menores.

Não cessavam as queixas a Frederico sobre as artes do bando. Xandô afrouxara o breque de uma carroça, distorcendo a manivela, os cavalos dispararam na ladeira. Montara no burrico de uma gaiota, e outro dono o ameaçava com o chicote.

     - Guri duma figa.

Acudiam-no nas horas de perigo:

     - Não vêem que é uma criança inocente? Ainda por cima doentinho...

Não escapava aos males infantis. Agravados com a coqueluche, faziam-no estrebuchar e parecer fracote. Chegou a acordar de velas acesas nas mãos. A recomendação médica foi deixá-lo à solta. Aí, fumou no campo o cachimbinho do saci-pererê e pintou os chifres do diabo. A mãe justificava-lhe as travessuras:

     - Pobrezinho, foi desenganado.

Certa vez, não o acharam em parte alguma, pensando que tivera o mesmo fim do Chico Bóia, no fundo da Prancha. Ficara o dia inteiro proseando com a velhinha do botequim de bananas.

     - Parece gente grande - tranqüilizou-os ela.

As famílias entretinham-se com as fofocas da cidade. As enredeiras comentavam nos telheiros o caso de Rosinha, loura fogosa, de faces rosadas, mulher do professor, irmão do padre, a qual com este traía o marido. Hospedado pelo casal, o padre abusara da confiança do próprio irmão, seduzido pela cunhada. A casa ficava numa ruela detrás da igreja. No dia do ensaio do coral para apresentar-se no teatro, ninguém mais duvidou do que cochichavam as pretas. Uma vira Rosinha correr para a cama do padre, assim que o marido saiu para dar aula. No ensaio tocavam piano a quatro mãos, trocando olhares apaixonados.

A ciumeira geral e o medo do exemplo de Rosinha resultaram na transferência do padre para outra paróquia.

     - O professor é brocha - instruíam-no os engraxates.

Traseiro cheio, pernas grossas, Rosinha excitava a rapaziada. Que jolunda! - a exclamação numa linguagem secreta, quando passava pela charutaria.

Xandô percebia o ciúme dos homens, que a condenavam, e uma certa satisfação das mulheres, admirando-a.

Na roda de chimarrão, a bomba e o purungo corriam só para um lado, mas na prosa o tempo voltava. Girava o pensamento, a vida, o mundo. Frederico a definia:

     - O chimarrão é uma corrente de tropeiros, dando volta de pouso em pouso. Sem ela não tinha amizade unindo tanta gente, não tinha Brasil. Não fossem os tropeiros abrindo os caminhos, semeando os povoados, costurando as províncias...

Os filhos prestavam muita atenção no que dizia aos companheiros:

     - Por causa de meu pai, Pedro Tropeiro, por um triz não fui batizado com nome trocado, sem o Silva que assino. Corri o mundo por muito arraial de futuro: Palmas, Lages, Curitibanos. Vi muitos nascerem no Rio Grande. Ah, a última vez que passei em Porto União da Vitória! Parece que estou vendo uma vintena de casas, lanchas e canoas no rio.

A história passava em Ponta Grossa, e Xandô tinha orgulho da Rua das Tropas onde a família pusera um "secos e molhados". Sabia que os pais se conheceram numa festa de Santana, dançando no caramanchão do acampamento. Frederico desembarcou do comboio de mulas para casar e pôr comércio. Bem mais tarde, Xandô nasceu na casa assobradada do largo, depois que o casal mudou do ramo de negócio. Naná - a própria terra-mãe - terra natal, pois só conhecia o mundo de seu lar, jamais tirara os pés de Ponta Grossa.

O sobrado de hotel e confeitaria retratava a cidade, muito movimentada de caboclos urbanos e todo o tipo de amestiçados, principalmente muzambos. Bairrista igual à mãe, Alberto provocava-a cantarolando ao piano:

     - Ó dona Naná,

     onde fica o mundo?

     - No Brasil, e o Brasil no Paraná.

     - É só viajar numa carroça,

     que o Paraná fica em Ponta Grossa.

As perguntas fazia Alberto com sua voz de tenor, as respostas davam-nas em coro, na sala de cima, Cecília, Manoel e Xandô. Naná levantava o queixo orgulhosa, porém se enternecia.

Antes de estabelecer-se, Frederico trabalhou em olaria, em serraria, lidou com lenha, mas se arranjou mesmo com erva-mate. Do armazém passou para o sobrado com hotel e confeitaria. Nesta, o movimento. Continuou muito dado, muito amigo, e tinha a companheira ideal. Para ele, a mulher era apenas uma mulher. Não fazia distinções pelas diferenças de sorte. Ensinava aos filhos que o homem não se explica pela posição social, pelo modo de viver, mas sim pelo modo de ser. Xandô nunca se esqueceu de uma observação de seu irmão mais velho:

     - A pessoa não muda, apenas evolui.

A viúva Juanita tinha dois filhos garçãos na confeitaria, os quais a seu pedido apanhavam de cinta, se faltavam ao serviço. Por isso, comparecia ao sobrado com a filha Dalila, da idade de Xandô. Frederico concordou com que os moços dormissem no emprego para tratá-los como se fossem da família. Não havia razão para ciúme de Naná. Frederico seguia o exemplo de Pedro Tropeiro com seus camaradas. Afirmava que o mundo devia ser uma família, o chefe impondo ordem e provendo as necessidades de todos. A mesa dos serviçais tinha fartura, igual a dos patrões.

O casal só poupava Cecília, mocinha da casa, fazendo cursos, educando-se para o casamento.

Por todas as razões, Frederico desfrutava de muito prestígio. Envolvendo militares e até padres, com certidões de batismo e provas de alistamento na guerra do Paraguai, conseguira a liberdade de muitos escravos. Beneficiara-os de acordo com a lei do ventre livre ou a dos sexagenários, e a que concedia alforria aos voluntários negros. Atrás dele uma sociedade secreta. Quando tinha de ausentar-se, deixava nas mãos confiáveis de Alberto e Manoel o comércio. Dava como pretexto às viagens o tratamento do filho caçula.

 

II

 

Na gorducha valise, Naná enfiava a roupinha de Xandô, rabo do pai. Ele se lembrava das viagens, fundindo-as num único cenário mental, em acontecimentos simultâneos. Hospedavam-se no casarão de Tio Silva, construído por Pedro Tropeiro, o avô. A rua movimentada, carroças com os produtos das chácaras. Os homens pitando o palheiro na boléia, enfiados em botas, chapéus desabados. Mulheres empunhando rédeas, com espessas saias, de aventais e lenços de cor. Gente a pé, a cavalo, em carretas e troles. Nas janelas - nem todas envidraçadas - meninas louras de olhos azuis. Em dia de descanso, viam-se cavaleiros com as sacolas cheias de bicudos que caçavam nas cercanias. Ouviam-se tiros dos que se metiam nos brejos e banhados, principalmente no lago farto de narcejas, patos e marrecas, onde seria construído o Passeio Público. Curitiba era um mundo novo a sua frente. Adorava-o apesar da fria umidade, das chicotadas desferidas pelo vento chamado de Bugio. Relembrava cenas presenciadas nos chafarizes, no pelourinho, sobrepostas com as de colonos comerciando com os alemães da Rua Fechada e da Praça D.Pedro II. Não se apagavam em sua mente os carros-de-bois, muares com morrões de erva mate e carroças descendo pela Rua da Graciosa. Injeções no consultório, febre e temores noturnos não o impediam de sentir-se numa quermesse durante o dia. Presenciara a inauguração dos vinte lampiões comprados no Rio de Janeiro, quando se revezaram as bandas musicais, foguetes estourando, pares dançando defronte à Matriz. Ah! a Matriz. O povo fiel não admitia que estivesse condenada. Não ruíra quando, da janela do coro, Xandô descortinara a cidade com seu casario rasteiro. Tinha o branco da alegria, cor de festa, polvilhada de verde nas ruas.

Uma aldeia, se a comparassem a uma metrópole. Não mais a aldeia colonial dos mineradores. Duzentos anos de história estavam guardados nas urnas mortuárias encerradas nas paredes da Matriz. Espelhava o passado. Servira de escola, abrigara a câmara e as catacumbas. Como na recepção aos voluntários da guerra do Paraguai, ali defronte tudo se comemorava. Armavam-se palanques, erguiam-se andores, rezavam-se missas. As moças acenavam, agitando-se nas janelas do coro, antes das danças.

Não se esquecia das rachaduras causadas pelo peso das torres, retangulares, gradeadas, três janelões e respetivos balcões em fileira sobre o portal em arco romano. O desentendimento entre políticos, engenheiros, devotos, envolviam a população na briga pela conservação ou demolição do monumento.

Fora à missa com a tia Dulce no dia em que o teto ameaçou desabar provocando pânico e a correria da assistência. Ainda assim, contra a demolição protestavam os fiéis: - É uma profanação. Faziam coro com o pároco.

Na procissão de transferência da Matriz para a igrejinha do Rosário, oratório da irmandade dos pretos, havia choro e lamúrias. Eram xingados de hereges as autoridades, os engenheiros e os encarregados da demolição. O cortejo fúnebre trasladava os ossos da aldeia colonial. A nova catedral seria erguida por trabalhadores livres, em sua maioria imigrantes alemães, e não mais por escravos. Cresciam as classes urbanas.

Conhecera todos os becos e vielas que se irradiavam da rua principal. Em frente ao sobrado da presidência, havia retreta às quintas e aos domingos. Num outro, ficava a Casa do Sol. Aquele com a estaca, em cujo argolão prendiam-se os animais, pertencia ao Zé Nabo. O armazém vivia cheio. Após a entrega da erva-mate nos engenhos, os fregueses iam para lá de chinelos e palas. Ele vendia fiado e servia o chimarrão. Na esquina de Nhá Ziza, onde se editava uma revista, aconteciam grandes bailes.

Na mente da criança, tudo era festa em Curitiba. Os sucessos de comemorações ou de revoltas ligavam-se, sem que soubesse quais haviam ocorridos antes ou depois. Via o pai, o tio e os cavalheiros que se reuniam numa sala do casarão cumprindo algum papel importante na província. O povo se amotinara em frente ao salão Lindman, em apoio à comissão do comércio, quando se cerraram as portas das lojas e a polícia foi para as ruas. Os negociantes organizaram um protesto contra o lançamento do imposto de um e meio por cento sobre as vendas. O jornal "Dezenove de Dezembro" publicara o ato, a comissão redigira um boletim. As pessoas exclamavam indignadas:

     - Acabaram-se as garantias!

Os monarquistas liberais, no governo, contra-atacavam:

     - É uma revolta de estrangeiros!

Comerciantes, na maioria alemães e portugueses, constituíram uma vanguarda urbana e, aproveitando a oposição do Partido Conservador, enfrentavam o domínio oligárquico. O corpulento Treme-Treme, dirigente da facção, tentou dobrar o palácio, porém não conseguiu a suspensão da medida, cumprida apenas na Lapa e na Palmeira, redutos liberais. Um estampido de revólver provocou carga de cavalaria para os lados do bairro Pilarzinho. Linhas de soldados cercaram a área em que o povo se concentrou, para esmagá-lo no Largo da Matriz. À noite, os discursos no salão Lindman foram interrompidos a tiros, partiram-se os lampiões, a multidão promoveu um quebra-quebra, apedrejando casas de governistas. A guarda da tesouraria, atacada por um grupo, retirou-se para dentro do portão com alguns feridos. Quando a cavalaria avançou pela Rua Fechada, os praças mataram o rapaz louro que não fugira a tempo. Debaixo de golpes de espada, a tropa levou mais de uma dezena de comerciantes para a cadeia.                                             

Durante a comoção urbana, Tio Silva escondia gente no casarão, e o governo imperial deslocou para o Paraná cerca de quinhentos soldados que desembarcaram do paquete Rio Branco, em Antonina. Em conseqüência, cindiram-se os partidos da província e cresceu a oposição ao governo de seu primeiro barão, o palmeirense que foi conselheiro e ministro no Rio de Janeiro. E o grupo dissidente liberal aliou-se aos conservadores.

Fora com o tio ao alfaiate, mestre Torquato, que morava num dos casebres de cima do paredão de pedra. Cruzando com o caminho estreito entre a barranqueira alta até o Largo da Matriz, erguia-se o palácio do governo. Adiante, na outra esquina, nas bodegas de charque e toucinho, reuniam-se os cachaceiros. De outro lado - o casebre empoleirado sobre os alicerces, com escada de tábuas na lateral. Num canto da rua, fechado por muros remendados de ripas, uma bela placa vegetal - a roseira Mariquinha - dava-lhe o nome: Rua das Flores.

 

III

 

Antes de uma das viagens em que acompanhara o pai, houvera o roubo dos quarenta negrinhos. Vinham de Castro, em duas carretas, para serem vendidos no Rio Grande do Sul. Um grupo de cavaleiros com lenços cobrindo os rostos interceptou-as no caminho. Levaram os cavalos e as armas do feitor, de seus capangas, sumindo com a preciosa carga. À sua procura, o capitão-de-mato e a polícia vasculharam Ponta Grossa. Xandô ouvira-o afirmar aos homens da patrulha:

     - Tem mão negra atrás disso.

Impressionou-se com a expressão do capitão-de-mato. Não sabia que significava atribuir o crime a um negro. Entendeu tratar-se de uma quadrilha. Viu-o decepcionado porque não havia um só quilombo armado na região para que pudesse mostrar serviço, apenas casebres mal estaqueados nas barrocas.

Os negros rareavam, havia queixas de evasão. Os compradores vinham de fora, os corretores nem precisavam se esforçar para convencer os proprietários:

     - É um bom negócio vender para as firmas paulistas, aqui não dá mais para ter escravos.

Alguns fazendeiros, moradores da cidade, faziam uma comparação maldosa:

     - A arrecadação de impostos sobre os negros é maior que a do comércio de animais quadrúpedes.

Chimarreava-se à entrada da hospedaria, mas o bate-papo esquentava nas mesas da confeitaria ao lado. Ouvia-se a cidade falar pela boca dos jovens:

     - Se eu fosse rei, acabava com a escravidão.

     - Então não seria mais rei, caía a monarquia - observara o moço que pretendia abrir uma banca de advocacia e dedicar-se à política. Cursava o último ano em São Paulo, onde chefiava orgias estudantis, além das campanhas abolicionista e republicana. Natural de Castro, onde a família possuía fazenda, sondava o lugar mais próspero para iniciar a carreira. Um bom partido, porém noivo de uma prima. Um grande orador - reconheciam os camaristas. Hospedara-se na casa de um deles, o coronel Bitencourt. Um rapaz moreno claro, de estatura média, de bigodinho e ar audacioso. Bebera e Frederico acautelara-o:

     - Cuidado, você não está em São Paulo, numa reunião de  academia de Direito.

Formavam o grupo mais próximo ao balcão, e à mesa aproximou-se de cabelos arrepiados no cocuruto o piá, inquirindo-os:

     - Por que é que os senhores deixam haver mendigos?

O novo pároco ficou embasbacado com a pergunta:

     - Por que foi que Deus fez a escravidão?

Estava na rua o negro Marcelino, descalço e de calças arregaçadas, com pipa de água ao ombro. Propriedade dos Guimarães, fazia os serviços brutos da casa, apanhando e partindo lenha, carregando volumes e guiava a caleça.

Ao desenvolver-se, tomando remédio, Xandô endireitou o porte e já não era o magricela. Achavam-no um louco por causa das artes. Completaria dez anos quando pediu ao pai que o matriculasse na escola. Falava remoradamente, mas corrigindo o titibate aprendeu a soletrar muito bem as palavras, repetidas em coro em frente ao quadro-negro. Nhonhô apontava-as com a vara de marmelo.

A cidade mobilizara-se para evitar que Nhonhô fosse mandado para um fim de mundo, o Saco de Tamburutaca, pelo Conselho Literário. Declarara-se solidário a um colega mestre-escola que presidira uma mesa eleitoral e se insurgira contra a presença policial. Os Ribas impediram a remoção.

O mestre Nhonhô conhecia a tese do inspetor, do doutor Leocádio Correia, sobre o poder das palavras. A eles se deviam o ensino correto da língua, a boa instrução dos alunos e até o cuidado na fala do povo. Mas Xandô não era estudioso, sobrava-lhe tempo de ócio e travessuras. Perdia tarde inteira na carpintaria de Jango Ribas. Gostava de ajudá-lo mais do que ao pai na confeitaria, juntando pregos, parafusos, petrechos no chão. Pendurando nos lugares pua, chaves de fenda, serrotes. As ferramentas forravam as paredes. O barracão fora erguido ao lado da moradia, num vasto terreno com água ao fundo, servindo a oficina e o moinho construído com ajuda da mulher e do filho. Este, o farinheiro. A menina, Xandô conhecia das aulas de catecismo, e todo mundo sabia que tinha pouco tempo de vida. O pai, caboclo tirante a branco de Castela, tinha palavras chanceladas pelas mãos calosas, marcadas de cicatrizes. Consertando rodas, dizia coisas  misteriosas:

     - Só acredito nos três poderes: um, a lei de Deus, outro a do amor, e no trabalho. Estes é que movem o mundo.

Armava quebra-cabeças no crânio do ajudante mirim.

Fazia e reparava carroças, pipas, tábuas de lavar roupa, barris, tinas. Lá, chegavam carroções de carga para mais de dois mil quilos, puxados por seis burros. Preferia encomendas de rodas. Ao afinar uma espiga de raio e pregar as cambotas com pinos de pau, dizia à piazada em volta:

     - Não troco por nada o meu trabalho. O homem deve ganhar o sustento com o suor do rosto e não com o dos escravos. Mas vai chegar o dia em que as máquinas multiplicarão os pães para os pobres.

A carpintaria virava uma classe de mestre-oficina. E Jango Ribas só não enriquecera porque gastara muito em alforrias. Um dos principais abolicionistas do grupo de Frederico. Intrigado com a diferença entre as pessoas, Xandô perguntou-lhe:

     - Por que o senhor não é como "seu" Curu?

     - Quem é que sabe por que uma pessoa não é igual a outra?

Assíduo à confeitaria aos domingos, bebia cerveja e jogava carambolas. Ia bem trajado, deixava a caleça na rua.

Xandô aproveitava a liberdade que tinha a conselho médico, mas sua educação começava em casa. Completavam-na as nhás-marias e o pessoal do sobrado. Elas que se vestiam como caboclas e nunca à baiana, cuidavam-no assustando-o com boitatá, lobisomem, mula-sem-cabeça e Gadelhuda. Contavam de reis e rainhas, senhores e escravos, sempre dividindo as pessoas em boas e más, estas vencidas e castigadas. Faziam-no dormir satisfeito, acreditando num mundo assim, sonhando o reino da justiça. Ensinaram-no a perceber o bem nas pessoas, até mesmo nas empedernidas.

O confeiteiro Matias, que lhe moldava os brinquedos a canivete, pensava de modo semelhante. Polaco alto e louro, metido no guarda-pó, esparramando trigo e a sovar a massa sobre a mesa longa, simplificava as coisas:

     - O mundo 'tá dividido entre os bons e os maus, por isso tem rico e pobre, senhor e escravo. Os maus são minoria, mas dominam o mundo.

Não atinava com as concausas, com outros motivos, principalmente com o econômico. Porém de tal pensamento resultava uma grande verdade: só os bons, os que amam, poderão modificá-lo.

Abria a torneirinha do barril de pinga, enchia o cálice, estalava a língua, tirava do forno doces, empadinhas, sonhos, pães de forma ou de minuto. Um aparvalhado ajudante, de avental e gorro branco, coco rapado à navalha, ia com as bandejas pelos corredores em direção ao salão onde ficavam expostos os salgados na estufa e os confeitos na vitrina giratória. Matias findava o expediente juntando as pontas que cortava do rocambole, distribuindo-as às crianças que o rodeavam. Avermelhado pela carraspana, pregava de língua mole:

     - Ser bom não é dar esmolas, é dar o que o outro tem direito e mais ainda. Não sei qual é o pior, se o bandido ou o escravocrata. Se não se arrependerem, vai haver um banho de sangue neste país. Até um ladrão pode ser bom. Jesus na cruz, mostrou que dos crucificados com Ele, um iria para o céu. Vote, caninana!

À tardezinha, deixava o serviço, dirigindo-se à Ronda, bairro onde morava. Retornava na manhã seguinte, evitando a bebida por uns dias.

Uma vida fascinante de criança, acumulando experiências em casa e nas ruas. Ouvia os carroceiros reunidos no Chafariz, os meninos da engraxataria e os fregueses da barbearia. Além dos companheirinhos, conhecia muito bem gente como o Zé Barriga, língua de trapo, João Galinha, o fiscal matador de cachorros, Gigi - acendedor de lampiões, Januário - que se esgoelava fazendo reclame com o porta-voz, todos mestres-ruas. Pompílio, o amolador, puxava a pé a carreta com o rebolo movido a pedal. Corriam às portas e janelas para vê-lo, cercavam-no os curiosos. Traziam-lhe facas, tesouras e até machados para afiação. Zé Barriga contava que trocara a mulher por um cavalo, o cavalo por uma vaca, a vaca por um porco, o porco por um ganso, e o ganso pela pedra de amolador. Onde mais Xandô passaria tempo, senão no barracão de "seu" Curu? De um lado a oficina de ferreiro atravancada de destroços, pedaços de ferro. Da goela da forja saíam lingüetas de fogo, avermelhando-lhe o corpo nu, banhado de suor, enquanto martelava na bigorna o ferro em brasa. À tarde, como dentista, recebia noutro compartimento os clientes. Ouvira-o rebater a fama de avarento:

     - É justo cada um ganhar de seu trabalho, juntar tostão por tostão prá ter um milhão. Emprestar a juros prá ajudar é diferente de viver à custa dos negros. Dar de graça é esmola, e esmola só se dá prá mendigo.

Empolgado, assistia à armação do circo no largo da igrejinha, na parte baixa do povoado. De lá subia a Rua das Tropas, depois de cortar o bolo de chacrinhas.

Naná e várias outras mães que não concordavam que lhes chamassem os filhos de moleques, maltratando-os, protestaram no Paço Municipal contra a professora que os agredia a varadas e unhadas de bruxa. Provocaram muitas discussões, porém não conseguiram a abolição da palmatória.

 

IV

 

Os amigos de Vítor, o bacharelando, gabavam-se de sua coragem política. Impusera-se e não consentira que o diminuíssem chamando-o de Machadinho. Enturmava-se com os rapazes. Precedera-o a fama de boêmio, irradiada de São Paulo pelos colegas de academia. A dona da pensão inclinava-se para o Vítor - contavam. Uma noite, ele chegou embriagado, entrou no quarto e deitou na cama de Mme. Maria, a qual roncava a seu lado. De manhã, ela acordou assustada e saiu correndo com as cobertas, alarmando todo mundo, deixando-o de cuecas, tremendo de frio. Vítor, ainda sonso, levantou suplicando:

     "- Ai Maria, meu amor,

     Se fugir dos meus braços,

     Dá-me, ao menos, o cobertor."

Um estribilho que os colegas cantavam em coro, assobiando. Agora, Vítor queria que esquecessem o caso. Formava-se no fim do ano. Zé Barriga, confiado, experimentou-o durante um jogo de bilhar:

     - O senhor, hein seu doutor?! E madame Maria?... Quem diria?!

Vítor desferiu-lhe uma tacada em horizontal, de volteio, que fez voar o chapéu para longe. Bastou para que ninguém mais se atrevesse a desrespeitá-lo.

Rosinha caiu em sua lábia de orador galante e ajanotado. Falta de macho, esbanjando sensualidade pôs-se apontando seios, ancas e colo à cata de um amante. Por sua causa resistiu ao médico que a agarrara à força no consultório. Preteriu o doutor Glória, que não achava bonito por ser ruivo. Engraçou-se pelo Vítor, mais parecido com o padre, um jeito de gente ladina. Tornou-os rivais, justamente eles que já não se gostavam antes de se conhecerem, com tanta coisa em comum, inimigos à primeira vista. Além de gêmeos em virtudes e defeitos, eles possuíam pretensões idênticas, que se contrapunham. Atraindo-os com seus encantos, atiçou-os.

Vítor esgueirava-se na ruela detrás da igreja e, às ocultas, Rosinha acolhia-o fofa nas coxas e seios, agasalhando-o do frio. O marido dormia em cama separada, depois que o apoquentara ao se separarem do padre. O professor não descobrira nada, mas o doutor Glória mandou um aviso para que se afastasse de Rosinha. Ninguém poderia imaginar que a desavença entre Vítor e o doutor Glória terminaria em guerra. O primeiro tiroteio no povoado foi num domingo, dia seguinte à palestra do bacharelando no Teatro Santana. Fazendo pregação republicana, falou nas questões sociais e de cidadania, encerrando o discurso sob aplausos:

     - O que não pode continuar é a vergonha da escravidão e o sistema de eleições indiretas em que só os ricos podem votar e ser votados, favorecendo a oligarquia que está no poder.

A escolta do capitão Ribas não lhe deu cobertura à saída, quando um grupo de provocadores, formado pelos irmãos Glória, seguiu-o vaiando-o pelas ruas até à casa do edil Bitencourt, na qual se hospedara. Vítor não se intimidou, prometendo o revide!

     - Esse filho da puta me paga!

Fatalmente aconteceu o duelo.

A cidade fora ao circo, deixara as ruas desertas. A função da tarde enchera-o por causa das crianças. A exemplo delas, as classes igualavam-se na platéia, embora os mais ricos se exibissem nas cadeiras numeradas e nos camarotes. Ao surgir no picadeiro, o palhaço provocava a maior bulha da arquibancada. Os piás traquinas passavam debaixo dos bancos, viam as coxas e a cor das calcinhas das moças descuidadas. Quando em silêncio o público voltava os olhos para o trapezista, temendo-lhe a queda do alto, ouviram-se os estampidos vindos do centro.

Alberto perdera a sessão circense, mas assistiu ao duelo. Tomara conta do sobrado para que seus irmãos e os pais aproveitassem o camarote que lhes fora cedido pelos Queirolos. Rosinha passara piscando para Vítor que a seguiu. Nem os engraxates haviam percebido, porém o doutor Glória intrometeu-se e só se ouviram os berros:

     - Canalha!

     - É a tua mãe!

Em seguida, a troca de tiros.

O jovem médico saíra da casa do irmão, atravessara o largo deparando com Rosinha quase ao lado de Vítor. Transtornado pelo ciúme, sacou a arma, descarregando-a na direção do desafeto. Afastando-se para não ser atingido, Vítor tirou a sua da cinta, atirando contra o rival que recebeu outro revólver do irmão que veio em socorro. Mas só os dois ficaram em pé, expostos, porém as balas erravam o alvo. Alguns transeuntes assustados jogaram-se ao chão no largo, e os fregueses esconderam-se debaixo das mesas da confeitaria.

Quando acabou a munição, terminou a briga, juntou gente, chegou a polícia, começaram os comentários intermináveis. Quem pendia para o doutor Glória, defendia-o dizendo que ele era o médico dos pobres, e que Vítor Machado viera provocar discórdia na paróquia. Mas os partidários deste não lhe pouparam elogios, ressaltando que se tratava de um moço solteiro, enquanto o médico casara há pouco tempo. Ambos heróis e vilões. O primeiro, um tipo explosivo, o outro, um fleumático.

Xandô ouviu o pai comentar que era uma pena homens como o Glória e o Vítor viverem se digladiando. Não compreendeu por que lamentava considerando-os mais do que os outros. Não lhe alcançava o pensamento, não possuía experiência de vida para saber que tanto um médico quanto um advogado exerciam a profissão por vocação e ideal. O pai atribuía-lhes o valor que mereciam.

A função circense terminou mais cedo, recolhendo-se o público as suas casas. O assunto agitou a localidade e prejudicou a audiência ao circo.

Vítor voltou à pensão de Mme. Maria para concluir o curso. E Rosinha mudou-se com seu marido, transferido para a paróquia do irmão, a pedido deste.

 

V

 

Xandô formou um bando, uma quadrilha de brinquedo. Após tirar as queijadinhas de pequenas formas, o confeiteiro Matias aprontou-lhe a bandeira branca com a mão negra que Júlia bordara ao centro. Piazada atacando carrocinhas de frutas, parreiras, pomares. Traquinando nas ruas, e nos campos colhendo pitangas, araçás, araticuns, pitombos. Descalços, muitos com as calças curtas remendadas, eram todos ricos de passarinhos, mais de mil cabiam a cada um, de tantos que havia no ar. Sabiás, pintassilgos, coleirinhas, tico-ticos, chupins, tesoureiros, bem-te-vis, um mundão de espécies. Sentiam-se donos de tudo, capivaras, tatus, tapiras, sanhaços, codornas, graúnas, canindés. Preparavam-se para a vida, aprendendo a solidariedade. Esqueciam-se das advertências maternas:

     - Cuidado com os bichos do mato.

Ramalhetes nos pomares, pendiam das árvores manacás, ingás, catuabas e sumarés. Dos capões alçavam vôo bandos de gaviões e de papagaios. Nas moitas de bambu havia orquídeas retorcidas e enroscadas, lembrando as serpentes venenosas. Nos lagos os lírios lilases, brancos e amarelos.

     - Quem plantou tudo isso? - um perguntava ao outro, todos admirados com a mesma resposta na mente.

Armavam-se arapucas nas relvas que cercavam os riachos, porém nenhum deles admitia o ferimento de um passarinho. Quantas vezes de dó abriam-se as portinholas das gaiolas. A generosidade da terra refletia-se no coração e no rosto da molecada. Respirava-se um ar puro, gostoso, o bem, a gratidão, dava vontade de ser bom. Alguns brincavam de achar tesouros que realmente nem era preciso procurar. Forjava-se o companheirismo na visão espetacular da flora e da fauna. Os olhos diziam alto: - Eu amo a minha terra, as pessoas, a vida, o mundo. Supunham que jamais se acabariam os pinheiros, os campos, os rios, os pássaros, os animais.

Reuniam-se no largo, defronte ao butiazeiro onde Jair, retinto e risonho, fora aclamado chefe. Seu dono, o Guimarães, chegou com o relho na mão disposto a dispersar o bando. Esbravejou como quem toca um cachorro:

     - Já prá cavalariça, negrinho safado!

Xandô encabeçou a reação que atraiu gente ao largo:

     - A rua é nossa! Aqui o senhor não manda! Ele é o chefe...

     - É um negrinho escravo. Não se intrometa, vou dar queixa a seu pai.

     - É só um menino.

     - Isso mesmo, um menino como os outros - interveio Sobradinho, tocado pela resposta, aquele que um dia ficara pendurado dentro do poço.

Guimarães ergueu o relho e vociferou:

     - Eu sei do que ele precisa.

A voz enérgica de Frederico fê-lo retroceder:

     - Uma criança só precisa de um pai e de uma mãe.

Naquele momento, apeou do cavalo um moço que roubou o espetáculo, dirigindo-se ao proprietário:

     - Faça preço no guri. Eu também sou da Mão Negra - acrescentou aplaudido, erguendo a bandeira das mãos de Jair.

Tratava-se do doutor Deleone, jovem médico, nobre italiano - notava-se pelo sotaque - hóspede de Pinto Ferreira e sua esposa Ambrósia. Alguém muito importante para hospedar-se na mansão do "grande tropeiro" - mandava na intendência - homem de confiança do presidente da província, credor do próprio Guimarães. Enfrentar o intruso seria desafiar D. Ambrósia, patronesse de campanha "em favor dos escravizados". Com o gesto, o doutor Deleone obrigou Guimarães a reconhecer os direitos de uma criança.

O chefe Jair e Xandô foram os mais arrojados, venciam corridas de carro, uma caixa sobre rodas de pau, camboteavam nas ladeiras dentro de arcos e barricas, esquiavam em pranchas na serragem do engenho. Depois Jair ganhou a liberdade, botinas e calça comprida, pouco antes de servir o exército. Minega, filho do escravo Marcelino, substituiu-o no comando da Mão Negra.

A correnteza do rio Verde, onde se banhavam, era lenta. Eles não viam o tempo passar. Não se davam conta das horas que o sol marcava e, à tardezinha, ainda demoravam numa chácara do caminho. À noitinha, aguardava-os em casa a vara de marmelo. Magoado com a sova que lhe deram os donos da estrebaria, Minega queixou-se da sina, e Xandô convidou-o para levá-lo onde os negros fossem realmente livres.

     - Prá onde?

     - Estados Unidos.

Os galos acordaram o sol, e a passarinhada se alvoroçou nos arvoredos, quando os dois saíram em disparada numa meia caleça da cocheira. Pai Marcelino não chegou a tempo de impedi-los, e o italiano ainda culpou-o pelo furto.

     - Negro ladrão! - xingou-o, mandando prendê-lo. Um rebuliço envolvendo até o corpo da cavalaria e a guarda municipal.

O carro se distanciou nos carreiros, em direção ao porvir que não chegava nunca. Não desacorçoaram ao trocarem as rédeas na boléia.

     - Tá longe os Estados Unidos?

     - As luzinhas no horizonte são de São Paulo. De lá é perto.

     - Queria levar junto o pai e a mãe.

     - Em São Paulo dá prá engraxar sapatos e juntar dinheiro.

No caminho banharam-se no rio Pitangui e merendaram como num piquenique. Ao atrelarem o cavalo, o dia também começava a fugir porque a viagem não tinha fim, embora Castro estivesse cada vez mais perto. Então o medo originou o arrependimento.

     - É de verdade que cavalo enxerga visage? - Minega estalando os olhos.

     - Não existe assombração de dia - Xandô disfarçando.

     - O sol tá caindo, vermelhando o céu, putcha! Queria ser um passarinho?

     - Por quê?

     - Prá voar, não ter medo.

A noite perseguia-os cada vez mais perto com a tropa de fantasmas, cargueiros carregados de estrelas, boitatá à frente. Noite é alma de tropeiro.

     - Prá mãe tudo tem alma. Será que o Brasil tem alma?

     - Tem. É o tropeiro que já morreu.

Deu tremedeira em Minega, limpou a boca com a manga da camisa, pediu as rédeas e procurou mudar de assunto:

     - Pronde que a lua avoa? Será que as estrelas são passarinhos ou que nem vaga-lumes? A de baixo da lua é minha madrinha, qual é a tua?

Xandô apontou uma outra, em resposta, e raciocinou em voz alta:

     - Tá vendo por que é errado a escravidão? Deus fez a noite negra, e quem é que pode prender a noite?

Trocavam idéias com sua lógica, porém ninguém tem mais razão que uma criança. A noite achara-os, apanhara-os no caminho para a patrulha que, só pela manhã, escoltou-os de volta à cidade.

Poucos dias antes da visita real, entravam eles triunfalmente pela Rua das Tropas, admirados pela proeza. E, apesar do interesse das autoridades em que S. Majestade encontrasse um clima abolicionista, Marcelino ficou esquecido no xadrez.

 

VI

 

Todos se igualam nas relações primordiais por serem apenas crianças. As diferenças sociais não fazem parte da pessoa. Por viver a verdade, Xandô pertencia à plêiade que move para frente o mundo. Nascera perto do largo, logo uma pracinha, onde o Brasil se exprime com quermesse e banda no coreto. A cidade é a colmeia do homem, a pátria mora no casario onde os obreiros são os que depositam o mel.

Xandô tinha-a na palma da mão, becos e ruas as linhas. Amalgamava-se o povo. As pessoas se conheciam pelos nomes. Na escola, na oficina, nos lares, nas ruas, forjava-se a sua identidade. Reduzira-se o número de escravos e miseráveis, desenhando-se entre ricos e pobres uma classe predominante que parecia a de todos, a média. A diferença aparecia na roupa de casimira e seda para os ricos, de brim, algodão e chita para os pobres. Mas o pobre de ontem poderia ser o rico de hoje. Em reuniões de gala, viam-se cavalheiros de casaca e cartola, as damas espartilhadas em longos vestidos, de boina ou chapéu com plumas, flores ou fitas. Nem eles, seus criados ou os trabalhadores braçais distanciavam-se da classe média, que os absorvia, cerne das camadas urbanas. Nem os que vinham do campo para formarem o gentio proletário. A vida ensinava que entre os opostos há sempre um intermediário, deles resultante. Quanto mais aumentava o número de profissões - um dia seriam milhares - mais crescia a base urbana, formando-se o povo.

A população crescia com a dispersão das famílias campeiras. A casta senhorial perdia a importância, os herdeiros vendiam seus quinhões mudando de atividades. Os agregados abandonavam a roça e o pastoreio, arranjando-se na periferia. A exemplo de forros, mulatos e muzambos, trabalhavam até pela comida. Os colonos ruivos dominavam o comércio e o transporte do mate com suas carroças, construindo as melhores residências. Tiravam o pão da boca dos arrieiros. Uma classe alta seria a dos abrasonados, de grandes proprietários, de agraciados com cargos ou favores do imperador, ou com galões da guarda nacional. Diminuta, mero arremedo de corte na cidade-flor que mal se abria nas colinas. Nela misturavam-se, numa única massa, classes e raças, acaboclando-se as européias. Era comum a mudança de profissão, de ramo de negócio, de condições de vida. Quem tinha sorte prosperava e até enriquecia. Disso tudo, resultara o dito:

     - O que vale mesmo é a pessoa.

À nobreza supunham pertencer os que freqüentavam o clube Campos Gerais. A diretoria recusava a admissão de sócios negros, mestiços ou sem bens. Aos que tinham vedada a entrada, os sócios se referiam com desprezo:

     - Gentinha.

Nos galpões de costura e nas salas de visitas, as madames diziam com orgulho:

     - No Campos Gerais não há mistura.

     - Tem gente que não sabe nem falar o brasileiro, nem pisar num salão de dança.

     - Lé com lé, cré com cré.

Tornar-se-ia ofensa chamar alguém de negro, caipira, polaco, russo ou turco.

Os soberbos desciam de carruagens à porta do Campos Gerais, mas havia clubes mais abertos, democráticos. Xandô nunca se esqueceu das críticas que ouvia.

     - Nobres de meia-tigela.

     - Imitam os da corte, só tomam banho aos sábados - uma ponta de despeito dos maledicentes.

Na colmeia do homem, o sol nasce para todos, só as vaidades podem dividi-los. Não só os que tinham ofício prosperaram. Um soldado deu baixa, abriu uma porta e, segundo jornal recém-fundado, tornou-se "abastado comerciante". Vendedores de cestas nos braços estabeleceram-se, um deles montou uma fabriqueta de banha. Os moradores tinham respeito como nos tempos de Pedro Tropeiro. Viam-se a todo momento, irmanavam-se como nas festas do doutor Casemiro. Então eram bem falados os bailes no Campos Gerais ou em quaisquer salões da paróquia.

Xandô, Jair, Minega e todos do bando preferiam a do Zé Pereira. Havia um em cada cidade brasileira. Em Ponta Grossa, por coincidência, chamava-se Otávio Pereira. Um bondoso português, gordo e sorridente, dono de um armazém de secos e molhados, pai de muitos filhos. No terreno vago, promovia fogueiras juninas, queima de estrelinhas, busca-pés, fósforos de cor. Nas tábuas sobre cavaletes, sobravam guloseimas de milho, amendoim, rapadura e pinhão, regadas a capilé. No Natal distribuía balas vestido de Papai Noel. No Carnaval armava folia tocando bumbo no meio de dois corneteiros a cavalo, na carroça cheia de crianças que parava em frente à casa de "seu" Negrão onde tinha lugar o baile infantil.

A Vila Estrela não era mais um galpão, um pouso com currais, invernadas e campos de ronda. Tornou-se o empório da província. As casas desciam o morro, estendendo-se pelos flancos. Carroça povoada, a pique nas colinas. Ao sopé da encosta, o chafariz um jumento de ferro vertendo água pelo nariz, bombeado pelo rabo. Focinhos enfiados nos baldes, a alimária enlameando o chão. Uma carroça que passa qual o rio que não sai do lugar, carroça de pedra e pinho, de tolda arqueada, presa nos horizontes, azul nas horas de sol. Mas a vila continua pouso da lua, égua branca ponteando o rebanho de estrelas.

Conservava uma calma bucólica antes de se toparem os doutores Glória e Vítor Machado. O tiroteio acabou com a concórdia na paróquia, com eleições tranqüilas e acordo entre os partidos. A oposição dos conservadores e da facção republicana aos liberais tornou-se mais forte. Apesar da luta pelas cidadanias, a política parecia outra aos moradores:

     - A política no Paraná é uma briga de famílias.

     - Aqui não se vê intendente que não seja  Ribas.

Liberais e conservadores não demonstravam terem opinião e divergirem. Uma simples coincidência não podia ser, após o tiroteio por causa de Rosinha, acentuou-se a ameaça de divisão na província, não em partidos, porém em grupos.

A democracia forjava-se na cidade, com oficinas em todas as portas. Gente boa conduzia o povo e dava para ver a verdade. Existiam causas mais profundas, no coração das pessoas, a transformarem o mundo. Findava a escravatura, há tempo fora proibido o tráfico, e vigorava a lei do ventre livre. Agora, os poucos senhores negavam-se a libertar seus negros sem uma compensação em dinheiro.

     - Se vamos perder o que compramos e nos pertence, não podemos arcar com os prejuízos - argumentavam.

     - O que eles querem é vender os negros à nação - indignavam-se os abolicionistas.

Notícias de fugas, maus tratos e morte de escravos comoviam a população. Frederico expulsou da hospedaria um caixeiro que anunciou no jornal: "Compra-se uma mulata forte e bonita para fazer companhia a um homem solitário". Pediu-lhe o quarto e explicou o motivo.

De uma coisa Xandô tinha certeza: Os próprios negros, através de sua bondade, conquistavam as pessoas e transformavam o mundo. Ouviu Matias declarar na confeitaria que não trocava uma moça como a preta Júlia por dinheiro nenhum.


 

 

 

VISITA IMPERIAL

 

 

Não é verdade que D.Pedro se preocupava apenas em compor sonetos e com bailes na corte, rei poeta, negligenciando a política. Alertado para o perigo que constituía a propaganda contra o regime no Paraná, província que poderia ser o elo de ligação entre paulistas e rio-grandenses como no passado, convenceu-se do que lhe disse o senador:

     - A presença de V.Majestade anularia a ação e a influência dos grupos republicanos.

     Após os preparativos e convites de estilo, inclusive a jornalistas, D.Pedro e D.Teresa Cristina, acompanhados de seleta comitiva, embarcaram no vapor Rio Grande, o qual chegou à baía de Paranaguá no dia dezoito de maio daquele ano. Centenas de embarcações receberam-nos sob o troar de salvas e com execuções de hinos a bordo. Paranaguá e Antonina pareciam portos de mar celeste. O dono do litoral, um barão antes de abrasonado visconde, hospedou-os. Em seu palácio - anotaram os jornalistas cariocas - vangloriava-se do episódio Cormoran, reação parnanguara à intromissão estrangeira proibindo o tráfico.

Antes da navegação a vapor, o anfitrião tinha a maioria dos veleiros e nas mãos o porto. No banquete oferecido à comitiva, exibia uma centena de familiares de três casamentos e os escravos a servirem e a bisbilhotarem.

Além da visita, comemorou-se em Paranaguá a inauguração da era ferroviária na província, mas isto significava o declínio do sistema imperial. Talvez o desejassem os trabalhadores no almoço que a Compagnie Générale de Chemins de Fer encomendara na Casa Leão de Ouro, do Rio de Janeiro, ao qual D.Pedro não compareceu, adiando para o retorno a inauguração das obras.

A realeza quis ver de perto a terra do muito, assim chamada por causa da abundância. Na terra do muito, tanto quanto de pinhões, havia excesso até nas manifestações de júbilo. A província promissora onde se situava o Eldorado. A presença mágica do Imperador e da Imperatriz, acompanhados de barões, almirantes, damas e áulicos enfatiotados, levava as massas ao delírio. Após trezentos anos de catequese, os pobres principalmente se impressionavam com a pompa e mal podiam acreditar fossem de carne e osso os semideuses. Por toda parte, como na capital, o foguetório, o repicar dos sinos, ruas forradas de flores e folhagens, tapeçarias pendendo de balcões e janelas atopetados de gente. Visitas, passeatas e bailes.

A Curitiba, D.Pedro encaminhara anarquistas espanhóis, franceses e italianos, expulsos da Argélia pelo governo colonial de Paris. Imaginara encontrar uma próspera colônia. No amontoado do Bacacheri só havia alguns canteiros de cevada ou centeio e pés de batata. Apenas duas famílias permaneciam no local, uma Galiat, outra Borelli. De um tal Anastás Marcaf, anarquista, porém cristão que viera pregando o Evangelho durante a viagem, ninguém tinha notícias, sumira. D.Pedro reclamou das autoridades da província:

     "- ...Vieram de Marselha no navio Polynée trinta e seis famílias, mandei dar diárias para alimentação e alojamento, dinheiro para compra de sementes, bois e ferramentas. "

     - São anarquistas, majestade - protestou um secretário.

     - Dei ordens - frisou. O senhor sabe o que é um anarquista? - admoestou-o também com o olhar.

Soubera de uma manifestação de trabalhadores italianos e polacos que exigiam da Câmara Municipal salários atrasados. Criticou as comissões de trabalho, semelhantes a que pagava aos negros com a comida. Acordava no sobrado da esquina, das sete janelas em arco, de frente para os destroços da Matriz. Ovacionado nos balcões, queria ver realizar-se o sonho do mundo novo, utópico, uma Europa avançada na província.

A visita imperial faria de Ponta Grossa uma vila real. Pouco antes, chegara a mudança da família de Chiquito Ribas, a qual assistiu à tropelia causada pela fuga e captura dos chefes da Mão Negra. Xandô também vira da sacada serem descarregados os cargueiros e as carroças. Batizaram a nova residência como a Casa das Três Meninas. Três princesinhas camponesas antecederam os reis.

O povoado agitou-se. Estrela designava ora uma fazenda, um bairro ou um estabelecimento comercial. Então passaram a referir-se às irmãs como as Três Marias. Os jovens se alvoroçavam, apaixonando-se. Todo mundo indagava:

     - Como se chamam as Três Marias?

     - A primeira é Anita, a do meio Dorinha, a menor Letícia.

Amigas de Cecília compareciam ao sobrado para ouvirem Alberto tocar piano na sala de portas abertas para a sacada. O largo encheu-se de vida, moços rondando a Casa das Três Meninas. E Letícia liderava as cirandinhas, rodando e cantando, atraindo a assistência acotovelada às janelas. Estranhava-se dona Aparecida, ralhando à toa:

     - Menina sapeca, tem bicho carpinteiro.

Bravo, o pai bate, xinga, vai atrás, mas quem manda é a mãe. No brinquedo dos piás quem pega é o pai. Letícia se intrometeu, no corre-corre, alcançou Xandô, bateu-lhe nas costas, gritando: pai! Os outros riram, caçoando, como se dissessem: aí! pernas tortas, não sabe correr. Xandô corou, repreendeu-a:

     - Não vê que é uma menina?

Na missa chique das dez, o padre entoava o latim com a igreja abarrotada. Na última vez falou dos preparativos, da vinda do Bispo, do coral, da dedicação das beatas, nas ornamentações e feitura do tapete de flores, elogiando as senhoras que angariavam fundos para as celebrações religiosas. E numa demonstração de que os governistas se encontravam em ofensiva, pregou de dedo em riste:

     - Temos de defender a Igreja e a Monarquia. Até onde irá o desrespeito de maçons e ateus protestantes às cousas sagradas? Querem acabar os santos sacramentos e substituir o matrimônio por um contrato, um papel sem valor, um lixo de cartório. Minar a autoridade da Igreja, como querem os republicanos, é desobedecer a Deus e implantar a anarquia. Para onde pretendem nos levar? Ao inferno? Sabem o que aconteceu numa escola de Palmeira? Um professor, traindo a confiança pública, em plena sala de aula declarou-se um protestante. Não fosse a coragem de uma aluna denunciando o fato à diretora, o malfeitor não teria sido exonerado por S.Ex.ª, o Presidente da Província.

O rebanho parecia pouco atento e indiferente ao sermão, damas se exibindo, os moços flertando. À saída, as comadres matraqueavam, nem todas de acordo com o sacerdote. Ainda era pequeno na vila o grupo que apoiaria o doutor Vítor, primeiro candidato republicano da província. Das mais ligadas a sua família e de seus correligionários, ouvia-se a crítica ao pároco:

     - O que ele quer é ser nomeado bispo pelo Imperador.

     - Faz parte da oligarquia, é da família Braga.

Letícia soltou-se da mãe e das irmãs, assim que viu Xandô brincando no portal. Enfiou-se entre as colunas alteadas que ladeavam a escadaria da catedral, derrubando-o da beirada. O tombo rasgou-lhe a camisa, esfolou-lhe os cotovelos, sujou-lhe a calça curta domingueira, envergonhou-o. Pediu desculpas.

     - Não foi por querer...

     - Foi por gosto - interveio com um risinho Anita, frisando "por gosto" como quem diz "por amor".

Oh! pimentinha que ardia em seus olhos. Escapulia de Letícia e, de repente, com ela dava de encontro, um saci. No baile infantil, ao escorregar de sapatos novos no salão, ela lhe deu um empurrão nas costas e, de novo, caiu estatelado no chão. Depois - que azar! - formaram par na quadrilha organizada pelo doutor Casemiro. Ela o arrastava, mais ligeira que uma corça. Procurava agradá-lo, por enquanto a única das Três Marias, ainda sem brilho. Anita, aos dezesseis anos, tinha uma legião de admiradores e flertava com o filho de um comandante militar. Dora, apesar dos doze anos, também despertara paixões secretas de adolescentes. Letícia acompanhava-as por toda parte e, nas reuniões do sobrado, um rabinho. Xandô a temia por que o encabulava. À frente de seus irmãos, deixara-o embaraçado:

     - Você deixa eu fazer parte da Mão Negra?

     - Não pode uma menina entrar em quadrilha.

Atraída, via nele o herói que chegara escoltado por fugir com o pretinho na caleça. Precisava de um para apoiar-se. À sacada, confidenciou-lhe:

     - Não gosto que meu pai tenha escravo. Proibiu o namoro de Anita e vai escolher marido contra a vontade das filhas. A mamãe dá razão não sei por quê.

Desceram juntos a escada para a rua e foram ver de perto a carruagem de dona Ambrósia. Cercavam-na os curiosos na esquina. Jair, empertigado na boléia, explicou:

     - É um faetonte com jogo de volta inteiro, eixo-patente estofado de chacrim com guarda-lama de couro envernizado.

     - O negrinho 'tá prosa - caçoou um camarista.

     - É para a recepção aos Augustos Viajantes - afirmou outro.

A vida rodava rotineira, uma carroça vagarosa carregando a vida. Antes eram poucos os fatos que lhe quebravam a monotonia. As festas de domingos, dias santos e feriados, uma inauguração, o desfalque de um guarda-livros, a ruína de um falido, um casamento fugido, forçado, ou algum adultério escandaloso. O assalto às carretas e o tiroteio no largo foram assunto de cinqüenta anos. Os moradores se envolveram na política de famílias, reflexo das desavenças entre o doutor Glória e Vítor Machado, porém o fato memorável da época foi a visita imperial.

Tropeiros ainda cruzavam o pouso, levando gado para o norte e erva-mate para o litoral. Ponta Grossa contava com postos de beneficiamento e de compra e venda, refletindo progresso do interior da província.

Na Catedral, em cujas torres aninhavam-se andorinhas mais bulhentas que os sinos, aumentava a afluência, com o anúncio da visita.

Na confeitaria, comentavam que o padre Braga ia rezar uma missa só para os pobres e os negros. Vítor Machado criticou-o acerbamente:

     - Ele quer apenas os ricos na missa de recepção rezada pelo Bispo.

Estrela dominando o povoado, um foco dos acontecimentos, sempre o prédio da confeitaria. O doutor Casemiro não se cansava de afirmar que a democracia nasce na cidade e se exibia no Estrela.

     - É o forno da cidade.

Vítor bebia no balcão e procurava ser agradável:

     - O Paraná nasceu nos Campos Gerais, criou-se em Ponta Grossa. Sem os Campos Gerais, havia apenas São Paulo na faixa litorânea.

A cidade parecia irradiar-se do prédio, cujo movimento trazia ocupadas a família e a criadagem. Naná, uma patroa amiga, dependia de Júlia, dona da cozinha, e ela das ajudantes. Júlia, filha de um escravo para o qual Frederico providenciara a alforria. Manoel, tirante ao pai, melhor de que Alberto cuidava-lhe o negócio. Sobrinhos do casal chegavam do campo e, por um tempo, cuidavam do balcão. Os pais poupavam dos serviços apenas Cecília, que aprendera costura, bordado, crochê.

Alberto, com o dobro da idade de Xandô, reunia a moçada alegrando o povoado. Tinha jeito de ator, galã à moda antiga, corpo de toureiro espanhol. Demorava-se ao espelho, assentando com brilhantina os cabelos escuros. Chegou a inventar um bigodinho. A sala enchia na hora do ensaio de números para o clube e o teatro. Quando mudava o piano para a confeitaria, no pavimento térreo, promovia tocatas com acompanhamento e cantoria. Crescia a féria no caixa. O salão grande, com as mesas retiradas para o contíguo, foi palco da inesquecível festa dos quinze anos de Cecília.

Aguardava-se a visita de D.Pedro e D.Teresa Cristina, em viagem - segundo os jornais - " de muitas peripécias devido a intempéries e ao mau estado dos caminhos". A população empenhava-se nos preparativos, ajardinando o largo e toda a vila, a segunda maior da província. Alfaiates e costureiras não venciam as encomendas, na expectativa de cerimônias reais. Hotéis e pensões lotados, gente importante hospedando-se em residências de parentes ou correligionários. À noite, coruscavam lampiões e arandelas de ferro fundido, candelabros no largo, ao alto. Já haviam sido confeccionadas milhares de lanternas. Consertaram-se as ruas e foram pintados os prédios, a começar pelo Paço Municipal. Enfeitado de bandeirolas com as cores do Império, armou-se um palanque ao lado do coreto, em meio a barraquinhas. Estas aos cuidados de moças que viraram princesas à espera dos reis. Com a encomenda da Comissão de Festejos, Emílio Fogueteiro poderia construir o galpão da fábrica de bombas num buraco da Ronda, antes de estourar a mão à frente de uma procissão. Das adjacências chegavam os moradores, alegres como crianças cujos pais anunciavam:

     - Vamos a Ponta Grossa para ver o rei e a rainha.

No clima desanuviado, festivo, persistia apenas a preocupação com um reencontro de Vítor Machado com o doutor Glória. As madonas suspiravam mais por este, menos por aquele. Um viera clinicar em Ponta Grossa, possuía a fama de médico dos pobres, belo conquistador, além disso, valente. As donzelas admiravam-no debruçadas às janelas quando passava erecto, elegante, bigodinho dourado no rosto rosado. Vinha de visitas às fazendas como um herói de cavalaria, o pingo resfolegando. Os maridos temiam-no duplamente, por ciúme e por medo. Para enfrentá-lo, somente Vítor Machado, seu rival, também ambicioso, admirado, noivo da prima invejada pelas mulheres.

Certa madrugada, um grupo subversivo espalhou por baixo das portas faixas com as inscrições: "Abaixo a Escravidão!" "Viva a República!" Os Ribas que comandavam a guarda nacional, o corpo de cavalaria, a polícia, mandando na intendência, não descobriram os autores. Ocultara-os a escuridão e mal se ouvira o ruído das caleças. O alvo lençol da geada ainda se estendia nos campos quando a vila se levantou agitada. O doutor Glória compareceu à reunião das autoridades no Paço Municipal e acusou publicamente:

     - É um crime de lesa-majestade cometido pelo bando de Vítor Machado!

Ameaçado, Vítor refugiou-se na fazenda da família, em Castro. A Zé Barriga que informara ter visto um rapaz apear de uma caleça e entrar no sobrado, ninguém deu crédito, pois amanhecera bêbado. Xandô ouviu sua história e guardou para si próprio o que pensou: - Ah! Então por isso Alberto fazia ensaios até de madrugada. Puxa! o Alberto, um rebelde!

Uma comitiva foi ao encontro de D.Pedro e D.Teresa Cristina. Então partiu de Palmeira, em direção a Ponta Grossa, a caravana que tomou conta do caminho. Além das carruagens, cerca de seiscentos cavaleiros acompanharam o coche real, atrás da guarda de honra.

Abaixo de Deus, o Imperador! Chegou o grande dia do século, o dia sagrado e maior feriado, em que o povo se apinhava nas ruas, às portas, às janelas, às sacadas, para ver um rei e uma rainha de verdade.

Xandô e seu irmão Manoel espremeram-se no forro do banheiro dos criados para, de olho no furo que fizeram, verem nua a caboclinha que ajudava na cozinha. Em vez dela, quem tirou a roupa e mergulhou na tina de água foi Petrovitch, o ajudante de confeiteiro. Antes mendigava nas ruas, de saco às costas, barbas de pó, catava tocos de cigarro e corria atrás dos moleques que o chamavam de Coruja. Acolhera-o Frederico, tratando-o. Limpo, de gorro e avental, sempre de branco, tornara-se o ajudante de confeiteiro. Acomodara-se e não mais tivera acesso que o levasse a vagar sem rumo como o primeiro Arcabuz. Ao apalpar o sexo, masturbando-se na tina, voltou o rosto para cima, arregalando os olhos. Despregava-se o forro, estalando. Primeiro os risos, depois os gritos e o teto desabando com os dois - Manoel era gordinho e pesado - acabaram o que lhe restara de juízo. Virou com tina, água e sabão, arrastou-se e saiu correndo nu como nascera. Quando transpôs o portão, provocando gritos de assombro, começou a confusão à espera do corso real. A multidão supôs tratar-se da realeza.

     - Vem vindo o Imperador!

     - Viva o Imperador!

     - Viva Sua Majestade!

Um rei ao avesso, pelado, passou correndo, oferecendo ao inverso o espetáculo aguardado. Os homens se espantavam, e as mulheres quase morriam de susto cobrindo ou desviando os olhos do espectro que fugia virando a cabeça para todos os lados.

     - Minha Nossa Senhora! que horror!

     - Um pobre diabo com as vergonhas de fora...

     - Bar-ba-ri-da-de!

 Acharam graça e até as casas achatadas faziam caretas de risada. À pergunta quem foi que fez isso?  - respondiam : o piá sapeca do Estrela.

O ajudante de confeiteiro expusera-se nu onde era pecado mostrar as canelas. Os soldados levaram-no escoltado ao quartel e, de botinas, culote, coberto com um capote da cavalaria, sumiu no mundo.

À passagem de D.Pedro pela província, os proprietários procuravam agradá-lo alforriando os escravos. Agora se atrasara por não admitir o abandono em que se encontravam os imigrantes. Contrariou-se com o mau trato aos russos, tachados de brutos e selvagens que, exigindo repatriação, retornaram a Hamburgo ou se bandearam para a Argentina. Numa fazenda adquirida por importância astronômica, mandou o capitão enterrar a espada no solo. Não valia centésimo do que fora pago.

     - É puro pedregulho.

A incomensurável riqueza da terra não sabiam explorar nem mesmo os imigrantes.

A emoção da expectativa aumentou ainda mais com o anúncio oficial da chegada. As girândolas subiam aos céus, bombas e foguetes explodiam durante o trajeto dos soberanos acenando da carruagem. Repicaram os sinos das igrejas, romperam as bandas. Apenas os clarins precederam o coche real e a guarda de honra. A população vibrou:

     - Viva a Coroa do Império!

     - Viva o Rei D.Pedro!

     - Vivôôôôôôô.

Agitavam-se as bandeiras imperiais e também os corações nos peitos dos espectadores. Tremiam os prédios e as casas achatadas. As ruas estavam juncadas de flores e folhagens. Na principal do alto das ladeiras, eram doze os arcos de triunfo sob os quais passava o cortejo. No do meio, Letícia e outras meninas de branco, cingidas com fitas verde-amarelas, cobriam os reis com uma chuva de pétalas.

     - Suba aqui, Xandô! - chamara-o.

     - Vou lá.

O padre Braga enxotou-o:

     - O que faz aqui no meio das meninas? Já para fora!

Encerravam o desfile carroças polacas, carroças de toldo puxadas por seis cavalos, a exibição de arados, foices, enxadas e gradis. As bandas de Nhô Quim e de Juca de Godói, fundador da Lira dos Campos, ainda se revezaram quando, aclamados entusiasticamente, os monarcas chegaram ao largo ajardinado para a festa. Atingira o clímax e foi a vez da banda militar estremecer a vila, ao som do Hino Nacional. O palanque monárquico fora armado de modo que o ladeassem os seiscentos cavaleiros e a força militar, deixando um grande espaço livre para os escolares e a multidão que acorreu ao local. Saudado pelo orador que veio da capital, D.Pedro discursou agradecendo as manifestações de apoio e lealdade, exaltando a atitude de barões como o de Campos Gerais, que alforriaram seus escravos. Provocou comoção:

     - Após trezentos e oitenta anos de Cabral, o Brasil ainda não foi descoberto. É preciso vir ao Paraná para conhecê-lo. Aqui me encontro face a face com a Pátria, ouço-lhe o palpitar, olho-a nos olhos, vejo-lhe a alma. Homens de todas as raças confraternizam-se nestas terras, semeando-as, nelas construindo o porvir que sonhamos. Ponta Grossa, antigo pouso de tropeiros, continua a Estrela. No alto destas colinas, defronte à Catedral e sob o símbolo da cruz, declaro que acabo de redescobrir o Brasil!

O discurso causou impacto mais forte que o troar das salvas, do foguetório ensurdecedor, emocionando a província. Mas no Rio de Janeiro a "Revista Ilustrada" satirizava a visita, comparando os paranaenses aos indígenas. Ninguém compreendia o imperador visionário, nem os republicanos ou os reacionários da corte.

Sob estrondosa ovação, vivório sem fim, os soberanos dirigiram-se à mansão de Ferreira Pinto, na qual se hospedaram. D.Ambrósia mandou preparar os cômodos, sem dar importância às fofocas das comadres:

     - Os reis não vão aceitar acomodações porque dormem em camas separadas.

Durante o banquete, D.Pedro disse ao doutor Deleone que, tal como ele, simpatizava com as idéias socialistas.

     - Essas coisas acontecerão quando os reis forem filósofos - acrescentou.

     - Temos um no Brasil - e por esse eu daria a vida, adiantou o jovem médico que viera de Curitiba com a comitiva.

     - Muito admiro os imigrantes que com nossos patrícios constroem um mundo novo, sem os ódios e conflitos do velho continente.

     - Utopia, que pode ser realidade, não D.Pedro? - interveio um político para mostrar-se.

     - Certamente.

Emocionado, o anfitrião ergueu o brinde:

     "- Senhor Imperador! Eu queria ter matado mais um peru ou um leitão para obsequiar a V.M., mas não quis. Preferi em comemoração à honra da visita de V.M., que se concedesse alforria aos meus escravos. Estou certo de que assim agrado mais a V.M.."

D.Pedro deixou-lhe a família embevecida ao tratá-lo de barão. Regozijou-se o povoado ao saber que Ferreira Pinto seria agraciado com o título. Ao dar mostras de generosidade, doou cinqüenta mil réis para a igreja e os pobres, cem mil réis para o Teatro Santana, mais duzentos mil réis para a liberdade do escravo Marcelino. Instada pela professora Alzira, irmã do pároco, D. Ambrósia fez um pedido:

     - O povo católico renderia graças a V.M. se o padre Braga fosse nomeado bispo.

Marcelino foi muito cumprimentado na rua, seu antigo proprietário recebera o dinheiro e, por pouco, não levou uma surra ao declarar-se republicano.

Essas coisas confundiam Xandô, o qual pensava que só os abolicionistas e republicanos podiam ser pessoas generosas. Não compreendia o motivo pelo qual afirmavam que D.Pedro ia pagar caro por suas atitudes em favor dos negros. A maioria chamava-o carinhosamente de Velhinho, mas os simpatizantes de Vítor Machado, os republicanos, tachavam-no de Pedro Banana. Mantinha firme a idéia de que os próprios negros eram bons e com sua bondade, seu trabalho, sua vida, sua luta, conquistavam no dia-a-dia a liberdade.

D.Pedro inaugurou obras, inspecionou escolas, o mercado, o matadouro, compareceu a sessões cívicas no Paço Municipal, visitou as colônias de Uvaranas, Nevile, Taquari e Tavares Bastos. Ao anoitecer, a vila parecia assistir a uma festa de coroação. Na missa do "Te Deum Laudamus", apertavam-se cavalheiros de sobrecasaca, uniforme de gala e condecorações ao peito. Damas de trajes opulentos cobertos de mantilhas ajoelhavam-se com terços de prata e luxuosos livros de orações nas mãos. Sem assistirem à cerimônia religiosa, mas presentes no largo, os pobres sentiam-se felizes. O povoado estrelejava. Lamparinas coloridas iluminavam as fachadas das casas e resplendiam na frontaria em arco da Catedral. Dir-se-ia que a corte, Petrópolis e o Rio de Janeiro haviam mudado para as colinas do Pitangui.

No Teatro Santana, o concerto musical foi seguido por um espetáculo dos três grupos de amadores. Na peça destacavam-se Alberto e Anita, muito aplaudidos. Nhô Quim trouxe cantores de Palmeira, enquanto Juca de Godói contou com sua mulher Marcolina e os filhos Delfino, Joana e Sinhana. Ao se acenderem as lanternas do teatro, a Imperatriz recebeu de Letícia e outras meninas de branco várias cestas de flores.

O doutor Casemiro, orador da comissão de festejos, subiu ao palco e encerrou as homenagens a Suas Majestades, afirmando que reis e súditos estavam cada vez mais unidos pela liberdade e pelo Brasil. Ovacionados, D.Pedro e D.Teresa Cristina acenaram do camarote, agradecendo.

No Campos Gerais, realizou-se o maior baile da paróquia, um baile imperial. O séquito aumentara desde o litoral, comprimindo-se nos salões aristocráticos. Cavalheiros de fraque, madames com longos de rendas e babados, as donzelas vigiadas dos camarotes pelas matronas. Depois que D.Pedro honrou várias senhoras, a começar por D.Ambrósia, os reis permaneceram a maior parte do tempo no docel, numa face do salão.

O povoado tornou-se real para sempre, como se a visita inesquecível fosse, por isso, infinda. Causara o maior orgulho em toda a província.

Do homem nu que correra pelas ruas, atropelado por Xandô e seu irmão Manoel, esqueceram-se. Mas não dos locais por onde passaram os Augustos Viajantes, um palácio, um rancho, um trecho de estrada, uma árvore. Muito menos dos desfiles, das inspeções, dos banquetes, das missas, dos bailes, da recepção apoteótica.


 

 

 

GAZEIO

 

 

Os reis não se cansaram do "regalo de festas e orações", como dizia a "Revista Ilustrada". Partiram sensibilizados pela recepção que lhes fora oferecida. No baile de despedida em Paranaguá, ocasião em que o doutor Leocádio Correia, inspetor escolar e médico-mór da província, preparou um banquete de fazer inveja ao futuro visconde, o Barão de Taguaré, o clima foi também de grande emoção. Provera de iguarias a ceia regada a vinho, champanha, genebra, conhaque e licores. Presentes cerca de cem senhoras finamente toaletadas.

Após a partida, a normalidade voltou à província. Tímida no princípio, ressurgiu a propaganda republicana. Pouco a pouco, os moradores compreendiam ter outro mundo e não aquele da casta de cortesãos privilegiados. Mas até nas vilas dorminhocas da província formava-se uma nova elite arremedando a corte, fundando clubes.

Em Ponta Grossa ficou a alegria, que não foi embora com os Augustos Viajantes. Na proximidade de festas juninas e de Santana, continuavam as tocatas da moçada, apresentações no teatro, danças nos clubes, bandas no coreto disputando audiências. Fogueiras, pinhão e quentão. Quermesses cheias de moças nas barraquinhas. O passeio em volta da quadra repetia-se todas as noites e nas manhãs domingueiras. Os jovens rondavam a Casa das Três Meninas. Permanecia no povoado o clima de opereta cabocla.

Anita e Dorinha, que foram proibidas de estudar violão, passaram à Letícia o pouco que sabiam. Dissera-lhes o pai:

     - Bordado e costura, sim; instrumento de boêmio, não.

Letícia surpreendeu-o num festival escolar porque tomara aulas às escondidas na casa do tio Jango.

Xandô abandonara o primário, rebelado contra os castigos de irada professora, e só recuperou  o tempo - três anos - quando aos doze reingressou na escolinha de Nhonhô Colares. Gazeava, vadiava, fugia do balcão. De tanto debater-se nos arroios, endireitava-se, fortalecendo e conformando o corpo. Mas recapitulou o á-bê-cê e se adiantou com facilidade. Estranharam-no de guarda-pó engomado na passeata em homenagem aos reis. Aos domingos, calçava sapatos de cordões. No inverno, vestia camiseta de lã, gola que se dobrava, fechando-se à altura do nariz. À cabeça, ligeiramente pensa à direita, um boné de couro. O cabelo não assentava nem com o uso da toca de meia. Matava a metade do tempo no gazeio.

Sentiu-se moço ao vestir calça comprida, herdada de Alberto. Compenetrou-se seguindo o seu exemplo e o de Manoel, principalmente. Também atendia o balcão, para a alegria dos garçãos, do Sobradinho e outros pobretões aos quais cedia cálices de pinga com limão e cigarros soltos de marca ordinária.

Discutiam-no, desde pequeno. Os mais exigentes não o perdoavam, achando que não tinha educação nem juízo. Às costas de Frederico, comentavam:

     - Deviam mandar esse moleque para a Ilha das Cobras.

     - Na marinha, endireita.

     - Se não fosse o pai...

Divergiam do Curu, do Jango, de Matias, do pessoal do sobrado e da maioria.

     - Esse menino tem tutano.

     - 'Tá se perdendo.

Marcelino, pai de Minega, ganhando a vida puxando uma carrocinha de mão, aconselhou-o:

     - Vosmicê tem de arribá daqui prá fazê um bem, entonce sim.

Maior do mundo era a vila no coração, mas nela não havia mais lugar para ele. Culpavam-no de tudo, até por antecipação.

     - Vê como te comportas, senão te ponho para fora! - ameaçavam-no sem razão.

Os outros podiam fazer a maior algazarra, ele pagava. Pegavam-no porque não podia correr acompanhando os demais. Do circo e do teatro, tiraram-no pelas orelhas.

     - Pernas-de-pau! - diminuíam-no, caçoavam porque corria sem dobrar as joelhos.

Não fora filho do Frederico, o dono do Estrela, não poderia freqüentar o baile infantil. Na última vez que brincou no salão, atingiu com o cotovelo o nariz de Letícia, sangrando-o. As velhotas que cacarejavam nas mesas ou no balcão viam-no com maus olhos e, nos saraus, evitavam-no as cocotinhas. Ainda não estava bem, gordura mal distribuída. Mas a boa Júlia erguia-lhe o moral, encabulando-o:

     - Que mocinho mais lindo, parece um artista.

Amava a sua terra, porém não gostava de malquerências, fuxicos, lavagens de honra, namoros proibidos, ou casamentos forçados, coisas desse tipo. O lugar agitou-se com o namoro de Anita e o filho de um oficial, proibido porque este apoiara Vítor Machado, o primeiro candidato republicano, derrotado nas eleições para a Assembléia. O par se encontrava às escondidas no Parque Honório, palco de um conflito entre o corpo de cavalaria e a guarda policial que fora prender o jovem Álvaro. A família deste transferiu-se para o Rio Grande, e o rapaz sentou praça no intuito de fazer carreira. Despediu-se de Anita no átrio da igreja, comprometendo-se a vir buscá-la.

Aos quatorze anos, atrasado, terminara apenas a segunda série quando Tio Silva insistiu para que o deixassem estudar em Curitiba. Tornara-se um problema para a cidade, ou esta para ele. A compulsão no peito, ânsia de voar, sensação de pássaro engaiolado, ou de asas quebradas. Ao fitar as aves riscando o céu - um desejo de segui-las não sabia para onde. "Arribá prá fazê um bem" - lembrava se de Marcelino.

     - É uma força dentro do peito - confidenciou à mãe, que decifrava o que ouvia.

Sentia-se preso à terra, às raízes, ao ninho, porém tinha de arribar. Só em pensar de afastar-se do largo, das ruelas empoeiradas, do sobrado, da cidadela, sentia saudades. Inquieto, procurando gozar a vida num minuto, aprontava outras tantas artes. Muitas delas tão mal sucedidas como da vez em que, embebedado com copadas de vinho de laranja, acabara esmurrado no largo da igrejinha dos polacos, ocasião da qual se aproveitou até o garção despedido do Estrela por furtar o caixa e os fregueses.

Letícia era três anos mais nova que a prima Helena, filha do tio Jango. Juntas, as duas aprendiam violão com um músico da banda. Ao contrário de seu pai, o tio Jango incentiva-as, fazendo todas as vontades da filha desenganada pelos médicos. Anemia profunda - prognosticaram. Letícia vinha de sua casa quando Xandô, viu aproximarem-se dela Castanho e Marino, marmanjos marotos e malvados. Os dois se prevaleciam do tamanho, batiam nos mais novos, furtavam-lhes os brinquedos. O pior é que desrespeitavam as meninas, um levantava o vestido por trás, outro pela frente. Num impulso, atirou-se contra os malcriados dos quais costumava fugir, afastando-os a socos e pontapés. Levou, porém, uma tremenda surra, da qual resultou dorida ameixa preta sobre o olho esquerdo.

Defendera uma criança, não a considerava mocinha como as que namorava à traição, em segredo. Estas não dirigiam o olhar a um piá de calça curta. Uma loura de nariz arrebitado, de casaco cor-de-rosa, que iniciara um namoro na escola, acabou machucando-o ao desdenhá-lo pelas costas. Parecia não perceber o encanto de Letícia, ainda menina, um botão balouçando na haste. Ela possuía muita graça, dons, um pouco de mel, mas também sal e pimenta. No canto da boca, uma pintinha. Cabelos e olhos castanhos, covinha no queixo. Acompanhada das irmãs, recebidas com cerimônia na sala do pavimento de cima do sobrado, encabulou-o em frente de todos:

     - Mamãe mandou, e eu vim agradecer a sova que você levou por minha causa.

Quando desapareceu o hematoma, encontraram-se a sós na sacada. Duas crianças selaram uma aliança. Herói a seus olhos, fez-lhe um pedido:

     - Você jura por Deus, que me salva?

     - Do quê? Já não chega?

     - De casamento forçado, contra a vontade.

Percebendo-lhe o temor de que se repetisse com ela o que acontecera a uma prima, quis ver-se livre:

     - Tá bom, juro.

Não possuía um fio de barba para dar de garantia da palavra, porém o coração e se comprometera. Depois só a viu no festival escolar, cantando chula e modinha, muito aplaudida.


 

 

 

CORÉ-ETUBA

 

 

Três dias rangeram as rodas da carruagem, trepidando no seco, e nos charcos patinhando os cavalos. O Tibagi - "como o mar" para os índios - farto de peixes, ocultando brilhantes no cascalho, paranaense até o fundo, igual a Xandô no fundo da alma, fora transposto na balsa. Um camarista e o caixeiro-viajante iam de prosa mais cansativa de que a viagem, ao assuntarem a frase feita: O Paraná é uma zona de passagem. Ah! que vontade de contestá-los: - Isso mesmo, por que os senhores não passam, vão embora e não voltam mais?! Certamente, Tio Silva sentira o mesmo, bastou que se intrometesse na conversa para que a tornasse agradável:

     - O Brasil é o prolongamento de cada vila ou povoado, de cada uma das províncias.

As campinas e as florestas de pinheiros pareciam não ter fim e, por isso, Xandô nem pôde imaginar o tamanho de seu país. Após a descida da serra - as vilas bruxuleando ao anoitecer - os passageiros pernoitaram em Campo Largo, reanimando-se. À hora do café, na estalagem, o caixeiro-viajante soube ser inconveniente, rindo de suas próprias graças, repetindo:

     - As moças de Campo Largo gostam dos moços de Ponta Grossa.

Ziguezagueando no caminho estreito - cocheiro estalando o chicote - a carruagem chegou ao destino, entrando pela Rua Mato Grosso. Em poucas palavras, resumiram as impressões da localidade:

     - Esta é a cidade da erva.

     - A capital do mate.

Curitiba nascera vilinha garimpeira no Atuba. Engatinhara para o outeiro entre os rios Ivo e Belém. Um desabusado virou o rosto da imagem de Nossa Senhora para o oeste, pendendo para o sul, insinuando ter sido vontade da santa a escolha. Os faiscadores de ouro acreditaram e pediram ao índio que indicasse o local para erguerem uma capela.

     - Coré-Etuba! - exclamou o cacique.

Inventaram que a vara fincada no solo virou uma árvore florida.

Riqueza na flora  e na fauna, tuba indica que de tudo há muito. No local juntava porco-do-mato, o chão forrado de pinhões que despencavam do pinheiral.

Agora a carruagem corria no quadro verde, entre o casario branco. Xandô revia a vila também adolescente, pela qual se apaixonava. Uma capital. Visão tivera seu avô Pedro Tropeiro. Não conservava nítidas as lembranças, a não ser a da antiga matriz demolida onde se construía a nova. Ajardinavam o pátio, transformando-o na Praça D. Pedro II. A região nova, coberta de pântano, nascia no largo onde seria a Estação. Logo, se ergueriam as construções, entre elas o Palácio do Governo e o Edifício do Congresso Estadual.

Da principal rua, muito se orgulhavam os habitantes. Dela se irradiavam as vielas e becos que já percorrera criança. Na casa de três pavimentos, por enquanto o palácio, morava o presidente da província. As lojas maiores pertenciam a brasileiros e portugueses, as menores a alemães. A Rua das Flores se tornara a da Imperatriz, nela enfileiravam-se os sobrados, comércio em baixo, residência em cima. Das janelas e balcões gradeados de ferro, as moças assistiam ao movimento. As pessoas se encontravam habitualmente, se conheciam e se visitavam.

O trole do qual tio e sobrinho apearam com a bagagem abriu caminho no meio dos curiosos. Atraíra-os a Empresa Sanitária, cujo diretor proprietário fazia a limpeza de uma fossa. Na carreta de enormes barris coloridos, bombeava os dejetos através da mangueira. Tarefa nobre, a julgar por sua aparência, pelo traje e atavios. Um menino preto queimava piche e alcatrão na vasilha de ferro, que recendiam, encobrindo o mau cheiro. Este servia satisfeito ao patrão que o acolhera com carinho quando sumira do comboio negreiro  na estrada de Castro. Os do ajuntamento não continham o riso ao ouvirem o apodo:

     - Barão da Merda.

Ele não se importava, dizia-se republicano, defendendo-se:

     - Barão de merda são os monarquistas e escravocratas.

Xandô encontrou o casarão de portas escancaradas, como braços abertos. Próximo a residências térreas, mal alinhadas, sem calhas, nem platibandas, fora uma sede rural, com muitas janelas, porta ao meio, num terreno murado e cheio de rosas. Tinha galpão, cocheiras e árvores frutíferas ao fundo. Só se encontrava fechada a porta da sala da área ao lado.

À janela, a tia Dulce e a filha pequerrucha enxergaram-nos de longe. Receberam-nos contentes, mas Balbina, a preta velha criada por Pedro Tropeiro, queria-o para si, puxando-o:

     - Vem, fio, vê seu quartinho.

Disputavam-no e se sentia em casa, em família, sossegada a saudade. Dava-se bem com todos, achavam-no meigo. Luzia e seu irmão Genésio riam de satisfação, mudaram de quartos, ele para o galpão num contíguo ao de Balbina. Nem Luzia, de olhos azuis, nem Genésio provocavam suspeitas de haverem desaparecido das carretas, pois não tinham negra a cor da pele. Ela ajudava na casa, aprendia prendas domésticas, ele se encarregava da caleça e dos animais, porém ambos freqüentavam a escola. O primo Roberto chegara antes para estudar em Curitiba. Seu pai enviava da fazenda de Porto União da Vitória muito mantimento, uma quantidade enorme de caixetas de goiabada. Frederico também impusera como condição à ida do filho uma contribuição para as despesas. Tio Silva já vendera quase a metade do terreno e, lecionando dia e noite, mantinha a família. Um homem desprendido, solícito, de enorme prestígio no lugar. O tipo daqueles que reduzem a nada a autoridade de coronéis interioranos na cidade. Um tal de Tio Silva prá cá, Tio Silva prá lá. Paravam-no a caminho do Instituto Paranaense. Em toda parte, negociantes, doutores ou simples barriqueiros aproximavam-se para ouvir-lhe as opiniões e conselhos. Além das aulas no Instituto Paranaense, tinha na sala independente do casarão um curso de contabilidade. Caboclo alto, belo e elegante, fino e discreto. E já havia quem achasse o paranaense um povo fechado! Talvez até fosse nos dias frios e chuvosos.

Nhá Balbina lhe disse que não haveria mundo melhor do que este, se as pessoas pensassem como Tio Silva.

     - Por que é que não pensam? - quis saber, embasbacando-a.

     - Não sei, são ruins, uai! - deu de ombros.

Nunca mais saiu da mente de Xandô a idéia de que o Brasil era o prolongamento das vilas das províncias. Por analogia, viu Curitiba como extensão da sua. Não passava de um mosaico dos povoados interioranos. Tomou-a de pronto. Reconheceu-a, sentindo-lhe a respiração. Gente ligada ao comércio dirigia a opinião pública, ainda se falava da revolta contra os impostos e da demolição da Matriz. No transcorrer do tempo, a visita imperial perdera o efeito desejado, e vingavam as idéias republicanas. O povo se interessava muito no progresso da capital e da província. E em festas.

     - Uma lameira só! - queixavam-se, reclamando providências.

Batráquios em coro nos banhados e, à noite, solo de cigarras e aves noturnas. Nas casas havia tocatas e, por isso, os próprios moradores gracejavam:

     - Terra de sapos e bandolins.

Fora anunciada a construção da Estação, inaugurada dois anos depois. Então seria aberta a rua que "em seguimento à de Riachuelo dirigia-se ao largo".

     - A falta de água e esgotos ameaça o futuro da cidade - protestavam.

Na água Curitiba flutuava, barco com mastros de pinheiros atracado num cais de lama. Os riachos transbordando, o do centro transportava o lixo. Na volta ao leito, asseavam as casas, lavavam as roupas, os animais, as carruagens, e faziam a alegria da gurisada. Nas fontes, três chafarizes de ferro. A água do chafariz do Largo do Machado, a primeira encanada, vinha do Olho D'água dos Sapos, vendida em carreta pelos pipeiros, um tostão o barrilete. Muitas cacimbas, água nunca faltou - uma lameira só. Chovia duzentos dias no ano.

Apesar de sediar o governo, de suas chaminés e apitos de fábricas, conservara o aspecto bucólico. Animais pastavam em terrenos vagos, nos quintais e em ruas próximas ao centro. Aproveitavam-se os dias de sol com festas ao ar livre, piqueniques, passeios, bailes ao ar livre. Animação com as retretas, o teatro, o circo. O gosto pelas operetas e concertos musicais. Sob impressão do viver alegre, diziam que a colônia alemã transportara a Curitiba recantos da Bavária e os bosques de Viena. Na pequenina capital, cabia Paris. Iluminada a gás, a cidade recolhia-se cedo, depois que se retiravam das salas as visitas. Menos, é claro, nas noites de saraus, sessões teatrais e tertúlias literárias.

Decorando pontos, com muita sorte em português e aritmética, os quais não dominava, Xandô prestou exames e, num salto, foi admitido no Instituto Paranaense. Um casebre de alvenaria na Rua Aquidabã, com várias salas de curso secundário, gabinete da diretoria à entrada do corredor e pátio nos fundos. Pela manhã, ia à frente com o primo Roberto, e só quando chovia chegavam juntos com o tio, mais encapotados que a caleça. A grandeza não estava no prédio acanhado, porém no ensino, nos professores. Um deles - agradável surpresa - Vítor Machado, lecionando Filosofia. Após a formatura, exercera cargos de juiz, de promotor, e viera residir na capital. Tio Silva aproveitava as aulas de Geografia para pregar o humanitarismo. Só havia um monarquista, porém abolicionista e democrata. O mestre mais alto, de barbas nevando e olhos celestes, era também o mais avançado nas idéias. Esotérico, doutrinava os alunos nas aulas de História: - O Brasil está sendo pensado em todas as esferas, não tardará a tornar-se uma república sem escravos e sem castas. Tinha convicção mais religiosa que científica. Todos mestres excelentes, como o de Português. Instruíam uma juventude idealista, solidária. Moços briosos que vibravam na forma ao cantarem os hinos, ou quando se hasteava a bandeira. No recreio discutiam-se as novas idéias, o progresso. No Instituto ou no Parthenon e até mesmo nos colégios para meninas, respirava-se política. Um ponto de História inflamava as classes: a Revolução Francesa.

No princípio, os colegas mexiam com Xandô:

     - É verdade que o prefeito de Ponta Grossa vai mandar tirar as subidas e deixar apenas as descidas?

     - É, não, ao contrário. Em Ponta Grossa ninguém vai para baixo, só para o alto.

Repetiam a história das moças de Campo Largo e coisas desse tipo.

Adaptou-se depressa ao lugar. Viu no casarão também uma extensão do lar paterno. Acolhiam-no em toda parte pelo simples fato de ser sobrinho do Tio Silva, portanto um primo do povoado. Desfrutava do prestígio dele e de D.Dulce, sempre cercados de famílias amigas nos bosques e parques. O casal possuía filha única, Clarinha, pois D.Dulce sofrera de complicações do parto. Mas criava com igual carinho Luzia e seu irmão Genésio. Amor não faltava a ninguém no casarão, visto à noite iluminado a gás. Tio Silva, um homem de meia idade, porém belo e elegante, lembrava o poeta Castro Alves. Miss Tramplin corava, as pupilas dilatavam ao apresentar-se com suas alunas no Teatro São Teodoro, em concerto de música e dança, quando o via na platéia. Dona Dulce lhe roubara o namorado, o qual continuava a beijá-la nos sonhos, roçando-lhe os negros bigodes.

Não esquecia sua terra natal, a vila alteada nas colinas qual se fora uma araucária apinhada de casario. Mas todos os povoados da província desembocavam na Capital, sua foz a espelhá-los. Por isso, transbordava, agitando-se o povo. Em reuniões nos clubes, nas associações, nos teatros, nos cafés nas praças e nas ruas, discutia problemas, política, arte e até filosofia. Os versados referiam-se a Curitiba como a Atenas brasileira. Na pequenina capital, Paris cabia duas vezes.

Hotéis e pensões hospedavam muita gente do norte, transitando atraída pela riqueza do sul. Corretores vinham atrás dos últimos escravos, pois os peões das fazendas de gado eram caboclos numerosos na região. Não necessitavam de mão escrava como as de lavoura, principalmente de café. Abriam-se lojas, confeitarias e cafés com mesinhas de mármore, a freguesia sentada e servida por garções de bules às mãos. Nas inaugurações não faltavam quitutes, sonhos, vinas, chucrutes. Os moradores gostavam de assistir de suas residências ao movimento nas ruas, às procissões e, principalmente, às passeatas. Das janelas e sacadas as moças caíam de amores sobre a cavalaria. As carruagens das autoridades vinham puxadas por vistosas parelhas, dirigidas por cocheiros de fraque e cartola ou militares com seus uniformes. Batedores à frente, atrás a guarda, soldados a cavalo.

Nas quatro estações, o mesmo clima pré-revolucionário, sinais no ar, forças atuando nos homens e na história. Não eram só os letrados que ainda discutiam a questão surgida entre a Igreja e o Império por causa da proibição aos padres de pertencerem à maçonaria. As prosas chegavam a madrugar com luz só de um lado da rua. Falava-se cada vez mais no manifesto republicano, a campanha contra a escravidão tinha contornos antimonarquistas. Os políticos já se declaravam favoráveis à libertação dos negros. O povo se confundia porque uns, os emancipadores, exigiam indenizações ao governo, enquanto outros, os abolicionistas, desejavam a libertação imediata e incondicional. Desde a revolta do comércio, as classes urbanas tendiam para os abolicionistas e, conseqüentemente, para os republicanos.

A mais célebre comemoração em seu tempo de estudante, foi a da visita do Conde D’Eux e Princesa Isabel, ainda que sem entusiasmo pelo francês pretendente ao trono. Com aparato oficial, a cidade assistira a desfiles, missas e danças. Hospedado na mansão Miró, o casal recebia palmas e acenos quando saía na carruagem, dirigindo-se às moradas da nobreza cabocla. O ponto alto da estada foi o suntuoso banquete no palácio do Barão do Paraná.

Um ano mais tarde, houve - diziam os jornais -  a monumental festa de inauguração da Estrada de Ferro. A banda tocou o Hino Nacional, o Visconde Taunay, presidente da província, discursou sobre a importância do evento. Antes da primeira viagem a Paranaguá, a máquina novinha em folha exibiu-se para o arremedo de corte no pátio. A plataforma com o alarido de gente ruidosa, passageiros e familiares, bagageiros, ferroviários, ambulantes com cestinhas, lá fora os cocheiros e carroceiros disputando cargas. Enfim, a multidão aguardando partidas ou as novidades dos vapores do litoral.

Inauguravam-se novos tempos.

Antes da conclusão de seu curso no Instituto Paranaense, já se comemorava com maior entusiasmo a Queda da Bastilha do que o Grito do Ipiranga. Exaltado, Ratclif tinha seu nome numa das ruas centrais, numa prova de consciência republicana. O povo se indignava contra crueldades, os letrados discutiam Voltaire e o caso de João Calais. Vários deles engajavam-se em campanhas anticlericais, iniciados em lojas ou seitas esotéricas, até mesmo influenciando o nascer do simbolismo. Nas rodas da Confeitaria Esperança, recitavam seus sonetos. Com um século de atraso, Paris transportava-se a Curitiba, e a Revolução Francesa ao Brasil. A Marselhesa, amiúde executada pelas bandas e conjuntos musicais, provocava comoção, rivalizando com o Hino Nacional. Miss Tramplin tocava-a, fazendo-se acompanhar nos clubes e teatros pelo Coro Municipal. Nos palcos alcançava enorme sucesso a representação da Queda da Bastilha, e o público cantava a Marselhesa. Publicavam-se a sua letra, a tradução, artigos, crônicas, poemas. Eram exaltados Marat, Danton, Robespièrre ou Chenier.

Não fora apenas de Rosendo que ouvira no pátio:

     - Tenho duas pátrias. Primeiro o Brasil, depois a França.

A máquina a vapor possibilitara uma transformação no mundo. Estradas de ferro, navegação, correios e telégrafos, sociedades anônimas, bancos e companhias traziam o progresso. As classes urbanas cresciam e, mobilizadas, organizavam reuniões, fundavam sedes, programando palestras. A conscientização dos direitos de cidadania processava-se naturalmente até nos espetáculos de arte e diversões. Quando planejavam a fundação de uma liga de sapateiros e do clube dos barriqueiros, Xandô ouviu Tio Silva dizer aos cavalheiros na sala onde se reuniam:

     - Se tudo isto está acontecendo na província, imaginem nos grandes centros como São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro, sede da corte.

Vira-os, na primeira assembléia da Sociedade Protetora dos Operários, prestigiando o gráfico que discursara contra a jornada de dezesseis horas diárias de trabalho, falta de leis, e salários de fome.

Os clubes eram os centros da rebeldia cívica. Na capital e em toda a província, um ostentava o objetivo na própria denominação: Clube Republicano. Difundia-se a mensagem: "- Todo poder emana do povo e todos devem ser iguais perante a lei." Sociedades secretas secundavam a ação da maçonaria, e a cidade ganhara um grande aliado contra o escravismo e o latifúndio: o Exército. Comentava-se a insatisfação em suas fileiras, agravada com a proibição aos oficiais de se manifestarem pela imprensa, gerando a questão militar.

As aulas foram suspensas e, na manifestação no Teatro Tivoli, a multidão vibrou quando o major Solano anunciou:

     - Um grupo de jangadeiros nordestinos recusou-se a transportar escravos para navios negreiros. O líder foi recebido festivamente no Rio de Janeiro, homenageado na Escola de Tiro de Guerra, de Campo Grande, comandada pelo coronel Sena Madureira!

Presenciou com seus colegas Estácio e Rosendo, na Confeitaria do Pupe, o doutor Vítor explicar que os cafeicultores bandeavam-se para os republicanos e que suas fazendas eram diferentes das do Sul onde se criava gado e se apoiava a Coroa.

Ele e os amigos, por mais que se dedicassem aos estudos e se distraíssem nos passeios, nas festas, namorassem ou fossem banhar-se no Tanque do Bacacheri, acabavam envolvidos nos acontecimentos.

O Clube Iguaçu, fundado pelo Barão do Paraná, principal figura da província, tornou-se um ninho de republicanos encasacados. Um deles de batina, o padre Beto, carne e unha com o doutor Vítor.

De dia, Curitiba tinha as faces claras, empoadas de verde, mas à noite ocultava-as.

Uma sociedade secreta instalara-se na chacrinha do doutor Deleone no Alto da Glória. Na sala onde se reunia a confraria, notavam-se logo o retrato de D.Pedro II, a bandeira e uma arma parecida ao bacamarte. Tomada por símbolo, esta emprestou-lhe a denominação: Clube do Arcabuz. Os cavalheiros fundaram-no tomando rigorosas medidas de segurança, decidindo o exercício da presidência em rodízio. Ouviram todos a advertência, antes do juramento.

     - Não podemos esquecer: Arcabuzes, somos fora da lei. Há pouco tempo rezava um artigo no código: "E o que atirar com arcabuz de menos comprimento que de quatro palmos de cano, posto que não fira, morra morte natural." O Arcabuz nos lembra que não podemos falar nem falhar, corremos risco de desterro, prisão e morte. O auxílio aos escravos é punido até com vinte anos de galés - palavras do primeiro presidente.

O Clube do Arcabuz muito fez em favor dos negros, unindo civis e militares pela mesma causa, ramificando-se na clandestinidade. Fora responsável pelo assalto às carretas com as quarenta crianças que iam ser vendidas no Rio Grande do Sul. Cindiu-se quando começaram as divergências entre abolicionistas e emancipadores. O Barão do Paraná e simpatizantes monarquistas opunham-se a participação de líderes negros, a fugas e a medidas de força.

     - Sou um pacifista - justificava-se.

Deleone ainda tentou evitar a cisão, mas atribuía seus próprios ideais a D.Pedro II:

     - O Velhinho é, no fundo, um abolicionista. Com o Velhinho, o Brasil será o primeiro império socialista do mundo.

O que dissera não agradou nem ao Freitas, que viera de Paranaguá só para assistir à reunião:

     - O senhor está sonhando! - exclamou. Isto é um disparate. A República é o único caminho para o socialismo.

Em sua intervenção, o doutor Vítor chancelou as dissensões criticando os emancipadores e os partidários de utopias, propondo em tom exaltado:

     - Devíamos iniciar uma campanha de ultimatum ao Imperador: Abolição da escravatura ou República!

A dissolução ocorreu no momento em que, no Rio de Janeiro, o governo central expediu ordem de prisão contra o Arcabuz. A notícia provocou sensação na cidade, na expectativa da prisão de quem o governo achava que fosse um chefe republicano. A suspeita recaía sobre pessoas influentes.

Desde o Largo da Ponte até à Rua do Fogo, as pessoas indagavam:

     - Quem é o Arcabuz?

     - Sei lá!

     - O que significa?

     - Libertador de escravos, Arcabuz da Miséria.

Originara-se um brasão de vagabundo.

Os abolicionistas, de tendência republicana, fundaram a Ultimatum. Às vezes reuniam-se no casarão, confiando a vigilância ao terceiranista do Instituto Paranaense. Quem na Ultimatum mais o impressionou foi o palhaço Totó, o cavalheiro que liderou a fundação do Clube dos Girondinos e o Clube dos Avernos, este carnavalesco. Via-o animado e divertido, sem a roupagem de conselheiro - a fantasia espalhafatosa com a qual surgia de supetão no picadeiro. Tratava-se de Fernando Barreto. Um moço elegante, moreno claro, tão simpático e mirabolante que fazia darem cambalhotas os corações das moçoilas. Flechara o peito de Teresa, neta do Visconde de Taguaré, cuja família o detestava.

     - Um palhaço sem escrúpulos - bufavam os herdeiros da desativada Companhia Taguaré de Navegação.

Fernando Barreto nascera no Rio Grande do Sul, tornara-se paranaense porque os pais vieram dos pampas e abriram uma venda na Rua Ratclif. Ao fugir de casa e do Instituto, correu mundo num circo. Com antigos magos da arena aprendeu a arte e as piruetas que exercitava horas a fio. De volta - ainda era menor de vinte e um - teimou, armando a própria tenda. No princípio, o circo parecia de brinquedo. Tinha força de vontade, talento e confiança na criançada. Saía pelas ruas de cara pintada sob a cartola, alteado com pernas de pau nas quais se equilibrava, para atrair espectadores. Construiu-o aos poucos, costurando e remendando o pano, a juntar cadeirinhas de palha e tábuas na arquibancada. Por fim, de mastros erguidos, lanternas penduradas, estava pronto. No começo, além de cuidar da propaganda, de venda dos ingressos, da portaria, da administração, desdobrava-se como acrobata, equilibrista e... palhaço.

Alma circense, a razão do enorme sucesso. Contou com a colaboração de grupo de artistas amadores e com a banda da União dos Artistas. Não foi difícil a Tio Silva e a mestre Salvador obterem um empréstimo ao banco para que comprasse a lona, um novo mastro, arquibancada em semicírculo, camarotes e cadeiras. Fez de uma das crianças raptadas das carretas na estrada de Castro o seu principal coadjuvante, um palhacinho negro, Otelo. Os dois anunciavam as funções com grande alarde numa carrocinha de duas rodas puxada por um burrico. Assim topou-os Xandô, ao voltar do Instituto para casa. Chovia gente para vê-los, Barreto de alto-falante e exibindo enorme cartaz, Otelo batendo bumbo, ambos pintados a caráter. Na ocasião, o burrico assustou-se e a viatura virou no córrego sem causar vítimas, na maior comicidade.

Fernando Barreto antecedia os irmãos Queirolo e queria modificar o mundo em Curitiba. Uma vez foi chamado à polícia porque entrou de bacamarte no picadeiro. Dava tiros de pólvora em extras encartolados que fingiam de mortos.

     - É o Arcabuz! - exclamava, alongando com muita graça a última sílaba.

Ridicularizara o caso do clube e a ação das autoridades, mas o capitão Solano foi pessoalmente ao prédio da câmara e cadeia pública para soltá-lo.

No pavilhão, ao qual deu o nome de Circo Imperial, podia encenar maior espetáculo. Já não era o único artista e num circo de brinquedo. Além do coadjuvante, que exercitara na arte, contratava amadores e profissionais. Na parte de variedades, o público ficava atento às exibições de malabarismo, acrobacia, equilibrismo e aos números musicais. Encerrava-a a doma. Oferecia-se um prêmio em dinheiro a quem montasse e dominasse o burro xucro. Atirados a corcovas, os candidatos acabavam suspensos no ar pela corda que lhes envolvia a cintura, passando pela roldana ao alto, com o palhaço segurando a outra ponta.

Com tempo bom, o circo enxameava aos sábados e domingos. À tarde e à noite, os troles não paravam de despejar os espectadores. Defronte à bilheteria, vendiam amendoim torrado, pinhão cozido, doces e pastéis de banana. Lá dentro, o Canjeiro a passar com seu tabuleiro, oferecendo:

     - Balas e chocolates!

Os espectadores igualavam-se nas arquibancadas. Nas sessões, diluíam-se as classes e, embora os mais abastados ocupassem camarotes e cadeiras numeradas, ali todos compunham apenas o público.

Na estréia do pavilhão novo, o Circo Imperial virou um formigueiro humano de lona. O povo se comprimia nas dependências. Nos camarotes não faltaram as famílias do Visconde Taguaré, do Barão do Paraná, do Barão dos Campos Gerais e outros figurões do regime. No do Visconde se encontrava a sua neta Teresa, sinhazinha nobre, proibida de apaixonar-se por um plebeu, o palhaço.

No camarote reservado à família de Tio Silva, ao lado daquele ocupado pela do capitão Solano, viram-no surgir no picadeiro, eletrizando o público.

     - Totó! - riam até do nome.

Totó causava impacto com sua expressão de pasmo, bobice e irreverência, o rosto pintado e suspenso pelo colarinho. Arrastando a casaca, puxava as calças e, de passos alongados pelos sapatões de pano, punha à vista os remendos no traseiro. Uma sátira viva da sociedade imperial que ria de si própria. Malhava-a realçando o ridículo na caricatura, no espalhafato, no volume do traje, nos gestos, na entonação de voz. Fundia no tipo o plebeu e o nobre, o nababo e o vagabundo. Disfarçava o acinte com o ar envergonhado, encolhendo os ombros. De cartola e bengala, sacudindo o cordão ao qual prendia a cadela de pano, atiçava-a:

     - Pula Violeta, pula!

Otelo entrava correndo na arena para abaná-lo com enorme leque, descalço, de camisa e calças rotas, chapéu de palha. Sobre ele saltava violeta, obedecendo a Totó. Mais de uma vez, este perguntou:

     - Estão rindo de mim, dele, de Violeta ou de vocês mesmos? Ou é daqueles? - apontava autoridades e abrasonados.

Voltando-se para Otelo:

     - De que cor é o palácio rosa do Barão do Paraná?

     - Azul! - o circo quase veio abaixo, e todos os olhares se dirigiram à Baronesa de queixo erguido, envaidecida.

Entre cambalhotas, a roupa folgada e leve esvoaçando, Totó sentava-se à mesa fazendo Otelo abaná-lo, tirar-lhe e por-lhe as calças e os sapatos, dar-lhe a sopa na boca, inventando ditos engraçados que tomaram conta da cidade:

     - Eu quero sopa...é de colher! Vou ter que vender esse negrinho. Já fui barão, conde, marquês... - eu sou Conselheiro do Rei! Pula Violeta, pula!

O espetáculo encerrava-se com atos cômicos de puro teatro. Mas Fernando Barreto, o Totó, criou números que marcaram época. O da Berlinda, por exemplo. Mas o de maior impacto foi o dos puxa-sacos. Anunciado por um pelotiqueiro, num calhambeque gracioso, chacoalhando, à guisa de coche real e puxado por um burrico, entrava na arena provocando grande estardalhaço.

     - Chegou o Grão-Duque!

Com destino ao palácio, Totó desembarcava com sua bagagem, um saco enorme e pesado. Ao cercarem-no, paparicando-o, transformavam o palco num pandemônio, um empurrando o outro na disputa da honra de carregar-lhe a bagagem, cada qual puxando o saco para o seu lado. Voltando-se ora para um, ora para outro, Totó exclamava com a autoridade de momo:

     - Sai de mim, puxa-saco!

A Berlinda homenageava quem se destacasse por exemplos de vida, beleza e generosidade. A primeira convidada deixara estupefata a própria família, surpreendida no camarote. Teresa, a neta do Visconde de Taguaré, desceu da carruagem numa cena em que Totó supunha haver quebrado as resistências a seu namoro. Revezavam-se na berlinda heróis humildes, mães negras ou brancas, um soldado raso, um escravo, um operário e até empreendedores como "Herr" Leitner ou "Herr" Louis, um hoteleiro, outro cervejeiro. Luzia também fora muito aplaudida, a exemplo da bela Maria Conceição.

O número despertava expectativa na cidade. Quem será que irá à Berlinda? - perguntavam-se os moradores. Na hora, Totó aumentava-lhes a curiosidade: - Adivinhem quem está na Berlinda?

As borrascas quase causaram o naufrágio de seu barco mágico, às vezes atracado noutros portos. Dificultavam-lhe o pagamento das dívidas.

     - Em tempo de procelas, arriar velas - rimavam no barco de pano, ancorado no largo, pouco distante do da Ponte.

Num dos cruzeiros é que o palhaço ficou com fama de ladrão de mulher. Teresa completou maioridade, fugiu de casa na berlinda, e se casaram na Palmeira, desafiando os Taguarés. Após o regresso, com tanta caixeta de doces em casa, tiveram a idéia de atrair a criançada, distribuindo balas de goiabada e marmelada. Então nasceu o reclame do palhaço qual cantiga de rua:

     - Hoje tem marmelada?

     - Tem, sim senhor.

     - Hoje tem goiabada?

     - Tem, sim senhor.

     - E o palhaço o que é?

     - É ladrão de mulher - respondia em coro o cortejo.

No circo, palco da cidade, as classes eram o povo. A burguesia salientava-se mais no teatro. O Teatro São Teodoro é o maior da província e um dos mais luxuosos do Brasil - comentava-se com orgulho.

Se Totó fazia com que Xandô se lembrasse do Circo Imperial, Mestre Salvador levava-o a meditar sobre a Ultimatum. Na Rua da Assembléia, antigamente chamada a do Jogo da Bola, erguia-se o imponente sobrado de três portas envidraçadas, encimadas por balcões de grades de ferro e oito janelas. Atrás dos panos-de-boca - a cortina e outro de anúncios - havia onze camarins separados por biombos. Duas ordens de camarotes com duzentos mochos de palhinha envernizados, e uma terceira servindo de galeria com quarenta bancos sem encosto. No camarote de gala, cadeiras de braços e uma lâmpada pendente. Entre o palco e a platéia ficavam os músicos, entre os quais Benedito, aluno no curso de contabilidade, o qual falava em compor uma opereta. No salão o espelho, a mobília estofada, um sofá, meia dúzia de cadeiras e um belo candelabro. A platéia se iluminava com vinte e quatro lampiões belgas e vinte bocais de luz na rampa. Em cima existia um salão de pintura com luz de quatro lucernas.

Palco do mundo chique, com suas damas e cavalheiros, surgira por obra de aficionados que fundaram no Lindman uma sociedade teatral beneficente. Aberto ao público, houve marche au flambeau, um "Anjo da Liberdade" - a senhorita Judite Requião - empunhou a bandeira imperial.

Mestre Salvador podia ser confundido com São Teodoro que emprestara o nome a casa. Ele próprio resumia sua história:

     - Sou cenógrafo, pintor e escultor. Há mais de cinco anos fui contratado para fazer a decoração e terminei-a em três anos.

Correra que não possuía o curso completo de pintura, e um professor de desenho não o poupava:

     - Mestre Salvador não entende de arte. Pintou a cortina onde o panorama representado não possui perspectiva e é de péssima qualidade.

Com o sotaque de além-mar, não se cansava de rebater:

     - Sou detrás os Montes. Eduquei-me no Porto. Fiz também curso de modelagem e escultura.

Os comentários tinham lugar no próprio teatro e não cessavam, até que publicou no jornal:

"O pano-cortina não foi por mim pintado. O teatro só tinha uma cena por mim pintada na saleta nobre. O que haveria de executar seria a saber: uma sala régia ordem coríntia, estilo Luiz XIV; uma sala nobre (fantasia); uma marinha; um jardim (fantasia); um cemitério (cena noturna) fantasia; uma montanha; um claustro masmorra de Castela, ordem jônica, estilo Luiz XIV - um pano-cortina e seus acessórios, para o arco do proscênio, representando uma parte do Passeio Público do Rio de Janeiro; ou a fachada do gabinete português de leitura erigido à memória de Camões, estilo manoelino."

Erecto e magro, de ombros largos, impunha-se com o dolmam fechado à golilha, colarinho branco contrastando com negros bigodes de pontas para o alto. Ainda não deixara crescer a barba. A loura Mariana, eleita musa no Clube Concórdia e princesa no Thalia, sua aluna e namorada, participava dos ensaios da peça "O Lobisomem", apoiando-o sem entendê-lo. Prestigiando-o, professores do Instituto sugeriram aos estudantes uma visita à Escola de Artes e Ofícios que fundara. A turma de Xandô entrou no salão nobre em que se lia:

     "- No templo da Arte não há plebeus."

De capa espanhola forrada de seda, ar de pintor exótico, mestre Salvador explicou:

     - Para um artista não existem senhores e escravos, ou plebeus, todos os homens são nobres. Nobres no sentido sublime da palavra.

Deitou verbo:

     - Napoleão traiu a revolução, Beethoven move guerra à tirania armado de música, pois o artista é um conspirador, um revolucionário.

Xandô tornou a vê-lo quando, numa reunião no casarão, referiu-se ao doutor Deleone:

     - Caluda! Nunca vi anarquista defendendo um império. Artista tem de ser republicano.

A política dominava a capital, invadindo-lhe as casas e as ruas. A repressão perdera a força, pois nem mais aos proprietários interessaria a escravatura. Os que ainda possuíam alguns negros, em face da queda do mercado preferiam uma indenização em dinheiro do governo. Doutores, filhos de fazendeiros, engrossavam a burguesia, interessada em mão de obra livre. Na província, cessavam os riscos de acompanhar os abolicionistas e os próprios republicanos, pois militares tomavam tal posição, a exemplo dos capitães Solano e Teles, ambos da cavalaria. O primeiro foi eleito presidente do Clube Militar. Uma conspiração assumia cada vez mais o caráter antimonárquico.

Embora a questão militar e a questão religiosa fossem apenas manifestações de superfície, tanto o Exército quanto a Igreja se achavam divididos e já não sustentavam suficientemente o regime. O capitão Solano declarou-se disposto na Ultimatum a depor o governo. Não adianta sonhar com uma transição pacífica - dissera Tio Silva. Na ocasião, sugeriu que alguns monarquistas, favoráveis à abolição, poderiam ser atraídos à campanha republicana, citando o Barão do Paraná, o qual liderava um movimento de comerciantes e de carroceiros contra impostos e fretes ferroviários. A idéia provocou imediata reação de um dos presentes:

     - É ele o maior inimigo!

Constantino odiava-o. Filho de um almirante, Constantino culpava a mãe pelo assassinato do pai, cometido pelo amante, o próprio irmão. Viera de Porto Alegre e se empregara na firma do Barão, na qual dera desfalque. Descoberto e despedido, respondia processo de falsário.

Um fato assombrou a cidade. A Ultimatum organizou o protesto contra a discriminação e a falta de serviços aos alforriados. Estava para explodir uma revolta no Morro dos Enforcados, um quilombo. De sobreaviso, a polícia se preparou para invadir a área. O capitão Solano colocou o esquadrão de prontidão para evitar um massacre, porém um milagre evitou o confronto. Não possuíam armas os negros quando se alvoroçaram na noite:

     - São Francisco! São Francisco! - saíam das casas para vê-lo subir a trilha do Morro dos Enforcados.

O luar banhava-lhe o vulto esguio e as barbas de um monge que de frade não tinha nada. São Francisco vinha avisá-los transfigurado no monge sem hábito, de calças e paletó de brim rotos. Um outro São Francisco, o Anastás Marcaf sumido do Bacacheri, ele próprio transmudado em João Maria. Na sua primeira aparição, a primeira que deu origem às lendas dos monges, aconselhou os aquilombados que o acompanharam até o alto:

     - Vim abençoar e salvar vocês de uma desgraça. Voltem e não saiam de casa, prá não caí numa ratoeira.

O recado divino, seguido de coriscos na madrugada chuvosa, espantando a polícia, foi providencial. A paz voltou ao morro que mudou de nome, homenageando São Francisco.

Quando o doutor Vítor perdeu a cadeira que lecionava, entraram em greve os estudantes do Instituto Paranaense. Embora os liberais ocupassem cargos no governo do Partido Conservador, viu-se perseguida a ala radical. As palestras dos publicistas como o doutor Vítor agitavam a província. O escritor Rocha Pombo fundara jornais em Morretes, Paranaguá, Castro, Ponta Grossa e na Capital. Desde a existência do "Livre Paraná", dos maçons da loja "Perseverança" de Paranaguá, recrudescera a campanha republicana. O doutor Vítor não voltou a lecionar e foi abrir sua banca de advocacia em Ponta Grossa, preparando-se para as eleições à Assembléia.

Depois que a Ultimatum cumpriu seu papel, enraizando-se na província,  as visitas no casarão foram o resultado de uma sólida amizade entre as famílias de seus membros. A burguesia imitava a nobreza nos salões, tomando-lhe as posições na cidade. A elite que se reunia no Clube Iguaçu, presidido pelo Barão do Paraná, não era nobre, porém burguesa. Nela tanto havia católicos republicanos liderados pelo padre Beto, como hereges interessados em restaurar o pitagorismo, ou maçons da loja secreta "Luz Invisível". Nas sessões cívico-literárias do "Cenáculo", não havia lugar para a insignificante minoria monarquista. Divertia-se a moçada. Os mais adiantados publicavam versos românticos no jornaleco, exaltando "fitas nos cabelos", "tranças louras", "braços de alabastro", rimando anjo louro com tesouro, coisas assim de provocar suspiros. Ao inspirar quadrinhas melancólicas, a "pobre menina" que vendia pastéis à entrada do prédio casou com um dos presidentes.

Xandô freqüentava-o, agora que vestia calças compridas, paletó bem abotoado, laço de cor e terno azul-marinho nos fins de semana. Nenhum jovem de cidade usaria botas de gaita, bombachas e pala de pontas franjadas. Não faziam boa figura os cavaleiros de esporas ajustadas ao tacão das botas, relho nas mãos, surrando os cavalos, tirando faíscas do chão em que pisavam. Ele, Estácio e Rosendo costumavam assistir às retretas, aguardar as saídas de missas e dos colégios de meninas. Namoravam no Chafariz, nos piqueniques e danças ao ar livre.

Otelo também era seu amigo e, com a turma, ia nadar no Tanque do Bacacheri. Aos domingos de sol divertiam-se chiques no Passeio Público. Fora inaugurado há pouco tempo. Na festa da primeira lâmpada elétrica, o meio do parque estava iluminado por um foco rodeado de lanternas japonesas, quando mal dava para se mexer no meio de tanta gente. O Passeio Público e os clubes eram o encanto dos jovens. Até à tardezinha flertavam à beira do lago, ouvindo as valsas de Ivanovicki. Sinhazinhas modernas, urbanas, dirigiam-se de braços dados para os clubes, passando pelo casario dos alemães e evitando a Rua do Fogo. Esvaziava-se a Praça D.Pedro II, agora assim chamada, tal como a Rua das Flores que recebera o nome de Imperatriz. As senhorinhas vinham em bandos, seguiam-nas os rapazes por toda parte, a ponto de rondar-lhes as casas. As que subiam as escadas do Clube Iguaçu, divertiam-se tocando piano e dançando. Despertavam paixões secretas. Xandô namorava à traição Belinha, a qual o cobria de esperanças dos olhos verdes, virando-se para trás.

     - Deu uma "queimadinha"... - mal acreditava.

Estácio e Rosendo se encantaram com uma moça de Morretes que viram uma única vez. Descobriram-lhe o nome: Maria Conceição.

     - Um anjo! - suspiravam.

Dia de grande emoção foi o da inauguração dos bondinhos de burros. Xandô encheu-se de coragem e sentou ao lado de Belinha, a qual fez as duas irmãs ocuparem o banco da frente, burlando a vigilância do pai. Às onze horas, o vagãozinho partiu do barracão onde ficavam as baias, na Rua da Liberdade. No da frente, abancaram-se o presidente da província, o chefe de polícia, o tenente-ajudante e representantes dos jornais "Dezenove de Dezembro", "Diário Popular", "A República" e "Gazeta Paranaense". O fiscal Moura e sua mulher, pais de Belinha, ali estavam entre vários políticos, inclusive o Barão do Paraná e o juiz Silveira, que conversavam animadamente. No segundo, acomodou-se a banda do corpo de cavalaria, cujos comandantes se achavam entre os presentes. Estreando o uniforme, os condutores deram início à carreata. Eram quatro os veículos e, no detrás, Xandô e Belinha viam os burrinhos com asas, pois se sentiam no ar. Suas mãos se tocaram a caminho do Boulevard Dois de Julho, onde ficavam os Moinhos Imperiais do Brasil e a mansão do comendador Fontana que preparou recepção com música. Enamorados, a festa lhes parecia sua e de mais ninguém. Tudo coincidia em seu favor, como o fato de haverem sido Tio Silva e o fiscal Moura os que mais se empenharam para que Boaventura Clap levantasse o capital e pudesse formar a sociedade por cotas. Assim permaneceriam com suas famílias até o fim dos festejos. De pé, Belinha encostou-se em Xandô, que ao sentir-lhe o corpo e roçar-lhe os cabelos, também não prestou atenção ao discurso do presidente a elogiar o senhor Boaventura.

     - Ah! que boa ventura...- sussurrou-lhe ao ouvido.

Um colóquio de olhares, sorrisos e poucas palavras. Imaginavam o que não diziam. Ele lembrou-se até de um passeio à Serra da Graciosa, do Véu da Noiva, uma cascata, mas os cabelos de Belinha eram dourados a caírem sobre os ombros. Quando os vagõezinhos tomaram a direção do Batel, pela Rua Mato Grosso, precedidos pelos lanceiros da cavalaria, confessaram-se apaixonados, as vozes abafadas pelos dobrados da banda musical. A festa era realmente deles. Recebiam-nos as flores, as palmas, as girândolas, o resto um cenário. Ainda que no Batel houvesse um brinde a S.M. o Imperador, e aplausos aos oradores.

No regresso, os capitães Solano e Teles vieram em seus corcéis à frente da tropa que ponteou a carreata. Aplaudiram-nos dos balcões e nas ruas. Pela primeira vez, ouviram-se gritos com alusões aos belos uniformes:

     - Os pica-paus! Os pica-paus!

À tardezinha, a banda União dos Artistas partiu de bonde para o Batel, onde havia dança em várias casas. Os mais jovens preferiam a música nova, sincopada. Mas predominaram a valsa e o xote. Afinal, os dois se esqueceram do mundo, perderam o último bondinho, admirados quando Tio Silva e o fiscal Moura reuniram as famílias nas carruagens.

Comentou-se muito o acontecimento, todo mundo feliz. Só não foram lembrados os burrinhos.

Depois disso, Xandô estreou o traje a rigor no dia seis de janeiro, aniversário do clube fundado pelo Barão do Paraná. O grande evento teve a participação do Cenáculo e do Grêmio das Violetas. Alberto e Cecília, que vieram passar férias em Curitiba, atraíram as atenções da moçada.

Na sessão da tarde, os presentes cantaram em pé o hino do clube. O presidente procurou ser breve.

     "- Precisamos reunir os literatos do Paraná, publicando um jornal com o objetivo de elevar o espírito e o coração, a inteligência e o sentimento" - salientou o propósito.

Apoiaram-no os já adjetivados "poetas primorosos", "jornalistas talentosos", "advogados fulgurantes", "oradores eloqüentes", "escritores de grande cultura e sensibilidade". Inchava de orgulho na platéia quem já tivesse um poema, uma crônica, uma nota num órgão local. E se um remendão ali surgisse com um soneto de sua própria autoria, talvez fosse admitido como sócio. Imagine-se, pois, a emoção da maioria dos presentes ao surpreendê-los o presidente com o primeiro número do jornal já publicado. Moças do Grêmio das Violetas colaboraram com "páginas vertidas do coração, pinceladas em tardes de saudade", crônicas "molhadas de pérolas de pranto". Uma delas leu em voz alta o "despetalar de lembranças viventes". O jovem filho do professor esotérico, também iniciado em Teosofia, ocultismo e doutrina pitagórica, foi muito aplaudido ao encerrar seu discurso:

"...Esta é uma plêiade esforçada para que a juventude não se enfarte de chope, nem se apouque por antro de tavolagem, por tascas e bordéis, onde menos ficam as pratas que o ânimo; não se arrefeça, indiferente na penumbra o beauceant simbólico, enquanto corvos e morcegos se abatem na Arcádia brasileira, a enegrecer-lhe as campinas, a sugar-lhe as seivas, ébrias de ganância, vorazes de ignorantismo. O Cenáculo quer o "Sentimento pelo Sentimento e a Verdade pela Verdade"."

Explicou que sem fundar uma escola, tal era o lema do jornal.

A assistência parabenizou os autores, dissimulando o desinteresse por suas qualidades. Entre eles, criticado pelas costas, estava o autor de "Visões", de um livro de contos e poesias e mais o romance "No Hospício". Certamente, achavam que colonizar o Vale da Ribeira e possuir uma rede de açougues desmereciam-no para as artes.

Gente importante de outras cidades participou das comemorações da fundação do clube. Foram muito cumprimentados os doutores Glória e Vítor Machado, que vieram de Ponta Grossa, ou Soares Gomes, chefe político em Morretes, autor de uma peça com a estréia marcada no Teatro São Teodoro.

A sessão cívico-literária do Cenáculo encerrou-se com D.Zilie ao piano, tocando a Marselhesa.

Já passavam das cinco quando o Grêmio das Violetas realizou o concurso de Rainha da Beleza. Estácio e Rosendo viram Maria Conceição em companhia das filhas de um comerciante italiano e quase perderam a fala.

     - Se ela for candidata, já se conhece o resultado - convinham os votantes.

Mas as duas irmãs, remoendo a inveja, informaram à mesa que Maria Conceição não passava de uma criada. Evitando um incidente desagradável, a diretora anunciou:

     - Só poderão concorrer ao título de Rainha as filhas de sócios, pertencentes ao Grêmio. A vencedora será coroada à noite no grande baile.

Alberto há dias se exibira ao piano, conquistara as "violetas", enquanto Cecília atraíra as atenções do cadete Mendes Carvalho, em férias.

O resultado da votação foi recebido com poucas palmas, e quem exultou foi um colega do Instituto, cuja namorada venceu Iaiá e Maricota. Estácio e Rosendo, sem saberem por que Maria Conceição não se candidatara, enviaram-lhe um bilhete:

     "Você, sinhazinha, não é Rainha,

     nem Princesa, é mais ainda: Santinha."

À noite, as carruagens despejaram a elite chique, cavalheiros de casaca e cartola, damas de fina seda, chapéu e xale. Graduados da guarda nacional, nem sempre elegantes, arredondados, arrastaram suas matronas escada acima e no salão engalanado. Viam-se funcionários, doutores, militares, professores e estudantes, gente do comércio, e suas famílias. Moças bem cinturadas, de anquinhas como cálices ou taças de pura seda virados para baixo. Jovens casais e pares enamorados dançaram a primeira quadrilha. À frente vinha o presidente do província e sua corte, lembrando a cena de Totó no Circo Imperial. Xandô só dançou a primeira quadrilha com Belinha, a qual debutando não pode recusar o convite de tantos admiradores. Desenxabido, ficou bebendo chope com Estácio e Rosendo. Mas entre paixões efêmeras de pares, nasceram romances duradouros, de final feliz, como o do cadete Irani e sua prima. Porém o que mais chamou atenção foi o de Mendes Carvalho, da Escola Naval, e Cecília. As irmãs que não permitiram mais a companhia de Maria Conceição, pousaram de castigo em suas cadeiras, enquanto até mesmo as gorduchas se divertiram espremidas nos espartilhos. O programa fora inserto no convite:

 

"             I

1° Quadrilha

2° Lanceiros

2° Polca

3° Valsa

 

              II

1° Valsa

2° Xote

3° Quadrilha

4° Quadrilha

 

              III

1° Valsa

2° Valsa

3° Mazurca e Cotilon."

 

Cacarejavam na galeria. Tesoura na língua, titias e velhotas fiscalizavam o salão. Vasculhavam-no catando quem pudesse desairar. Bisbilhotando, entravam no ritmo de festa, faziam parte dos clubes. No baile esqueciam-se as rivalidades. Pelo menos, rodopiando. Solano, promovido a major, parecia comandá-lo, o casal muito cumprimentado. E apesar de Glória e Vítor Machado, não pareciam divididos os associados.

Se Alberto não perdeu uma só contradança, o mesmo não aconteceu a Xandô e seus amigos, pois as mocinhas comprometiam-se com os admiradores de mais idade.

Os jornais "República" e "Dezenove de Dezembro" noticiaram que a "fina flor curitibana comparecera ao monumental baile, no qual fora coroada a Rainha da Beleza". Lia-se que Belinha, menina-moça, debutara linda de saia godê com anquinhas, saia de bailarina, blusa de rendas, os tons verdes realçando a beleza loura. Uma nota desagradara a Rua do Serrito porque dera como certa a vitória de Maria Conceição, se houvesse concorrido ao título.

Xandô, Estácio e Rosendo decerto se sentiram menosprezados. Tinham de mostrar que mereciam as atenções das sinhazinhas. Xandô teve a idéia da façanha. Ao clarear o dia, os três embromaram de tal modo o crédulo guardião das baias, dando-lhe folga e prometendo-lhe aumento de ordenado, que saíram com dois bondinhos causando a maior estripulia nas ruas da cidade. Ao fim da brincadeira, choveu gente às janelas quando desatrelaram os burrinhos, debandando-os entre os transeuntes. Nunca se viu tamanha algazarra, e tiveram de dar satisfações na delegacia de polícia onde foram buscá-los os responsáveis.

Tio Silva defendia-os das recriminações:

     - São os moços que vão mudar o mundo.

Talvez o mundo é que mudasse os moços, abrindo-lhes novas perspectivas de vida. A máquina a vapor movia a urbe e tudo girava em torno da erva que a borrifava de verde. A roda de chimarrão, circulando mundo afora, tinha seu início no porongo paranaense. O Visconde Taguaré tornou-se um dos capitalistas, explorando o ramo. Os três se achavam no Café Glória e viram-no apontar para um carroção de barricas cheias de erva, exibindo-se:

     - São de ouro em pó. A erva-mate é a maior riqueza da terra e alimenta o comércio em geral.

Gabou-se das marcas que citava, mas não de "Teresa", nome da neta que tratou de excluir dos pacotes.

Aprontaram mais uma ao mandarem pôr no jornal o anúncio de uma nova marca de erva na praça: "Totó".

Ao contrário do primo que desistira do curso, Xandô alcançou a última série. Enriqueceram-no as experiências no casarão, no Instituto, na Curitiba. Tornou-se homem a criança de franjinha e cabeça pensa, o menino de pernas duras comandando a molecada. Liderando as artes dos rapagotes, escondia-se entre os ombros, do mesmo jeito. Ele e os jovens de seu tempo, o homem novo que não descrê, o homem novo no país virgem do planeta. Um sentimento divinatório levava-o a acreditar em fraternidade, num futuro de direitos iguais para todos.

Às vezes parecia sisudo, porém não perdera a meiguice. Sensibilizava-o o sofrimento de um companheiro, como de um negro ou um pobre. Com seu modo de tratar as pessoas, conquistava-as. No casarão os tios, a preta Balbina, Clarinha, Luzia, Genésio. No instituto os colegas e até os professores. Nas ruas o povo. Propenso ao perdão e ao arrependimento, se chorava escondido no quarto, num instante recuperava o ânimo, revigorado - não se sabe como - com uma carga de energia. Foi um dos convidados por colegas de outras séries a participar das reuniões da sociedade secreta "Os Mosqueteiros". Comprometiam-se a lutar pelo bem. Viam-no na vida e na natureza, tinham extraordinária visão da realidade. Todos eles irradiavam otimismo, uma contradição com a enxurrada pessimista das publicações literárias. Afinal, o romantismo se firmara por este lado falso e negativo no mundo.

Ao passar de ano e perder uma aposta no colégio, conduzido pela turma ruidosa, Xandô escandalizou de novo a cidade, tomando banho de ceroulas no Chafariz. Lá se reuniam os namorados. No carnaval, lá se enchiam as bisnagas, seringas, para esguichar água nos conhecidos. O povo se divertia nos bombardeios de farinha, laranjinhas e limões-de-cheiro. Todos se igualavam nas ruas, as moças formavam blocos, cordões saíam de cafés e confeitarias. À noitinha, o corso. Os cavalos atolavam-se em confete e serpentina, puxando os carros ornamentados dos clubes e dos foliões. A Rua da Imperatriz se estreitava para tanta gente. Os bailes de fantasias, muito concorridos, terminavam na Quarta-Feira de Cinzas.

As visitas e a prosa solta na sala constituíam vestígios ainda da Ultimatum. No inverno, a cuiada quente, pinhão assado na chapa, fogo de nó-de-pinho. O major Solano, que comparecia com a família, mulher e duas filhas, concordou com a formação de uma confederação abolicionista que congregasse todos os clubes.

A mão escrava já não trabalhava a erva. Engenhos bem equipados com misturadores, condutores, jogos de pilões, ocupavam prédios em grandes áreas e exibiam nas dependências prêmios de exposições internacionais de suas marcas. Empregavam trabalhadores livres. Ao misturarem outras folhas ao produto, os senhores por pouco não perderam o mercado. Aprenderam a lição, deixaram de falsificá-lo, superando o impasse com Chile, Argentina e Peru. Não tardaria a ser instalado no Batel o Engenho Iguaçu, com maquinismos modernos, aperfeiçoados, que exportaria para Europa e Estados Unidos. Seriam empacotadas marcas famosas como "Uruguai", "Ventura", "Idília", "Blanca" e "El Tigre". Além de empregar quarenta operários, daria serviços a despachantes, barriqueiros, carroceiros e volantes. Disporia de energia elétrica, força motriz e de bondes numa avenida particular.

As folhas da caá transformavam-se no ouro da província. Esta progredia. Capital do mate, possuía de tudo, comércio de atacado e a varejo, hotéis, pensões, cervejarias, cafés e confeitarias, colégios, instalações militares. Já não havia necessidade de seus intelectuais correrem atrás de fama no Rio de Janeiro. Redigiam jornais e revistas. Muita gente nas ruas, nos logradouros públicos, soldados defronte aos quartéis para onde se dirigiam vendedores ambulantes, cavalheiros na Rua da Imperatriz assistindo ao passeio das mulheres às compras. Suspiravam ao sentir-lhes o perfume francês e esqueciam a sujeira dos cavalos. Troles pelo centro e muitos carroções parados em pontos como o Largo do Mercado. Continuavam transitando nortistas em busca de nova vida no Sul, viajantes, compradores de erva, negros e madeira. O movimento passava por armazéns, vidrarias, selarias, farmácias, tamancarias, consultórios, escritórios, depósitos, cocheiras. Xandô não perdera o hábito de entrar num barracão de ferreiro, numa funilaria como a do italiano Gravina, ou de parar numa calçada para ver o amolador tirando faíscas do rebolo. Fora do centro, viam-se monjolos, curtumes, olarias, vários engenhos, tudo numa cidade rodeada de chacrinhas.

A par da indústria do mate, desenvolvia-se a da madeira. Com a imensidão da floresta, nem Cleto da Silva poderia imaginar que veria tombar o último pinheiro. As serras-fitas vomitavam montanhas de serragem em Irati, Fernandes Pinheiro, Ponta Grossa e São José dos Pinhais. Mas fora a pecuária que formara a oligarquia e sua fortuna.

O que se ensinava na escola dizia nas revistas e nos jornais:

     "- A erva-mate ocupa grande extensão de terras particulares e públicas. Uma vez escolhidas as folhas, secas ao fogo e ligeiramente malhadas, são levadas aos engenhos. Aqui, velhos e moços, homens e mulheres ocupam-se da congonha, socando o mate. Mais da metade da renda provém da erva."

As árvores nativas, desde Curitiba, acompanhavam os pinheiros por toda parte. Os maiores ervais ficavam nas matas do Triunfo, Carrapatos, Ipiranga, nos vales dos rios Iguaçu, Negro, Ivaí e Paraná. Não davam nos campos, e até no rio Tibagi se construiu um porto para transporte, nas proximidades de Ponta Grossa, centro das carroçadas. Apesar do caminho de ferro para o litoral, continuava o vaivém na Serra da Graciosa, porque eram muito caras as tarifas da companhia, gravando o produto.

Barões do mate passavam a comandar os negócios e a vida na província. O Barão do Paraná, camarista do Partido Conservador, encabeçara a campanha do cavalo contra a máquina. Reivindicando a intervenção do governo, opunha-se à ferrovia para favorecer a classe dos carroceiros. Desde a revolta do comércio, quando o corpulento Treme-Terra se colocara à frente do povo, os conservadores aliavam-se aos republicanos. Representavam uma classe mais progressista da cidade, enquanto os liberais tinham raízes no latifúndio.

Em todas as bocas, o mate predominava como assunto e bebida. Discutia-se qual a melhor marca empacotada. Entendidos gabavam-se de melhor gosto e de serem melhores provadores. A riqueza que proporcionava refletia-se no luxo das patronesses com casacos de pele, xales e estolas de lontra, acompanhando os maridos ao teatro. De gandolas se agasalhavam os militares. A renda dos espetáculos já não revertia para o pagamento de alforrias. Houve bailes nos clubes e várias sessões no Circo Imperial para arrecadação de fundos. Os donos de escravos não tinham de que se queixar:

     - No Paraná não se perdem os escravos. Ainda se ganha algum dinheiro quando se vão embora.

À porta dos hotéis, os forasteiros admiravam-se:

     - Isto aqui parece um outro Brasil, um país onde até o preto loureja.

O Barão presidiu reuniões políticas no Teatro São Teodoro quando, liderando grupos rivais, Vítor Machado e o doutor Glória compareceram para dividir a província. Na mais movimentada, Vítor Machado interrompeu-o de pé no camarote:

     - A República bate às portas para abolir a escravidão e reconhecer a todos o direito de cidadania. É uma vergonha admitir a indenização em dinheiro, o que significa a venda pura e simples de escravos ao governo. Por que se concedeu, por decreto, liberdade ao negro que partisse com sua mulher para morrer na guerra em lugar dos brancos? De cada trinta soldados, vinte e nove são negros. Por que Sua Majestade não pode, agora, conceder-lhes a liberdade para viverem em paz?!

     - Muito bem! Bravos! Apoiado! - interrompiam-no.

Uma parte da assistência vacilou, sem saber a quem apoiar, no momento em que o doutor Glória pediu a palavra no camarote do lado oposto, chamou de traidores os liberais que atacavam o governo central, defendendo D.Pedro II:

     - Foi o Imperador que persuadiu Rio Branco a assumir responsabilidade pela lei do ventre livre. O escravo tem o direito de pagar por si próprio o seu preço. O estado paga alforria com fundo oficial. É justa a indenização e, se vier a República, o Brasil não pode esquecer a dívida da Independência para com D.Pedro I, nem a liberdade concedida por D.Pedro II aos voluntários negros.

Aplaudiram-no, porém num debate ninguém vencia Vítor Machado:

     - Voluntários caçados e amarrados, oferecidos em lugar dos filhos dos escravocratas? Foi o patriotismo de D.Pedro I que o levou a transferir a dívida de Portugal ao Brasil, pagando um milhão de libras esterlinas à Inglaterra? D.Pedro II é muito bom Velhinho - ironizou - mas os senhores já imaginaram se a coroa vai para a cabeça do Conde D’Eux, o francês que instituiu a degola como lei de guerra?!

     O povo fazia do teatro um centro de decisões do país e do mundo. Até o exército se dividia lá dentro. Com a discórdia semeada pelos oradores, ninguém entendeu ninguém quando, ao discordar do tom conciliatório do presidente da reunião, o doutor Glória esbravejou:

     - Canalha! É preciso acabar com essa camarilha que quer se apossar do poder!

A troca de insultos e empurrões terminou na rua, onde os mais exaltados atracaram-se a bengaladas. Xandô ficou ao lado de Tio Silva, o qual apartou briga e segurou Constantino que fez voar longe o chapéu do Barão. Com exceção de Chica Chapeleira, viúva do anarquista francês da Colônia Argelina do Bacacheri, as mulheres não saíram do prédio enquanto a tropa não pôs fim à rixa.

Da amizade e colaboração entre os grupos de Tio Silva e do major Solano surgiu a aliança entre civis e militares, a Confederação Abolicionista. A idéia desta fora sugerida na sala de visitas do casarão. Naquela reunião informal em que o major estivera com a família, indagara a Xandô se desejava seguir a carreira militar. Aninha, a filha adolescente, deixou-o encabulado por haver sugerido ao pai:

     - Por que não o ajudas a entrar na Academia?

Menina fascinada por uniformes. Certamente por orgulho do pai herói - pensava Xandô - não tirava os olhos de um cadete num sarau ou numa passeata. Descartou a idéia, queria estudar direito para defender os pobres. Sentia-se dotado de vocação para a classe que marcava o apogeu urbano e à qual se referiam como "a plebe fulgurante dos doutores". Fernando Barreto, que ao lado de Teresa olhava-o com simpatia, frisou:

     - O importante é o ideal, o cumprimento do dever.

A província se uniu sob a bandeira da Confederação Abolicionista, à qual as sociedades se filiaram. Sediou-a o Clube Militar, no prédio achatado, perto do Largo da Ponte. O major Solano foi aclamado presidente. Aquele oficial de cavalaria, ligeiramente calvo, de bigodes e cavanhaque, entusiasta como só ele, comandava a capital, a província, o povo.

Formaram-se comissões libertadoras e sucederam-se as manifestações pelo fim da escravatura. Quando os sinos anunciaram a Abolição, o foguetório cobriu os céus da província. Esta se transformou numa praça em festa, com quermesses, bailes, cerimônias religiosas ou cívico-militares, regimentos e escolares desfilando, bandeiras hasteadas, bandas musicais, cânticos patrióticos, discursos nos palanques. Xandô e seus amigos gritavam na rua, acompanhados dos balcões:

     - Não há mais escravidão no Brasil! Viva a Princesa Isabel!

A medida não mais desagradava aos monarquistas e satisfazia à maioria do Partido Liberal, porém se tratava de uma conquista dos republicanos, precedendo o fim do decadente regime. Crescera a força do povo e, no dia quatorze de julho, foram ruidosas as comemorações da Queda da Bastilha. Na Rua do Imperador e na Rua da Imperatriz houve uma marcha luminosa, a multidão empunhando lanternas. O ex-professor Vítor aparecia em toda parte. De viagem para o Rio de Janeiro, a serviço de firmas ervateiras, encontrando-se em Paranaguá, discursou levando a população ao delírio. A campanha republicana intensificou-se, teatros e clubes ficavam repletos para ouvirem os palestrantes.

Os alunos que iam colar grau no Teatro São Teodoro sabiam o que se passava no país, comentavam no pátio do Instituto Paranaense:

     - O povo brasileiro está preparado para tomar o poder em suas mãos.

     - Quem chega do Rio Grande do Sul diz que vai estourar uma nova Farroupilha.

     - Só em Minas Gerais há mais de cinqüenta clubes republicanos. Os jornais "Propaganda", "Transformação", "O Movimento" e "A Revolução", estão levando avante os ideais de Tiradentes.

     - São Paulo reclama o dinheiro do café, o Paraná o dinheiro da erva-mate.

     - ... Que a monarquia esbanja em pompas, banquetes, em festas no Paço de Petrópolis - emendavam.

     - Bailes do Barão de Cotegipe e Mme. Haritolf para uma corte de parasitas.

Em setembro, geava na cama e na alma dos paranaenses, o frio e a chuva espantava-os das ruas. Ao vê-los passarem enroupados, de guarda-chuvas, sombrinhas, ou debaixo das capotas dos tilburis, os forasteiros achavam-nos fechados e a capital insólita. Caía o movimento, recolhiam-se às casas e aos afazeres, deixando desertas as ruas noturnas. Após o crepúsculo e o sopro do vento que chamavam de Bugio, vinha a bulha da saparia, abertos apenas alguns botecos, cafés e confeitarias. A vida ocorria no interior das casas, girando em torno da família. Ao chegarem as visitas, tinham lugar as rodas de jogos, de prosa, de música, cantoria e dança, de comes e bebes. Cordiais na intimidade, não davam demonstrações em público.

Nas propriedades urbanas, os serviçais eram como os agregados, ligavam-se à família pelo trabalho e pela afetividade, mais de que pelo ordenado. No casarão tornavam-se mínimas as diferenças. Segundo o legado de Pedro Tropeiro, todos são filhos de Deus.

Só num sentido poderia ser definida como conservadora a sociedade, naquele que se refere aos valores e à solidariedade. As pessoas eram cordiais, hospitaleiras, conheciam-se, ajudavam-se.

Aos dezoito, esbanjando vitalidade, Xandô podia ser visto como o mais representativo tipo daquela mocidade rebelde. Capacitara-o a tanto o modo de viver nos campos gerais. A força que o movia tinha algo a ver com sonho, bondade de negros e índios, ternura cabocla, esperança de colonos. Algo a ver com tropeiros, tarefeiros, trabalhadores de erva, agregados, com a gente igualada no campo, na roça, nas ruas e praças da cidade. Agia por impulso de solidarismo.

Uma de suas últimas artes, liderando um grupo com negros, foi a de entrarem a força numa festa de alta sociedade promovida no Teatro São Teodoro, desafiando o racismo.

Passara férias em Ponta Grossa e muito sentira a morte de Helena, a filha de Jango Ribas, prima de Letícia. Não via a hora de voltar, assim que concluísse o Instituto.

Ao aproximar-se o fim do ano, comentou-se muito a transferência dos comandantes do regimento de cavalaria para unidade sediada no Rio de Janeiro. Os dois majores, Teles e Solano, receberam homenagens nos clubes e na hora do embarque. A despedida foi emocionante na estação, e Tio Silva gracejou com seu amigo Solano:

     - Agora vai cair a monarquia.

Ouviram-lhe a previsão, gostaram e repetiam nos cafés:

     - Que se cuide o Rei, D.Pedro II corre perigo.

Os oficiais do distrito tinham-nos como modelos.

O casarão exigia muito trabalho, serviços domésticos e de campo. Um tipo de chácara espremida entre habitações de frente para a rua sem calçamento. No terreno havia pequeno pomar, horta, chiqueiro, galinheiro, galpões, depósitos para lenha, ferramentas, abrigos para os carros e os animais. Um tal de catar cavacos, acender o fogo, ordenhar a vaca, preparar o forno, tratar de aves e animais, cuidar das plantas, lavar roupa, fazer sabão, socar grãos no pilão. Todos ajudavam, revezando-se conforme as necessidades. Posta a mesa da manhã, nunca faltara leite nem pão, mel, melado, doces de frutas, além de canjica, paçoca e rapadura. Um polaco desgarrado da colônia partia a lenha, fazia o serviço mais pesado e pequenos consertos. Uma azáfama a arrumação, principalmente quando chovia. Com a lameira, avolumava-se a roupa nos balaios. Tia Dulce, Balbina e Luzia não venciam passá-la com o ferro de brasas. Mal se viam livres das louças do almoço, estava na hora de jantar. Ainda encontravam tempo para costura e bordado.

Dulce, tia para os de casa, Tio Silva para todo mundo, diziam aos sobrinhos e aos adotados:

     - Vocês são filhos do coração.

Apenas Clarinha, criança duma vez, chamava-os de papai e mamãe. O casal tinha muito amor para dar. Sentiu, por exemplo, quando Roberto abandonou os estudos, e sofria só de pensar que Xandô tencionava mudar-se para cursar direito no Rio de Janeiro.

Um dia, Dulce surgiu com uma novidade no casarão. O padre Celso, de outra paróquia, pedira que abrigassem um menino que lhe fora confiado. Concordara antes mesmo de consultar o marido. Trouxe-o mais bem vestido para causar boa impressão, ainda assim pobremente. A calça curta de brim, camisa listrada de algodão, calçado barato. Tímido e insinuante na figura, conquistou logo o seu lugar. Alourado, de olhos verdes, não houve quem não simpatizasse com o guri que, em boa hora, viria preencher um vazio que deixava Xandô. Medrosamente, segurava com firmeza a mão de D.Dulce e só perdeu o constrangimento quando Clarinha se aproximou, perguntando-lhe o nome.

     - Bento - ao dizê-lo, sorriu.

Nome bem próprio a um filho de clérico. Tinha doze anos e consciência de sua lenda. Um padre americano e a jovem aldeã que o ajudava no sacristia e nas aulas de catecismo apaixonaram-se. Ao se tocarem, beijaram-se sofregamente até se desvirginarem sob chuva de bênçãos. O pai da moça ameaçou de morte o vigário. Então, para casar, combinaram uma fuga em lombo de burro para o litoral, com o fim de embarcarem para longe. Na Serra da Graciosa, uma expedição punitiva formada pelo exaltado fazendeiro, interceptou a bala o comboio nupcial. O noivo de batina teve de embrenhar-se na mata. Caçado e sob acusação de rapto e sedução, nunca mais foi visto. A mãe, expulsa de casa mais tarde, contou a sua história antes de morrer ao padre Celso, pedindo-lhe que encaminhasse o filho. Bento herdara aquela paixão, porém pela vida. Encheu dela o casarão.


 

 

 

PAIXÃO PROFANA

 

 

A história corria célere no país para recuperar um século de atraso. No Rio de Janeiro ocasionava choques entre grupos armados. Na Rua do Ouvidor, na Travessa do Rosário e onde ficava o teatro Luís de Camões, a cavalaria dispersara o povo a pranchadas de armas. Os distúrbios deixaram centenas de feridos. Silva Jardim insuflava a multidão, discursando na Sociedade Francesa de Ginástica.

A monarquia obstaculizava a história. Uma crise de mando e de autoridade, indisciplina nos quartéis, governos periclitantes, assinalavam o ocaso do regime. A corte se importava com ela própria, exibindo-se nos palácios.

Na província, a oposição aumentara após a repressão contra os comerciantes, mas só agora a campanha republicana atingia o auge. Com a exibição do filme "Marselhesa", a comoção tomou conta do povo.

De posse do diploma do Instituto, Xandô assistiu em Ponta Grossa ao casamento de sua irmã Cecília com o guarda-marinha Carvalho Mendes. Pouco antes, ouvira Frederico aconselhá-la:

     - Ouça, minha filha. Você pode estender para sempre a sua felicidade. As pessoas sejam ricas ou pobres, brancas ou negras, todas enfrentam dificuldades e sofrem. Mas só podem ser felizes aqueles que são bons e honestos. Sabe o que eu quero lhe dizer?

     - Sei sim, papai - deu-lhe a prova, enxugando uma lágrima.

Com o orgulho que o povo tinha de seus soldados, é fácil imaginar a excitação na vila, o que sentiam Naná e Frederico ao casarem Cecília com um oficial da Marinha Imperial. Após a cerimônia na igreja e a recepção no sobrado, o casal partiu no coche para Curitiba, com destino ao Rio de Janeiro.

Ponta Grossa progredia. O Hotel dos Campos Gerais mudara-se para o Largo Municipal e também o Hotel Romão fora inaugurado com instalações modernas. Eram os últimos dias da família no sobrado, uma vez que Frederico decidira vendê-lo, recebendo uma casa e uma chácara no negócio. O comércio ainda não se localizava na rua barrenta ladeando a Ronda, em direção ao cemitério e à Nova Rússia. A Casa Juca Pedro, de ferragens, miudezas, couros, louças, ficava na Rua do Mercado. No mesmo lado estava a Casa Vilela, com cereais, ferramentas, tecidos e remédios. A Casa Osternack e a Casa Bitencourt situavam-se nas proximidades. A cidade interrompia-se ladeira abaixo, na barroca do Pátio do Chafariz. Para diante, escasseavam as habitações. Aumentara o movimento de carroças e, de manhã, os polacos entregavam leite, vendiam aves e hortaliças, ou lenha. Antes havia uma botica para atender a demanda, Carlo aplicando ventosas e sanguessugas, encanando pernas e braços quebrados. Agora seria diferente, pois o doutor Glória se associara ao farmacêutico Sezefredo, recém-chegado da corte do Rio de Janeiro com a esposa Carolina.

Ao reencontrar os companheiros, as farras chegaram ao auge quando Xandô fez o padre e os moradores pularem assustados da cama, badalando os sinos da igreja em plena madrugada. O povoado alarmou-se qual se houvesse um choque entre o doutor Glória e o doutor Vítor.

Em sua terra natal, sentia-se ainda o piá franzino - uma vez acordara de velas nas mãos - que corria de medo de visagem, de arco-íris, de Saci-pererê. Compensava-o fazer-se de corajoso. Imaginavam que o fosse, gabando-o. Os amigos não esqueciam a Mão Negra, o desfile de um imperador nu pelas ruas, a fuga com Minega. Atribuíam-lhe proezas fictícias, depois que souberam do caso dos bondinhos de burros na capital.

Inesperadamente, envolvia-se em encrenca. Obrigou-se a romper um cerco de jagunços mal encarados, cujos bigodes debaixo dos chapelões amedrontavam mais de que as armas à cintura. O motivo era Letícia, estrela do festival no Teatro Santana. A peça em dois atos contava o descobrimento do Brasil pelos imigrantes. A magia da floresta, a semeadura da terra, o encontro com índios, negros e mestiços, principalmente caboclos. Com canções de Letícia encantando o público. Ao cair o pano, subiu ao palco para cumprimentar o irmão Alberto, quando em seu lugar se apresentou Letícia para receber-lhe um abraço em meio aos aplausos.

Tibúrcio, de botas e bombachas na platéia, queimou-se de ciúme. Viram-no bêbado de ódio, com um grupo de capangas, depois do espetáculo.

Passava de meia-noite quando incendiou-se o Teatro Santana, alvoroçando a cidade. Uma vez ruíra e fora reconstruído. Suspeitou-se, agora, de origem criminosa, porém os anarquistas ainda não haviam chegado para serem acusados.

Letícia era uma menina, porém Tibúrcio tinha planos de pedi-la em casamento. Despeitado, noutra noite desmanchou a quermesse. O bando surgiu a cavalo, atirando nas lanternas, arrancando os fios com as bandeirinhas, dispersando o povaréu. As autoridades apareceram após o malfeito, sem darem muita importância à baderna do parente. Um dos brutos atirou em Manoel, confundindo-o com o irmão, ferindo-lhe o ombro. Uma das filhas do coronel Bitencourt socorreu-o e pediu ao pai que o recolhessem em casa. No momento de maior perigo para Xandô, providencialmente surgiu a carruagem de madame Formiga, na qual se encontrava Dalila, a Bolsinha. Tiraram-no do povoado.

     - Suba depressa, querem te matar.

     - Por quê?

     - É o Tibúrcio, por causa da Letícia.

     - É como uma irmã, quero o bem dela.

     - Vamos, meu bom rapaz, lá em casa você explica - interveio madame.

Os jagunços atiravam para o ar, e a resposta era uma chuva de estrelas. A noite enluarada permitiu o trote dos cavalos no carreiro.

O bordel de madame Formiga ficava no fim de uma ruela de Castro. Duas lanternas coloridas encimavam a porta, acesas até as primeiras horas da madrugada. À Dalila, Bolsinha, como se tornou conhecida, madame reservara o melhor quarto de raparigas. Fresquinha na zona, estreou sua cama nos braços de quem mais queria no mundo. Fugira de casa e, numa feliz coincidência, em companhia de quem amava em segredo, desde criança. No quarto contou-lhe tudo:

     - Foi o Tibúrcio que me fez mal, me pegou a força na fazenda, comprou mamãe, a coitada. Fugi prá não ser dele, prefiro morrer.

Beijava-o e repetia:

     - Venha me ver sempre. Você eu só quero por amor.

Algo doeu no peito como pena ou remorso na hora de deixá-la.

Ao retornar a Ponta Grossa, caçavam-no, constando que raptara Bolsinha, abandonando-a no meretrício. Tal teria sido o motivo do tiroteio na praça, com os primeiros disparos por parte de Xandô, tentando impedir que, a pedido da mãe, Tibúrcio a buscasse. História contada às avessas. Para livrar-se de apuros e dar sossego aos familiares, Xandô socorreu-se de antigo companheiro da Mão Negra, empregado na empresa funerária Boa Morte. Então pôde furar o cerco dos capangas que rondaram o sobrado. Despediu-se - herói não era, não - e sem perceberem, saiu pelos fundos, escapulindo no coche fúnebre que o levou à saída da cidade para esperar a diligência.

Só Deus sabe quanto custou à pobre Letícia fingir acreditar na versão do rapto - morria de ciúmes da Bolsinha - para poder continuar no grupo de artistas amadores. Aprisionada no quarto, torturada pela mãe, obrigou-se a dar esperanças ao primo Tibúrcio. Mas à casa de Chiquito Ribas, o castigo chegou a cavalo do Rio Grande do Sul, para onde fugiu e se foi embora Anita na garupa de Álvaro, o qual veio buscá-la assim que recebeu a espada de aspirante.

Escândalo algum ofuscava a arrelia entre os doutores Glória e Vítor Machado, ambos casados, eleitos à Assembléia Provincial, babando-se pela bela Carolina, esposa do farmacêutico. Todo mundo fofocava sobre o caso, como nos cafés:

     - O Sezefredo deixa a mulher em casa, amanhece em casa de jogo ou na cama de madame Formiga, em Castro.

     - O doutor Vítor levou vantagem com Florzinha, mas o felizardo com Carolina vai ser o Glória. Sabe qual o melhor remédio e já é sócio do farmacêutico...

     - Ela sozinha dia e noite, ele pertinho no consultório.

     - O doutor Vítor é muito ladino, tem lábia, passa mel na menina. Vai lá todo dia comprar xarope.

     - Vai sair faísca quando um der de cara com o outro.

Faziam-se comentários às costas dos temíveis rivais, heróis ou vilões da história. Não se tratava apenas de grandes oradores que declamavam como artistas de teatro. Ambos competentes em suas profissões, gozando de prestígio, ambicionavam o mando político e reuniam considerável número de asseclas na província. Só não se assemelhavam fisicamente. Derretiam-se por Carolina, tão cheinha, farta de seios, nem vinte anos completara. Bombom recheado de licor saboroso. Há dois anos viera da corte, mal casada com Sezefredo. Glória oferecera vantagens ao marido numa sociedade de farmácia, de olho na esposa. Inconformado em lamber os dedos, o doutor Vítor passava ora a pé, ora a cavalo, procurando tentá-la. Carolina não lhe dava trela, achando-o presunçoso e lorpa. Sezefredo preferiu-lhe a amizade, ligando-se ao grupo de liberais aliados aos conservadores, contrários ao governo. Menosprezando os Ribas, a baronesa Ambrósia e o doutor Casemiro, passou a apoiar o doutor Vítor e a surrupiar a féria da farmácia. Amante de madame Formiga, mandava no fuso de Castro, ausentando-se de casa. Carolina em solidão, sem esposo, sem ninguém. Chorava ao fazer os filhinhos dormirem. Vítor e Glória arriscariam a própria vida para consolá-la. Ambos queriam dar-lhe mão forte. O primeiro fleumático, manhoso, o segundo de sangue quente latino, impulsivo. Nenhum dos dois pensaria duas vezes para eliminar um inimigo. Vítor por encomenda, Glória num ímpeto de cólera. Sujeito arrogante - diziam tanto de um como de outro.

Um dia, o menino João chamou o doutor Glória para atender a patroa, pobrezinha sofria do coração, tinha dores nos rins, mal podia levantar-se. Sentiu alívio com a aplicação de compressas. Pareceu-lhe um anjo louro, o médico. Mas de voz trêmula, apertando-lhe a mão, revelou-se-lhe sem auréola:

     - Não posso vê-la assim, sofrendo, tão só.

Carolina não agüentou, chorou, abriu o coração, contou sua sina. Era filha única de um casal paranaense dos mais distintos na corte do Rio de Janeiro. Aos quatro anos fora morar com a avó materna. Por falecimento desta, passara à companhia de uma tia, formando-se no colégio Mme. Etiene, nas Laranjeiras. Na casa da frente morava Sezefredo que cursara farmácia na Escola da Corte. Dava aulas particulares de química mineral.

     - Eu era inocente e ainda insisti com papai e mamãe para consentirem no casamento. Eles estavam certos, temendo pelo meu futuro - enxugou as lágrimas.

Comoveu-o:

     - No princípio foi tudo bem. No acampamento do Realengo, Sezefredo obteve o lugar de farmacêutico. Daí por diante, começou meu sofrimento. Ele tinha ciúme da própria sombra, entregou-se aos vícios, me bateu e lá no Rio de Janeiro me deu três tiros de revólver. Eu perdoei e, a conselho de amigos na corte, viemos tentar uma vida nova no Paraná. Ai, não suporto mais minha cruz...

A resistência que chegou ao fim foi a do doutor, o qual aplicou-lhe beijos e abraços sofregamente, aliviando-lhe as dores. Carolina ainda tentou negar-se, porém com gemidos de prazer, entregou-se ao tratamento.

Um sismo passional abalou Ponta Grossa.

De manhã, chuchurreavam o chimarrão na casa de Herculano, irmão do doutor Glória, além deles o juiz Gusmão, seu hóspede, e Sezefredo Campos. Entre cuiadas quentes combinaram jogar uma partida de bilhar à noite, quando este regressasse de sua visita à madame Formiga, em Castro. À tarde, aproveitando-lhe a ausência, após atender um doente no Hotel Romão, sequioso de Carolina, o sedutor encontrou-a sentada na sala, fazendo crochê, e dispensou o menino João que cuidava da porta. Afogueado, tomou-a nos braços, cobriu-a na cama entre juras ardentes.

Ainda à luz do dia, Sezefredo chegou desfilando de caleça com madame Formiga, o sem-vergonha. Zé Galinha, a quem devia e não pagava o que perdera no pôquer, vingou-se despertando a suspeita:

     - Dona Carolina não viu nada. Não abriu a farmácia hoje, fechou cedo a porta de casa.

Sezefredo achou-a muito mudada, contente, não podia ter sido curada tão depressa. Convidou o sócio para jantar, procurando certificar-se do que acontecera, sem dar demonstração de desconfiança. Venceram em dupla as duas partidas de bilhar que jogaram, conforme haviam combinado. De volta, beberam o café que lhes serviu Carolina, conversando até às nove.

A noite tornou-se sinistra. Maneco da banda já estava quase na esquina quando ouviu uma voz trespassar as janelas trancadas:

     - Não me mate! Não me mate!

Acenderam-se as luzes na vizinhança e o capitão Salvador chamou o doutor Glória, atravessando o largo:

     - Alguma coisa está acontecendo na casa do Sezefredo.

Em seguida o próprio Sezefredo foi bater à sua porta:

     - Glória, vai lá em casa, que eu vou à polícia.

O doutor e o capitão entraram na residência às escuras. Acenderam uma vela sobre a mesa de jantar, percorreram os compartimentos e viram as crianças dormindo. Abriram a porta do quarto do casal, iluminando-o com o lampião. Um quadro macabro. Carolina estirada na cama revolta, em trajes menores, ferida com trinta e duas facadas, o sangue nodoando o corpo e o leito, salpicando até as paredes. Ao lado da morta, um romance de Rocha Pombo e a carteira de cigarros que Glória esquecera no criado-mudo. Este descontrolou-se:

     - Que bárbaro! covarde! que infame! que fera! - e chorou convulsivamente.

A polícia encontrou-o de joelhos sobre o cadáver, e o capitão teve de arrastá-lo do local do crime. Os curiosos se aglomeraram e, para contê-los, foram destacadas sentinelas. Removido o corpo ao necrotério, de lá a multidão acompanhou o enterro. A banda comovendo-a, tocando atrás do coche fúnebre. Agitadores exaltavam os ânimos, à medida em que se atribuía a culpa do crime ao doutor Glória, acuado em sua residência. Execravam-no todos, inclusive os de sua própria classe. Não se admitia que um médico, então visto qual anjo ou sacerdote, "abusasse" de uma paciente. Parecia ele o autor das trinta e duas facadas, não Sezefredo, o assassino.

Vítor Machado vingou-se comandando a campanha de ódio e difamação, tripudiando sobre o rival. Vangloriou-se na confeitaria:

     - Eu disse que esse filho da puta me pagava.

Nos grupos formados no povoado, as acusações visavam um só alvo:

     - Foi o Glória o causador da tragédia.

     - Casado, com dois filhos. A mulher vive doente, vai morrer de desgosto.

     - Traiu o sócio, o amigo, abusou da vítima, desgraçou a pobrezinha.

     - Violou um lar e desrespeitou a sociedade pontagrossense.

     - Onde já se viu? Um médico assassino...

Poucos se atreviam a defendê-lo, e muitos se esqueciam de seu desprendimento, seus favores, sua dedicação à cabeceira dos doentes. Assim, a revolta sucedia à consternação do povo.

Glória não assistira ao sepultamento, porém uma paixão louca, profana, impelia-o a despedir-se da amada Carolina. À tarde, mandou arrear o cavalo e se foi troteando em direção ao cemitério. De revólver em punho, obrigou o coveiro a remover o túmulo e abrir o caixão. Abraçou-se à morta e, com exclamações de amor entre lágrimas, beijou-a inconsolável.

O fato espalhou-se com o pavor que o coveiro o relatava. A cidade acordou indignada no dia seguinte, e não se falava noutra coisa. Em ato de desagravo ao sacrilégio, o doutor Vítor insuflou a multidão, encerrando o palavrório da janela do Paço Municipal:

     - A sociedade ultrajada exige a expulsão do médico assassino, violador da honra alheia!

Um cortejo com caixão e velas, no enterro simbólico de Glória, passou em frente a sua casa, à porta da qual se encontrava o padre Gervásio. Fora do féretro, o defunto só não revidou a bala a afronta, dissolvendo o acompanhamento, por respeito aos amigos e familiares, enquanto a esposa desfalecia socorrida pela baronesa Ambrósia, Aparecida Ribas e outras senhoras. Dora e Letícia distraíam as crianças.

Vítor Machado não lhe deu tréguas. À noite, chegou com uma dezena de sequazes, bateu à porta, ordenando que abandonasse a cidade num prazo de vinte e quatro horas. Ao juiz Gusmão, que protestou lá de dentro, mandou andar em melhor companhia.

O jornal "Dezenove de Dezembro", de Curitiba, noticiou o telegrama que recebera do infortunado: "Machado, à frente de dez conservadores, meus inimigos, e capangas, vieram hoje intimar-me mudança em vinte e quatro horas. Nenhuma falta cometi. Não me retiro intimado." A "Galeria Ilustrada", com ampla reportagem, esgotou-se rapidamente. O jornal da corte, no Rio de Janeiro, "Gazeta de Notícias", publicou com destaque a história do crime, lamentando a sorte de Carolina, a qual só completara vinte anos de idade. Escandalizou o mundo a paixão profana, o beijo na amante após a violação da tumba. Foram inúteis, a pedido, os telegramas do padre Gervásio: "Recomendei a alma no enterro e não vi o doutor Glória beijar cadáver."

Tiroteio não houve na praça porque, se responsável ou não pela tragédia, já fora ele condenado pela opinião pública e perdera o respeito, a clientela, o ambiente. Hostilizavam-no por todos os modos, enxotando-o da cidade.

No dia em que, após a fuga, o aspirante Álvaro e Anita, de bem com a família, vieram casar na igreja, a banda musical espezinhou-o tocando para o povo. De sua casa, pálido e indignado, Glória ouviu a valsa "Trinta e Duas Facadas", composta pelo flautista Cesário, executada à saída dos noivos.

Tal caso de amor turbulento deixou marcas perenes. Na casa da esquina da igreja, onde foi morta Carolina, ninguém mais quis morar porque as manchas de sangue no chão, depois de lavadas, reapareciam. Crêem que vertem lágrimas na laje aqueles que acendem velas e levam flores à Carolina no "túmulo que chora".


 

 

 

O RIO HISTÓRICO

 

 

O clima na província igualava o da revolta do comércio. O governo local se desmandara fechando escolas e removendo professores. A população fazia coro com os jornais, protestando nas ruas:

     - É preciso derrubar a monarquia decadente!

Clubes e teatros ficavam socados de gente durante as palestras dos ativistas.

No Hotel Paraná, de elegantes salões, suculentos manjares e banhos de chuveiro, os viajantes traziam notícias de conflitos em São Paulo e no Rio de Janeiro. Na Confeitaria Esperança, na do Pupe ou no Café Glória, vinham mostrar-se coronéis civis com suas longas barbas, de poncho-pala, botas e chilenas, declarando-se contra o governo. Chefetes de lugarejos próximos, ainda no Partido Liberal. À Federação Abolicionista, que o major Solano presidira, somaram-se clubes como o Republicano e o dos Girondinos, sociedades operárias, sindicatos, lutando pela mudança do regime. A maioria da população queria escolher seus governantes, a democratização das eleições e autonomia para a província. Oficiais e subalternos, em grande número na capital, apoiavam os que desejavam ser cidadãos e não súditos. Formaram-se durante uma guerra sangrenta, de vitórias e reveses, e identificavam-se com as aspirações populares. O uniforme azul, rubro e dourado, quepe de bico duro - lembrava o pica-pau - não era apenas bonito e vistoso, porém glorioso.

A casta reinante fazia crer que a agitação se devia a um punhado insignificante de republicanos. Em seus cálculos só os conferencistas, uns poucos jornalistas e fundadores de clubes. Deixavam de fora os associados, os auditórios, a multidão anônima.

A repercussão do crime das trinta e duas facadas, o beijo na morta, o enterro simbólico do doutor Glória, enxotado de Ponta Grossa, aumentou a tensão na capital, onde os desafetos se encontraram na Assembléia. Glória não engolia desaforos e desferiu muitas bengaladas, tirando satisfações de quem se referia ao episódio difamando-o. O ex-professor Vítor retornou famoso, além de deputado e advogado de firmas ervateiras, absolvera Sezefredo por agir "com perda dos sentidos", culpando da tragédia o seu adversário político.

De viagem para a capital do país, Xandô despediu-se de um tempo muito feliz de sua vida. Sentia gratidão e uma saudade que doía no peito, qual se o vapor houvesse zarpado para o fim do mundo. O barco avançava, e seu pensamento ia de encontro a águas passadas, ele debruçado à amurada. Cenas da infância, o sobrado do Estrela, as travessuras, a Mão Negra, Letícia perturbando-o... A graça com que cantava modinhas e lundus. Matias o confeiteiro, seu ajudante pulando nu da tina, correndo nu pelas ruas apinhadas de gente. A animação do largo da igreja, na confeitaria, por que a política dividindo o povo? Alberto ao piano, ensaiando a moçada. Manoel atendendo o balcão, de olho no movimento das mesas e do bilhar. Uma família só, o pessoal dos serviços da casa. Dalila, a Bolsinha, irmã dos garçãos Ciro e Calimério que por ordem da viúva tinham de prestar obediência a Frederico, tentando-o às escondidas com requebros num quartinho do galpão. Cecília estava casada, aguardando-o no Rio de Janeiro. Frederico, que lhe custeava os estudos, falando dos tempos de tropeiro nas rodadas de chimarrão, de vez em quando acendendo o palheiro. Naná pensativa, sentada à mesa da cozinha, o rosto apoiado na palma da mão, os cabelos prateados. As pretas a se estorvarem entre o fogão e o guichê, as dóceis pretas que o faziam dormir sonhando com histórias. De Curitiba - o casarão, o Instituto, o Tanque do Bacacheri, o Passeio Público, os piqueniques, os saraus, as festas ao ar livre, o Chafariz, o teatro, o circo. Uma quermesse de pedra e cal nos dias de sol. A inauguração dos bondinhos de burros, Belinha nos braços. Por que com a distância diminuía ou se modificava o que sentia por ela? Então não lhe tinha amor. Tio Silva, o major Solano e suas filhas. Fernando Barreto e o circo, mestre Salvador, membros da Ultimatum.

A mente à deriva em lembranças ia de encontro à imagem de Letícia. Por que o perseguia? - indagava sem saber dar resposta. Apesar do devaneio, ele e Estácio conversaram sobre a viagem, o balanço do vapor, o capitão e os tripulantes. Contagiante o entusiasmo de Estácio, que lhe confidenciou:

     - Quando me formar em direito, quero ser presidente da província, quem sabe presidente da República. Ou então embaixador, um grande jurista.

Ainda sob as impressões da leitura de "Os Miseráveis", Xandô disse preferir ser advogado dos pobres e dos injustiçados. Tinham ilusões diferentes, porém os mesmos ideais.

Desembarcaram pela manhã, encantados com o Rio de Janeiro. Parecia esculpido na natureza, e um homem novo, cordial, sobrepondo-se a todos os aspectos negativos, tornava-a mais bela ainda. Miscegenavam-se as raças, lado a lado o luxuoso e o miserável, o perfeito e o mal-acabado. Tílburis e bondinhos de burros cortavam as ruas. Um calor abafante, o ar estagnado. O mar vinha exibir-se na praia, porém a cidade dava-lhe as costas voltada para o lado oposto. Podia-se avistá-la nua lá do alto dos morros. Sentia-se a falta de algo no Corcovado, um vazio talvez compensado pela cruz de estrelas indicando o Sul. O Aqueduto, sim, constituía obra monumental. Havia becos insalubres, e o Canal do Mangue, poluído por esgotos, provinha dos arrabaldes de Tijucas. Os insetos proliferavam com o calor e sujeira das feiras, dos matadouros, atacando por toda parte. A febre amarela flagelava os habitantes.

O fiacre de aluguel, que tomaram ao deixarem o cais, passou por várias casas de luto com cortinas negras de cruz dourada à porta. Uma multidão de rostos descorados e, no centro, enxameavam as alfaiatarias, chapelarias, joalherias.

Ainda atônitos, chegaram ao destino. Um quarto fora reservado a Xandô na pensão de Mme. Souza, um sobradinho em zona de cortiços. Asseada e com os cuidados de pessoas prestimosas como a dona, não se adequava às descrições com imundícies tão a gosto da literatura naturalista. O marido construíra a hospedaria, um prédio barato, com o que lhe rendera o primeiro quiosque do Largo da Sé, antes de a epidemia levá-lo deste mundo. Com a pensão funcionando e criados de confiança, a viúva ficou à testa do negócio. Ali se separaram, e Estácio se dirigiu ao Hotel Cintra, onde havia um só quarto vago. Estranhou as repartições de pano e papel, telhado sem forro, tábuas rachadas e cheias de frestas. Queixava-se das galinhas e pombos, do galo tocando corneta qual se estivesse num quartel. Mudou-se para o Hotel Rovot, de gente relaxada, enquanto aguardou acomodação prometida pela viúva.

De malas nas mãos, Xandô subiu a escada e entrou num dos quartinhos com janela de peitoril que o prédio despejava para a rua. As melhores casas ocupavam a área, mas em direção ao morro havia um casario pobre e sujo, com fundos comuns e roupas nos varais. Na rua detrás da pensão, estabelecera-se pequeno comércio com taberna, quitandas e bazares. Nos fundões, alguns pardieiros, becos cheirando mal.

Madame Souza mantinha o capricho, limpeza nos quartos - roupa de cama, toalha, água na jarra - na cozinha e no refeitório. Três mulatas no serviço, além do criado afeminado. A cozinheira morava com o português no galpão dos fundos, separado por uma cerca. Este fazia biscates de pedreiro. Beirava os cinqüenta, cofiando os bigodes, satisfeito da vida, pois Izabela não passava dos trinta. Depois de Mme. Souza, mandava mais, dava ordens na cozinha e à arrumadeira, filha de Marieta, a lavadeira, que moravam juntas no outro cômodo do galpão.

Mme. Souza enviuvara com dois filhos em idade escolar, Alfredo e Henrique. Este, o caçula, estava de cama, motivo de sua aflição. O tratamento era um só: óleo de rícino e... cobertores. Dera-lhe um banho quente. Xandô ouviu-a protestar:

     - Os ricos fogem para Petrópolis, para as mansões de veraneio, deixando a cidade entregue aos ratos, aos mosquitos e aos pobres. Vão fedendo por baixo das sedas esses lordes e galegos...

     - Só de febre amarela esses bichos matam mais de mil pessoas por ano aqui no Rio. No cemitério do Caju, presidiários e voluntários estão fazendo as vezes de coveiros, abrindo valas para os mortos - interveio o hóspede mais antigo.

     - Essa peste veio dos Estados Unidos, nos porões dos navios.

Agora os turistas não vêm mais para cá, ainda mais com a onda de assaltos - lamentou outro.

Talvez fosse mal menor o de Henrique, porém a mãe parecia apavorada:

     - Não vou deixar mais as crianças irem à escola, até os teatros estão vazios, as companhias cancelaram as apresentações, tem gente morrendo como formiga e ninguém faz nada. Essa peste é pior que a guerra.

Xandô espantou-se e perguntou:

     - Que guerra?

     - Tu não sabes? Essa do fim da monarquia. Não sabes que está pipocando Brasil afora? Donde vens, então? Tem motim em toda parte, no Sul, no Norte. Eu vi brigas de grupos armados. Nas ruas do Ouvidor, do Teatro, de Luís de Camões e na Travessa do Rosário a cavalaria dispersou o povo a pranchadas. Houve mais de duzentos feridos. Não sabes que quase mataram o doutor Silva Jardim à saída da Sociedade Francesa de Ginástica?

Ao almoçarem na mesa grande do refeitório, comentavam:

     - A guarda negra persegue os que mais lutaram contra a escravidão.

     - Ainda há quem defenda a monarquia por causa da Princesa Isabel. Não viram a multidão que se formou no dia treze de maio?

     - O pobre quer o direito do eleitor, até o negro deve ter o direito de votar.

O funcionário que falou foi interpelado pelo estudante de medicina, o qual procurou esclarecê-lo:

     - Até os negros por quê? Eles em primeiro lugar, pois construíram o Brasil. Sabes? - prosseguiu- os falsos abolicionistas é que, como alguns escritores, julgam o negro inferior. São uns racistas.

     - Muito bem falado - aplaudiu o português que acabara de consertar uma das poltronas, português abrasileirado e não da casta dos galegos.

O mesmo pensionista indagou de Xandô:

     - Tu não sabias que na Bahia, em Ilhéus, bandidos tomaram a cidade, arrombando casas comerciais, aterrorizando a população? O império está em ruínas - concluiu convicto.

O Rio de Janeiro alarmava-se com tantas desordens no país, a quarentena da peste, a corte gozando em Petrópolis. Qual urbe de ressonância, na capital sentia-se o pulsar de toda a nação. Benvindo, Xandô adaptou-se imediatamente ao viver carioca. Certamente que as interpelações "de onde és tu?" só inexistiam no Paraná. Fascinou-o nas moças o falar chiado, palavras suspiradas. Pareciam-lhe beijos sonoros. Galanteando, dissera a uma que tal se devia à influência do mar. Saía em direção à Faculdade na hora do movimento de empregados do comércio. Negros que se agachavam nas soleiras das portas, trançando palha, tiravam o chapéu, cumprimentando-o com mesura:

     - Bom dia, senhor acadêmico. Como passou vosmicê a noite? Espero que Vossa Graça goze boa saúde.

Achava-os bons como os do Sul e pensava: Se há os que armam brigas, furtam fidalgos e turistas, é conseqüência dos maus tratos.

Ex-escravos chegavam das fazendas de café onde viviam como galés, debaixo de chicote, mãos sangrando nas enxadas. Erguiam barracos miseráveis arribando os morros.

De coches e carroças, os ricos em cupê, vitória, caleche ou landau - na boléia um negro de casaca - todos davam passagem ao bonde de mulas tilintando as campainhas e sujando as ruas. Vendedores atravancavam-nas, não bastasse o mendigo dos pés gigantes. Um sujeito que os colegas apelidaram de "poeta de galinheiro" morava no Hotel Cintra e saíra com esta:

     " Onde eu moro canta o galo

     e tem merda de galinha,

     na rua que se caminha

     só tem bosta de cavalo."

Havia exagero nas reclamações, o poeta de galinheiro poderia hospedar-se em hotéis de primeira como o França, Europa e Frère Provençaux.

Cafés, botequins e bilhares, que serviam média de café pingado, pão e manteiga, fervilhavam de gente. Os acadêmicos também os freqüentavam. Xandô gostava de conversar com os tamanqueiros do beco do Fisco, com os bacalhoeiros e os empregados nas sapatarias, tinturarias e fabriquetas próximas à pensão. Aproximava-se pensando: sou igual, sou estudante, sou povo. Via que os negros eram fortes e os brancos fracos, o que desmentia os autores. Os mestiços, malandrins, bons de briga, de capoeira e golpes de navalha, apesar de franzinos. As mulheres de cor, altas, rijas, bonitas, de colos e braços nus luzidios. Ouvia nascer da raça uma música de ritmo novo. Acordado pelo canto nos cortiços, comentou com os colegas:

     - Se Carlos Gomes e Itiberê da Cunha estivessem aqui, não em Milão, poderiam compor o Coro das Lavadeiras.

Nos principais quarteirões que se estendiam do Largo de São Francisco, ficava o comércio de luxo. Mais movimentada a Rua Direita. Na do Ouvidor com seus prédios de sacadas, telhados salientes, o mundo chique se dirigia às lojas francesas Tour Eiffel, Notre Dame e Palais Royal, misturando-se ao pessoal das redações dos jornais, estudantes e populares que freqüentavam os cafés. Os homens virando os rostos para seguirem as moças com os olhos. Bem cinturadas, estas passavam de saias amplas, traseiros em tufo, coletes de barbatanas, chapéus cobrindo os cabelos encaracolados. Os lampiões clareavam a noite para cavalheiros enrolados em cachecóis, com galochas, guarda-chuva ou bengala. Burguesia e pequena borra imperial, cuja preeminência se retirava para os palácios de Petrópolis.

Já havia povo no Rio de Janeiro, onde melhor se organizavam burgueses e operários. A massa nas ruas, nos terreiros de danças terminando em capoeira, rasteiras, rabos-de-arraia, navalhadas. Campeava a capoeiragem e ao ouvir-se uma banda, as casas fechavam-se de medo de assaltantes. Os cortiços estendiam-se até o centro, enfeado pelo Cabeça de Porco. Os ciganos que negociavam escravos e animais no Valongo, integrados à população, já moravam em boas residências.

Diminuindo as tarifas alfandegárias, a monarquia impedira a industrialização do país. A escravatura vedara o desenvolvimento do capitalismo, mas o Rio de Janeiro possuía a metade das fábricas. As empresas de importação e exportação prosperaram. As pontes de aço e os lampiões que iluminavam as cidades saíam de uma fundição com mais de mil operários, na Ponta da Areia. Lá foram construídos setenta e dois navios. Desativou-a a isenção de taxas aos barcos estrangeiros. Os trabalhadores manifestavam-se contra o regime, protestando contra a exploração de menores, longas jornadas de trabalho e baixos salários. Tinham clubes e trataram de fundar o Partido Operário. Não só aos negros que formigavam nas encostas dos morros faltava serviço.

As chamas da rebeldia nas províncias causavam a ebulição no Rio de Janeiro. Não bastassem os salteadores fazendo ponto no Arco do Teles, assombravam a capital a peste e os boatos alarmantes. O nervosismo aumentava a importância de pequenos incidentes.

No ponto de cargas com os produtos que chegavam dos subúrbios, Xandô meteu-se numa encrenca, levando uma porção de sopapos. Um landau interceptou uma carroça de galinhas que se debatiam sangrando, penduradas pelo pescoço, enforcadas. Tomando-lhes as dores, um moço de sangue azul como seus próprios olhos deixou a irmã desesperada na carruagem e saiu a gritar com o verdureiro:

     - Não vês que estão sofrendo?! Tu queres ser pendurado pelo pescoço? - desprendeu-as da carroceria.

 

Um ambulante instigou a turba que se formou em volta:

     - Filhote de barão não tem pena de pobre, tem pena de galinha, merece uma coça.

Xandô intercedeu e ambos foram salvos pelas galinhas, pois enquanto agredidos por alguns, a maior parte do ajuntamento se desfez porque os vagabundos correram a apanhá-las, fugindo com elas debaixo dos braços. A polícia acabou o tumulto e tomou partido, colocando-se às ordens do jovem, reconhecido como um nobre. Sem se aproveitar do fato, ele pagou o prejuízo ao carroceiro e, sem que lhe dessem ouvido, advertiu que era proibido maltratar os animais. Tratou a todos com ar de superioridade, inclusive Xandô com a equimose sob um dos olhos e vergão no pescoço. Mandá-lo-ia à merda, não fora a irmã agradecer-lhe com aquele murmúrio suave de palavras, aquele chiado de mar na voz, acalmando-o.

     - Muito obrigada pelo que fizeste pelo Orestes. Não fosse por ti, não sei o que teria sido. Meu irmão é como eu, não pode ver um bichinho sofrendo. Como te chamas?

     - Antônio da Silva Xandô. Me tratam só por Xandô.

     - Vê-se que não és do Rio...

     - Não. Sou de Ponta Grossa, no Paraná.

     - De onde?! - achou graça, encabulando-o e, por isso, a recusa de um lugar no landau.

A vendeira que o observara interpelou-o como quem ralha e diz bem-feito:

     - Viste, intrometeste onde não devias.

Surpresa foi encontrar Orestes como seu colega na aula inaugural da Faculdade. Entenderam-se, apresentou-o a Estácio, tornaram-se amigos.

De bem na pensão, começou a amar o Rio de Janeiro que, em troca, abria-lhe as portas. Acompanhava os meninos à escola qual se fora irmão mais velho. Prestava pequenos favores, uma providência, uma compra. Só demorava quando ia buscar o maço de cigarros "Veado", para Gigi, o acendedor-de-lampiões. Prendiam-no na roda de prosa da Charutaria e Engraxataria. Aos sábados, trazia a roupa lavada e passada do casebre do Maneco, o qual ganhava a vida com carroça de mão, amancebado com a mulata Biduca, lavadeira. Estudante algum granjeou tal simpatia em tão pouco tempo. Até nos cortiços a cidade confiava-lhe segredos. Cortava os cabelos no salão da esquina cheio de passarinhos nas gaiolas, onde o barbeiro lhe dissera:

     - Muro que separa a casa do pobre é trincheira.

Em toda parte falava-se mal dos ministérios, do Conde D’Eux, dos galegos, da aristocracia. Nem os soldados da polícia ou do exército se calavam.

Agradecera ao cunhado as providências e o oferecimento de hospedagem. Não a aceitara por respeito à privacidade do casal, não queria tornar-se um estorvo, morando e estudando de graça - explicou-lhe. Iria procurar um emprego. Não lhe disse que recusava pelo fato de ser um republicano, temendo atritar-se em casa com o oficial da Marinha Imperial. Expusera isso a Frederico e, em particular, à Cecília.

Na mesma tarde em que se justificou com Carvalho Mendes, surpreendeu-o na pensão a visita do major Solano. Sem a intenção, exclamou:

     - O pica-pau!

Não precisou desculpar-se, o major sorriu, atraindo a atenção dos pensionistas.

     - Dá cá um abraço, tchê! Disseste a teus colegas que tens amigo no regimento de cavalaria sediado em São Cristóvão? Picapau é alusão carinhosa a quem veste farda - dirigiu-se aos demais.

     - Já falei do Arcabuz, da Ultimatum, da Federação Abolicionista e que Tio Silva, ao saber de sua transferência para cá, previu a queda da monarquia - gracejou com ar respeitoso.

     - Continuas peralta, hein? Não te meteste nalguma barafunda?

Madame Souza interveio:

     - Aqui ele é como um filho, major.

     - Muito bonzinho..., armou a maior confusão na feira, uma briga com galinhas - caçoou o mais confiado.

     - Depois me contas. Vou precisar de ti, espero-te em casa, amanhã às oito, visto? Soubeste do assassinato de Carolina pelo marido Sezefredo, em Ponta Grossa? Do que aconteceu com o doutor Glória? Por certo não lês o jornal da corte, a "Gazeta de Notícias".

Fez-se silêncio para ouvir do major Solano como fora morta Carolina. Impressionaram-se ainda com o relato do beijo no cadáver, o enterro simbólico do médico amante e sua expulsão pelo tal doutor Vítor Machado. Jorginho, o garção, quase derrubou as xícaras da bandeja, lamentando-se:

     - Ai, que me deu um arrepio na espinha... Isso sim é que é paixão. Lá tem homens, e eu aqui neste Rio de Janeiro!

Começaram a falar sobre o oficial picapau nas tavernas e até nos cortiços. Havia muitos nos quartéis.

À tragédia relatada, só se referiam nas altas rodas porque o casal fora conhecido na corte. Com o jornal nas mãos, D. Pedro comentou no Paço:

     - No Brasil, tudo acontece, parece outro mundo. Em Ponta Grossa, um crime hediondo desses, o médico perdendo o juízo, e lá deverão chegar os anarquistas que eu trouxe da Europa para fundarem uma colônia. No nordeste, o flagelo da seca, cangaceiros pondo as populações em sobressalto. No Juazeiro, tingiu-se de sangue a hóstia na boca de uma beata, o padre Cícero provocando uma explosão de fanatismo.

O Rio de Janeiro e seus contrastes refletiam o país. Antes de dormir, Xandô fitava estrelas à janela, ouvindo o som de um chorado baiano ou a voz de alguma lavadeira. A cidade espelhava o passado, abalada pela escravidão de quatrocentos anos em seus alicerces. Com a monarquia não desapareciam os vestígios de pelourinho, açoutes, torturas, pena de forca. A paisagem humana ilustrava a tragédia. Os negros na miséria, o povo nos cortiços. Para um estudante o Rio se abria como um livro de história empedrado à beira-mar. Virando-lhe as ruas qual folhas, percorrendo-lhe as páginas povoadas, abeberava-se de saber.

De um rancho no morro Cara de Cão - fora a capital dos tamoios - virara capital de um império. Cariocas os habitantes, em sua maioria caboclos da gema. Para três mil índios havia setecentos brancos e cem negros. No tempo dos sete vice-reis, todos condes, tempo do saque de ouro e diamantes para Portugal, quando o Papa, os cardeais e todos os reis da terra felicitavam o lusitano, ela já exibia como capital do vice-reino um troféu: a cabeça de Tiradentes.

Os velhos conversavam de antigamente:

     - No tempo dos sete vice-reis, havia a coroação do rei e da rainha dos negros, com batuque, os tambores, os canzás, as marimbas, danças.

     - Tinha loja de escravos na Rua da Valonga. Viam-se os negros de tanga, outros acorrentados ou com o colar de ferro.

     - De dia os escravos carregavam as senhoras nas cadeirinhas. Depois do pôr-do-sol passavam com os cabungos cheios de merda dos brancos, que despejavam nas praias.

Deles a juventude herdara a ojeriza contra a casta aristocrática. Os estudantes percebiam claramente que havia uma só luta pela Independência, pela Abolição e pela República. Sintomático o modo carioca de dizer que no fim do sétimo vice-reinado, ao salvar da artilharia, foguetes e repiques de sinos, desembarcara uma corja de desertores chefiados pelo monarca, quinze mil desocupados para roubar-lhes as propriedades. Fugiram da pátria e, distribuídos pelos palácios, viviam à custa de trabalho escravo. Não ganhavam o pão com as próprias mãos. Donos de belíssimas chácaras nos arredores e de mansões assobradadas, locupletavam-se nos altos cargos. O povo via-os isolados nos coches com um negro de libré e botas. Brancos não fidalgos pertenciam ao foro, médicos, professores, funcionários graduados. Eles e os galegos recebiam comendas. Pródiga em grã-cruzes, com elas a monarquia mantinha o apoio de altos  chefes da marinha e do exército. Centenas de abrasonados, cobertos de veneras e fitões, viveram com grande fausto. D.Pedro I desprezava os brancos azeitonados, fracos de físico, por serem mestiços chamava-os de macacos. De seu reinado restavam lembranças de corrupção, levantes e massacres.

A corte caía de podre, suspensa apenas pelo fio de respeitabilidade a D.Pedro II e à Isabel que, decretando a abolição, sentenciara de morte o regime.

Num café ou numa tabacaria, Xandô ouvia que na capital do Reino, a cadeia de Aljube, com subterrâneos infectos, podendo castigar quinze presos, mantinha mais de trezentos, montes de criminosos de roldão com jornalistas e políticos. Concluía que não mudara muita coisa, pois os cubículos das fortalezas estavam abarrotados de republicanos.

Convencera-se de que o móvel de uma revolução, mais de que a fome é o espírito de justiça. O preto velho que o tratava de senhor acadêmico, contou-lhe casos. Rememorou o da menina Isaura, de onze anos, a qual desobedecendo as ordens foi torturada até à morte pelo dono. O monstro enterrou-a no fundo do quintal, mas o cadáver veio a boiar numa enxurrada, revelando o crime. Um negro beirando oitenta falou-lhe sobre o Toque de Aragão, o sino da igreja que dava dez horas para os escravos se recolherem com caixeiros e empregados cuja labuta começava às quatro da madrugada.

     - Negrinho na rua ia parar no xilindró.

As vovós ainda fofocavam de Carlota Joaquina:

     - Tinha ódio do Brasil a bexiguenta. Para ela - um país de negros e feras. Quando voltou para Portugal, no desembarque sacudiu os sapatos de cetim, limpando-o de "pó do Brasil". Foi amante do Fernandinho - o Petrônio da época - e mandou matar-lhe a esposa Angélica, a qual tombou ao lado das filhas numa caleche, atingida por um tiro de bacamarte na ponte do Catete.

O passado parecia cada vez mais presente no Rio de Janeiro. Na taberna que os acadêmicos freqüentavam, um jornalista baiano, macróbio das redações, impressionou-os com suas histórias. À sua mesa, o sargento que tocava clarineta na banda da polícia afirmou que as favelas seriam os quilombos do futuro. Foi quando o velho contou, provocando-lhes arrepios:

     - Eu era uma criança. No dia da execução de Ratclif, chefe republicano do levante de Pernambuco, vi um irmão da Misericórdia, vestido de balandrau, badalando uma campainha antes do cortejo, dizendo: Orai por vossos irmãos padecentes. Plangiam os sinos da igreja. Os condenados ouviram missa, depois os três subiram ao patíbulo. No caminho, um franciscano xingou Ratclif: Rebelde! O carrasco tinha pressa, Ratclif consolou os companheiros, e o padre não o deixou gritar Viva a República! Não o enterraram como os outros dois enforcados. Um doutor, de avental branco, decepou-lhe a cabeça e pôs num barril cheio de sal. D.Pedro I mandou um oficial de nome Galvão levar o barril para D.Carlota Joaquina, em Portugal.

Na viagem por mar - prosseguiu - houve uma tempestade, o navio rangeu, rugiu e ruiu - bumba! só se salvou o oficial Galvão, agarrado ao barril que boiava sobre as ondas. Quando declararam na sentença "morra o réu", um desembargador morreu na Rua da Quitanda e, passados uns dias, outro ficou louco. O oficial que levou a cabeça morreu alucinado em Niterói, um filho suicidou-se, degolando-se; o marido de uma neta também se matou, e uma bisneta foi parar no hospício - concluiu num tom macabro.

A julgar pelo que dizia nas tabernas, o país tinha memória. Porém ele próprio punha o fato em dúvida:

     - O Brasil se desconhece. De uns tempos prá cá é que se estuda a Inconfidência Mineira, mas quem sabe da conspiração baiana? - perguntou, deixando-os atentos até às primeiras horas da madrugada, pois refazia seu relato, pausadamente entre goles:

     - O governo da Metrópole procurou apagá-la da memória do povo. A maior de todas as conjurações foi a de João de Deus. Espalharam-se "avisos ao povo baiense" de que estava para chegar o tempo em que "todos seremos iguais". Eram seiscentas e setenta e seis pessoas no movimento: quarenta e oito clérigos, quatorze terésios, quatorze franciscanos, oito frades bentos e três barbudinhos; trinta e quatro oficiais de linha, cinqüenta e quatro de milícias, onze graduados em postos e cargos; dezoito graduados em lei e mais oito de comércio. Havia ainda oito homens do comum, uma centena de inferiores de linha e milícias, e quase trezentos soldados. Cipriano Barata estava envolvido. Diziam: "Queremos a República para respirar livremente." As denúncias apontavam para Cipriano Barata, culpando-o de "achar-se a Bahia cheia de jacobinos que fazem descaradamente casas de assembléia..."

Para apressar a revolta, João de Deus, pardo, alfaiate, pôs-se a aliciar gente. Após uma reunião, foi preso com mais de cinqüenta rebeldes, todos moços. Reconheciam-se pela barba crescida, argolinha numa orelha, búzio de Angola na cadeia do relógio. Onze foram condenados à forca. O que redigiu os avisos teve as mãos decepadas depois de morto. Os degredados foram para a África. Manoel Faustino, um adolescente, e João de Deus, alfaiate pobre, por sonharem com o tempo em que todos seriam como irmãos, morreram pendentes de uma corda, no meio da Praça da Piedade. Seus corpos foram esquartejados e atados a postes. Na manhã em que João de Deus foi preso com sua mulher, só havia oitenta réis em sua casa para o sustento de seus oito filhos - arrematou.

Não era o único fazendo a campanha surda contra a monarquia, e ao sábio afeiçoou-se o grupo. Esclarecera Xandô sobre o que Jango, carpinteiro de sua vila, quisera dizer com três poderes, lei de Deus, amor e trabalho. Explicou-lhe que a lei de Deus rege o universo e a vida, que com o trabalho o homem constrói o mundo, e com o amor pode torná-lo fraterno e feliz.

A religião continuava a ser base da vida social carioca. Festas de santos, ladainhas, novenas, as pessoas encontrando-se na igreja. O foguetório assustando o céu, em cada habitação um oratório na sala. Antes, o comércio fechava na hora da missa. A cidade conservou os costumes, as casas com quintais de criação, quando não perdiam o espaço para os amontoados de gentios. Nas abastadas, de retrato a óleo na parede da sala, os estofados e o gorgorão escarlate. O consolo com jarras de porcelana e pêndulos de metal dourado a fogo, estes colocados sob redomas e mangas de vidro. A população, em sua maioria, contava com mobília pobre, cadeiras de palha.

Xandô e Estácio compareceram à reunião na casa do major Solano e ficaram a par do que ocorria no exército. Provindos do povo, conhecendo o Brasil, promovidos em campos de batalha, os oficiais que chefiaram guarnições na província, formavam-lhe a vanguarda. Comandavam soldados negros e mestiços, seus camaradas de armas, desprezados pela nobreza. Atacavam-nos em sua honorabilidade os porta-vozes monarquistas, negando-lhes direitos, humilhando-os no parlamento e na imprensa. Ao hostilizá-los, o governo promovia a remoção de batalhões e regimentos inteiros. Estavam todos cientes da advertência que fez o major Solano:

     - Temos de agir antes que o governo resolva extinguir o exército. Discute-se no palácio o aumento da guarda nacional, da polícia, a formação de uma guarda cívica e mais apoio à guarda negra.

Um dos civis presentes lembrou o que havia dito Saldanha Marinho numa sessão maçônica:

     "- Só precisamos dar um empurrão final para derrubar a monarquia."

Entre os oficiais encontrava-se também o paranaense Irani, da artilharia, responsável pela ligação entre as diversas unidades.

A conspiração que se urdia em todo o país culminava no Rio de Janeiro. A palavra federação, exigência das províncias, soava como primeiro sinal do desmoronamento do regime. A apropriação pelo governo central da renda anual de vinte e cinco mil contos de réis com o café, levou fazendeiros a entenderem federalismo por separatismo, quando circulou o livro "Pátria Paulista". O país estava enfermo qual D.Pedro com seus diabetes. Votos só havia para que caísse do trono. Não se admitiu a hipótese de um terceiro reinado, descartada até mesmo por seus simpatizantes. Um tanto alheio aos fatos, durante a "Fala do Trono" definira a situação interna como "tranqüila, com ocorrência de fatos isolados de pequena gravidade". Ao terminar com uma chave de ouro um soneto, convocou o Visconde de Ouro Preto para chefiar um ministério e reprimir manifestações. Mas abusaram da poética passividade do rei. O professor Benjamim Constant chegou a sugerir-lhe no palácio:

     - A nação ficaria eternamente agradecida a V.M. se instituísse a República.

Prevenira-o a princesa Isabel, muito católica, abespinhada com positivistas:

     - Eu não confio nesse homem.

     - Não digas tal coisa, filha. Ele é um homem franco, muito meu amigo.

O Brasil era um país difícil de compreender. Com todo o clima de agitação revolucionária, ocorriam inúmeras manifestações de simpatia a D.Pedro ou à Isabel. Depois de tudo que já observara em sua vida, na infância e na juventude, Xandô também se dava conta de que o povo era um povo rebelde, porém por amor e não ódio. Esta a causa da aparente incongruência popular.

Numa certa noite, o grupo de jovens acercou-se de Pardal Malet num dos cafés. Este deu o seu revólver a Adriano, um caixeiro menor de idade, o qual saiu para a rua e, assim que o imperador saiu do Teatro Santana, disparou um tiro para o ar, gritando "Viva a República!" Durante o tumulto, Xandô foi salvo por Orestes e sua irmã Laiz que foram à função e lhe deram fuga na caleche.

Em face da prisão de Adriano, explorada como ação contra terroristas, começou a guerra dos gritos. Para combater o vivório à República, o chefe de polícia organizou um bando que saía berrando pelas ruas: "Viva a Monarquia! Abaixo a República!"

No Largo da Misericórdia, os estudantes deram  uma tremenda vaia no Visconde de Ouro Preto. Sabina, uma baiana, encontrava-se lá com seu tabuleiro. Quando a carruagem que vinha seguida de dois soldados a cavalo foi barrada, os jovens bradaram: "Viva a República!" Municiou-os o tabuleiro da baiana para que estourassem laranjas sobre os soldados e a carruagem, espantando os cavalos. Acompanharam-no por toda parte os apupos.

A baiana Sabina chorou com medo de perder seu tabuleiro e não poder pagar o aluguel do cortiço, pois em represália a polícia deteve-a, proibindo-a de vender sua mercadoria. Os fregueses acudiram indignados às suas lágrimas, organizando uma grande passeata de protesto. Acompanhados de banda de música, espetaram laranjas nas pontas das bengalas e percorreram a cidade, aplaudidos pela população. Entre eles alguma moças vestidas de baiana, inclusive Laiz, irmã de Orestes. Um corso com comícios pelo caminho. Na sacada da redação do jornal "O País", um quintanista de medicina resumiu tudo numa exclamação, levando a massa ao delírio:

     - Esta manifestação é uma nova e gloriosa Sabinada!

Xandô venceu a timidez e protestou contra a exploração que se fazia em torno do incidente à saída do Teatro Santana e a prisão de civis e militares. Ao denunciar a transferência de batalhões para o interior, os oficiais da Rua do Ouvidor vibraram - Bravos! Muito bem!

Encerrou o seu discurso, ouvindo-lhes as exclamações.

     - O governo reorganiza a guarda municipal, cria a guarda cívica, protege a guarda negra, tenta enfraquecer o exército por todos os meios e até dasarmá-lo!

Com uma sentença categórica, Estácio provocou o clamor popular:

     - O povo brasileiro quer a República!

Os estudantes ganharam a batalha. A passeata abalou o governo que demitiu o delegado. Sabina voltou de tabuleiro e toda prosa ao Largo da Misericórdia.

Parte da imprensa, sintonizando com a "Fala do Trono", insistia em negar a revolução em andamento. Uma reação desesperada minimizava o êxito da campanha republicana, ocultando o que ocorria no país. Fazia pouco caso das manifestações populares e taxava de pasquins os jornais. Porém não mais podia impedir a ação de clubes, associações, sindicatos, sociedades secretas, maçonaria e, muito menos, a união povo-soldado. A repressão tornara-se cada vez mais contraproducente, como naquele ano da visita de D.Pedro ao Paraná, quando Lopes Trovão discursara e a polícia destruíra o Café Loanda, na Praça da Constituição. Recentemente, o povo brasileiro tomara a praça e as ruas, cantando a Marselhesa na comemoração da Queda da Bastilha. No Rio, foi recebido com salva de artilharia e dispersado por cargas da cavalaria policial e da guarda negra.

A revolução, após a conquista da libertação dos escravos, evoluíra rapidamente para a sua fase decisiva. O general que lhe assumiria o comando, despistava os inimigos, mas se comprometia com quem lhe merecia confiança. Deixou clara a sua posição:

     "- Enfim, se a causa é contra os casacas, lá tenho a minha espingarda velha."

Certamente temia a pusilanimidade de arrivistas, casacas hoje, vira-casacas amanhã. Cauteloso, sugeriu ao major Solano que tratassem de convencer Deodoro, chefe do Exército, o qual tivera uma recepção triunfal num ato de desagravo, ao retornar de Corumbá. Então os líderes dirigiram suas atenções ao velho marechal. Indignados, não se continham os oficiais:

     - Não podemos ficar indiferentes à prisão do tenente Carolino e à transferência do batalhão de infantaria.

     - Com ajuda dos sobrinhos, que são camaradas de armas, temos de tirar o marechal da cama.

Sucediam-se-lhe as visitas, porém o doente conservava-se fiel a D.Pedro II, seu amigo. Atribuía os desmandos ao gabinete. Até que um capitão e um tenente, vindos do Rio Grande do Sul, foram a seu palacete para queixar-se das perseguições movidas pelo governo do conselheiro Gaspar Martins. Ah! não se esquecia de que este subira à tribuna do Senado para ridicularizá-lo perante à nação. Fervia-lhe o sangue ao lembrar-se das palavras:

     "- Recordo que, quando comandante de uma divisão de observação, dividira-a em duas brigadas, confiando o comando de uma a um paralítico e o da outra a um octogenário que caiu do cavalo parado."

Ao ouvir-lhe o nome, o marechal Deodoro da Fonseca seria capaz de erguer-se do túmulo.

      


 

 

 

FESTAS CHILENAS

 

 

I

 

No fim de outubro, ao recepcionar a esquadra chilena na Escola Militar da Praia Vermelha, Benjamim Constant declarou sem a menor hesitação:

     "- A força armada poderá depor na praça pública o governo, quando entender que seus brios o exigem ou julgar conveniente e acertado, para o bem da pátria."

Já não eram tão secretas as reuniões nos quartéis ou no escritório de Quintino Bocaiúva.

A recepção fazia parte de um plano da diplomacia brasileira para evitar uma guerra no continente. O poderoso Visconde de Ouro Preto aproveitou a ocasião para atrair de novo a elite que desertara da corte. Com a mão no tesouro, abriu o período chamado de Festas Chilenas. Com uma apoteose real esperava vencer os opositores. Desde que se festejara no Rio de Janeiro a aclamação de D.João, com préstito de cento e tantos cavaleiros acompanhando dois grandes carros ornamentados de flores, ao som de uma charanga, há mais de trezentos anos, o carnaval constituía um exemplo de como o povo se impressionava com desfiles de grande aparato. Além de conhecer as vaidades burguesas, sabia quanto a pompa, o brilho e a imponência influenciavam as massas.

Para demonstrar a eternidade do reino e da corte, nada mais apropriado de que um baile monumental. Dinheiro a rodo transformou o prédio de estilo mourisco num castelo das mil e uma noites. Fora um posto de vigilância aduaneira numa ilha de ratos, a duzentos metros do centro. A família real haveria de ser vista descendo dos céus ao palácio da Ilha Fiscal. Sem se importar com os gastos, ou lembrar-se da pobreza das populações, o chefe anunciou aos membros de seu gabinete:

     - Este baile será o triunfo imperial.

As bandas imperiais e a do couraçado chileno animaram as celebrações da visita naval. No desfile pela cidade, tocaram o Hino Chile-Brasil, canção obrigatória que compôs Francisco Braga. Inegável o fascínio exercido pela nobreza e a corte, ainda não substituído no carnaval pelos carros alegóricos.

E o dia marcado chegou, nove de novembro, porém o bailado da monarquia durou até o dia quinze. Ninguém queria perder o espetáculo, pelo menos assistir à passagem dos felizardos, os convidados.

Na visita que Xandô fez à irmã, abriu-lhe a porta o guarda-marinha, e ela lhe deu a notícia:

     - Telegrafei a papai e mamãe, contando que vou ter nenê. Eles vão ser vovós e você titio.

Esplendia a morenice em seu rosto, a alegria em seus olhos.

     - Meus parabéns! E você também dá cá um abraço - dirigiu-se ao cunhado depois de acariciar a irmã.

Cecília achava uma pena que não se entendessem em política.

     - Podias morar conosco e nos acompanhar ao baile da Ilha Fiscal - convidou-o  o cunhado.

     - Eu lhe agradeço muito, mas... sabe? Já tenho até um emprego prometido no jornal. E me comprometi, a pedido do pai, a acompanhar uma moça lá do Sul, e sua mãe, à festa. Não quero mesmo perder a última ceia da aristocracia - gracejou.

     - Não dês crédito a boatos. Não subestimes a Marinha Imperial do Brasil. Te cuides com politiqueiros que querem dividir o país em republiquetas.

     - É sim. Mas nem os heróis do exército ou da marinha têm os pés no ar. Uns têm os pés na terra, outros no mar - desconversou sem dizer cousa alguma.

Quando saiu, Cecília estava envolvida com as amigas, discutindo detalhes dos vestidos.

Na lista dos convidados, organizada no palácio, constava o nome do major Solano. E foi dele a idéia de convocação da reunião no Clube Militar, aproveitando a data do baile na Ilha Fiscal. Pediu a Xandô que acompanhasse a filha e a esposa. Em sua residência, reinou a mesma animação, embora as mulheres mexericassem:

     - Por mais monumental que seja o baile, vai fazer falta o pé-de-valsa, o marechal Deodoro, para que o governo fique fortalecido.

     - Um pé-de-valsa galanteador. Sabes que no Sul se tornou inimigo de morte do conselheiro Gaspar Martins, por causa da Baronesa do Triunfo? Queria conquistá-la, mas Gaspar Martins levou vantagem ao cair da montaria na fazenda do pai da moça, quebrando a perna e recebendo dela os cuidados. O marechal não o suporta, não pode ouvir-lhe o nome, fica bufando.

     - Num salão de gala, nunca se viu maior garbo no comando de uma quadrilha.

     - Se não lhe falhasse o coração, iria à Ilha Fiscal com o uniforme vistoso, o peito repleto de medalhas e comendas, o escarlate à gola e à cintura, os punhos e galardões dourados. Quem não sabe de seu romance com a viuvinha?

     - Aí não adiantava nada a assembléia no Clube Militar.

A enfermidade do marechal Deodoro, a ausência do almirante Saldanha da Gama, a agitação revolucionária nas províncias, o descontentamento dos militares com os atos do gabinete, poderiam favorecer a mudança de regime por uma rápida ação armada. Aliciado o regimento de cavalaria, o major Solano garantira a adesão de outros quartéis. Era bom que as atenções se voltassem para o grande baile que o presidente do Conselho de Ministros, Visconde de Ouro Preto, ofereceria aos oficiais do encouraçado chileno.

Os preparativos movimentaram o Rio de Janeiro, teve folga o conselheiro Basson e pôde relaxar a vigilância da polícia. De outra coisa não se falava, apesar das críticas acerbas de quem não recebia o convite aguardado, vingando-se nos cafés da Rua do Ouvidor:

     - Tudo à custa do povo. Duzentos e cinqüenta contos de réis jogados fora. Vão gastar uma fortuna, dez por cento do orçamento da província.

     - Um acinte.

Nas lojas de roupas finas, na Casa Welicamp, na Palais Royal e na Mme. Roche, as damas escolhiam toaletes, sedas, rendas, chamalotes e veludos. Cavalheiros encomendando casacas, vestaus - o traje novo, comprido, preto, com golas inteiras de seda. Fatiotas anunciadas nos jornais. A Chapelaria Aristocrata avisando ter recebido pelo vapor Pinto, chapéu de mola, de gorgorão, cetim ou merino. Mal dava para entrar no Bazar do Costa e na Chapelaria Universo, tamanha a afluência.

No Rio, o ano passava velozmente. O tempo não lhe parecia lerdo como nas cartas que recebia do Sul e lia na hora de dormir, antes de apagar o lampião no quarto. Chegavam com abraços e beijos, como se visse as pessoas, presenciasse os acontecimentos relatados. Aplacavam-lhe as saudades. Frederico abandonara o ramo de hotel e confeitaria. Dera-lhe conselhos para que não se iludisse com política, que a República viria a seu tempo. Manoel tirara o curso de guarda-livros e não tardaria a casar com Cidinha, filha do coronel Bitencourt. Alberto fora nomeado professor, dirigia o Teatro Santana, mas causava pena, sofrendo muito uma desilusão amorosa. Imaginadas de longe, tornavam-se até cômicas as brigas entre Vítor Machado e o doutor Glória. Soube Xandô que este agredira a bengaladas Eduardo Chaves, na loja de Maneco, em Curitiba, devido ao comentário sobre o beijo no cemitério.

Sentia-se fortificado pelas notícias caseiras. Confortavam-no de pequenas desilusões com a cidade grande. Estranhara a superficialidade de muitos que se desfaziam em mesuras e gentilezas, porém evitando estreitar relações de amizade. Achava que a falsidade na corte influenciava muita gente. Chocara-o a mendicância, a indiferença a párias dormindo nas ruas. De onde viera, nunca vira alguém jogado numa sarjeta. Fora injusto quando criança perguntara aos pais "por que os senhores deixam haver mendigos?" E Letícia, como lhe parecia graciosa...

Pôs-se a meditar depois que vedou a entrada da lua pela janela. Responderia ao pai, que abraçara a idéia socialista por discordar de desigualdades de direitos, da divisão entre os homens por causa de bens, de dinheiro, de religião, de raça e tudo mais. Indagava de si próprio como seu pai, um simplório, podia saber que os carreiristas se aproveitam do ideário dos sonhadores, dos utopistas? Mal cursara o primário. O que aprendera a cavalo nos tempos de tropeiro, ou mesmo negociando na vila? Se não entendia de história, de onde provinha o conhecimento de que para cada período corresponde um regime? Viva a sua vida - dissera de modo imperativo. Teria também adivinhado a hora do baile na Ilha Fiscal? Revirou-se na cama com um estalo no cérebro: eureca! - Meu pai tem a mesma intuição de Jango Ribas e do velho jornalista baiano. Uma lei maior, a Lei de Deus, rege tudo, o Universo, a vida, as ciências, a humanidade. Nela, os fatos são previstos e determinados a seu tempo. Com o trabalho o homem vence a fome, as doenças, os males, a sujeira, a miséria. E o amor deve ser o seu móvel. Pronto, solucionado o quebra-cabeças.

Esquecendo-se de tudo em que estava pensando, por fim adormeceu.

Acordou alegre, porém sem se lembrar da vigília, do sono e dos sonhos. Era o dia nove, o da grande festa, na qual não havia acreditado que pudesse comparecer. Sem saber o porquê da idéia, expressou-a:

     - Tudo vem a seu tempo.

     - Já li isso na Bíblia - disse-lhe Mme. Souza, servindo-lhe o café da manhã.

Amanhecera inspirado, o espírito instruído durante a noite. Tudo lhe parecia excitantemente agradável, bonito. A caminhar absorto, pensando na passagem "Olhai os lírios dos campos", achou-a significante e reveladora. As pessoas simples, que têm sabedoria, aprendem o que está escrito na própria natureza - divagava. É tão fácil ver que "tudo vem a seu tempo". Bastou olhar um ipê amarelo para ocorrer-lhe a idéia e uma premissa: as árvores florescem na primavera. Ao filosofar sobre a ordem em que se processam os acontecimentos, atravessando o Largo, chocou-se com um cavalo e ouviu o pito do carroceiro de chicote à mão:

     - Tá dormindo? Bocó duma figa!

Não perdeu o humor, apesar de haver pisado em esterco na rua.

À tarde, Mme. Souza ajudou-o na aprontação. Houve filas nas barbearias, movimento igual ao dos cabeleireiros onde as mulheres disputavam as vagas. A abertura do baile fora marcada para as oito e meia da noite, porém desde cedo a multidão postara-se no cais Pharoux e nas ruas adjacentes, aguardando a passagem dos convidados. A fina flor - segundo os jornais. A corte, galegos ricos, personalidades, altos funcionários.

Antes de sair com o tenente Irani em direção ao Clube Militar, o major Solano despachou a carruagem com sua família e Xandô para o ancoradouro. A leva de convivas arrancava exclamações da plebe que a aplaudia. Rumo à ilha, numa das barcas de Niterói, este viu em Aninha uma princesa. Estava tão faceiro que até a noite, enamorada, piscou-lhe a lua. Afinal, acabavam de entrar num verdadeiro conto de fadas, o que não impediu de ocorrer-lhe o pensamento de que a monarquia iria naufragar numa maré de divertimentos. Os fachos dos encouraçados iluminavam a ilha. Damas finíssimas recepcionavam os convivas, conduzindo-os ao palácio com os quatro salões decorados, as luzes jorrando de lanternas e candelabros. Cumprimentado pelo Visconde de Ouro Preto, D.Pedro II tropeçou ao transpor o portal e gracejou:

     "-  O monarca escorregou, mas a monarquia não caiu."

D.Pedro vestido de almirante, sua família e as de seus ministros polarizavam as atenções, notadas as presenças de congressistas e de alta oficialidade. Concentravam-se igualmente nos homenageados. Ainda que com a enchente nos salões, recepcionada a tripulação do encouraçado Cochrane, a marinha apaniguando a corte, passavam despercebidas à realeza ausências até mesmo de figuras ilustres. Casais e pares de jovens deram maior animação ao baile. Apreciavam-no de peitos erguidos cavalheiros, e damas de corpos arredondados. Xandô, a esposa e a filha do major Solano formaram um grupo com o guarda-marinha Carvalho Mendes e Cecília, logo à direita do portal. Deixou-o desenxabido a irresistível atração de Aninha pelas fardas de gala. Decepcionara-o ao som das rabecas:

     - Por que tu não ingressas na Academia para seguires a carreira militar? - impondo de narizinho erguido.

     - Não nasci para marchar - melindrando-a.

     - Então não admiras meu pai? - estranhou-o.

     - Sim. Mas meu ideal é a justiça, não a espada - foi cordato.

Ela meneou a cabeça, balançando o corpo, e com ar de pouco caso lamentou um amor perdido:

     - Ficarias tão bem num uniforme...

O namoro terminou sem haver começado, e pôde vê-la enlevada nos braços de um cadete chileno. Pôs-se a vagar nas dependências do palácio, esgueirando-se entre mais de cinco mil pessoas, figuras em extinção como rei, rainha, condes e viscondes, bichos áulicos, gente empavonada. A máscara coletiva exprimia bem a falsidade social, embora procurassem disfarçá-la. Escancarava-se com todo esplendor a hipocrisia da sociedade imperial. Até moças casadoiras  escondiam risinhos  maliciosos atrás de leques coloridos.

O som de fundo que se ouvia era feito com trechos de óperas, porém para dançar as bandas tinham repertório com predominância de valsas e polcas.

Nos vastos salões paradisíacos, foram servidas as mesas com aparelhos de prata, finíssimo cristal, louças de porcelana estampadas a ouro, pratos ornados de flores e frutas, tudo a combinar com a suntuosidade mourisca. Os convidados fartaram-se de mais de mil quilos de camarões, milhares de assados, de doces e requintadas iguarias, afogando-se a casta num mar de vinho e champanha.

Mal-humorado, à vista de aduladores erguendo brindes ao reino decadente, enojou-se. Vieram-lhe à memória o "conselheiro" Totó e suas graças no Circo Imperial. A casta bebia e comia emporcalhada, chapéus enfiados na cabeça. Súditos civis com patentes de coronéis, galegos ricos, trovejavam com a boca cheia, respingando-se. Ora de pincenê ou nariz empinado e até com o rabo dos olhos mediam-no dos pés à cabeça. Certamente, não lhe caíra bem o traje, não sabia empertigar-se, menos ajeitado que um pagem. Tinha a impressão de que o julgavam um penetra. E dizer que chegara eufórico à ilha, vendo-a qual castelo flutuante bombardeado de luzes pelos encouraçados. Que afundasse com os bêbados empanturrados! Que afundasse com a carga acumulada de quatrocentos anos de escravidão!

O fausto entristecia-o, a soberba provocava-o. Porém bastou que Laiz, uma fada, entrasse no conto para transformar tudo em sonho, modificando-lhe o estado de espírito. Ela e o irmão, Orestes, procuraram-no nos salões fervilhando de gente. Fê-lo perder a fala, todo frajola, de casaca emprestada. Justamente ela que despertava paixões na juventude acadêmica, admirada inclusive na corte, apesar de sair de baiana na passeata estudantil. Achou-o com o pretexto de apresentá-lo à família, o herói na briga das galinhas, acomodada no lado oposto, próxima à do monarca. Fidalgamente, Orestes entreteve dona Otília e fingiu não ouvir quando Aninha, despeitada, interpelou em voz baixa Xandô:

     - Vais dançar com essa enjoada, toda cheia de petelequê?

Aí, sim, começou o baile, e um par formado pelo coração viveu num clima de festa fantástica. O galanteio foi de quem zonzeou com o burburinho, inebriado pelo encanto de Laiz:

     - Minha impressão é de que estou noutro mundo. O meu meio não é este. Sou um peixe fora da água. Sabe como me sinto?

     - Sim, diz - pediu que continuasse, a voz chiada.

     - Assim como você: fora do céu - não a tratou por tu, o que também a agradava. Disse-lhe que parecia acima das cousas terrenas.

Não havia dúvidas, era um ser da plêiade que faz o mundo evoluir - pensou.

Enlevaram-se tanto no salão, em meio ao farfalhar das sedas e às cintilações dos bordados, que a ela soou verdadeira a idéia de Xandô, que a tiara prendendo-lhe os cabelos a aureolava. Sentiu-lhe a fragrância já na "pièce de résistance" em três tempos: valsa, fantasia e valsa. Agora, sim, ele via o ambiente inebriante, "o bulho e o ruge-ruge das sedas, os colos salpicados de brilhantes, safiras, esmeraldas e os diademas rutilantes dos penteados".

Mal provara o vinho, porém dela se embriagara, falando até demais. Laiz pôde auscultar-lhe a agitação interior e o coração rebelde. Conversaram muito e até sobre livros, criticando a visão pessimista ora no romantismo, ora no realismo. Ambos concordavam em que deviam ser exaltados os bons sentimentos, a esperança e o bem no mundo. Não se afinavam com a grã-finagem gulosa, pendurada nos garfos e copos, grosseira.

     - A monarquia vai morrer de indigestão, não quero perder o enterro - brincou ele, espirituoso.

Magoou-a, todavia, ao dizer que aquela noite encerrava o espetáculo de um mundo falso e injusto. Laiz imaginou que o desagradara. Perdoou-o e foi a primeira a perceber que da paixão momentânea florescera em cada coração apenas uma grande admiração, uma grande amizade.

Ao tomá-la nos braços novamente, ambos se esqueceram do mundo, pois não viram passarem as horas.

A ceia precedera a licenciosidade dos cavalheiros e damas disfarçadas atrás dos leques. Então se despediu de Laiz, lisonjeando-a como a fada no último baile da monarquia.

     - E tu que personagem foste?: - perguntou-lhe, pouco antes de acompanhar Orestes e os pais à barca.

     - O povo - satisfê-la, deslumbrado ainda com o canto de cisne da monarquia.

Fim de festa, pró-pudor! espartilhos, ligas de meias arriadas, perdidas pela ilha, escandalizaram o Rio de Janeiro.

 

II

 

Os oficiais aproveitaram a noite do baile e a ressaca da aristocracia. Reunidos no Clube Militar, conferiram plenos poderes a Benjamim Constant para buscar uma solução honrosa à classe e ao país. Acompanhado pelos sobrinhos de Deodoro e pelo major Solano, dirigiu-se ele ao palacete do marechal, ouvindo-o indignar-se no leito:

     "- O Velho já não regula, porque se regulasse não haveria essa perseguição contra o exército. Já que não há outro remédio, que leve à breca a monarquia!"

Dias antes, o marechal indagara a Floriano Peixoto qual seria a sua posição, e este lhe declarou pegando um botão da farda: "Seu Manoel, a monarquia é inimiga disto, se for para derrubá-la, estou pronto." Influenciara-o.

Animado com a disposição demonstrada por Deodoro, adiantou-se o major Solano:

     - Marechal, podemos marcar uma reunião com o senhor para amanhã à noite?

     - Sim. Amanhã às oito, eu os esperarei.

À hora aprazada, na sala iluminada, com os líderes civis e militares à mesa, Benjamim Constant concitou-o a proclamar a República. A resposta satisfez a todos:

     "- Eu queria acompanhar o caixão do imperador que está velho e a quem respeito muito. Ele assim o quer, façamos a República. Benjamim e eu cuidaremos da parte militar. O senhor Quintino e seus amigos organizem o resto."

Ao deixar o palacete, um dos líderes civis provocou risos ao dirigir-se a Lopes Trovão:

     - Ele queria acompanhar o caixão do imperador, mas é difícil saber qual dos dois vai primeiro...

O Visconde de Ouro Preto ainda se iludia e afirmou aos membros do gabinete:

     - Não falta apoio ao governo, compensei a ausência do marechal Deodoro, agraciando com convites para o baile quarenta e cinco grandes patentes do exército.

O próprio conselheiro Basson demonstrou tranqüilidade:

     - O marechal Deodoro, além de amigo do imperador, é primo-irmão do senhor ministro da Guerra. Não iria aderir à indisciplina.

Achando-se fortalecido com a apoteose da Ilha Fiscal, o Visconde anunciou que ia acabar com a indisciplina no Exército e na Escola Militar, ameaçando confinar e dissolver unidades, além de punir os responsáveis. Na tarde do dia quatorze, determinou que o ajudante-general Floriano Peixoto chamasse o major Solano para deslocar os regimentos de cavalaria e da artilharia do quartel de São Cristóvão para a Praia Vermelha. Antes de convocá-lo, o general Floriano avisou-o por oficial de confiança. Fora responsável de sua transferência de Curitiba para o Rio de Janeiro, deu-lhe sinal discretamente na sala de comando, antecipando a hora da revolta. De Floriano, que de fato a chefiava, uma ordem levantaria a tropa e troariam os canhões. Dissimulava a repulsa ao gabinete e à aristocracia, medindo, economizando as palavras. Tal a razão do fleuma, fleuma típico do caboclo de guerra. A perspicácia tornava-o tão cauteloso - achavam-no desconfiado - a ponto de, não pondo em dúvida a lealdade e as convicções de Benjamim Constant, lembrar a companheiros de farda que até este só se declarara republicano depois de preterido por afilhados da Coroa, no colégio do professor Aquino, no Morro de Castelo. Em seu posto de ajudante-general, Floriano queria evitar riscos desnecessários.

Desta vez, não se repetiria um erro como o de sete de abril, no qual o país caíra no logro da Abdicação. A discussão sobre a necessidade de mudança do regime atingira o auge. Até um projeto de lei propondo-a fora apresentado, obtendo trinta e sete votos favoráveis.

Tinha de ser agora!

Aninha foi à pensão com recado do pai para Xandô e Estácio que avisaram os líderes estudantis, percorreram cortiços, pontos de comércio, de aluguéis de carros, portas de fábricas.

O major Solano não descansou um só minuto. À paisana, dirigiu-se de bonde ao Largo de São Francisco, alvoroçando os cadetes que se reuniam no Café Londres. O pessoal das redações se agitou aumentando os grupos que se formaram na Rua do Ouvidor. As notícias espalharam-se provocando a estupefação geral.

     - O governo vai prender o marechal Deodoro e Benjamim Constant.

     - É preciso avisar Lopes Trovão, Quintino Bocaiúva, Patrocínio, o Pé de Pato, antes que o conselheiro Basson mande trancafiá-los nas fortalezas.

     - As guarnições do exército vão ser transferidas para o interior do país.

     - A cidade vai ser entregue à guarda negra, aos capoeiras e arruaceiros.

     - É a anarquia total.

     - Pode estourar uma guerra.

Alertados, os fundadores do Partido Operário mobilizaram a massa para que, de manhã, apoiasse as tropas no Campo de Santana.

Apesar do mangue e do mar, o Rio de Janeiro pegava fogo. O povo tinha em mente manifestações às quais desejava dar seqüência. Não esquecera a revolta do vintém que começara no Terreiro do Paço. A multidão havia depredado bondes, arrancado trilhos, dispersada a bala, deixando mortos e feridos na Rua Uruguaiana. No ano seguinte fora dissolvido o comício do próprio Lopes Trovão. Há pouco, ele voltara da Europa pelo vapor "Ville de Santos", recebido com estrondosa demonstração de apoio popular. Proibidos de comparecerem à recepção, os cadetes subiram no baluarte da escola, acenando e dando vivas ao grande republicano.

Com o alarme que o major Solano fizera soar, ficaram em pé de guerra. No quartel de São Cristóvão, propôs que se desse um ultimatum ao governo, aproveitando a ausência do imperador. Os oficiais mostravam-se impacientes:

     - D.Pedro não sabe o que se passa nas províncias, nem debaixo de seu nariz.

     - Enquanto escreve sonetos e ouve o fonógrafo, atacado de diabetes ou entretido com divertimentos, o governo persegue os militares e quem não quer mais escravidão no Brasil.

Foi unânime a decisão:

     - Vamos tirar o marechal Deodoro da cama e proclamar a República!

Cerraram-se as portas do Maison Moderne, do Recreio Dramático, das tabernas, das cervejarias do Largo do Rocio, e a cidade recolheu-se sonolenta. As luzes nos quartéis chamaram a atenção do conselheiro Basson, o que levou o Visconde de Ouro Preto a convocar o gabinete no Ministério do Exército.

Na manhã de quinze de novembro, seis dias após o baile na Ilha Fiscal, a população acordou com um grito entalado na garganta. A exclamação que agitava as ruas, as praças, os teatros e clubes, soando mais alto que os projéteis nas cargas da polícia e da guarda negra. Depois da prisão de Adriano, apenas um menino, o governo quis amordaçar a nação, os jornais anunciaram em letras garrafais: "- É proibido gritar: Viva a República!" Muitos que desafiaram o édito foram para as fortalezas. Na apresentação do gabinete, o padre João Manoel bradara por todos: "Viva a República!" As galerias romperam em aplausos, o capitão Serzelo só se acalmou com as mãos de Floriano em seus ombros.

A guerra dos gritos ainda não terminara.

Às primeiras luzes da Aurora, romperam em direção ao Campo de Santana a primeira brigada e os cadetes da Escola Militar. Um funcionário apressou-se em representar o povo no regimento de artilharia. À frente de um batalhão de cavalaria fechando o cortejo, vinha o major Solano. Corriam enorme risco, pois o conselheiro Basson reunira uma força de dois mil homens, policiais e marinheiros. Mas, providencialmente, mal aconselhado pelo ministro da Guerra, o Visconde se isolara com o gabinete no quartel-general, exposto ao cerco, ao sítio da artilharia, à mercê de Floriano.

Caiu numa ratoeira - diriam.

De madrugada, Benjamim Constant e Quintino Bocaiúva tiraram da cama Deodoro com dispnéia e acesso de asma. O marechal conseguiu erguer-se, animado com o deslocamento das tropas, tirando as cataplasmas do peito. Com a ajuda da mulher, vestiu a sobrecasaca de um uniforme e calça de outro, sem forças para levantar a espada. Chegou combalido à casa do major Solano, porém dona Otília e as meninas recolocaram-no na carruagem, revestindo-a com travesseiros e almofadas.

Tido como fiel amigo do imperador, monarquista e primo do ministro da Guerra, a presença do marechal provocou a maior confusão entre as tropas posicionadas no largo. Forças leais ao governo prestaram-lhe continência durante o trajeto. Ao chegar, um alferes cedeu-lhe o cavalo para que assumisse o comando das amotinadas. Com o quepe na mão direita, exclamou: "Viva o Imperador!" Foi ouvido por alguns graduados que chegaram a responder "Para sempre Viva!" Mas o major Solano reagiu regendo um coro mais forte da oficialidade rebelde, e Benjamim Constant ordenou uma descarga de artilharia, ficando apenas a impressão dos vivas à República. O ministro da Marinha tentou salvar o regime, desceu da carruagem, apontou a pistola para Deodoro, porém levou dois balaços, e um tenente desferiu-lhe uma coronhada.

O Visconde não acreditava no que via e ordenou que um marechal investisse contra os sublevados. Este saiu do prédio com uma coluna de soldados, aderindo ao movimento. O potentado resolveu instar com Floriano, que a seu lado aguardava o desfecho dos acontecimentos:

     "- No Paraguai, o senhor foi o valente à frente de nossos soldados que tomaram a artilharia em piores condições. Faça agora o mesmo, tomando aquelas bocas de fogo que ali estão."

     "- Sim - respondeu o ajudante-general - mas as bocas de fogo no Paraguai eram inimigas, e aquelas que V.Ex.ª  está vendo são brasileiras, e eu sou antes de tudo um soldado da nação. Os galões que possuo, Exª, foram ganhos nos campos de batalha e não por serviços prestados a ministros."

A banda tocou e Deodoro entrou triunfalmente no quartel-general. Surpreendentemente, exclamou:

     "- Viva Sua Majestade, o Imperador!"

Acompanhado do alferes Rondon, dirigiu-se à sala de ministros, obrigando o gabinete a exonerar-se. Decidido a depô-lo, ameaçando de prisão o Visconde e seu ministro da Justiça, mostrou-se dúbio e vacilante, preocupando Floriano, pelo que lhes disse:

     "- ... Quanto ao imperador, tem a minha dedicação, sou amigo, devo-lhe favores. Seus direitos serão garantidos. Vou encaminhar nomes a D.Pedro para um novo ministério. Depois me entenderei com D.Pedro."

Em face dessas palavras, o Visconde apressou-se em salvar o regime, solicitando a imediata presença de D.Pedro para que organizasse novo ministério.

O povo saíra às ruas, um grande comício realizou-se atrás das forças. O chefe civil Quintino Bocaiúva surgira a cavalo, dando vivas à República, correspondido pelas tropas e pela massa popular concentrada em frente à Câmara Municipal. As janelas e sacadas dos prédios estavam apinhadas de gente. Embaixo a multidão heterogênea, a plebe urbana. Homens e mulheres impedidos de serem cidadãos. Uns vinham a pé, outros de carroça, bonde, seges, carruagens. Esvaziaram-se os salões de comércio, os cortiços, os casebres que grimpavam as encostas dos morros.

Xandô e Estácio haviam avisado Zé do Pato, José do Patrocínio, e Lopes Trovão para que convocassem o povo à Câmara Municipal e proclamassem a República. A sessão foi concorrida e o comício prosseguiu lá fora. Xandô a assistia de um dos balcões compartilhando da comoção nacional. Os oradores declaravam findos quatrocentos anos de tirania e escravidão. Ele divagava emocionado porque seus olhos viam ao longe, naquele momento, caminhos abrindo-se no horizonte, a Rua das Tropas desembocando no Campo de Santana. De arraiais que cresceram - estrelas pregadas no céu - eram a sua extensão o Rio de Janeiro, suas praças - o Campo de Santana.

De novo a banda tocou, quando o marechal Deodoro saiu do prédio. O vivório tornou-se ensurdecedor, um capitão até perdeu o fôlego de tanto gritar, desmaiando. Contagiado pelo entusiasmo dos civis e das tropas, o marechal montou o cavalo, arrancou o quepe agitando-o no ar e - até que enfim! - bem alto exclamou:

     "- Viva a República Brasileira!"

A artilharia respondeu pelo Exército com uma salva de vinte e um tiros.

Na Câmara Municipal, após os discursos de José do Patrocínio, Olavo Bilac, Murat e Pardal Malet, consumou-se então a proclamação da República. No manifesto, os vereadores pediam aos representantes das classes militares que "virtualmente exerciam as funções de governo no Brasil, sancionassem o ato".

As tropas desfilaram pelas ruas, e manifestantes chegaram a correr deputados governistas que das janelas do edifício da Assembléia davam vivas ao imperador.

Lopes Trovão promoveu chopada numa taberna,  festejando a vitória, quando D.Pedro chegou de Petrópolis e se dirigiu ao Paço. Evitaram que se aproximasse de Deodoro, ao qual o major Solano comunicou:

     - Sua Majestade, o Imperador, por indicação do Visconde de Ouro Preto, acaba de nomear chefe de gabinete o Senador Gaspar Martins.

A notícia atingiu-o como um raio, provocando-lhe uma explosão de cólera:

     - Vou mandar deportar os três: o Visconde, o irmão e o Gaspar Martins!

À esposa que o observara com ar de contrariedade, explicou:

     - Isso não tem nada a ver com a Baronesa do Triunfo.

De imediato assinou a proclamação previamente redigida, que lhe foi entregue e divulgada no Brasil e no mundo. Recebera o documento das mãos de Benjamim Constant e, à porta do palacete, foi aplaudido pela multidão.

Do governo provisório, rezou o decreto inaugural: "Fica proclamada provisoriamente e decretada como forma de governo da nação brasileira a República Federativa."

Até tarde da noite comemoraram na taberna a revolução vitoriosa. Da roda de Xandô, Estácio, Orestes, Adriano e tantos outros, aproximou-se o rapaz canhestro, expulso da Escola Militar por haver desacatado o diretor e o próprio ministro da Guerra, ao protestar contra a proibição aos cadetes de comparecerem ao desembarque de Lopes Trovão. Cursara a Escola Politécnica, porém queria retornar ao Exército.

     - Tu poderias falar de mim ao major Solano - pediu a Xandô, depois de falar sobre a necessidade de um romance em que a personagem fosse a Pátria.

Prometeu atendê-lo e saiu mais cedo, preocupado com a posição de seu cunhado.

O major Solano rondou o solar do Paço com uma patrulha e prendeu quinze marinheiros nas imediações. No outro dia, acompanhado de dois oficiais, entrou no palácio com notificação ao imperador para que, com a família, deixasse o território brasileiro.


 

 

 

A ALVORADA REPUBLICANA

 

 

Encoberta pela noite, a família imperial embarcou no Paraíba e depois foi transferida para o mercante Alagoas. O rei protestou:

     "- Não sou negro fugido para embarcar a esta hora."

Em pleno mar, o herdeiro do trono, neto de D.Pedro, ao sofrer mais uma de suas crises, por pouco não estrangulou o comandante do navio.

De posse do telégrafo, um tenente anunciou ao país a tomada do Campo de Santana, dando vivas à República.

Um sopro - puf! - e ruíam os palácios nas capitais. Nas câmaras, o povo e as tropas aclamavam governos provisórios. Invalidavam-se títulos de nobreza, os abrasonados igualavam-se ao conselheiro Totó, do Circo Imperial.

Esboçou-se resistência. Na Bahia houve conflito no Largo Castro Alves, cacetadas, pedradas, tiros de revólveres. Em Belém, os republicanos tiveram de obrigar o presidente a deixar o governo, apoiados pelas guarnições militares.

Em São Paulo e Campinas, a população participou de comemorações apoteóticas. Uma comitiva de senhoras campineiras promoveu na capital uma grande passeata. Parecia um movimento de elite, mas os jornais noticiaram o apoio popular ao novo regime. Da região cafeeira, avançava uma classe rica e próspera dando origem, com o crescimento urbano, à alta burguesia. Os cafeicultores diferenciavam-se dos fazendeiros de gado, estes fixados à terra, à montaria, cavalgando com os camaradas o latifúndio.

No Paraná, o patriarca de Palmeira, ex-ministro e conselheiro, renunciou à presidência. Os dois partidos, um reunido no Clube dos Girondinos, outro no Teatro São Teodoro, arriaram a bandeira do antigo regime para disputarem as graças do governo provisório. O Liberal acabou nas mãos do doutor Glória e seus seguidores. Mas ele e os adesistas teriam de confrontar-se com o doutor Vítor, republicano de primeira hora, deputado cujo pronunciamento na Assembléia virou a província.

As cidades tornaram-se pequenas para tanta gente nas ruas, nas praças, num sem fim de desfiles, com bandas musicais, de festa e de sessões cívicas.

Xandô só viria de férias em dezembro, após o período de provas. Empolgara-se no centro dos acontecimentos, como a maioria dos moços, com o que se idealizava para o Brasil: "A República da Paz". O governo se declarara "da paz, da fraternidade e da ordem".

Longe, varando campos e matas sulinos, atraindo romarias aos pousos onde erigia cruzes, benzia as fontes e batizava as crianças, João Maria preparava a caboclada:

     - Vai estourar uma guerra de dar sangue nas canelas.

Pregava, dizendo que os padres haviam traído o imperador.

A República deu à luz a contra-revolução, com as desordens e a pusilanimidade dos vira-casacas. A alta sociedade carioca sentiu-se frustrada com o cancelamento do baile que o Conde D’Eux e D.Isabel ofereceriam aos visitantes chilenos na Boa Vista. Referia-se com ódio ao povo do Campo de Santana como "a ralé maltrapilha". Durante a visita que lhe fizera, Xandô ouviu do cunhado que a marinha jamais permitiria o destronamento de D.Pedro II, a qual fora surpreendida com seus chefes ausentes. Havia motivos para o boato que corria no país: - Uma flotilha naval vai trazer de volta a família imperial.

No alto mar, em viagem de cruzeiro, o almirante Custódio de Melo e seus comandados renderam a bordo homenagens a D.Pedro e seus filhos.

A reação crescia com forte respaldo de antigos conselheiros, ministros, condes, viscondes, áulica companhia. No dia da proclamação, os jornais não souberam analisar os fatos. Davam notícias lacônicas: - "...rompera com o dia um movimento militar", "o movimento que iniciado por alguns corpos do Exército, generalizou-se rapidamente pela pronta adesão de toda a tropa de mar e terra existente na cidade". Então o Visconde divulgou um manifesto, concluindo: "A República brasileira, tal qual foi proclamada, é uma obra de iniquidade; não pode perdurar." Iniciara-se uma campanha para negar a revolução nacional e a legalidade republicana. Os monarquistas argumentavam que a tomada do Campo de Santana fora apenas uma sedição, os civis não passavam de desordeiros e os soldados de indisciplinados. O novo chefe de polícia teve dificuldades em extinguir a guarda negra e bandos de arruaceiros que se insurgiam contra o novo regime.

O mais difícil seria debelar as idéias com as quais se gerava a contra-revolução. Confundira-se até mesmo um ministro do governo provisório, que escreveu: "O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem saber o que significava."

Tal declaração infundada e desastrosa seria muito explorada. Em contrapartida, o "Correio Paulistano", num artigo do conselheiro Antônio Prado, reconhecia que "o movimento militar de quinze de novembro, transformara-se em verdadeira revolução, com um governo apoiado pelo Exército, pela Armada e aclamado pela população".

O empenho em denegrir a República chocava-se, no entanto, com a realidade nacional. Exaltavam-na os jornais do interior e o povo festejava-a nas ruas. Despachos de Buenos Aires diziam que os acontecimentos do Rio de Janeiro causaram sensação no mundo. O "Daily News", de Londres, comparava-o aos de Paris, cem anos antes: "A República brasileira foi proclamada durante o centenário da Revolução Francesa". Antes e depois de tomar o Campo de Santana, o povo brasileiro cantava a Marselhesa e o Hino Nacional.

Por fim, a "Tribuna Liberal", que difundia as idéias contra-revolucionárias, foi empastelada por populares e silenciada por decreto.

Às vésperas da viagem de férias, Xandô e Estácio estiveram na casa do major Solano, encontrando os paulistas do jornal "Evolução", que tinha a divisa "ordem e progresso" adotada pelos republicanos. Estavam eufóricos, um deles subestimou a reação:

     - A nobreza tem sete marqueses e uma marquesa viúva, dez condes e dez condessas viúvas, vinte viscondessas    viúvas, vinte e sete barões e onze baronesas viúvas.

O outro ainda observou:

     - Esqueceste um monte, a começar pelos viscondes e trezentos barões sem grandeza. Não contaste cinqüenta e cinco baronesas viúvas, nem a corja de bajoulos.

Ninguém se dava conta do perigo de uma contra-revolução que a todo custo ocultaria sua face restauradora, aninhada no ventre da própria República.

Havia ameaça no Rio de Janeiro, onde o príncipe constituía motivo de orgulho nas fileiras