A Nova Filosofia
(Origens)
Noel Nascimento
Desde que se cobriu de peles de animais, construiu abrigos,
friccionou uma pedra em outra e obteve o fogo, e inventou a roda, jamais
o homem deixou de inventar e criar novos instrumentos para satisfazer
suas necessidades, progredindo material e espiritualmente. Com seu
gênio inventivo e criador foi, aos poucos, vencendo o meio natural. Com
o poder de sua imaginação, trabalhando, pôs em movimento o processo
de desenvolvimento social, fabricando e acionando a roda da história.
Após os primitivos instrumentos de pedra, fez o arco e a flecha que lhe
possibilitaram a caça e a pesca; com instrumentos de metal criou a
agricultura; aperfeiçoando e utilizando novos materiais, inventou e
desenvolveu a cerâmica, a olaria, a forja e fez surgirem os ofícios; em
seguida a um período manufatureiro, inventou a máquina e construiu
fábricas e usinas. Com os recursos proporcionados pelo meio, fez o
passado, o presente, e fará o futuro.
Senhor da Terra, parte agora à conquista do espaço sideral. O seu
invento já não é mais fruto da imaginação e trabalho de um só indivíduo,
não pertence a um só grupo, ou a uma só nação; é o complexo de outros
tantos inventos e representa todo o engenho humano. Vivemos um novo
período, de progresso tecnológico, em que as invenções se sucedem em
número crescente, com novas fontes de energia, modificando-se o mundo
natural sob impacto dos lances criativos do homem.
Neste momento em que é capaz de descerrar as cortinas dos céus,
tudo a seus olhos assume novas dimensões, inclusive ele próprio.
Ao avanço verificado nas ciências da natureza deve corresponder
um novo estágio das ciências do espírito. Navegar no mar sideral é
conseqüência de excepcionais condições materiais de existência, as quais
possibilitam um reexame de todo o processo filosófico.
Os povos se inquietam, a intelectualidade se agita, a juventude se
rebela, o espírito humano sacode novamente seus próprios fundamentos,
e os movimentos de protesto e contestação indicam que filosofias foram
ultrapassadas à medida em que deixaram de oferecer soluções para os
problemas da humanidade, ou o que vem a ser a mesma coisa: do homem
singular.
Num terreno ainda de crises fermentadas, já começam a brotar as
sementes do novo pensamento porque o homem reage ao desrespeito de
sua dignidade, à dissolução no anonimato e no impessoal, num ser
coisificado.
São nessas condições que se tem dado a revisão, em que não se
aceitam verdades preestabelecidas e nem violências justificadas por
preconceitos.
Os fatos atuais mostram que o homem procura reencontrar-se com
o passado e consigo próprio, importando isto numa Reconstrução nas
artes e na literatura, e numa Reconstrução na sociedade. Reconstrução
que não pressupõe ruínas nem demolição, mas é preciso considerar,
inclusive o perigo iminente de uma catástrofe apocalíptica que vinha
sendo preparada pelos arsenais atômicos e ameaçada por uma revolução
da própria natureza. Quanto a isto, só existe um meio de evitá-las: é o
homem tornar-se, antes dela, o que será após ela, desde que sobreviva.
- É alentador notar-se uma atitude de volta ao preceito de Sócrates,
primeiro preceito humanista: "Conhece-te a ti mesmo".
Miguel Reale, um dos construtores do pensamento brasileiro, para
o qual o homem é a fonte de todos os valores, vê em Kant o nascimento
do personalismo:
"Em que pese a crítica hegeliana, - que apontou justamente a
insuficiência da pessoa desligada da comunidade, - devemos a Kant o
reconhecimento de que o homem, mesmo tomado como simples
possibilidade de realizar-se na sociedade e no Estado, já possui um valor
infinito, condição de toda a vida ética. É essa força deontológica que, a
meu ver, se projeta na concepção de Kant."[1]
Para ele o homem é o ente único que é e deve ser, existindo a
sociedade para realizá-lo, em função dele.
Convém lembrar que Tomás de Aquino já considerava a pessoa
como o que de mais perfeito e elevado existe no Universo, definindo-a
como Boécio: "Pessoa é toda substância individual na natureza racional."
A atitude de volta ao preceito socrático se justifica quando mais se
tornou o estado opressor da pessoa e não respeita seus direitos
fundamentais, sua liberdade, e não realiza o bem comum.[2]
Ao reexaminarem as suas próprias posições ou o processo
filosófico, são precursores de um novo humanismo tanto os pensadores
materialistas como os metafísicos ou os considerados idealistas. É esse,
por exemplo, o caso dos revisionistas marxistas que, retornando aos
escritos do jovem Marx, se preocupam com os problemas de alienação,
violência e falta de liberdade aos cidadãos.[3]
A opressão do ser humano justifica o personalismo de Emmanuel
Mounier, pregando uma civilização personalista "com a finalidade de dar
a cada pessoa a possibilidade de viver como pessoa, isto é, poder
alcançar o máximo de iniciativa, de responsabilidade, da vida espiritual".
Desde Kierkegard, pregando que a verdade é o existente, o
singular, e não o universal, passou a ser uma constante a ânsia de retorno
ao primeiro preceito humanista. Não é outro o sentido do existencialismo,
seja o dos ateus ou de cristãos, de Sartre ou de Marcel, dos que se
desesperam e se angustiam ou dos que buscam os prazeres do momento.
Até mesmo o super-homem nietzcheano se explica, senão pela
volta ao preceito socrático, então pela reação contra o esmagamento do
homem pela sociedade industrializada.
A obra cultural só existe porque, em todos os tempos, o homem se
preocupa com o seu próprio ser e seu próprio destino.
O campo do humanismo admite num mesmo lado o homem de
todas as crenças, pois é princípio fundamental o de liberdade de
investigação e, conseqüentemente, o de expressão de pensamento. O que
importa é o reconhecimento da dignidade do homem, a exaltação de seus
valores. A grande luta empreendida, da antigüidade aos nossos dias, é a
luta pela proclamação e reconhecimento da dignidade do homem,
indivíduo racional, capaz de entender, de amar, de criar, de trabalhar, de
distinguir entre o bem e o mal, de evoluir.
[1] Personalismo e Historicismo Axiológico, Revista Brasileira de Filosofia, v (1955),
n 20, pp. 539-553; pág. 541.
[2] Na concepção do Papa João Paulo II, bem comum vem ser a justiça.
[3] Manifeste au Service du Personalisme, Oeuvres de Mounier, Paris, Seuil, 1961-
62, T I, pág. 523 e 524.