A Nova Civilização

Noel Nascimento

 

Vou mostrar sob o Cruzeiro a nova civilização. Que é real, um sonho a realizar-se e não fantasia ou utopia. Aponto-a na direção do porvir, mas estou numa sociedade nova, de um mundo virgem nos primeiros estágios de desenvolvimento, em que ocorrera formidável miscigenação a originar um novo povo. Para interpretá-la e conhecer-lhe a essência, só um pensamento romanceado. Uma narrativa de idéias, pois existe um modo de ser, uma sabedoria, um pensamento brasileiro. Certas expressões o comprovam. Poderia citar a da comemoração do Centenário de meu estado. Guaíra, o majestoso território arrebatado aos guaranis, virou um grande teatro em Curitiba, em cujo palco se apresentaram as etnias, peças artísticas e, sob aclamação e delírio popular, fez-se ressoar bem alto a proclamação: “Paraná, Terra de Todas as Gentes!”

“Neste romance de idéias, de história e filosofia, as personagens são como pessoas reais, às quais assisti em plêiade construírem a nova civilização. O mérito, se há na obra, é delas. Procurei escrevendo interpretá-las, porém como o artista faz o teatro. Qual se eu fosse elas, encarnando-as. A personagem autora, a que fala, é o amigo que encarnei, jamais um heterônimo.

Ao prenunciar a nova civilização, se há de dar ênfase a valorização da vida e da natureza. É afirmação da antítese da visão diabólica, da visão negativa e pessimista da história e do mundo. É crer no bem como finalidade da vida e do universo. A força motriz da evolução é a boa vontade, “força do espírito” da qual se fala há mais de dois mil anos.

Não há negar que os instrumentos de trabalho, a exemplo do arado ao da máquina, e de outras invenções, originem transformações sociais. Porém, instrumentos e meios de produção, inclusive as consideradas superestruturas, tudo é fruto do trabalho e da boa vontade dos homens. É justo substituir o termo “revolução” por “evolução”. Sacar o “r” de revolta – que significa o erre imperativo do verbo errar – fomentando as más-paixões.

E por revolta se produzem as discórdias, vinditas, tiranias e lutas fratricidas. Ressalto a importância do lar, da escola, da educação na infância, adolescência e juventude, da evolução da pessoa, pois será pelo amor a construção da nova civilização.

                Na cidade sol, onde as pessoas podem ser felizes, Jesus poderia ter lá nascido que não teria sido crucificado.

                                     

 

A NOVA CIVILIZAÇÃO

 

Os tempos que passaram comprimiram-se num presente em romance.

 

Maktub

 

                Estava escrito!

                Palavras em luz na Via-Láctea...

                Não é preciso ser astrólogo,

                talvez filósofo

                ou poeta para entendê-las.

                Tudo que acontece

                Quem escreveu já o sabia.

                É antevisto o destino

                no quadro negro da noite.

                                               No infinito

                só existe o tempo presente,

                mas é diferente numa galáxia.

                Os milênios de um planeta

                são noutro astro só um dia.

                Sob o céu onde mais amor floresce,

                a cruz que se erguiria no Gólgota,

                sobre o Brasil Deus fez de estrelas.

 

A Nova Civilização

 

Prólogo

 

Antes da metade do século de crises e das maiores tragédias mundiais, uma cidade alteada nas colinas apontava para a nova civilização do terceiro milênio. De lá a vislumbrávamos.

 

 

O ROMANCE

 

                 Com a intensificação da miscigenação pelas levas de imigrantes de toda parte do mundo, formava-se sob o Cruzeiro uma nova civilização. Com tinta de pau-brasil descrevo-a em romance. Existe superficialidade em muito da literatura. Para que seja um bem maior é preciso ir a fundo e escrever a história e o mundo na vida, interpretá-los; revelar a evolução. Por mais longo que seja o tempo em que se passa a narrativa, vou comprimi-la no papel para ligar fatos essenciais ocorridos na época. De uma nova civilização os sinais são evidentes. Vou falar do legado de índios e escravos negros que ao cruzarem com brancos, geraram os caboclos e mulatos; da riqueza de alma com todos repartida. Gente provada para a destinação, acolhedora e eclética, afortunada de sabedoria. Interpretar-lhe os sentimentos, o ideal, creio que só é possível em romance. A tarefa, todavia, não é fácil. A dificuldade está em que não se trata de, simplesmente, imaginar casos, criar um enredo, armar tramas, entretenimento com erotismo, o chocante. Uma narrativa de exegese terá de ser, necessariamente, entremeada de reflexões, divagações esclarecedoras. Não creio na violência ou em más-paixões como fatores que determinem a história, mas sim na paz e nos bons sentimentos das pessoas. Quero demonstrar que não são nem os chefes, os poderosos, que fazem evoluir o mundo. Muito menos as guerras, todas elas barbáries Só a paz pode ser justa, só a paz é santa... Os verdadeiros heróis são muitos, ainda que humildes e na obscuridade, formando famílias, grupos de pessoas generosas. Muitas vezes não percebemos, mas vivemos entre eles. Fazem parte professores, empregados, camponeses, operários, médicos, mendigos, soldados, carroceiros, colegiais, funcionários, seja lá quem for de bons sentimentos. Uma plêiade evolucionária é que transforma e melhora a sociedade. Nesta é típico o caboclo, o primeiro dos mestiços. O filho da índia e do sertão que o tornou contemplativo. As manhãs de paz, o despertar com o sol abrindo as asas de luz, o gorjeio e o revoar da passarada. Doa-lhe tudo a natureza, por isso crê e luta conformado. Do rancho assiste deslumbrado ao crepúsculo e, à noite, enamora-se da lua. A canção mostra-o dolente apenas no amor:

“E quando no terreiro faz noite de luar

e a saudade vem me atormentar,

eu me vingo dela tocando viola

de papo pro ar.”

                Pode-se vê-lo ensimesmado, as vistas perdidas no horizonte... Em conjeturas.

                É um romance realista, também de cisma e sonho, a personagem é antes de tudo humana, solidária, até mesmo um herói anônimo. Interessado no bem, um evolucionário. A história não é de tramas e aventuras, mas de conjeturas, também sou caboclo de vistas perdidas no horizonte. A seu modo, você poderá imaginá-la, as personagens, inclusive seus atos e diálogos, assim como se entendiam enamorados Nelo e Jussara. Não preciso relatar as vezes em que trocavam juras.

Meu conto é também da infância quando se gravam as impressões e – não sei como – a apreensão de seus significados. Em meu caso, talvez por querer bem as pessoas sem distinção e admirá-las. Entendia o gesto, a palavra, um olhar, um riso, uma lágrima, o porquê delas. E não fui o único. Percebia-se que da simplicidade no viver procedia tal saber. Quanta grandeza nos mais humildes! O ambiente favorecia a compreensão e até uma intuição premonitória. Na adolescência já se estruturava e se desenvolvia o ideal de toda a existência. Concorria para uma filosofia de vida a marca do povo: a boa-vontade. Um quê de essencial parecia inato nas pessoas, em certos grupos e famílias. Com certeza são os bons que guiam a humanidade. A bondade é a força do espírito. São daqueles que têm humildade as lições de vida. Estão quase sempre na linha de pobreza, são heróis anônimos salvando o mundo. Há plêiades de gênios que transformaram o mundo, não casualmente concentrados numa Atenas, Roma, Florença, ou em França. Não é menos significativa a presença de guias populares na comunidade. São eles os artífices da nova civilização... É o seu humanismo que se expande pelo astral. Um saber sublimado pelo amor, um humanismo em que há júbilo, beleza, verdade e poesia. Diferente da simples erudição dos doutos.  Do saber destes diz o pregador Eclesiastes: “há muito enfado, causa tristeza e desgosto”. O bem nasce no coração, e aqueles que ontem e hoje ainda são plebeus, humildes e oprimidos, mais o  sentem como a necessidade de justiça e de liberdade na busca da felicidade. Não representam nenhuma classe social, mas sim o humano, e exercem a maior influência numa filosofia que pode ser caracterizada como plebéia. Uma filosofia de benfeitores da humanidade.                                 

                Vou falar de personagens como se falasse de mim, são amigas, pessoas de que gosto ou, senão muito as admiro, compreendo-as. São elas próprias e não heterônimos. Pouco vou dizer de mim senão choro de orgulho e saudades de irmãos e de meus pais. Direi de personagens, a maior parte generosas. Não galgam posições tornando-se famosas, reverenciadas. A sua prática caridosa é do tamanho daquela “da viúva e seu óbolo”. Aqui procuro destacar o bem que a mulher representa no mundo. Não vou falar dos considerados “grandes homens” embora entre eles haja os benfeitores. Há senões que obstaculizam as ações generosas. As barreiras são de egoísmo, vaidade, presunção e orgulho. Embora não o creiam os presunçosos, são homens comuns, os mais humildes que, menosprezados e no anonimato, dirigem a humanidade.

                Nelo tinha dons inatos, nascera evolucionário, aquele que promove o bem. Apresentava acentuada “aura infantil” que o marcaria indelevelmente. Uma criança mais dócil, de palavras suaves. Dir-se-ia de um saber pretérito a revelar-se. Advinham-lhe inspirações das profundezas da alma, que esta elaborara o cérebro para servir-lhe de instrumento. Para tanto houvera transformado até mesmo peculiaridades hereditárias.

O saber parecia inato. Nem todos percebiam a aura infantil que o levava a uma fuga, qual se flutuasse num mar de sonhos e sempre encantado com qualquer novo aspecto do mundo exterior. Uma estrela no céu, um caco de vidro colorido, um cisco no chão. Ele provocava pena, ternura. E diziam: “tem a cabecinha nas nuvens”. Passara dos quatro anos de idade e sobre si ainda fluía a influência dos céus, a qual ainda persistiria o resto da vida. Ora, o maior dos sábios pode aprender com uma criança. Uma criança é criança como todas as outras. Que bom se os homens fossem assim e lutassem contra forças desagregadoras que indispõem uns contra os outros, obstaculizando-lhes a felicidade. Certamente serão assim, formando plêiades evolucionárias em torno de um Nelo, já adulto, mudando para melhor o mundo. As verdadeiras fontes dessas plêiades são femininas, as mulheres. É muito cedo ainda para falar de Jussara, preciosa Jussara que será menina, encanto do povo... Que dizer do dom divinal da mulher, anjo da guarda terreno que, além da proteção ao ser inocente e indefeso de seu ventre, une com seu amor os homens em família? Nada se lhe compara aos primores. Em Jussara esparzia a beleza natural A atração que aproximasse Nelo de Jussara, apesar do fascínio, jamais poderia ser entendido como um acaso. Juntos ainda removeriam barreiras que empanavam o brilho da cidade sol. Então evito diálogos comuns ou superficiais para dar ênfase a palavras como de Nelo ou Jussara que foram pronunciadas em certos momentos, necessárias no início de uma nova civilização.

A criança também aflora em mim agora para dizer da maior importância do homem simples, comum, que sem se dar conta faz parte das plêiades. É você que com dignidade rega a terra com o suor de seu rosto, dá o pão e o teto, tudo constrói e até o coração oferece ao mundo. Você é o amigo, aquele que pode ser feliz sem galardões, poder e riqueza, mesmo injustiçado. Melhor me compreende você mulher, a mãe: você um pai. Você que é honesto e bom, branco ou negro, o índio, mestiço, não importa se pobre ou rico. Há dignidade em cada ser humano. Para mim são vocês que fazem de verdade a história, como Deus a quer escrita. Não vou inventar reis, príncipes, carochinhas, nem personagens corruptos cujo orgulho e ambição gerem desgraças e miséria. Quero exaltar amigos reais como você que enfrenta as vicissitudes, batalha contra forças opressoras. Quero amá-lo com este livro à mão.

 

RAÍZES

 

Nenhum sábio ou profeta soube, nem consta em escrituras sagradas ou laicas, que há milênios havia um paraíso preservado no Sul do globo terrestre. Habitavam-no os nativos, agraciados com a natureza indescritivelmente maravilhosa. Viviam em clãs livres e felizes nas suas tabas igualitárias. Caçavam, pescavam, plantavam e colhiam para a subsistência, tudo dividindo. Pintavam-se, amavam, dançavam e cantavam em ação de graças. Mas o eldorado foi descoberto e logo invadido por brancos mal civilizados que, com suas armas, desembarcaram das caravelas. O coração apequenado pela cobiça. Pesavam na carga preconceitos, ressentimentos, ódios e intolerância. Resquícios do espírito de hordas, vigente também no feudalismo, nos reinos e impérios degradados com os derramamentos de sangue. Crimes hediondos na bagagem pretérita, de quando saqueavam e escravizavam, se não matassem os vencidos. Escravos e camponeses sofriam torturas, amputações, crucificação. Agora, a violência se organizava nos estados nacionais, sob monarquias, após a guerra dos Cem Anos, das Duas Rosas, de grandes conflitos camponeses e religiosos. Considerável avanço, apesar das cruzadas, da inquisição e de apontar para as guerras de maiores proporções entre nações, o colonialismo, revoluções e hecatombes mundiais. Eles, sim, com o legado recebido dos bárbaros, poderiam necessitar dos padres a bordo. Não controlariam a ganância e suas paixões tão fortes, desordenadas, dominadores e livres de controle. Não teriam uma alma pura como a possuíam os indígenas. Estes sem pecados, puros de coração. Tanto que os recebiam de braços abertos, em cruz como a das estrelas assinalando o sul.

 

“Salvar essa gente”, dizendo-a “ingênua e inocente”, sugerira Pero Vaz de Caminha em carta a Rei, anunciando a descoberta. O rei D. João III, fanático religioso, deixara claro que não fora sua intenção a de povoar a terra, mas a de exaltação da Fé católica e salvação das almas. Fora drástico ao mandar Mem de Sá com um Regimento de Sua Alteza, para ajudar a conversão “por paz ou por guerra, ou como mais conveniente fosse”. Sob este céu, a salvação não depende da crença ou da raça, mas das virtudes, em ser humilde, bom, um homem de coração magnânimo.

– Até um mau pode regenerar-se, tornar-se bom; porém nunca por imposições –achávamos.

– Quando meninos, em nosso país já havia gente de todas as raças e credos. Estavam superadas as divergências entre elas sobre salvação, pela qual se clamava na antiguidade, e que resultaram em guerras no velho mundo. Para nós não havia dúvidas de que não dependia desta ou daquela religião para merecê-la, mas ser apenas como um índio ou um negro, um homem de coração, um homem bom. Um pensar de brasileiro.

               

Uma vez, em frente aos alunos, numa discussão entre dois professores, o beato argumentava que a grande meta das expedições fora a salvação pela qual Jesus viera a Terra.

– Por isso, nasceu no velho mundo, e não no Brasil onde os índios já estavam salvos! – contestara o outro acrescentando  apoiado: vieram acorrentá-los. 

 

De boa-fé, generosos e hospitaleiros, viram-se traídos ao acolherem os civilizados. Após a primeira missa, começaram a ser apresados e depois massacrados em suas aldeias, muitas delas jesuíticas, pelas bandeiras bárbaras em busca de escravos e tesouros. Ou pelas caravanas povoadoras a se apropriarem de seus campos.  Mas as índias já haviam seduzido os portugueses e dado à luz o caboclo, iniciando a formação do povo. O Brasil correspondia à inspiração de Camões, “cessara tudo que a antiga Musa cantava, pois um valor mais alto se levantava”.

Milhões de indígenas, após a guerra de extermínio e a mistura das raças, reduziram-se a um punhado de tribos dispersas, espoliados em reservas devastada por exploradores.

                Os navegantes de pensamento, que singravam os mares das letras, das artes, da história, redescobriam o mundo antigo e nele os valores eternos. Do período medieval trariam da pregação dos beneditinos o culto de honra, coragem, de defesa dos mais fracos e bondade para com os pobres. Talvez as caravelas, descobrindo o mundo novo, transmitissem-nos o humanismo e não apenas o progresso material, a cobiça da coroa, do papado, ou de mercadores, companhias e inescrupulosos aventureiros. Talvez cá desembarcassem a Renascença, era de evolução, talvez de uma nova humanidade. Esta seria bem-vinda com seus frades franciscanos, afins nos sertões brasileiros. Colonizadores nos dariam uma língua tão bela quanto o nheengatu e outras nativas, chancelando uma nova unidade nacional. Desenvolver-se-iam as forças produtivas com a introdução de instrumentos de trabalho, machados, foices, enxadas, aparelhos mecânicos, monjolo, moendas, rodas hidráulicas e do oleiro, tachos e panelas de metal, carros-de-boi e, por fim, animais domésticos. Imperceptível, havia também uma carga nefasta. Não imaginária como os monstros de um mar tenebroso ou das terras desconhecidas, porém real; formas fantasmais de violência presas à nuca dos invasores, os preconceitos. Decerto não demoraria a chegar o iluminismo, e cá não haveria de ser limitado, visando esclarecer os déspotas, mas para iluminar todos os homens. Se continuaram déspotas, não eram realmente  iluminados, mas apenas cultos como os doutos. Portugal, que se deslocara além-mar, cresceu tanto que  não mais cabia na Europa. Prendeu-se aos braços de Moemas, Paraguassus e Chicas da Silva. Não resistiu à cor das brasas, à cor do pau-brasil, o rosado na pele de uma índia, ou da noite estampada nas faces e no corpo ardente das escravas negras.

                Mas a casta colonizadora viria transpor o sistema de exploração feudal para o novo continente. A coroa proibiria o progresso no Brasil, não permitiria a construção de estradas, a existência de engenhos, fábricas, tipografias, escolas, livros. Os reinóis necessitavam de trabalhadores para sustentá-los. Seriam os índios, os negros e os mestiços. A companhia jesuítica tornou-se a maior proprietária urbana da colônia. Em face da resistência dos nativos à escravização, os colonizadores valeram-se do tráfico negreiro. E então chegara a raça forte e boa, milhões de homens e mulheres que foram agrilhoados nos engenhos, nas fazendas, ou livres de ferros nos quilombos. Chamava-se banzo a saudade que misturaram a todos os cantos, danças, no folclore, nas artes, na música. Foram eles os trabalhadores do campo, das aldeias, que de pedras edificaram palacetes, mosteiros, igrejas. E as sociedades latino-americanas jamais seriam extensões de civilização européia, suposição de velhos historiadores.

                Com as levas de aventureiros, de degredados pobres e injustiçados, na maioria portugueses, uma miscigenação cada vez maior originava o mestiço brasileiro, o caboclo e o mulato. Formava-se o proletariado nas sesmarias. Viriam engrossá-lo e a população os imigrantes em busca de uma nova vida e oportunidades de trabalho. Nas vilas e cidades, então surgiria a classe média, com a emigração do campo para o trabalho urbano, e até mesmo pequeno operariado industrial. E em toda essa gente predominava um sentimento que ficou gravado para sempre na alma brasileira: a esperança!

 

             

AS LUZES NO CÉU

               

A cidade em que morávamos fora um pouso plantado no caminho de tropeiros, a que mais florescera mos campos. Tão boa que tem de ser descrita como quem compõe um poema. A natureza tornou-a uma cidade de estilo rococó. De permeio os jardins a enfeitá-la. Havia música no ar a envolvê-la... Sonidos do vento a soprar-lhe o arvoredo. A dança das nuvens, o gorjear da passarada, que animação daquele povo! Mais no alto das colinas, cercada de bosques de pinheiros, era uma toada de pedras. À noite, em serenata com a lua e as estrelas às janelas celestes. Depois, na alvorada, é o sol que lá começa a cantar o dia. Para nós representara mais que a escola, uma universidade a céu aberto. E o povo, um povo docente.  Ensinava-nos nas ruas, por toda parte. Qual sala na praça, tínhamos nela o nosso banco. Entre canteiros, mais ou menos eqüidistante da fonte luminosa, da concha acústica e da igrejinha da rua atrás, ficava de frente para o sul. Durante anos nos pertenceu e ali folgávamos. Quando não nos exibíamos à passagem das graciosas coleguinhas, trocávamos idéias, comentando a vida. Embora com singeleza, também discutíamos assuntos sérios.Vou contar uma passagem de quando já cursávamos a terceira série ginasial. Falávamos de guerras, de um fim de mundo, relacionando às profecias. A noite já nos surpreendera esbranquiçada pela Via Láctea, citavam-se as hecatombes e Gabriel mostrava-se impressionado com o poder de destruição com o qual as grandes potências ameaçavam os povos. Gabriel dizia do perigo para o Brasil a cobiça que despertava a Amazonas, as riquezas minerais e vegetais do país. Tornaram-se inesquecíveis de Nelo as palavras serenamente pronunciadas e seu gesto inspirado. Ao ouvir-nos preocupados, nos fez olhar em direção ao sul, para o alto, transmitindo-nos uma emoção elevadíssima, ao exclamar:

– Vejam lá! A cruz de estrelas é a defesa do Brasil, um escudo de luzes. Se uma cruz de madeira ou de metal, um crucifixo ou o simples sinal da cruz vence os males, imaginem a força da cruz de estrelas!

                A minha fé e a de Gabriel era a de livre pensador, Rubinho que não perdia missa e, portanto, engajado, reagiu com pouca ingenuidade:

– Porque é que Deus pôs uma cruz de estrelas no céu?

– Nelo surpreendeu-nos de novo com a resposta:

– É porque contra ela ninguém pode atirar pedras...

Há duas cruzes que são realidades divinas, extraordinárias, portanto distintas, a do Gólgota e o Cruzeiro do Sul. Outras, aos milhões simbolizam a primeira.

 

                Percebi em Nelo algo que eu não sabia explicar, a inspiração, um conhecimento singular, saber de cousas miríficas com as quais os adultos nem sonhavam.  Certamente dotado de clarividência. Nunca foi um sabe-tudo, jamais seria um douto, agora compreendo que sua inteligência era a espiritual. É claro que a boa educação a despertara. Já sabíamos algo de história, regimes de escravidão e servidão, guerras de reis e rainhas, guerras religiosas, inquisição e outros desvarios humanos. De opinião contrária à violência, às injustiças, à intolerância e às guerras, disse-nos na ocasião o que também pensávamos:

– A cruz não é símbolo de dor nem de morte ou de guerra, mas de graças, de fé e amor...

                As suas palavras possuíam um novo significado, a conceituação de um novo patriotismo: o patriotismo fraterno. Comungávamos a idéia de que se irradiavam no céu as luzes da concórdia, cujo símbolo nada tinha haver com intolerâncias, discriminações, violências, guerras, mas somente com a paz e a felicidade humana. Não há dúvida, o que acontecia conosco, e certamente se repetia com grupos afins Brasil e mundo afora, era indício de uma nova civilização.

                Nelo nos esclarecia com ditos singelos. Tinha algo inato, assim como um dom dos artistas. Impressionou-me quando criticou aquele que se acha superior a outro.

– Isso é próprio do atrasado, não intelectualmente, mas espiritualmente. Não sei se não é a causa dos males no mundo... – acrescentara reticente.

                Só mais tarde, uns antes, outros depois, pudemos alcançar que se referia a preconceitos. Naqueles dias ficávamos constrangidos, contrariados, enquanto Nelo já se indignava ao ouvir expressões com intuitos depreciativos, “gentalha”, “polacada”, “negrada”, “bugres”, “caipiras”, “maloqueiros”, “ralé”, “gentinha” e tantas outras.  Todas elas palavras injuriosas. Resquícios de antigos regimes, que enodoavam a sociedade. Alguns clubes abertamente impediam a freqüência de pessoas negras em suas dependências e, inclusive, nas equipes esportivas. Dos pobres, eram elas as mais discriminadas. Isso nos causava um mal-estar, turvando-nos os ares. Ao percebermos o crime hediondo, primeiramente teríamos de combater o racial, o de cor. Então com o tempo os demais se extinguiriam. Nessa difícil luta  que abriu as portas de clubes e de equipes esportivas aos negros, não colheríamos os louros nela se não fosse a abençoada presença de Nelo e Jussara.                                                                                                                               

               

                “De lá a vislumbrávamos” – no prólogo eu disse de nossa visão a apontar para a nova civilização do terceiro milênio. Com essa visão do bem, não se pode dar ênfase ao mal. Este existe para que o vençamos. Em que consiste, ficou muito claro por ocasião da campanha contra o preconceito que Nelo e Jussara lideraram. Muzolon, que se incorporara à plêiade, orientando-a, já um jornalista, escreveu um artigo de primeira página que abalou a cidade. A visão do bem obnubila o mal.  Se de algum modo este persiste, para evitar dissabores é preciso fingir que as coisas más não acontecem. O desagradável, a miséria e suas conseqüências só existem como desafios à luta pelo progresso. Evito ressaltar o pecado, as iniqüidades. Não vou contar como um coleguinha do primário, aos oito anos, ficou trancafiado numa cela com criminosos, obrigado a denunciar um tio suspeito de assassinato. E o pobre violeiro, inocente, foi torturado e “confessou” a autoria do crime. Não é preciso dizer o que sofriam os discriminados. Como por preconceitos se tornam más as autoridades. Por que relatar tragédias ou perversões, se tantas são já escancaradas até mesmo na literatura? É preciso abrir os olhos para o maravilhoso na vida e na natureza. Ver as estrelas de onde viemos para um mudo de luz, ar, água, com todas as condições para todos evoluirmos. As injustiças são distorções na ordem social e nos cumpre a todos corrigi-las. A obra do homem não é de ninguém senão da humanidade. Apenas faço menção aos fatos negativos para que sejam superados pela ação daqueles que realmente movem a roda da história. 

Insisto para que, a seu modo, você próprio imagine esta história, as personagens, sua vida, como as descrevo; e os diálogos que mal menciono. Você pode imaginar o quanto se entendiam Nelo e Jussara, então enamorados. Seria redundância, pleonasmo de afetos, repetir como e quando tantas vezes disseram coisas como “eu te amo”, “eu te amo”, entretecidos ou tocados pelo luar. Ou dizer de suas fantasias e sonhos de amor. No entanto, eles se esqueciam de si próprios ao se preocuparem com os irmãos, com as amizades, e não só com a família, porém com o próximo. Perguntavam-se ainda enlevados: “como poderemos adotar crianças pobres e criá-las como filhos, ou como juntaremos dinheiro para construir um orfanato?” Jussara afirmava: “vou cursar a Escola Normal, meu ideal é ser professora e, então será mais fácil.” Nelo e Jussara contribuíram muito para a visão que tínhamos da cidade e do porvir.

 

 

BRASIL NOS CAMPOS GERAIS

 

                A Terra Prometida não é Jardim do Éden, Canaã, Ilha da Fantasia, Eldorado. Vislumbrava-se-a no Hemisfério Sul, alteada por uma cruz cintilante no céu. De lá, ou talvez desta, irradiava-se uma mensagem.

Magia não é ilusão nos Campos Gerais. São reais as visões e os seres encantados. O mundo não é um só. Já não há mistério. Nem tudo que brilha no céu é um astro, nem tudo que reluz no ar é boitatá. Deslumbrante flora não abriga apenas a fauna, pássaros na galharada. Córregos rastejam com os répteis e despencam em banheiras fundas de moleques e sacis. Rios qual cascavéis contornam os bosques agitando os guizos, banhando iaras nas cachoeiras, sondadas por vultos detrás das árvores. Não há uma fonte que não tenha sido sagrada por ascetas misteriosos. Nos Campos Gerais sentíamos que no mundo já havia partes da Terra Prometida.           

 

 

Igualdade Fraterna

 

                Numa das ocasiões em que estávamos reunidos, fiquei intrigado quando Nelo nos disse de modo taxativo: “ninguém tem o direito de ser infeliz”. Pareceu-me um despropósito quando ainda havia tanto sofrimento. Com o tempo, pude compreendê-lo. A razão estava com ele se considerasse que todo o bem que desfrutamos nos é proporcionado por nosso próximo, que o céu nos dão os outros. Sentir-se feliz é ter consciência disso, procurar retribuir o que se recebe e não ser ingrato.  Não esquecer principalmente dos pobres.

                Lá pousara a felicidade, que poucas vezes se ausentava de casa. Terra de muitos amigos, as pessoas vistas pelas qualidades, mais de que pelas condições sociais, conhecidas pelos nomes, às vezes pelo apelido carinhoso. Éramos felizes os jovens no próspero povoado que a centralizava. Muito claro com suas fontes de água, vargens e ar puro, sem a poluição e poeira, fumaça e lixo industrial.Alimentava-o de força e luz a represa num ribeirão.À noite, a lua iluminava-o mais de que a luz rosada das lâmpadas no meio das ruas. Uma cidade, talvez modelo daquelas em que se constrói a nova civilização, aqui em romance. Afinal com a fusão de tantas raças e culturas num país do mais amplo sincretismo, com o aparecimento dos brasileiros, surgia um povo para a paz e a tolerância no mundo. Uma pátria verdadeira: a fraterna.

                As mulheres, desde os tempos imemoriais, elas todas têm sido as vítimas das iniqüidades humanas e, quando não mártires, heroínas. Ainda que em regime de submissão ou simplesmente discriminadas, são fontes de amor e, com seu fascínio, a protegem e aperfeiçoam a família, semeiam o bem no coração do homem. São as mães que fazem os heróis anônimos. Eles viveram nas tabas e aldeias primitivas, nas senzalas e quilombos, nos ranchos caboclos, e hoje se multiplicam mundo afora. A pobreza não é desgraça. Eram muitos os exemplos disso na cidade. Pessoas simples constituíam maioria, contavam com os recursos dos próprios braços para a subsistência. Mas tinham o que distribuir a mancheias a riqueza da alma. Decerto sabiam sofrer – como outros não o sabem – e vencer as vicissitudes. Eram suas as festas sem tristezas, as festas que animavam as ruas, as praças, os salões, que amenizavam a vida. Desde crianças misturavam-se por toda parte e mal sentiam as diferenças. Comentavam-se casos edificantes de modestos trabalhadores, de doméstica, lavadeira ou dona de casa, sacrifícios até por estranhos. As pessoas eram solidárias, amigas em horas difíceis. Procuravam atender os mais necessitados e mudar o mundo.

                Quando estávamos no primeiro ano do primário, – nunca esqueci –, Nelo perguntou à professora na sala de aula “quem fazia a miséria”. Quando o pai se reunira com os amigos em casa, não pôde conter a curiosidade. Achava que os adultos eram os responsáveis, que mandavam no mundo e, por isso, surpreendeu-os com a pergunta “por que os senhores deixam existir mendigos?” Hoje, acho que todas as crianças do mundo deviam inquirir os pais “por que vocês deixam existir a miséria?”

                Havia um mendigo que, se lhe davam ou negavam a esmola, queria dizer o que sentia ao repetir pelas ruas: “pobre também é gente”. Ah! Palavras são só palavras. O que importa são os sentimentos que expressam.

Nem ler sabia, não podia explicar que ser gente é ser pessoa antes de tudo, uma igual a outra em essência. Quem caçoava, caçoava à-toa e ficava desenxabido com as respostas. Fui mexer com ele e advertido: “cuidado menino, é sofrendo que se aprende”. Mundinho, que também vivia de esmolas e era descendente de família rica, sofria o preconceito de maneira inversa. A pessoa é só uma pessoa. Um louco é só um louco, mas o classificavam sardonicamente: – “Lá vai o louco burguês”. Os tipos populares, talvez por serem bons, pareciam alegres e felizes. Pelo menos, tinham pão e teto. Nem todos indigentes. À Julieta Benzedeira pagavam pelas rezas e receitas. A sua barroca vizinhava com a do velho Camilo, antigo limpador de chaminés. O Caroço – que assim o chamavam – andava com o braço estendido como um cabide com as roupas da tinturaria onde morava. Teco fora engraxate e entregava jornal. Figurino, alcunhado pela semelhança com manequim de vitrina, distribuía folhetos. Outros prestavam serviços domésticos, vendiam serragem, partiam lenha, carpiam quintais. Bastião carregava cartazes dos cinemas e fazia muita graça respondendo em inglês a perguntas. Todos eles pareciam até se orgulhar de serem pobres, enquanto os de classe média chegavam a se envergonhar. E havia ricos que não se sentiam bem, evitavam qualquer ostentação, lamentando as desigualdades. Muitas senhoras participavam de campanhas beneficentes. Uma cidade pelo menos desejosa de tornar-se solidária. Os habitantes conformados e satisfeitos com a vida, de bem com ela e a natureza. Então os pobres sentiam-se valorizados. Provavam maior liberdade que Diógenes na barrica, e não fugiam do mundo real. Mas da liberdade interior, a espiritual, a única que os conservam puros, em paz, comprazendo-se em doar-se. Falei de Diógenes, um dos mais antigos representantes de uma intelectualidade plebéia. A dos grandes pensadores de nenhuma das classes.

                Nós não éramos mais nem menos do que ninguém.E muita gente também assim se considerava. Lá as pessoas se conheciam e se encontravam nos lares, nas escolas, nas igrejas, nas escolas nos clubes, nos locais de trabalho ou de lazer, nas ruas e praças, nas quadras e campos esportivos. Em toda parte geravam-se amizades, respeito, amores.

 

                Agora me respondam: “por que será que não havia bandidos?”

 

                A exclusão social, em todas as suas formas (explorações, miséria, desemprego, discriminações), é violência que gera a criminalidade. Um povo cordial e solidário, apesar do regime, pode minimizá-la, contê-la. Por vezes, acontece. As causas são estudadas exaustivamente, e realmente são importantes as condições em que se geram.

Mas a causa primeira, fundamental, parece ignorada, não a dizem os doutos em seus tratados. É ela espiritual. Somos humanos, espíritos em evolução.  Numa das escolas penais, das mais avançadas, se diz que o crime representa “como quê uma regressão atávica às eras primevas”. Digo também que o criminoso é um involuído e, por isso, tornando-se mau. É quando se rebela em face das condições adversas  da realidade social; ou quando se prevalece das favoráveis ao seu egoísmo e vaidades, do poder de mando e de de riqueza, para explorar seus semelhantes. Enquanto os evoluídos, quanto pela educação, superam as forças condicionantes e desencontros sociais. O crime é ato de perversidade em menor ou maior grau. Por que Caim matou Habel, senão porque foi mau? – pergunto. E por que com educação idêntica, na miséria ou na riqueza, dos membros de uma mesma família, seja qual for a raça ou nação, uns podem ser bons e outros maus? Os crimes econômicos, em regra impunes, são os de caráter mais grave e efeitos devastadores sobre a humanidade.

                A inexistência de bandidos devia-se ao fato de haver, na cidade-sol, um clarão de igualdade fraterna.

 

 

Lembranças Nostálgicas, a Cidade Sol

 

O tempo reflui e as pessoas já se olharam nos olhos como o fazem as crianças a brincarem juntas nos balanços e gangorras de parques, de mãos dadas nas cirandinhas. Porque as pessoas são simplesmente pessoas, como crianças são simplesmente crianças. Tenham a cor, a raça ou que outra condição tiverem. Sem se medirem dos pés à cabeça, usufruem o mesmo ar, o dia e a noite, a luz do sol e das estrelas. São donos da paisagem, dos bosques de pinheiros, regatos, flores e pássaros do campo. Um fato me impressionou quando aos oito anos, igualados pelas ruas, freqüentávamos em grupo diversões na cidade. Era um dia de Natal. Estávamos arrumadinhos e nos dirigimos ao clube onde fora anunciada a presença do Papai Noel. Um baile infantil com o Velhinho a distribuir balas. Michel, também de calça curta e camisa de colarinho, todo faceiro, foi logo barrado na portaria.

                – Não é filho de sócio.

                – Mas outros entraram... – tentei persuadi-los.

                – O pai é “turco”, tem um botequim de bananas; foi rude e falou com desprezo o responsável.

                Nossos pedidos foram em vão e, sem sabermos como agir, vimo-lo voltar sozinho e humilhado da porta do clube. Por mais que nos entusiasmasse no salão o Velhinho do Natal, jamais nos esquecemos de uma dor, espécie de remorso que sentimos ao reencontrar Michel chorando no banco da praça, esperando-nos à saída daquela triste festa de Natal. Sem dúvida um fato negativo, resultado de contradições existentes na sociedade.

Se em obediência ao lema da bandeira, fosse bem ordenada a produção e a distribuição de modo equânime, com o progresso, decerto desapareceriam para sempre quaisquer diferenças. Afinal, todos eram importantes, os pobres até notáveis. Não só as casas dos negociantes viviam cheias de gente, moças em varal nas janelas. Também nas mais modestas as visitas nas salas ou varandas. Movimento nos bares, nas ruas. Julieta Benzedeira, quando moça, alvoroçava a molecada.Tomava pinga nos botecos, fazia teatro. Adoravam-na ao gritarem “tá beba!” Fingindo brabeza berrava “fiduaégua”, ”fiduaégua”! Em muitos momentos, fosse lá quem fosse era visto como pessoa. Pobre tinha valor. Socorriam-se viúvas e órfãos, ainda não se organizara a previdência. Na convivência pacífica, gozava de maior prestígio quem fosse mais admirado ou fizesse mais amigos por suas qualidades. Pedreiro, alfaiate, farmacêutico, padeiro, soldado, ferreiro, proletários, igualavam-se os habitantes. Perto do cemitério formava-se a roda para ouvir a prosa dos coveiros no boteco do juiz de paz. À tardezinha, os sinos badalavam anunciando a novena das lavadeiras. Elas subiam as ladeiras com trouxas de roupas na cabeça. Isto num passado, retornemos à meninice.

Numa região de colinas, pradaria, bosques e riachos, a cidade sol iluminava vilas, povoados satélites a gravitarem em torno. Para Saint Hilaire, o célebre viajante francês, aqui nos Campos Gerais seria o paraíso terrestre. Esse mundo sabiam-no os índios criado e protegido por Tupã. Rica a natureza e raças tão boas geraram nela habitantes saudáveis e, por toda parte, bonitos. Da cidade sol, dissera um poeta: porto estelar, pedaço do céu. Meio bucólica e um tanto paradisíaca. No centro, a Catedral com suas colunas, estátuas esculpidas nos nichos. Nas torres reservadas aos anjos, aninhavam-se as andorinhas. Porém rústica miniatura das Sés medievais. A praça ajardinada e de coreto para as retretas. Algumas quadras de ruas calçadas, sobrados e casas de alvenaria ou com repartições de madeira, várias portas de comércio. Nas cercanias as de tábuas, as chácaras, os campos e pinheiros. Roças no mais distante. Fora porção de latifúndio e das mais acidentadas no caminho de manadas sulinas. Englobara a vida, as atividades da região, formava na urbe uma classe média em orbe camponês. Ainda parecia espreguiçar-se. O retrato do sossego se via também dentro das residências: nas salas de janelas abertas para o quintal, o casal de velhos, um de frente ao outro em sua cadeira de embalo ouvia o tique-taque do relógio de parede e o trinar dos pássaros lá fora. Era pequeno o número de caminhões nas estradas, e nelas ainda transitavam carros-de-boi e varas de suínos. Carroças vinham carregadas das adjacências e atravancavam as alamedas. As de duas rodas e um só cavalo ocupavam vielas da periferia. Os ricos já aposentavam automóveis antigos em que se exibiam nas ruas e nos piqueniques.

                 Fundada por tropeiros, era uma urbe modelo prenunciando uma nova história. Não fora em vão a vinda de brancos em busca de eldorados. Sob o novo céu já não cometiam as crueldades de outrora. As primeiras levas foram de prepostos de realeza decadente e aventureiros nem sempre escrupulosos. Não tardaram os oprimidos, aqueles que fugiam de tiranias, guerras, e sonhavam com liberdade, trabalho e melhoria de vida. A alma do povo brasileiro formou-se com esperança, desejos de paz, bondade de índios, e de escravos que chegavam nos navios negreiros. Misturavam-se também as crenças, em processo de sincretismo. Agora o comércio prosperava numa região rica de fazendas, sítios, pastos, roças, pomares, criações, erva-mate, madeira. O povoado tornara-se um grande entreposto também com serrarias, olarias, moinhos, oficinas, fábricas, armazéns, depósitos, serventias, transportes. Na Estação Ferroviária os trens apitavam alardeando o progresso. Não faltavam hotéis nem pensões, festas e bandas aos domingos e feriados, reuniões e bailes nos clubes, movimento nos bares e confeitarias, nas igrejas, parques e circos. Residências de fazendeiros contornavam a Catedral, e eles reclamavam da proximidade do meretrício. Elas, as graciosas pensionistas das casas de mulheres, davam-se ao respeito. Faziam suas compras discretamente nas lojas da avenida e freqüentavam a igreja. Eles só não as confundiam com as de sociedade, porque bem as conheciam. O companheirismo se iniciava no lar, no “jardim de infância”, na escola primária, com a afetuosa dedicação das professoras. Predestinado pelo céu que o cobre, pela geografia e por tudo que estou contando, a brasilidade que caracteriza o povo é um sentimento de confraternização.

                Nas ruas principais movimentava-se o comércio. A Quinze de Novembro com bares, charutarias e engraxatarias, relojoarias, joalherias, farmácias, cinemas. À noite, passeio elegante com o vaivém da moçada. Na subida para a praça o edifício do fórum e a delegacia de polícia instalada num casebre com a frente de tijolos. Quadras adiante, um grupo escolar próximo à cadeia. Esta num sobrado com os cubículos em baixo e alojamento da tropa em cima. No clima de paz, os soldados na ociosidade. O bom astral estava em toda parte, no ar, no ambiente, nas mentes, refletia-se nos rostos, nas conversas. Muito contribuía também para isso o movimento das crianças nos folguedos e nas escolas. Os estudantes viviam intensamente o clima. E ainda mais os secundaristas. O centro das atenções era o Ginásio. A importância do magistério poderia ser medida pela afluência das moças ao curso de normalista. Mas nada se comparava ao prestígio e a gratificação de lecionar no Ginásio. Até doutores abandonavam profissões rendosas para lá se dedicarem ao ensino. Valia pelos proventos e mais pelo respeito. Candidatos à “catedra” disputavam contratos pela diretoria e nomeações pelo governo.

                 Não escaparia ao bom observador os indícios de uma síntese cultural até mesmo em placas e cartazes: cines “Éden”, “Renascença”, “Império”; teatro “Sant’Ana”; clubes “Dante Alighieri”, “Germânia”, “Thalia”, “Ucraíno”, “Sírio-Libanês”, “Nova Rússia”, “Democrata”, “Princesa Izabel”, “Operário”, “Treze de Maio”; casas “Progresso”, “Romana”, “Novo Mundo”, “Esperança”, “Oriente”, “Constantinopla”, “América”; escolas “Parthenon”, ”Frei Caneca”, “Tiradentes”, “D. Pedro I”, ou com nomes de mestres beneméritos. As referências diziam muito bem do encontro entre as mais diversas culturas do globo.   

                Povo de boa índole, teria de desprender-se de preconceitos, superá-los pela convivência amistosa. Surgia no país um novo homem, mais de que uma nova raça. Com a predominância de índios, negros e brancos na ascendência, aproximavam-se as classes, como se houvesse apenas a média. Uma gente proba, as pessoas não pensavam apenas em vantagens próprias. Os comerciantes ainda se contentavam com pequena margem de lucro em suas vendas. Assim, não havia fome ou se atenuava miséria. Não tinham a ganância daqueles que ocultam os estoques de alimentos visando à elevação dos preços. Ricos só uns poucos fazendeiros e comerciantes abastados. A maioria da população era pobre, uma grande parte plebéia da camada pequeno-burguesa. Os versos “jamais negou a quem trabalha o pão que mata a fome, o teto que agasalha”, não chegavam a destoar da realidade. Quem lá nascera e vivera achava que mais valia o homem pelo coração do que pelo dinheiro. Era comum ouvir-se “o que vale no mundo são as amizades”. Feliz quem as possuía. Fez-se a luz, o bem no lugar. E lá até se chegava a ignorar o mal, a violência no mundo. Falava-se de progresso, contavam-se nos dedos as construções, já havia duas lojas com vitrinas iluminadas, à noite, na Rua Quinze de Novembro.

                 Algo nos intrigava quando crianças. Se os pobres eram notáveis, por que nenhum tinha o nome numa placa de rua? E nem nas cruzes do cemitério, assinaladas com números... Descobriríamos a razão no secundário.

O mestre esclarecia que para reis, nobres e vassalos, heróis seriam os de seu próprio meio e os que defendessem o seu poder, as suas leis. Consideravam-se heróis os aristocratas, oficiais, comandantes de armas, quem tivesse posições de mando, ostentasse poder, riqueza, títulos, condecorações. Algumas vezes, até mesmo plebeus ou camponeses que se destacavam nas batalhas, sacrificando a vida por bandeiras ensangüentadas em guerras imundas. Então nos perguntávamos por que não se exaltavam os índios, os negros, os mestiços? Houve maior heroísmo de que em suas lutas? Por que são esquecidos? Formávamo-nos com uma visão cristã de igualdade e conscientes das iniqüidades contra os pobres. As privações e humilhações que sofriam nos indignavam. Assim, o abandono de índios em aldeias miseráveis, ou isolados nas matas inacessíveis. Os negros, no entanto, ainda explorados nos centros urbanos. Mas jamais ignoraríamos também a beleza e o amor na vida e na natureza e, por isso, acreditávamos na reparação das injustiças sociais.

                                 

 

 

Os Madureiras no Mundo em Romance.

 

                 Até onde se sabia, o ancestral do clã teria sido o alferes Madureira, que participara da guerra civil e da campanha de Canudos. Com as luzes que se irradiaram do século XVIII, as classes urbanas haviam derrubado o regime monárquico e sua decadente aristocracia, conseguiram abolir a escravidão e instituir a república federativa. Áulicos paisanos ou fardados, a vassalagem do império, partidários do antigo regime, num movimento contra-revolucionário, sublevaram a Marinha Imperial, uma fração elitista do Exército e, com apoio de oligarquias das províncias, da Guarda Nacional e seus “coronéis”, de caudilhos nos estados sulinos, fizeram com que a nação inteira soçobrasse num mar de sangue: a guerra civil. Seus chefes contando com o despreparo da população, ludibriavam-na como se opusessem a uma ditadura e não à república federativa. A enganação contribuiu para a ignorância sobre o fato histórico de maior importância no país. Registrou-se de “revolução federalista” o movimento reacionário e anárquico de intuitos restauradores e nuances separatistas, por desconhecimento do que significasse federalismo. Canudos fora uma das guerras camponesas do tipo fanático religioso, como a do Contestado, movidas por plebeus ascetas, no Brasil os “monges”. O que ocorrera com um dos Madureiras ilustra o fato. Um primo de Rubinho foi expulso da sala de aula, quando o professor discorria sobre a revolução francesa, por ter feito uma pergunta muito mal interpretada. Motivara-o a curiosidade:

 

                – Por que não consta no programa também um ponto sobre a revolução brasileira?

               

O mestre deu um murro na mesa, chamou o inspetor de alunos e comunicou a expulsão ao diretor. Achou-a absurda e até se ofendeu com a pergunta. No entanto, há pouco ainda se comentava o que fora a guerra de pica-paus e maragatos e, de resto, as rixas que persistiam entre as famílias.

                Quando jovem, o bisavô fora da roça para o Exército. No regimento se instruíra, preparando-se para a vida e para a morte. Adquirira invejável sabedoria e nunca se esquecera do tenente Bragança, que o esclarecia sobre os acontecimentos no país. Antes do casamento com uma Vilela, moça de família campeira, deixara a farda e abrira uma porta de ferragens. Bem-sucedido, com o tempo construíra o sobrado, no qual moravam os avós e os tios de Nelo. Ao alferes Madureira e sua esposa, devem todos a formação, o senso generoso. Herdaram-lhe também os livros, revistas e jornais da biblioteca. Em famílias como a Madureira, e a elas relacionadas, é que havia muitos jovens iniciados na literatura mundial. E o velho alferes, que assistira à barbárie de lutas fratricidas, legara também o repúdio a todo o tipo de violências. Costumava condenar com veemência as injustiças contra os pobres, as repressões aos camponeses. Chamava a atenção sobre a situação de abandono em que se encontravam os índios e os negros.

                Já falei do clima de tranqüilidade nos lares da cidade. O segredo da paz era patente: a sabedoria que poderíamos chamar de  boa vontade.

 

                Num novo mundo em romance, os heróis são as mulheres e os homens generosos. Não importa a classe, a crença, a cor da pele. Em sua maioria foram sempre os índios e os negros, são os camponeses ou os pobres das classes urbanas. Antes de tudo, os bons de coração. A luz que das estrelas se reflete no sul, irradia-se dos humildes. Assim o foram os heróis nacionais Tiradentes, Zumbi, Frei Caneca, Felipe Camarão, o alfaiate João de Deus, Ratclif e tantos outros.

                Nós, meninos felizes, descendíamos de gente unida. Herdáramos a visão da solidariedade. Uma vez, que Gabriel falou de luta de classes, ingenuamente concordávamos que devia haver uma aliança humana, união entre todas as pessoas para acabar com a fome, a miséria, a injustiça e a guerra. Já cursávamos a segunda série ginasial, conversando em pequeno grupo no pátio. A idéia parecia tão simples, mas por que nenhum filósofo a tivera? Uma aliança humana, acima de todos os interesses egoísticos, construída por mulheres e homens de boa vontade, pareceria impossível, mas nunca no porvir.

                – Se não houver tão cedo essa aliança? – perguntou com ar de descrença Genésio, arregalando os olhos a brilharem no rostinho negro.

                A resposta com a qual concordamos foi a de que se devia apoiar os pobres enquanto tal não acontecesse.

Então pensávamos que os bons são os verdadeiros heróis, que o amor faz a pátria, como todas hão de ser um dia: fraternas.

                Quando se tem por objetivo o bem, evita-se reviver fatos desagradáveis, é preciso esquecê-los, perdoá-los. 

Em crime de cachaçada Maneco Barbeiro fora matado a tiros. Numa eleição houve três mortes duma vez. Por causa duma paixão um rapaz suicidou-se em plena sala de aula. Nas primeiras horas da manhã, ao sair para o quintal de casa, um famoso advogado fora assassinado de tocaia por causa de uma questão de terras. Mas por que relembrar? Há um consenso: “não conduzem a nada.” Evitavam- se querelas e se dizia: “mulher, religião e política, não se discute; se abraça”. Questão de gosto também não se discute.

                Não havia um só domingo ou dia santo em que as carrocinhas polacas não se acercassem das igrejinhas da periferia. E ao se aproximarem festas como as de São João, as fogueiras abrasavam as noites de danças e cantos. Os camponeses vendiam as roças e vinham comprar roupa, calçados, movimentando a cidade. Eram muitas as danças de salão em clubes que os jazz-bands animavam com marchinhas, sambas, xotes, rumbas, boleros. Não faltavam valsas à meia-noite para os mais velhos, ou em bailes a rigor e de formaturas. A maior vibração ocorria durante as festas populares nos blocos e cordões, ou nas quadrilhas como na noite de São João. Na queima de fogos, os quitutes, rapadura, paçoca, pé-de-moleque, pipocas, quentão e pinhão cosido.

A localidade esplendia no campo. Por toda parte se ouvia a própria natureza, o rumor do vento e das águas ou o canto da passarada. Podíamos ouvir em nós mesmos o coração. Todo mundo parecia contente, como se ninguém sofresse. Nunca se viu tanta gente que gostava de cantar. As crianças nos brinquedos de roda, os jovens em pátios e salas de colégios e, depois, cantarolavam até nas ruas. A população se envolvia em música, tanto eram as serenatas, regionais com flauta, violão e cavaquinho, modinhas em duetos, duplas caipiras, conjuntos e cantores em palcos e bares. Toadas campeiras, variedade de ritmos populares, música nacional. As bandas faziam tremer as ruas e praças. Na concha acústica, o concerto com a do regimento de infantaria maravilhava o povo aglomerado em toda a esplanada. A cidade num rococó atípico exibindo moças de vestidos leves, com rendilhas e laços de fita, e gente excêntrica pelas ruas. O habitante espelhava o brasileiro, um fiel retrato de povo humanizado e mais democrático do mundo.