A História em Função do Bem

							Noel Nascimento


	O humanismo histórico é a síntese do velho antagonismo entre as 
correntes de idéias sobre a história, e a interpreta em função do bem.
	O idealismo histórico é caracterizado como parte integrante do 
idealismo filosófico e, por isso, negando causas naturais objetivas, atribui 
os acontecimentos à Providência, como o faz Santo Agostinho, ou à 
vontade de reis, de grandes homens, chefes, ditadores, generais, 
conquistadores, líderes políticos ou religiosos.
	Para Marx, criador do materialismo histórico, a violência é a 
parteira da história, e o ódio o móvel das classes em luta pelo poder. A 
idéia-chave é a de Hegel, no entanto idealista, a de que o 
desenvolvimento histórico se processa por "catástrofes", de que cada 
novo progresso surge como um crime contra algo sagrado. As más-
paixões dos homens, a ambição e o desejo de domínio são alavancas do 
progresso "de que a história do feudalismo, da burguesia e do 
proletariado são mais do que uma prova". Na política vencem os mais 
hipócritas e cruéis. Para Hegel, a violência nasce do confronto de duas 
consciência que, para sair de seu estado natural e ascender à humanidade, 
não há outra solução a não ser desafiarem-se num combate que exige a 
morte de um dos parceiros. Nasce a história e se dá a transformação do 
mundo a partir dessa luta que faz surgir a primeira desigualdade: a do 
senhor e do escravo. Então a violência dá à luz a história e ela se 
conservará nas sociedades modernas. A cultura transforma o mundo, 
primeiro à custa do trabalho dos escravos e, mais tarde, valendo-se do 
braço de homens livres. Sem violência primordial, sem lutas entre os 
homens - assim pensa - não teria havido passagem da natureza à cultura.
	Em tal visão fatalista o mundo é apenas um palco de dor, tragédia, 
opressão e morte. Com a aceitação do mal como real e necessário, a 
crença é a de que as vontades e interesses se abalam à medida que um 
inconsciente coletivo caminha para além das opções e dos destinos 
individuais. Paz, fraternidade e até liberdade se tornam palavras vãs, 
hipócritas, demagógicas.
	Mas Hegel, ao contrário de Marx e Engels, crê que a razão se 
identifica com a realidade suprema, crê em Deus. No idealismo histórico 
acredita-se em intercessão divina, embora não se interprete a história em 
função do bem ou do mal. Ainda que nenhum religioso ponha em dúvida 
os bons desígnios de Deus. Por outro lado, na suposição da corrente 
oposta, a intercessão não poderia ser divina, porém diabólica, pois os 
móveis seriam a inveja, a cobiça, o ódio.
	O ideal de construção de uma sociedade justa e fraterna só pode 
ser explicado pelo humanismo histórico.
	E assim, o humanismo histórico é a solução para os problemas em 
que se defronta, em nossos dias, a humanidade.
	Ao contrário do idealismo e do materialismo históricos, embora 
admita influência e importância de forças externas, não se opondo às dos 
céus, vê nos próprios homens a causa fundamental do desenvolvimento 
histórico. Independentemente das condições de pobreza e miséria, afirma 
que por destino fazem a história e, não importa se camponeses, operários, 
padres, soldados ou cientistas, lideram a luta pela evolução os de boa-
vontade, mais generosos, eles sim grandes homens. Através do trabalho a 
luta se processa pelo progresso, e nas idéias contra o atraso que dá lugar 
às opressões, tiranias, guerras, tudo que se opões ao bem humano.
	É, portanto, móvel da história o coração do homem.
	O humanismo histórico tem raízes na Renascença, quando se 
procurou liberar o indivíduo das concepções de um determinismo fatalista 
medieval, para que se libertasse energias criadoras, conquistasse a 
natureza e forjasse o seu próprio destino. Da continuidade à afirmação 
positiva como a de que o homem indivíduo é a medida de todas as cousas 
e não o grupo, a classe, a raça. De que é o sujeito da história e sua ação o 
verbo!
	É interessante anotar que uma das correntes marxistas não nega a 
iniciativa humana na história, e é acusada de "idealismo burguês", sob a 
capa de "marxismo humanista"  pelos economistas puros.
Gramsci descobre que:

	"O principal fator da história não são os fatos econômicos brutos, 
mas o homem, a sociedade de homens que se unem entre si (...), que 
desenvolvem através de seus contatos uma vontade social coletiva e 
compreendem os fatos econômicos, e os julgam, e os adotam à sua 
vontade até que essa vontade se torne a força motora da economia, a 
formadora da realidade objetiva (...)."

	Destaque-se a ênfase dada à vontade como força motora da 
economia e da sociedade. Na premissa de Karl Marx, tese em que 
fundamenta o sistema, é tida como irrelevante a vontade, uma vez 
considerada a consciência como efeito e não causa da economia.
	Porém Altusser, mais coerente com o marxismo, diz escoimá-lo do 
humanismo e afiançar-lhe a cientificidade, argumentando que: 1)as 
massas fazem a história; 2)a luta das classes é o motor da história; 3)a 
história é um processo sem sujeito.
	Posto que os termos massas e classes ocultam as pessoas, são 
conjuntos de indivíduos e são sujeitos; há, portanto, contradição no que 
afirma.
	Altusser pensa que a essência humana, a subjetividade, 
objetivação, alienação, não explicam a sociedade e a história, porém as 
explicam as formações sociais e o materialismo histórico.[1]
	Não é difícil perceber tantas contradições, das quais o humanismo 
histórico é a superação, desenvolvendo-se em nova síntese.



[1] Seria decerto um paradoxo atribuir o destino trágico de Altusser às 
formações sociais.