Marcello Ricardo Almeida (Blumenau)
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A obra de Marcello Ricardo Almeida é marcada pela ironia, pela graça e pelo humor inteligente e acessível, principalmente no que se refere à crítica social.
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POEMAS
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Acabou-se o que era doce
(microbiografia de vertebrados e invertebrados)
A rua do poeta é a rua
das Américas, 29.
Onde o gafanhoto se apaixona
pelas vastíssimas plantações,
e o passarinho se apaixona
pelo ninho da passarinha.
Onde a lavadeira
se apaixona pelo sabão,
e o beija-flor
se apaixona pela flor.
Se o vira-lata
se apaixona pela lata,
se o pirilampo
se apaixona pela lâmpada;
mas a primavera nem chegou.
Mas o caranguejo já se apaixonou
pelo espelho. E as formigas
se apaixonaram pelo formigueiro.
É na rua do poeta
onde as mulheres vêm sentir
arroubos de taquicardia.
É nos cabelos da vizinha
que o poeta constrói escada
e vai pelo carretel de linha.
De tão doce a paixão
quem se apaixonou
acabou-se no que era doce.
A flor do beija-flor se despetalou,
a lâmpada do pirilampo explodiu,
o espelho do caranguejo se quebrou,
o milharal do gafanhoto definhou,
o ninho do passarinho ficou feio,
o formigueiro fora atacado pelo tamanduá,
a lata do vira-lata se foi no caminhão,
e o sabão da lavadeira se acabou.
“Blefe” no mundo do baralho
As damas de copas
traem reis de espada com
valetes de paus.
A Quase-fábula de Gabriel Ricardo, o Pintor
O pintor com pincel
pra cima e pra baixo,
lambendo a parede
pra cima e pra baixo,
escondendo o reboco
pra cima e pra baixo,
pintando a casa
pra cima e pra baixo.
Pintando a rua
pra cima e pra baixo,
pintando a cidade
igual um ioiô.
Com dez mil baldes de
tinta pintando o amor,
pintando a estrada,
carregando a escada
pra cima e pra baixo,
Iaiá, vai o Seu Ioiô.
Dona Iaiá, se a escada falasse,
se os baldes de tinta falassem,
se o pincel falasse,
se a estrada falasse.
Mas a escada não fala,
não falam os baldes em vão.
Debalde e embalde se espera
Do pincel a fala. E a estrada
E o dia são i-n-f-i-n-d-á-v-e-i-s.
Findável é o salário do pintor.
Rio das lavadeiras
Pobre lavadeira:
bate as roupas na pedra,
sai som de ameba.
Um feio apê financiado pelo BNH
É tédio? É torpor? À meia-noite
escutam-se ruídos na casa ao lado.
Depois, silêncio tétrico, absurdo.
Um homem triste, na varanda, fuma
seu último cigarro. Sua mulher só,
desesperada, lamenta na cama nua.
Ele – um farrapo humano desiludido;
ela – uma tristeza fria desiludida.
Ambos com filhos pequenos e ainda
muitas dúvidas; talvez desempregados.
Sonham a história da família; sonham
com um passado agora apodrecido; só
lembranças em fotografias perdidas
em algum móvel da casa apertada.
Ela levanta-se à meia-noite infeliz,
tira a poeira dos móveis todos,
peça por peça, minuciosamente,
com o cuidado de uma mulher doente.
Ele desce as escadas, passa, sente
o desespero abraçando a sua moradia.
Tenta gritar. Sufoca o grito de novo
com a fumaça de outro cigarro. E vai
pelas ruas desertas de cachorros,
olhando palmeiras, sombras. Nada mais.
Uma família nuclear e pós-industrial
não sobrevive ao estresse, álcool,
tabaco, sem dinheiro e sem emprego.
Ele reclama do amor dos filhos;
ela reclama de seu amor por ela.
Ambos se perdem no apartamento
e se distanciam os seus pensamentos:
fogem através da janela acortinada.
Na parede, uns quadros sem valor;
no chão, tapetes manchados de ciúme.
Uma vida deveras marcada a ferro e fogo
pela marca indelével das máscaras do medo.
Essa família só de aparências vive;
com cartões de crédito para quitar
as prestações do carro vencidas
e um feio apê financiado pelo BNH.
Hoje? Comer-se-á muito menos
Ontem se comeu menos ainda.
Hoje? Comer-se-á muito menos.
Depois? Talvez o dólar fique menor.
Só a pá do coveiro gemia
Uma figueira,
movendo-se igual gente.
Figueira centenária,
cobrindo de sombras
toda a família.
Mataram Estellita,
última figueira da família,
com machado, serra elétrica.
Derrubaram-na aos poucos,
aos pouquinhos. Corte
por corte,
talho por talho.
Estellita sangrou e morreu.
Todos juravam amar Teté,
a quem chamavam Estellita:
velha figueira dos Barros Farias.
Mas, no enterro da figueira,
só a pá do coveiro gemia.
Do livro Uma teoria do paradoxo, Blumenau, 1999.